Jonas - Uma história estranha do ano 2001 sobre a história de Israel, a fé, um homem perdido e alguns mistérios

Jonas


Uma viagem misteriosa de bicicleta, do Rio de Janeiro até Belo Horizonte, a história do povo de Israel, o profeta Jonas e um assassino - o que eles têm em comum? Descubra nesse livro... 



Belo Horizonte
2002 




Na minha angústia clamei ao Senhor, e ele me respondeu; do ventre do abismo, gritei, e tu me ouviste a voz. (Jonas 2, 2)


Agradecimentos

Agradeço a todos os familiares e amigos, que andaram por um tempo os mesmos trilhos comigo e me ajudavam, aconselhavam e acompanharam com seu amor. Vocês, por vezes, se decepcionavam comigo, mesmo assim continuam ser bons amigos, amparo e consolo para mim. E antes de tudo agradeço ao nosso Deus por sua paciência e misericórdia.




JONAS – Um romance dos primeiros anos do século XXI

O avião da Air France acabou aterrissando, às 22 horas, no aeroporto internacional “Antônio Carlos Jobim” do Rio de Janeiro. A bonita aeromoça ficou na saída, sorrindo, e despediu os passageiros do voo, que esteve lotado. Detrás dela o capitão barbudo, sorrindo bem mais reservado. Depois das doze horas, de Paris ao Rio de Janeiro, todos estavam cansados e felizes por estarem no alvo da viagem, seja no ponto final ou por enquanto, completando a empreitada por um voo doméstico ou nas estradas do país.
Entre os últimos passageiros está um homem alto e delgado, de cabelos e bigode moreno. Ele leva a sua bolsa a tiracolo e está mostrando grande tranquilidade. Dentro da bolsa ele leva além do dicionário português-alemão um livro “Brasilianisch”, o português do Brasil, e também um dos jornais do bordo, recentemente lido. Ninguém pode imaginar que esse homem disfarça atrás do aspecto sereno um medo inquieto. 
Ele vem diretamente da paisagem branca do inverno do norte da Europa, e quando descer do avião, o calor abafadiço do fevereiro do Rio o recebe como um abraço forte e sensual. Todavia, seu desassossego aumenta. Enfim, ele avista as três escrivaninhas na sala de controle de passaportes. Graças a Deus, não tem computadores! A tensão diminui um tanto e a poucos ele passa o controle, a última barreira. Agora, ele é livre, esgueirou-se, no último instante, da morte iminente. Um homem fugido, aportado em um país alheio, onde ele não tem contato algum, e para onde ele chegou depois de uma série de coincidências, acasos, conjunturas. Coincidência, boa sorte ou providência, ele reflete.
“Táxi”, grita um homem com camisa branca, e o estrangeiro aceita. Cansado e fatigado pelos dois dias da viagem ele leva a bagagem e segue o taxista. Se bem que saiba que deveria perguntar pelo preço antes de entrar no táxi, não faz nada disso. Somente quando já estão na estrada para o Rio, ele imagina que o taxista poderia ser um ladrão. Pois seu táxi é um carro normal, sem placa nem taxímetro.
Em português estropiado do livro básico “Brasilianisch” ele explica que ainda não tem feito nenhuma reserva de hotel. Pergunta, se o taxista pode recomendar um hotel barato. Meia hora depois eles chegam à Ipanema, onde o motorista conhece um hotel por 200 Reais à noite, o que seria, segundo o taxista, barato.
Estamos à noite do domingo, dia 24 de fevereiro 2001, no auge do carnaval do Rio de Janeiro, e por isso o hotel está cheio. Recebem uma recomendação para outro hotel e saem do hall. No carro o motorista pergunta de repente: “Será que o senhor não prefere um apartamento? O senhor seria independente e também é mais barato. Apenas cem dólares por dia.” O taxista faz uma chamada de telefone e logo depois se dirigem para uma rua perto do hotel, onde vão buscar uma velhinha, que mora num prédio. O apartamento está a dez minutos daqui, na Copacabana, no décimo andar de um prédio grande. Ele é muito simples, quase pobre, porém, pelo menos limpo. O homem está tão cansado que aceita tudo. Seu relógio, pois, mostra as duas e meia da madrugada, horário ainda da Alemanha. Desta maneira assina por três dias. Mas... por que tem escrito seu nome verdadeiro?! Agora já está na ficha: A..., Hamburgo, Alemanha. Meio tonto paga e somente então repara que 100 dólares valem 200 reais. Não pouparia nada, desta maneira, em relação a um hotel. Pelo menos um hotel ofereceria um café de manhã opulento...
“Agora, no tempo de carnaval, tudo é caro”, explica o motorista, que cobra e regula tudo sozinho sem a velha senhora Elza interferir, como se ele fosse o dono do apartamento.
Logo que os dois deixam o apartamento o homem tira as roupas abafadoras da Europa, escancara a janela, mas não adianta nada, porque entra somente um bafo quente. Quase todos os outros apartamentos têm ar condicionado em forma de caixas simples, montadas debaixo de uma janela. Ele deita na cama, despido, e repassa os momentos da sua fuga. 

Foram as dez e meia da noite quando ele partira de trem de Hamburg, a grande metrópole no norte da Alemanha. As seis da manhã ele baldeou-se em Bruxelas, a capital da Bélgica, e tomou um trem para o aeroporto de Amsterdam, na Holanda. Mas ele não conseguiu entender o anúncio que saiu dos autofalantes no trem, em francês, holandês e inglês, e por isso não soube, que era necessário, nesse dia, mudar de trem mais uma vez. Quando veio a suspeitar que estava no trem errado, deitou a suar fortemente. O voo, pois, já sairia às dez horas!
Aí surgiu um casal que falava alemão. Holandeses que estavam muito gentis e lhe explicaram que existe uma pequena ligação entre a próxima estação e o aeroporto, fato desconhecido porque não constava dos horários e esquemas publicados no trem. Eles tinham quase certeza de que um trem partiria depois de vinte minutos. Por acaso ou coincidência eles tiveram que sair também nessa parada, certificavam-se a respeito de seu prognóstico e lhe mostraram o trem, que já estava na espera. Uma coincidência notável e estranha? Será que era mera boa sorte, buena-dicha, dita? Ou providência? Eram tantas as coincidências desse jeito, - misteriosas, enigmáticas, inexplicáveis...

Pela manhã o tempo estava ainda mais caloroso. Vendo pela janela os morros perto do prédio, a manhã parecia um dia lindíssimo de primavera, mas quando saiu para a rua o homem esbarrou de chofre no calorão pesado, que pairava pachorrento e fleumático sobre a cidade. Ele comprou pãezinhos, frutas e água e retornou para tomar o café da manhã no apartamento. Estava quente em qualquer lugar, e ele saiu abatido pelo calor, para resolver o seu encargo. O endereço de contato era: Ministério Programa Criança Feliz, Cx. Postal 370, Belo Horizonte/ MG. Ele já sabia que Belo Horizonte é uma cidade mais ao norte, mas lembrou também as informações dum livro, que ele tinha lido há anos, segundo as quais a organização cuidava de crianças das ruas no Rio.
Ele trouxera do aeroporto um prospecto com informações para os dias de carnaval. Achou nele números telefônicos gratuitos, que forneceriam informações a turistas em várias idiomas. Tentou o número para alemão, explicou seu problema e obteve, ao contrário do que se esperava, um endereço do Ministério Programa Criança Feliz no bairro Gutierrez do Rio de Janeiro. Comprou um pequeno mapa da cidade e retornou ao apartamento. O calor atordoou-o e, por isso, resolveu tomar um banho na famosa praia da Copacabana, que ficava a 500 metros. Vestiu a sunga, levou a toalha e foi à praia que é muito falada em todo o mundo, já pela mera existência da garotada galhofeira e vistosa, especialmente todas as mulatas curvilíneas e, em comparação com as européias, quase nuas em seus microbiquínis inconcebíveis. Mas pareceu que as belas da praia hoje não o atraíam nem excitavam. 
Ele estranhou. “Será que isso é a consequência do calor desacostumado?” deliberou e entregou-se às ondas do Atlântico, o que lhe trouxe, finalmente, o refrigério ansiado. Ele curtiu o mar bastante, e muito tempo depois ele se sentou perto da água para ver as crianças alegres brincando, chapinhando e cambalhotando na alvura da arrebentação, meninos animadíssimos, de todos os matizes, brancos, morenos e negros. Qual alívio! Como lhe fez bem! Pois no seu coração estava um grande bloco de gelo, um iceberg, de pedra gelada, mas agora ele começou a derreter, - pelo menos uma pequena parte dele. 
Logo depois dois rapazes iam ter com ele. Eram dois soldados de férias ou recentemente dispensados (- os detalhes ele não conseguiu entender, porque eles falaram rápido e seu português era fraco -), que moravam numa favela no norte do Rio. Eles precisavam de algumas tentativas até conseguir pronunciar o nome A. diretamente.
Duas horas depois o alemão sentiu já uma certa tensão na pele embranquecida pelo inverno do seu país, que urgia para partir da praia. Os dois rapazes logo se ofereceram para acompanhá-lo até esse lugar em Gutierrez. Teria sido pouco gentil, se ele tivesse rejeitado a ajuda. Claro que também gostava da ideia que lhe facilitaria a procura, mas, ao outro lado, teve medo que a oferta altruísta camuflasse alguma cilada, seja um crime ou outras implicações. Aliás, na Alemanha tem horários dos ônibus publicados em qualquer ponto e estação, às vezes até com mapa para as pessoas se orientarem e escolherem rota e ônibus certos. No Rio, porém, era impossível para A. saber, que ônibus teria que tomar. Por causa das inúmeras linhas os próprios moradores somente conhecem os poucos que eles frequentam. Por essas razões A. teria ido a pé, caminho de duas horas. Os dois brasileiros, no entanto, conheciam o caminho, porque Gutierrez fica entre a Copacabana e o bairro deles. De tal maneira eles, depois de três horas em vários ônibus, estavam lá, onde teria que ficar este Ministério Programa Criança Feliz. Na rua Martim Francis fica no lugar do número 455/101 somente um muro muito longo, e nada mais. Mas um dos dois rapazes achou de repente uma pequena porta e uma campainha. Eles tocavam algumas vezes, e ultimamente apareceu um guarda. Atrás dele eles vislumbravam um grande jardim pouco cuidado, seja por desleixo ou por criar um ambiente natural, e aos fundos uma casa. Subitamente surgiram duas mocinhas curiosas, que gostaram de falar com os visitantes, mas o guarda as mandou de volta. Ele confirmou que a casa era destinada a crianças carentes, mas não era mais ligado a tal ministério. Ele lhes deu um endereço, o que era bem conhecido aos dois cariocas. Eles conheciam as linhas de ônibus, porque o novo endereço estava perto do famoso sambódromo.
Quando chegaram àquele lugar logo, pelas janelas do ônibus, viram os grandes caminhões das escolas de samba, ricamente enfeitados para o desfile à noite, com qual eles representariam a respectiva escola, flanqueados por centenas de sambistas e a mulherada belíssima, seja com fantasias gigantescas, seja praticamente pelada, ou seja em combinação sofisticada desses dois antagonismos.
Ao lado da fila de caminhões, uma grande cerca bloqueava o acesso, vigiado por policiais e adjuvantes. O ministério, porém, ficava dentro dessa área. Mas os dois cariocas convenceram eloquentemente os policiais, destacando a suposta importância desse estrangeiro. Um policial respondeu que o ministério seria fechado, mesmo assim os rapazes instavam e o policial deu de si. Os três homens atravessaram o sambódromo e os dois cariocas apresentaram, enfim, o prédio do Ministério da Educação do estado Rio de Janeiro. Nesse momento o alemão já suspeitou de que se tratava de um equívoco, mas pelo menos acharam ainda algumas poucas pessoas presentes no ministério. A. explicou seu requerimento dizendo que estava à busca do Ministério Programa Criança Feliz, projeto dedicado à ajuda de crianças das ruas. O pessoal, no entanto, não conheceu um tal ministério ou projeto e recomendaram, que A. perguntasse em Belo Horizonte, contatando o endereço que ele trouxe. “Talvez um ministério do Estado Minas Gerais”, pensou A., porque na Alemanha um “ministério” é sempre federal ou estatal. Sem poder fazer mais nada os três voltaram.

Os dois rapazes aproveitaram então a oportunidade para mostrar ao seu visitante uma “certa instituição, não longe daqui”, um lugar frequentado pelos próprios cariocas e não por turistas, que “seria bem agradável e interessante para ver.” Num aprazível e airoso prédio na maneira de um centro de compras, com árvores e arbustos no pátio, ficavam mais ou menos trinta ou quarenta barzinhos ou cafés. Em todas essas tendinhas abertas sentavam as bonitonas, na expectativa de clientes. A. tinha vivido, na Alemanha, sozinho por muito tempo, e desenvolvera uma gana ansiosa por mulheres, que nunca podia matar por certas circunstâncias que agora não quis relembrar. Por isso soube muito bem que o aspecto de moças apetecíveis galvanizaria seus sentimentos, despertaria seu corpo frouxo e afugentaria o cansaço e a fadiga que lhe atordoavam corpo e mente; o efeito da viagem e da mudança extrema do clima, piorado ainda pela recente queimadura, que lhe retesava a pele, e pela desilusão referente a visita frustrada ao ministério. Passearam, então, pelo prédio olhando as meninas. Mas quanto era a decepção quando A. percebeu, que esse sentimento tão agradável, levemente excitante e vivificante desta vez deixou de enchê-lo com tensão amena. Também os dois soldados jovens estavam meio desapontados quando repararam a falta de interesse por lado de seu visitante, que evidentemente nem tinha sequer um pouco de interesse por rapariga alguma. “Será que nenhuma mulher aqui corresponde com meu gosto?” estranharam. Aí avistou de soslaio uma coisa que deveria fazer palpitar-lhe o coração bem mais rápido. Hesitou.
“Você gosta dessa menina?” perguntaram os acompanhantes. Retornaram alguns passos para verificar a menina. Era encantadora, alucinante, vestida de biquíni tão fino que deu para verificar todos os detalhes tão deliciosos de menina. Ao perceber o interesse do “gringo” a garota levantou-se e desceu três degraus do patamar, onde ficava o café, parando no ínfimo degrau, encarando seu possível freguês. 
“Só vinte reais”, explicaram os dois rapazes. Na Copacabana se paga cinco vezes mais. A moça enlaçou a nuca do homem e, quando sentiu a hesitação dele, roçou seu colo desprotegido contra o corpo do homem. Ele sentiu o corpo sensual, porém, era como segurar uma boneca, abraçar um figurino ou até uma coluna. Ele era um defunto, nada de aprazível começou de brotar no seu interior. Era o voo? A drástica mudança do clima? A queimadura? Aí, de súbito, ouviu a voz de ontem, queimada na lembrança: “Três meses você não vai olhar para nenhuma mulher e estar quanto a elas como um morto, e no quarto mês eu te mostrarei a tua esposa que eu mesmo escolhi.”
“Talvez à noite”, murmurou, desconcertado, e soltou-se da jovem que, em vão, reclamou que à noite não estaria mais aí.

Os dois brasileiros não esconderam agora sua decepção e alegaram que precisariam agora de um táxi, porque os ônibus ao seu bairro demorariam demais. A. deu-lhes todos os 36 reais que trouxe consigo, ficando só com um real para a volta à Copacabana. Lá ele saiu do ônibus, buscou um lugar certo para orientar-se através do mapa e achou felizmente logo depois sua habitação.
Tomou um banho frio (- frio só em relação ao ar quente, porque água fria na Alemanha é muito mais fria -) certificando-se de que a queimadura era bastante forte, e deixou a casa de novo para comprar alguma coisa para comer. O movimento nas ruas estava normal, nada a ver com atmosfera carnavalesca. De volta no seu apartamento abafadiço e quente, a sua disposição estava desolada. Era o carnaval, mas ele sentou triste e sozinho num apartamento desagradável e seu plano fracassara, pelo menos por enquanto. E, além disso, estava desnorteado por causa da experiência estranha com a rapariga. Geralmente esse apartamento particular teve pelo menos a vantagem quanto à possibilidade de trazer uma mulher, mas o que assustou e inquietou era exatamente a completa falta de volúpia, da libido. Ele ligou a tevê para melhorar seu mau humor pelo menos com as imagens do carnaval. Ele odiava essa maneira, não correspondia com seu nível como músico erudito e diplomado, mas já havia dois anos que fora obrigado a viver numa baixeza terrível, aviltado, sem dignidade nem moral. 
Aconteceu a mesma coisa: O aspecto das beldades dançando nas ruas, outrora tão consolador, não despertava o menor interesse ou sentimento. Frustrado e ainda mais depressivo do que antes ele desligou o aparelho e deitou-se na cama. E lembrou-se outra vez da voz no avião.
Mais ou menos na metade da viagem fora que estivera afadigado por ter lido muito tempo. Começara a pensar e surgiam na cabeça lembranças duma outra viagem para o Rio, em 1994. Na volta para a Alemanha sentara perto dele uma mulata muito sensual e somente vestido de camiseta e minissaia. O avião não estava lotado, e assim ela pudera deitar-se à noite, esticando as pernas gostosas. Acontecera também que ela subira à poltrona para tirar coisas da bagagem, e essa imagem empolgante e lasciva ficava na memória, marcada como com ferrete incandescente. Infelizmente desta vez não acontecia nada semelhante. Cogitando e devaneando ele deparava com a lembrança vaga de que haveria de achar a sua esposa no exterior. “Talvez exista um Deus que de fato cuida de todos os detalhes e me instilou essa imagem da esposa desde a infância.” Essa companheira lindíssima era grácil, bonita e bronzeada, mas não como uma mulata típica, e sim com um certo laivo de um marrom suave na cor de pele; e ela era cativante e atraente, porém, de maneira tranquila e retraída. Enfim, diferente das brasileiras que conhecia, as quais são muito alegres e galhofeiras, dificilmente conciliáveis com o retraimento alemão, especialmente dos alemães que moram entre os mares frios do Norte, como a sua tribo ou estado que se chama Meclemburgo e beira o mar báltico. Por isso ele sempre partiu da ideia de que uma tal menina – se existisse – poderia viver mais bem no sul da Ásia, por exemplo, no Sri Lanka. Certas circunstâncias o levaram para o Brasil, mas A. calculou que, mesmo se essa imagem da infância fosse uma promessa divina ou outra coisa sobrenatural e não uma mera fantasia imaginosa oriunda de desejos e ansiedade, não acharia tal esposa aqui.
Há dois e meio anos ele ouvira novamente essa voz estranha que soava no seu interior. Era neste tempo muito desesperado e faminto por amor, e sentia uma forte ânsia por uma mulher. Ouvia essa voz como resposta a uma oração: “Na Alemanha você não vai mais amar menina nenhuma. Tens que achar sua esposa que eu lhe escolhi. Ela mora num outro país e está te esperando há muito tempo”.
Nesta hora ficou muito entusiasmado, mas as dúvidas apertavam-se de novo. Não acha que um prenúncio desta maneira é muito estranho? Como alguém podia dizer que ele não poderia mais namorar nenhuma menina na Alemanha? Por acaso não poderia facilmente pegar alguma moça carente? Existiam tantas moças pobres da Rússia, Ucrânia, Estônia e outros países, que trabalhavam na clandestinidade como empregadas ou prostitutas, e geralmente sonhavam dum marido alemão. Poderia unir-se com alguma dessas coitadinhas só para mostrar a falsidade desse prenúncio. Sendo músico e com algum dinheiro não poderia ser difícil achar alguma para namorar. Mas quando, enfim, tentou exatamente isso sofreu somente fracassos, o que o deixou muito confuso. Existiam três possibilidades, pensara. “Ou eu tenho, de repente, algo muito repelente, um cheiro, feiura, um hábito, ou sei lá, ou se trata simplesmente de azar em série, ou é que existe nesta coisa realmente uma providência, uma força sobrenatural ou até divina, que impede meus passos.”

No avião refletia também na possibilidade se a sua esposa poderia ser uma brasileira. Porventura, essa imagem da sua meninice que o fez pensar no Sri Lanka era fantasia exuberante, enfeitando uma possivelmente autêntica predição com demais detalhes. Mas como achar a moça que lhe talvez fosse determinada num país tão vasto e repleto de bonitonas. Certamente já na primeira noite poderia ficar com uma mulher, imaginara recostado na sua poltrona de avião, mas aquela, sem dúvida alguma, não fosse a certa moça que estava à espera dele. Sonhando e devaneando desse jeito ouviu, de súbito, essa voz: “Por três meses você não vai olhar mulher nenhuma e estar quanto às mulheres como morto, e no quarto mês eu te mostrarei a tua esposa que eu mesmo escolhi.”

“Tá bom”, pensou deitado na cama do apartamento, então vou esperar, “vou conter-me para ver se Deus realmente me mostrará a moça prometida.” Ele duvidava muito, ainda mais porque as circunstâncias nos anos passados o tinham levado forçosamente a uma vida ímpia, nojenta, até criminosa. Por que Deus lhe teria que fazer bem?
Será que Deus quer um sacrifício dele? Quiçá a sua mulher seja feia ou doente ou aleijada, carecendo de amor. Nesse momento a consciência da superioridade da sabedoria de Deus a superou e ele sentiu a presença de Deus e ajoelhou-se para orar: “Ó Pai, se te ainda lembres de mim apesar de tudo que aconteceu no passado, e me tenhas escolhido uma mulher,... eu prometo que eu a aceitarei das tuas mãos e a amarei de todo o coração, mesmo sendo ela feia ou acarretando qualquer outro problema consigo.”
Sentiu que lhe restou somente uma coisa: Tentar saber mais sobre o poder desconhecido que parecia vigiar sobre a sua vida, a não ser que tudo era mera ficção ou desejo desesperado. Por conseguinte, abriu a sua Bíblia que felizmente pudera levar consigo. Achou que já conhecia perfeitamente os quatro evangelhos com os retratos da vida de Jesus, e começou com a parte após os evangelhos, os Atos dos apóstolos, que espalhavam a mensagem depois da morte de Jesus. Leu como os primeiros seguidores foram fortalecidos por milagres inexplicáveis ou coincidências, como quando o pior inimigo Paulo, outrora Saulo, tinha uma aparição espantosa e tornou se seguidor da nova fé. Leu como esse seviciador, que antes era responsável pelo linchamento de discípulos de Jesus, começou a fazer viagens pela região onde hoje fica a Turquia, para ganhar os corações das pessoas para Jesus e para uma vida de amor, digna, pura, sincera e em ligação permanente com Deus. No capítulo 16 dos Atos leu: “Eles viajaram pela região de Frigia-Galácia. Mas o Espírito Santo não os deixou anunciar a mensagem na região de Ásia. Quando chegaram perto da região de Mísia, tentaram ir para Bitínia, mas o Espírito Santo não os deixou.”
O Espírito Santo não os deixou? Deus não os deixou? Mas como é possível? Como o Espírito Santo faz para impedir as pessoas ir a tal cidade Bitínia?  Tiveram visões? Mas “não deixar“ significa mais, sugere uma força constrangedora, no mínimo uma exortação verbal. É, talvez Paulo passasse as mesmas experiências como A., quando ele quis namorar na Alemanha se bem que Deus lhe anunciara o contrário. Certas portas se fecharam e por fim não lhe restava nada além de um único caminho, a vereda certa e lhe predestinada por Deus. Mas... não é que tudo poderia ser coincidência? E a outra pergunta seria: Por que Deus está influenciando e dirigindo a vida de certas pessoas com tanta diligência enquanto outras pessoas vivem à toa ou até se divertem à custa de outros, praticando o mal, sem que Deus impeça. “Por que ele está tomando conta de uma pessoa tão indigna como eu”, pensou. Enfim, a única forma para chegar a saber, se a origem das predições decorria de Deus ou se ela era mera imaginação, era seguir ao chamamento. 
A. tinha consigo 4000 dólares, o último resto de seu cabedal, que ele pudera salvar. Se ele poupasse bem e não gastasse muito, poderia viajar por alguns meses pelo Brasil, ficar na expectativa de ouvir a voz de Deus, para talvez captar diretivas a respeito de seu futuro caminho.
Tinha obtido o endereço do Ministério Programa Criança Feliz, que trabalha por crianças das ruas. Será que já era uma mensagem de Deus, ou só acaso, coincidência? Precisava saber disso, precisava meditar sobre esse quesito e buscar uma resposta de Deus. Caso que existisse uma resposta... 
Decidiu então fazer a viagem para Belo Horizonte, mais de 400 km ao norte, porém, não diretamente, mas bem devagar, de bicicleta, com muita tranquilidade e tempo. Tempo para buscar a Deus, se ele deixasse-se achar. Depois teria ou o certo endereço no Rio para voltar para lá e ajuntar-se, ou ele obteria outra missão, assim como outrora o apóstolo Paulo.

De manhã acordou bem cedinho, pois a queimadura era dolorosa. Passeou um pouco pelas ruas, e às 9 horas foi buscar um banco para abrir uma conta; afinal de contas não gostava de ir carregado de tantas cédulas. Achou, todavia, todos os bancos fechados por causa do carnaval. Seria necessário esperar até a quarta-feira.
Suportar as dores, o calor e a falta de sono estava mais fácil quando caminhar. Por conseguinte, levou a Bíblia, o livro didático de português e um romance e passou pelas avenidas, ruas e ruelas da Copacabana. Infelizmente o aspecto de tantas mulheres bonitas não o animou, como já era antes. Qual diferença em relação à viagem do ano 1994! “Tá bom”, deliberou, “deve ser porque eu estou muito cansado e sinto bastantes dores.”
Passou por algumas igrejas. Lembrou-se agora de que o Ministério Criança Feliz cooperava com uma igreja evangélica. Será que alguma dessas igrejas talvez tenha informações sobre o projeto? Mas eram tantas igrejas! Chegou a uma praça com árvores, mesas xadrezadas com bancos, e parque infantil. Em frente ao parque fica uma igreja evangélica, uma casa grande cujo portão estava totalmente aberto, por causa de obras. Um convite? Se tivesse um endereço no Rio para deixar a bagagem, tudo seria mais fácil. Mas se ele fosse no caminho de Deus, ele lhe mandaria um sinal. Se escolhesse uma igreja ao acaso, poderia vir impedir que Deus o encaminhasse ao lugar certo; ele obteria contatos casuais e faria desvios que não o aproximassem de seu alvo. Mas como era possível entender os sinais de Deus? Porventura a porta aberta da igreja já seria o convite de Deus? 
Seus pensamentos regressaram vinte e dois anos a sua primeira experiência evidentemente sobrenatural: Ele fez dezesseis anos e estava em sua cidade, uma vila belíssima de doze mil habitantes, uma das raras pessoas que sabia tocar o grande órgão tradicional das igrejas, constituído de milhares de tubos de estanho, chumbo e madeira, que formam um coral como centenas de flautas diversificadas. Na Europa, especialmente na Alemanha, quase todo templo, quer evangélico ou católico, possui pelo menos um desses “reis dos instrumentos.” Só na igreja ortodoxa, que predomina na Grécia, Sérvia, Bulgária e Rússia, se canta sempre a capella, quer dizer sem instrumentos musicais.
A maneira de tocar órgão é bastante diferente do modo de tocar piano ou teclado, sobretudo porque também os pés tocam em cima de quase 30 teclas grandes embaixo do banco. O organista profissional da igreja de A. era um músico procurado que viajou bastante e, nesse tempo, o seu aluno A. o substituía várias vezes, tocando o órgão durante o culto e também nos casamentos, funerais ou batizados. Seria um desastre inconcebível para as respectivas famílias na Alemanha, um país, na época, ainda perfeitamente organizado, se nos batizados, casamentos ou funerais faltasse a música do órgão, ainda mais porque geralmente não tem pianos nem bandas nas igrejas. 
Certo dia, a mãe pediu a A. que fosse, depois da escola, a uma aldeia perto da cidade, onde se vendem morangos em barracas ao lado dos campos. A., que costumava ir à escola de bicicleta, fez esse pequeno desvio e achou um campo onde os fregueses tinham a oportunidade de fazer a colheita pessoalmente. Assim eles não só poupavam dinheiro, mas sobretudo podiam controlar a qualidade. Para fazer geleia a mãe precisava de dois cestos de morangos. Depois de apanhados os morangos ele fixou os cestos no bagageiro da bicicleta para retornar em casa. Quando chegar à vila passa-se por um cemitério. Os sinos da torre da capela do cemitério tocavam sinalizando um funeral, um culto evangélico que na Alemanha celebra-se antes do enterro. A. sentia algo estranho, como se o toque dos sinos o chamasse. “Vá, pergunte se precisam de um organista!”
Isso era inexplicável. Existia uma organista profissional responsável pela capela, que no caso de impedimento, pediria a um dos colegas profissionais ou a um aluno como A., para substituí-la. Existiam pelo menos quatro ou cinco alternativas, além dos organistas de outras cidades. Mas uma constrição, uma pressão misteriosa, não o deixava passar e ele teve que parar ao lado do muro. “Apronte-se, vá logo para lá e oferece seu serviço”, a voz ordenou. Ele soube, no entanto, que a probabilidade de que realmente faltasse um organista era praticamente zero. E nesse caso ele, de bicicleta, sem roupa adequada, com mãos sujas e roxas pelo suco das frutas, e com cestos de morangos, seja um bom objeto de zombaria, um contraste esquisito com a seriedade fúnebre. Na Alemanha da época, todo mundo usava ternos pretos, seria até uma ofensa surgir lá, sem explicação lógica. O dobre funerário não parou e A. ficava enraizado nesse lugar por dez minutos, lutando com esse sentimento estranhíssimo. Só quando, por fim, acabou o toque, pôde soltar-se e continuar seu caminho. 
Quinze minutos depois chegou em casa e a mãe disse que a organista dessa capela ligara urgentemente. Ela caíra subitamente muito doente e ninguém dos colegas tinha tempo para substituí-la. O pastor quis ir buscar A. na escola, mas nessa hora já estava no campo de morangos e a mãe não soube, em qual desses campos vastos, de muitos fazendeiros, ele estava, e assim o funeral passou sem organista. Esse acontecimento era a primeira experiência dessa maneira, e por isso lembrou-se agora e esperou um sinal desse jeito; e agora, já conhecendo o sentimento, aproveitá-lo-ia melhor.

A noite estava ainda mais caloroso e frouxo, nem conseguiu ler a Bíblia. Bom que trouxe ainda um romance, um calhamaço de umas seiscentos páginas, mas com tanto suspense que o tempo correu sem perceber. Às dez horas saiu para mais um passeio, mas o ar era ainda calmoso e fatigante.
De manhã foi logo ao banco. Era necessário resolver essa coisa, embora se sentisse ainda muito mal. Gostou do ar condicionado no banco. Precisava enfrentar uma fila de cinquenta pessoas e obteve somente a informação que um estrangeiro só pode abrir uma conta na matriz do banco, que ficaria alguns quilômetros ao norte. Não conhecendo as linhas de ônibus seria o melhor passar por aí quando partir para Belo Horizonte. Saiu do banco e passou de novo lentamente todas as igrejas da Copacabana na expectativa de algum aviso, algum presságio. 
A loja de bicicletas era situada logo ao lado oposto da avenida, que passava o edifício, onde ele morava. Estava ainda fechada, mas o vizinho supôs que abriria amanhã, quinta-feira, às nove horas. 
Quando A., logo depois, sentava na mesa do apartamento e comia frutas e pão, alguém bateu na porta. Será que era a polícia? Tinham fiscalizado o voo? Tinham recebido da Senhora Elza a ficha com seus dados? Mas era somente a própria Senhora Elza. Ela não sabia o que o taxista tinha combinado com A. a respeito do dia de partir. Seria quarta-feira, então agora, ou quinta? Ela consentiu quando A. disse que quis ficar até quinta e nem exigiu mais dinheiro.
O calorão no apartamento era tão insuportável que saiu, de novo, à tarde. Por causa da queimadura não podia ir mais à praia. Foi, então, à direção oposta, passou um túnel e achou um banco de concreto na sombra de um centro de compras, que estava fechado. Lá ele procurou alívio distraindo-se com seu romance grosso.
Ele era mesmo muito deprimido. Amanhã partiria sem ter achado um lugar para deixar a bagagem. Teria que levar tudo consigo: As duas bolsas grandes, a bolsa a tiracolo e também as roupas avolumadas da viagem como casaco acolchoado, suéter e calças. Por que Deus não mandava um sinal? Cogitou de novo a opção de que tudo era um grande erro. “Era um acaso simples que me trouxe o livro sobre o Ministério Programa Criança Feliz, e algo me tocou.” Cismou mais uma vez no acontecimento no cemitério. Era também só coincidência? 
Um psicólogo não-crente, que não crê em que Deus atua e influencia fatos e acontecimentos no mundo, explicaria talvez, que muitos jovens sofrem confusão de sentimentos e têm certos dias com maior suscetibilidade para isso. Assim o toque do sino lhe teria parecido como um chamado divino. Mas A. calculou os detalhes: Num país bem organizado, como a Alemanha, a possibilidade de que um músico falte num certo enterro é muito pequena, expresso matematicamente em volta de 1:500. Visto que ele talvez só tivesse passado umas duas ou três vezes um cemitério ao tocarem os sinos, a chance de viver tal experiência por mero acaso, praticamente não existia. Já quando se considera a vida de todos os milhares de organistas na Alemanha, o cálculo é diferente. Se 500 organistas sentissem uma vez na vida o mesmo sentimento estranho, à beira de um cemitério, um deles, pelas leis da matemática, o sentiria com razão, porque por acaso faltaria neste lugar o organista. Se ele fosse, na verdade, para a capela, surgiria aí como um anjo, mandado pela providência divina, enquanto os outros 499 organistas constatariam, se fossem perguntar na capela, que seria um erro. Eles esqueceriam o fato estranho, mas o único, que deparou com a coincidência da falta de organista, se exaltaria julgando que teria sido providência divina.
As mesmas considerações podem se fazer sobre jogos de sorte como a loteria. Cada semana tem pessoas que ganham. Alguns acreditam, que nada acontece sem participação ativa de Deus, e que Ele então influencie a sorte decidindo o vencedor. Outros acham, que Deus não interfere em tais jogos ou só interfere em casos isolados, e alguns acham, que Deus nem existe ou fica passivo como se fosse morto. Vamos partir da ideia que a loteria funciona por acaso, sem que Deus se intrometer. Certamente tem entre os vencedores muitas vezes pessoas carentes, talvez até crentes que oravam antes. Se um deles ganhasse, lhe pareceria a fortuna inopinada certamente como um milagre portentoso.
Mas na verdade, por maior que seja a alegria e gratidão do sortudo, não podemos provar disso a interferência de Deus. Só seria um verdadeiro prodígio, se o acontecimento fosse antes anunciado. Se alguém tivesse uma visão ou um sonho, mandando-lhe comprar um bilhete e escolher uma certa combinação de números, e se ganhasse dessa maneira, poderia ter certeza de que a sua fortuna foi um presente de Deus. Isso seria uma prova quase certa, mas enquanto A. não tivesse essa certeza, não saberia se estava no Brasil pela vontade sublime de Deus ou por mero acaso e coincidência, misturada talvez com desejos particulares, veleidades e caprichos. Mas para achar a verdade tinha que fazer a prova, tinha que tentar o caminho que se lhe afigurava ser preparado por Deus. “Vou ver, o que acontecer. Se Deus não me guiar, buscarei meu lugar certo em vão, até o dinheiro acabar. Depois eu terei que fazer qualquer coisa ou resignar-me, perfazendo o que já quis cometer antes, na Alemanha: suicídio.”
Se gastasse quinze ou vinte dólares por dia, teria mais ou menos um prazo de seis meses para resolver a enigma, viajando pelo Brasil e talvez também por outros países. 
À noite ele saiu para ir comer num restaurante. Tinha lido a propaganda dele, mas mesmo assim o encontrou fechado. Por isso ele meteu-se em uma antiga igreja católica nessa ruela, onde se celebrava a missa de Quarta-feira de Cinzas. Havia folhas com textos da liturgia e das canções, e assim ele podia cantar a Deus. Sentia-se, porém, repulso, como um criminoso que tenta ficar incógnito entre outras pessoas que não sabem quem estava lá entre eles. Aventurou-se até em receber o pão, mas um sentimento de medo indeterminado o aferrou. O padre lhe anunciou o perdão dos pecados, como lhe já fora dito várias vezes pelos pastores na Alemanha. Mas como seria possível? Como era possível perdoar-lhe depois de tudo o que acontecera?
Pela manhã A. era muito feliz quando verificou que a loja de bicicletas abriu as portas, de fato, às nove horas.
Achou-se lá uma só bicicleta com bagageiro e para-lamas, requisitos imprescindíveis para uma viagem. Infelizmente este modelo não possuía marchas. A. pediu um selim e um guidão mais altos correspondendo à sua estatura. A vendedora prometeu que tudo seria pronto às onze horas. Ele comprou ainda uma bomba e as miudezas para consertar o pneu etc. Mas não havia alforjes para bicicletas. Na Europa é comum as pessoas usarem um conjunto de duas bolsas que ficam aos lados do bagageiro, como o alforje ou a bruaca no cavalo, o saco duplo nas costas da alimária. A moça lhe recomendou que procurasse neste centro de compras no outro lado do túnel.
Lá ele achou várias lojas de bolsas, mas nada para bicicletas. Obteve mais um endereço de uma loja a dois quilômetros ao norte. Retornou, por enquanto para comprar a bicicleta, que se destacou por ter para-lamas, bagageiro, e, sobretudo, brilhante cor vermelha. 
A. deixou o romance grosso no apartamento, jogou o gorro e as luvas no lixo e abarrotou toda a bagagem restante nas duas bolsas grandes, embrulhando as roupas, os livros, as duas caixinhas com os dois mil papeizinhos de vocábulos portugês-alemão, o aparelho elétrico de fazer barba, etc., em sacolas de plástico. Amarrou as duas bolsas pesadas, a custo, com uma corda, no bagageiro, o que conferiu ao veículo um aspecto ousado e pouco confiável, com essa sobrecarga atrás. 
Deixou a chave com o porteiro, montou a bicicleta, no início ainda oscilante com tanto peso, passou o túnel, o centro de compras, procurou sem êxito a outra loja de bolsas recomendada, e achou ultimamente uma avenida que ia ao norte. Depois de quinze minutos estava perto da costa marítima, e de repente toda a miséria o abandonou. Estava livre, podia respirar! Agora ninguém podia achá-lo. Nesse momento ele reparou a beleza do parque entre a avenida e a praia, verde, arvores, colinazinhas com plantas, parques infantis, risos alegres de crianças, caminhos suavemente curvados, céu azul. “Meu Deus”, pensou. “Estou livre! Pela primeira vez desde cinco e meio anos. Naquele tempo, há cinco e meio anos,  eu estivera viajando igualmente, de bicicleta, pelo estado de Schleswig-Holstein, no norte de Alemanha, para organizar concertos e shows para um conjunto musical da Rússia. Passara lugares turísticos e vilas sonhadores no campo. Às vezes pernoitara sem mais embaixo do dossel cintilante do céu, se bem que tivesse consigo um terno social e uns milhares euros. Mas gostava dessa independência e liberdade, gozo puro, que a natureza oferece de graça. Depois desse tempo vieram cinco e meio anos cheios de terror e medo, sem nenhuma esperança, nenhum raio de luz. Mas agora não quis lembrar-se mais dessa desgraça e, sim, desfrutar a beleza do momento.
Desse jeito o calorão estava bem mais tolerável; as dores da cabeça desapareceram, a queimadura já doía menos há algum tempo, e um júbilo tranquilo lhe enchia o coração. Mesmo se fossem só esses seis meses da viagem, que lhe restavam, mesmo se não achasse nada no sentido dessas profecias, - pelo menos teria vivido verdadeiramente antes de morrer. Através do pequeno mapa e das placas no parque podia calcular, quando lhe era necessário deixar o parque e voltar se à esquerda para meter-se ao centro, onde estava o banco. Confrontando os nomes das ruas com o mapa conseguiu orientar-se, mas a rua do banco era, infelizmente, de mão única. Em busca de uma alternativa tentou a paralela, uma zona para pedestres tão coalhada de gente, que o avanço junto com uma bicicleta carregada era quase impossível, mesmo que apeado. Por fim passou esse formigueiro fervilhando, e alcançou o banco. Procurou, em vão, uma possibilidade para deixar uma bicicleta, como as lojas na Europa oferecem, e encostou-a, então, na frente vítrea do banco. Pelo menos poderia ver a bicicleta de dentro.  Poderia,... se ficasse no primeiro andar. Porém, teve que subir ao segundo e esperar até ser chamado. Esclareceram que era impossível abrir uma conta, porque não possuía visto permanente ou CPF. Saiu do banco com todo o dinheiro ainda na mão.
Viu se obrigado, levar todo o dinheiro consigo. Poderia escondê-lo bem na bagagem, mas seria muito bem possível, que um ladrão roubaria a bagagem inteira ou até a bicicleta com as bolsas, e em tais casos A. morreria de fome.
Por isso pensou em alternativas. Poderia cavar um buraco em frente de uma pedra ou árvore ou achar um pequeno vão em uma árvore para esconder o dinheiro. Assim o teria de volta quando voltar para Rio para começar seu trabalho. Ainda bem, que achou a bicicleta ainda em frente do banco, e assim ele continuou a viagem rumo ao norte.
Após dois ou três quilômetros chegou ao fim do pequeno mapa da cidade e teve que orientar-se pelo mapa do estado Rio de Janeiro, que contém somente as estradas principais. A BR 040 leva ao norte, mas tem várias faixas como uma autoestrada alemã. Autoestradas, porém, são interditas para bicicletas e outros veículos lentos.
Viu no mapa que o BR 040 se dividiria em duas rotas. Uma levaria diretamente ao norte a Belo Horizonte, enquanto a outra passava à direita por uma das maiores pontes do mundo a Niterói, atravessando a  
baía de Guanabara, certamente um espetáculo! Iria decidir-se espontaneamente quando chegar ao trevo. As duas rotas o levariam à serra e os parques nacionais com a cidade Petrópolis, antiga residência de verão dos. Gostaria de conhecer esses lugares turísticos, dos quais já lera, mas sabia, que deveria ser atento porque a voz de Deus poder-lhe-ia sugerir outra rota para guia-lo a um lugar que definiria seu futuro.
Pouco depois se encontrava em uma rua de várias faixas, que possivelmente era já a BR 040. Pelo menos teve uma calçada larga e com poucas pessoas, que ele podia usar, porque não teve coragem de pedalar nessa estrada movimentadíssima. Os caminhões e ônibus passavam em alta velocidade e com muito ruído, ultrapassando uns aos outros, deixando margem nenhuma a um ciclista. Também não viu outros ciclistas.
Aí chegou a uma ponte de ônibus em frente a uma fábrica com centenas de pessoas esperando na calçada. Logo depois a estrada se dividiu, na direita uma rampa levou à ponte Rio-Niterói e na frente a estrada levou para baixo e desapareceu ruidosamente em um túnel sem calçada. 
Não sabia, se a estrada está permitida para bicicletas, de qualquer jeito seria muito perigoso. espera. Restava-lhe a rampa para a ponte. Mas também aqui não teve calçada e o acostamento era muito estreito. Não deu como saber se a estrada na ponte seria viável para uma bicicleta.
Criou coragem e começou a pedalar no acostamento de uns 40 cm subindo a rampa, mas os caminhões buzinavam e nem tentaram um pouco passar mais para a esquerda para deixar um espaço para a bicicleta. Desanimou logo e voltou cuidadosamente de ré, porque não teve espaço para virar a bicicleta. Será que a ponte era proibida para bicicletas?
Bom, qual seria a alternativa? No mapa do estado teve uma paralela da BR 040 uns milímetros à esquerda, então no oeste. Daria como achá-la? Antes de tudo teria que ultrapassar a BR em frente do ponto de ônibus. Duas faixas cheias de trânsito, depois uma faixa de meio com barreira de segurança, uma divisória de aço de meio metro altura. Depois ainda três faixas da outra mão. Será que poderia levar a bicicleta pesada com as bolsas em cima da divisória? Tentou passar as duas primeiras pistas, mas a densidade do trânsito não o deixou.
Refletiu novamente. Talvez os caminhoneiros na rampa à ponte só buzinassem para alertá-lo? Não necessariamente poderia concluir das buzinas que a estrada era interditada para ciclistas. Também não viu placa proibindo bicicletas.
Tentou mais uma vez subir a rampa, mas os ônibus e caminhões buzinavam mais e não deram espaço. Desistiu e esperava uns 15 minutos até conseguir ultrapassar as cinco faixas e a divisória da estrada. No outro lado encontrou-se uma praça com feira e uma estação rodoviária e uma rua, que levou ao oeste, que não achou no mapa. A partir desse momento teria que se orientar pela direção do sol.

Finalmente chegou a um cruzamento com cinco ruas ou estradas, mas nenhuma teve placas que condiziam com as informações que A. obteve do mapa do estado. Escolheu então aquela que achava mais conveniente pela direção que concluiu através da direção do sol. Segundo o mapa chegaria após 20 ou 30 km a um rio na periferia de Rio, que iria do oeste ao leste. Se conseguir chegar até ele, poder-se-ia orientar novamente. Por isso deveria tentar ir sempre ao norte.
A rua estava estreita, certamente não fosse aquela do mapa, a paralela do BR 040. Mas pelo menos ia ao norte. Depois de alguns quilômetros a região tornou-se mais pobre. Ele não sabia a diferença entre um simples bairro pobre e uma favela. Na Alemanha uma casa sem reboco nem tinta indica sempre indigência extrema. O aspecto exterior das moradas está gozando um cuidado muito maior, no norte da Europa acham-se casas aprontadinhas com cores frescas, vasos de flores nas janelas, e cortinas bonitas. Por isso os europeus pensam muitas vezes que em todas as casas com certo desleixo exterior reine a fome e a miséria. Não imaginam que por dentro tem tevê, geladeira, banheiro bonito, água corrente, etc. Pequenos desleixos na fachada ou no telhado das casas nas regiões nórdicos trariam logo no próximo inverno prejuízos maiores, arrebentando os muros pela umidade e a força do gelo. Até a prefeitura ou mesmo o burgomestre de aldeias vigiam sobre a aparência exterior das casas. Tem, por exemplo, muitas ruas, nas quais a cor das respectivas casas é determinada pela prefeitura, assim como a forma do telhado e outras coisas, para dar à rua um aspecto equilibrado, agradável e bonito. Cada ano tem competições, qual casa tem o melhor jardim, e qual é a aldeia mais bonita.
Por isso A. já temeu que o bairro fosse uma favela, com todas as características que a gente vê em filmes, revistas, etc., e já cogitou em que responderia se fosse parado por um bando de traficantes. Por esse medo nunca parou para estudar o mapa, porque evidenciaria sua incerteza. Ficou, antes, sempre em movimento; mas não era problema nenhum, porque a rua seguia sempre direta. 
Ficou, desta maneira, sempre nesta rua, passando por muitos bairros, até a sede veio o afligindo. Partindo de que à noite já estivesse fora do Rio e não achasse loja nenhuma, parou quando avistava uma pequena birosca, totalmente aberta para a rua. Ele era o único cliente, no momento. Escolheu, entre os poucos produtos, alguns biscoitos para matar a fome. Para avivar-se ainda mais, embora já se tivesse recuperado bastante durante o dia, comprou uma garrafa de Coca-Cola. A moça encheu lhe também sua garrafa vazia com água gelada do congelador. 
Nesse momento chegou o marido ou namorado da moça, que tinha saído para comprar batatas fritas para si. Oferecia logo a metade a A. e animou a moça a oferecer café. Conversavam uns trinta minutos, depois o marido cobrou seis reais e A. saiu, encorajado pelo sucesso, pois tinha feito as compras sem dificuldades nem enredos, e era capaz de entender as pessoas.
O sol ficava agora só pouco em cima dos telhados, e A. admirou a rapidez, com que ele estava a desaparecer. Na Alemanha o crepúsculo demora umas três horas, e o pôr-do-sol cria um mar de vermelhidão no horizonte por muito tempo. 
Logo depois a rua desembocou em uma avenida transversal. No outro lado dela viu somente uma ruela pequena, subindo um morro. O lugar em torno do cruzamento era, porém, mais desenvolvido, com lojas e escritórios, e ele parou, sem medo, para consultar o mapa. Calculou através do tempo passado a distância absolvida e achou, que provavelmente faltassem ainda uns dez ou quinze quilômetros até aquele rio. Sabia, no entanto, que a avaliação da velocidade da bicicleta, sem instrumentos, implica grande incerteza.
Mal começara a matutar sobre isso, um brasileiro obsequioso ofereceu ajuda e conselho. Ouvia o plano de A. e apontou à direita. A. retorquiu que não quis usar a BR 040, que ele supunha lá, a alguns quilômetros, mesmo assim o homem insistiu. O sol já desaparecera e assim não dava para determinar a direção. A rua atrás tinha uma pequena curva, mas mesmo assim A. não podia imaginar, que tinha perdido toda a orientação. Mas quando o homem obstinou na sua opinião, A. pensou finalmente: “Talvez a avenida recomendada mude a direção depois de alguns quilômetros, tornando-se ao norte, ou depara com outra rua.”
Seguiu a orientação do homem, embora que estivesse cheio de dúvidas. Pelo menos achou logo na avenida um supermercado, onde comprou pãezinhos e frutas para a noite. Depois de alguns quilômetros podia espraiar a vista sobre a planície, cortada por uma estrada grande e cheio de tráfico, supostamente a BR 040. A avenida nem fez uma curva nem deparou com outra rua. Ficou bem claro, que o cidadão mesmo lhe tinha mostrado o caminho errado. Aí A. retornou ao cruzamento de antes, e passou, mesmo contra o conselho obstinado do brasileiro, a ruela morro acima. Claro que precisava empurrar a pé a bicicleta pesada e trôpega, e depois surgiam mais colinas que o obrigavam a desmontar e andar a pé; e aos poucos estava escuro. Era obrigado a perseguir o caminho pelos arrabaldes, na meia luz de frouxas lanternas, sem saber com certeza, se seguia ainda a direção certa. Onde poderia dormir? Pensava que achasse fora do Rio talvez um lugar na natureza para deitar-se com seu saco de dormir, mas aqui, nos morros apinhados de casas?
Não lhe restou nada do que continuar pedalando e pedalando, apesar de que bicicleta no Brasil não tenha faróis para alumiar a pista. De repente a rua seguiu morro abaixo e deparou com uma travessa, divididas as duas pistas por um riacho canalizado e lodoso. Será que esse regato é o rio do mapa? Se fosse assim, teria achado o caminho apesar do conselho contrário daquele homem prestativo. O prosseguimento na direção seria, todavia, difícil, porque existia somente morro acima um caminho de areia. Teria que seguir a avenida até achar outra rua rumo ao norte, ou aportaria finalmente na BR 040. Pensou também na possibilidade de que o brasileiro tivera razão. Talvez esse riacho não era o mesmo do mapa. Mas nesse caso a direita o levaria ao norte, onde achasse então o rio, norteando se desta maneira novamente. De qualquer jeito era bom seguir o riacho à direita. Passou o pontilhão e seguiu a pista escura e estreita do outro lado do rio, alumiada por lanternas espaçosas, cheia de crianças, que brincavam na escuridão, e adultos sentados em frente às casas. Ele não deixou ver a incerteza e o medo e seguiu sem hesitar o riacho. Não encontrou outra rua, e depois de alguns quilômetros deparou com a BR 040. Acha-se lá uma grande ponte com calçada para atravessar a BR 040. Subida e descida foram feitas em grandes curvas, que fazem quase um círculo completo, abrindo espaço para um parque no meio, com gramado, bancos debaixo de lanternas, e algumas árvores. Seria um lugar para dormir? A única alternativa era seguir a BR 040, certamente perigoso na escuridão, ainda que tivesse um acostamento largo. Além disso, não sabia se a estrada era liberada para bicicletas. Senão tivesse que voltar para onde ele vira o caminho de areia morro acima para tentar esse caminho, - certamente uma empreitada pouco recomendável à noite.
O parque, porém, era muito aberto. Ficaria exposto a todos que passassem por aí, aliciando assim ladrões ou policiais. Era lhe necessário escolher a alternativa menos ruim. 
Ele fez uma pausa no parque e comia os pãezinhos e as frutas. Decidiu-se, a seguir, para a opção de continuar a viagem na BR 040. O tráfego era ainda forte, predominado pelo grande número de caminhões, mas pelo menos restou-lhe o acostamento, reduzido, porém, depois de quinhentos metros, a meio metro. Mas por seu alívio, os caminhoneiros não buzinavam, e assim ele continuou, um tanto encorajado. Talvez aqui fosse permitido andar de bicicleta na BR. A estrada não era flanqueada por moradias, senão de estabelecimentos industriais, postos de gasolina, e assim por diante. Mas qual foi a sua surpresa, quando avistou à direita, a poucos quilômetros, um hotel, uma hospedaria simples para motoristas e viajantes. Era constituído por duas filas de garagens. Acima delas, no segundo andar, se encontravam os apartamentos. Desta maneira o respectivo motorista podia dormir pertíssimo do seu carro. Existiam também alguns apartamentos sem garagem, todos com banheiro e televisão, por R$ 15. Tudo era limpíssimo, fato que um viajante não acha sempre em hotéis baratos no mundo. 
A. pediu também um café de manhã “grande” para a manhã, por R$ 6, e foi aproveitar o apartamento, sobretudo o banheiro. Havia lá até ar condicionado. Mesmo que a máquina produzisse um barulho respeitável, servia muito bem para afastar o bafo no quarto. Era, em tudo, três vezes melhor do que o apartamento na Copacabana, mas catorze vezes mais barato! Por isso A. gostou muito da noite, comeu os restos do lanche no parque, ligou a televisão novinha para tentar entender as palavras – era a novela das nove, mas ele não entendeu nada – sentiu se, porém, muito à vontade.
De manhã um rapaz o despertou e trouxe o café, que na verdade não era muito grande, pelo menos não servia para saciar a fome de um ciclista. A. ficou no apartamento por mais tempo. Quis curtir o lugar para aprender uma lição de português, e quando partiu, o sol já demonstrou orgulhosamente seu poder exuberante e prevalecente, transformando em uma estufa a BR 040, que ia direto até a Serra da Mantiqueira, que já se esboçou em cores pálidas acima do horizonte. 
Não podia desvestir a camisa por causa das queimaduras. A pele já estava se soltando; achara já na cama grandes pedaços dela. Graças a Deus já tinha desde o primeiro dia no Rio um boné, de cor branca, para proteger a cabeça. Vinha se acostumando com os caminhões e os ônibus ultrapassando assiduamente, dos quais, contudo, uma parte considerável lançou nuvens de fumaça escura, que não eram muito gostosas. Aos poucos veio a compreender que os motoristas dos veículos de grande porte tocavam a buzina levemente apenas para chamar a atenção, sem agressividade. Quando se ouvia uma buzinada mais prolongada, a causa era muitas vezes uma moça bonita ao lado da estrada em roupas emocionantes, a quem os motoristas transmitiam suas saudações. 
Mais de uma hora depois ele chegou a um posto de gasolina com oficina e duas lojas pequenas, onde comprou pãezinhos, frutas, e, na oficina, duas chaves de boca do tamanho, que lhe ainda faltavam para poder consertar um pneu furado ou outra pane na bicicleta. A palavra “chave de boca” causou desentendimento, provavelmente porque a pronúncia era ruim demais, mas quando A. começou a desenhar, caiu a ficha e os homens acabaram por entender o requerimento do estrangeiro. 
A. continuou a viagem por mais uma hora, debaixo do sol escaldante, até que chegou um restaurante com um estacionamento do tamanho de um campo de futebol, que ficou, porém, sem sombra nenhuma. A. sentou-se ao lado, comeu uma banana e leu um trecho da Carta aos Romanos, o próximo livro da Bíblia depois dos Atos. Muitos ditos dessa Carta do apóstolo Paulo foram musicados pelo famoso compositor alemão Johann Sebastian Bach, há trezentos anos. Era o compositor predileto de A., e sempre quando lia uma dessas frases se lembrava da música referida e um raio de luz atingiu seu coração sofrido. Nesse momento uma imagem lhe chegou à memória. Tinha visto certa vez na televisão, na Alemanha, o interior de uma casa depois de uma inundação terrível. Todas as paredes, os móveis, todas as coisas estavam cobertos por uma camada de lama pegajosa, pardacenta, tristonha e nojenta. Era exatamente assim, como se sentia, sabia seu interior enxovalhado desta maneira horrível. Mas sempre quando um desses raios o tocava, lhe era como se alguém afastasse um pouco do lodo, limpando um pedacinho da parede para que chegasse à luz a cor originária.
Ele saiu, depois de pouco, para procurar um lugar melhor, uma sombra, talvez embaixo de uma árvore. Mas os únicos caminhos ao lado da estrada eram, depois de uns vinte metros, vedados por porteiras, e nesses vinte metros não havia sombra nenhuma. Na Alemanha, todos os fazendeiros moram em aldeias, e entre essas povoações tem além dos campos deles matas públicas, sempre com veredas, muitas vezes se encontram até bancas, sempre lugares bonitos para fazer uma pausa, de forma que muitas pessoas gostam de levar um piquenique da casa para lanchar lá num ambiente natural, tranquilo e agradável. Mas agora A. estava contente, quando achou pelo menos um ponto de ônibus com dois pilares, uma travessa para se sentar, e uma viga, na qual se sentava um estreito telhado. Enquanto o sol estava no zênite, a nesga de sombra caiu na travessa, onde A. fez a sua pausa. Além de pãezinhos ele tinha de novo bananas e laranjas, frutas preferidas dele por causa do sabor, do valor alimentício e da facilidade de prepará-las na viagem, pois a gente não precisa de água para lavá-las, e a casca se solta sem problemas. Na Alemanha não crescem essas frutas, que antes eram um símbolo de riqueza. Hoje qualquer supermercado alemão os vende, por um ou dois reais por quilo. A colheita nos pomares na Alemanha se constitui principalmente de maçãs, além de peras, cerejas, ameixas, morangos, amoras e algumas outras frutas pequenas e bagos. As pessoas guardam a colheita em lugares frios, por exemplo, no porão das casas, ou fazem geleia e compota. Essas frutas, que no Brasil são caros, os alemães ganham de graça de seus pomares ou de amigos e vizinhos, senão os compram por pouco dinheiro em supermercados, na fazenda ou em barracas, que fazendeiros estabelecem nas ruas das cidades para vender frutas. 
No Brasil bananas e laranjas são baratas, por isso um almoço farto e saudável dessa forma não passa de um real. Enchera a garrafa de água no posto de gasolina, e, além disso, tinha ainda Coca Cola. Ela, porém, poderia ter servido de café, tão quente que era. Depois do almoço escovou os dentes e ficou por muito tempo para aprender mais uma lição de português, estudar uma porção de vocábulos escritos nos papeizinhos das duas caixinhas, e ler a Bíblia. Não era, pois, importante avançar rápido, senão purificar-se com calma e procurar respostas às questões misteriosas e pendentes da sua vida. Lembrou-se bem de que, nos anos melhores, tivera sempre o sentimento de ser envolvido numa força sobrenatural, detrás da qual ele supunha Deus. Mas vinha perdendo tudo nos últimos anos tão desastrosos. Suas preces, desde que ainda tivesse tentado orar, ficaram sem respostas. Mas apesar de tudo continuou um observador objetivo e crítico, e por isso deduziu de certas experiências que existe com certeza uma força sobrenatural, se bem que ela, como parecia, não reaja aos múltiplos e às vezes complicados e detalhados desejos dos seres humanos. Pelo menos desde a ocorrência ao lado do cemitério A. tinha a certeza de que existe o sobrenatural, mas ele não sabia o que era.

Naquele mesmo ano tivera um sonho que parecia real. Tratava da sua colega e amiga de escola Dorotea. Ela ganhara numa competição uma viagem para os Estados Unidos. A. sonhou que ela encontrou o cantor popular alemão Freddy Quinn, no aeroporto. Pensando que era um fato real ele zombou na sua escola, já que Freddy era um cantor venerado pelos idosos, até que a melhor amiga de Dorotea perguntou, de onde A. tinha as suas informações. A. embatucou, porque não tinha lembrança nenhuma.
Tinha as cenas diante dos olhos, com todos os detalhes, como se tivesse sido testemunha. Mas, afinal de contas, não estivera no aeroporto. Será que o pai de Dorotea lhe tinha contado tudo? Mas o pai não sabia dessas coisas. “Será que eu só sonhei?” proferiu. Claro que tornou se um bom objeto de caçoadas dos outros amigos.
Quando Dorotea retornou, confrontaram-na logo com as balelas, que A. arquitetara sobre ela e a sua viagem. A jovem empalideceu: “Mas como ele podia saber disso? Eu não comentei com ninguém. É verdade, eu encontrei esse cantor”.
Ninguém da turma de A. e Dorotea torcia por Freddy Quinn, sendo ele mais um cantor adorado por velhos. Por isso certamente não era frequente um jovem sonhar dele, e fica difícil pensar em uma mera coincidência. Aliás, acontecia só uma vez na sua vida que A. sonhou do modo que equivocou a vida real com um sonho, comentando ainda com seus amigos a ocorrência supostamente vivida. O fato de ter sonhado de Dorotea, em geral, é ainda explicável, porque ganhar um tão prêmio certamente pode incentivar a fantasia dos outros alunos. Mas já que ela encontrasse um músico qualquer teria sido uma coincidência que, matematicamente, tivesse somente uma probabilidade de 1:100. A probabilidade de que se tratasse, entre todos os músicos conhecidos por A., de Freddy Quinn, ao máximo, 1:500, já que A. conhecia muitos músicos e Freddy era entre eles alguém, que mal conhecia e nem se interessou por ele. “Temos, então, quatro fatos”, resumiu.

1. A. sonhou de Dorotea. Probabilidade mais ou menos 1:20
2. A. teve no dia do encontro de Dorotea com o cantor um sonho tão forte que o confundiu com a realidade. Probabilidade mais ou menos 1:5000.
3. A. sonhou que Dorotea encontrou um musico. Probabilidade mais ou menos 1:100.
Probabilidade de Freddy Quinn entre todos os músicos conhecidos, mais ou menos 1:500.

Se multiplicar os fatores forma se o resultado. A probabilidade de que o sonho veio por acaso nesse dia é 1:5.000.000.000 (cinco bilhões). Decorre quase com certeza que se trata de uma coisa sobrenatural. A probabilidade é muito menor do que aquela que alguém que compre só uma vez um bilhete ganhar na loteria. 
Mas também essas deliberações têm um outro lado. “Se a gente considerar todos os seis bilhões habitantes da terra, terá entre eles estatisticamente uma pessoa que tem uma experiência tão estranha, por acaso. Será que eu sou essa pessoa?” Por isso lhe parecia que ainda não era uma prova bastante. “Só se uma pessoa viver essa experiência incomum duas ou mais vezes será uma prova quase certa.” Poderia, aliás, ser que certas pessoas aleguem que o sonho baseie simplesmente em transmissão de pensamentos. Mas isso seria também um fator sobrenatural.
Quando apuraram os fatos, verificaram também, que A. deve ter tido o sonho na mesma noite em que Dorotea encontrara o cantor, possivelmente até no mesmo momento. A probabilidade, que A. tinha o sonho nesta noite também era pequena. Se tivesse sonhado dois meses depois não teria causado o mesmo bafafá. Seria, então, um quarto fator, e considerando ele a probabilidade de ter aquele sonho naquela noite era tão afastada que podemos excluir uma mera coincidência. Deve ter sido algo sobrenatural, seja telepatia, influência divina ou outro fenômeno misterioso.

Aos vinte e três anos ele, A. viveu mais uma coisa muito estranha. A. tinha já várias vezes, como muita gente, em certos momentos a sensação de já ter vivido ou sonhado antes exatamente uma situação que depois ocorria na realidade. Esse fenômeno se chama em francês déjà-vu. Muitos cientistas alegam que essa impressão seria um simples equívoco. O cérebro produziria em certos casos uma imagem dupla, defasada por um instante muito menos do que um segundo. Por certas razões a pessoa teria, todavia, a sensação de que entre as duas imagens passaram semanas, meses ou anos, interpretando a primeira imagem por isso como relance de lembranças.
No início do ano 1986 A. deparou com o fenômeno de uma maneira surpreendente. Teve um sonho forte que, embora o conteúdo fosse simples, o impressionou tanto que o levou a contar esse sonho à sua namorada. Sonhara que um certo pastor evangélico, com que ele vivia em desarmonia por causa de um desentendimento, o convidou para fazer uma viagem a R., a vila lindíssima, de onde A. viera e onde viviam seus pais. Por isso ele podia explicar, como um guia turístico, os lugares bonitos da cidade, ao pastor e à esposa dele.
Na volta para Hamburg eles saíram de R. por uma rua morro acima que faz grandes curvas para diminuir a inclinação. Uma rua muito inclinada, pois, seria no inverno intransitável, porque gelo e neve fariam os carros escorregar para baixo.
Nesse momento, no sonho, sofrera uma sensação muito forte, estranha, acanhadora, opressora e sobrenatural. Soube que tinha alguma coisa misteriosíssima, mas o quê? O pastor repetiu várias vezes uma pergunta, mas A., sob essa opressão, não podia responder. No banco traseiro sentaram a esposa do pastor e uma senhora, que A. não conhecia, e esta última veio a quebrar o silêncio ao contar sobre uma determinada técnica de imprimir por meio de varas. A., porém, meio atordoado, não entendeu nada do que falou a senhora. 
Alguns meses depois, uma professora de arte, duma escola pública, contatou A. para tornar-se membro duma pequena orquestra de amadores, cujo regente era A. Ela já era cinquentona, mas tornou-se amiga. Ela era também boa amiga da esposa daquele pastor, e quis reconciliar o pastor e A., achando essa discórdia dentro duma igreja intolerável. Por isso pediu ao pastor que fizessem uma viagem para R. e insinuou convidar a A. como guia.
A excursão foi um sucesso, e eles jantaram num hotel bonito construído acima de estacas como uma palafita, na lagoa, e depois, voltaram para Hamburgo. Quando chegaram à rua curvada morro acima, A. percebeu que alguma coisa era muita errada. Senti uma extrema estranheza, e logo depois lembrou-se de que era a mesma situação já sonhada antes. Ele começou a gaguejar, e sempre quando uma palavra saiu da sua boca, ele reparou logo que era exatamente aquela do sonho. Embatucou, incapaz de concertar os pensamentos que redemoinhavam pelo seu crânio. Ele ouviu o pastor repetir a sua pergunta, mas não era capaz de responder, e, então, a senhora no banco traseiro, aquela professora de arte, começou a referir sobre a técnica de fazer impressões com varas.

Desde então ele pertenceu àqueles homens ditosos que sabem com certeza, que existem coisas sobrenaturais. Quem abnegasse esse fato, deveria ainda crer em coincidências. Mas isso é cientificamente impossível, uma vez que existe a matemática de probabilidade; e ela prova claramente que nem um único homem no mundo poderia ter duas ou mais experiências tão estranhas por coincidência, acaso, dita ou boa sorte, na sua vida. Um não-crente, seja psicólogo ou seja totalmente néscio, poderia opor a hipótese que todas essas estórias seriam nada mais do que patranhas e mentiras inventadas pelas pessoas. Talvez algumas pessoas o creiam, mas A., é claro, soube com certeza que tudo era verdade e não mentira dele. E também a namorada, a quem contara o sonho há alguns meses, era uma boa testemunha.
A segunda pergunta, contudo, era se a fonte da força sobrenatural era Deus, especialmente o Deus da Bíblia, que costuma falar com os homens e até ajudá-los, - ou castigá-los, no caso contrário; e a terceira pergunta era, se esse Deus, se existisse nessa forma como o descreve a Bíblia, falaria com A., que falhara, que decepcionara e era um criminoso que denegrira o santo nome do Senhor.
Aí o seu olho achou o próximo inciso da Carta aos Romanos (Capítula 3, versos 9 e seguintes; ou sucinto: Ro3.9ss). No início ele só viu o título: “Todos somos culpados”. Ele leu que não há nenhum justo, que todos se desviaram do caminho certo. Não há mais ninguém que possa ser aceito por Deus por causa de bons atos! A. deliberou. Não é que tem pessoas que, apesar de terem cometido pecados pequenos e deslizes, eram muito melhores do que ele? Mas o próprio Paulo, o apóstolo famoso, missionário de tantos povos, que era o primeiro a trazer a nova fé para a Europa, era antes um grande pecador, responsável pela morte de muitos cristãos, até que uma ocorrência sobrenatural o levou – mais ou menos à força – ao serviço ao Senhor. Paulo também pensara: “Eu sou o pior e mais vil entre os cristãos. Como posso servir a Deus?”
Mas já Jesus, enquanto na terra, esforçara-se a ganhar, apesar de tudo, esses homens desesperados, os casos mais graves. E Jesus desvendava e apontava os lados vis, torpes, até acanalhados ou criminosos dos “bons”, que geralmente antes serviam de exemplo bom para os outros. E conferimos nos evangelhos que até Pedro, o mais honrado assistente de Jesus, que viu tantos milagres, que ouviu as palavras da primeira mão, traiu a seu mestre abominavelmente, negando qualquer relação com ele. Todavia, esse homem que tinha sido tão infiel e desonroso, que não quis arriscar a vida para ficar fiel, foi chamado por Deus para ser um líder e para receber o Espírito Santo, a força de Deus (ver Atos 2.1-47, também os capítulos 3 e 4).
Talvez também A. poderia ter esperança? A Carta aos Romanos explicita: Somente importa uma coisa. As pessoas precisam entender, reconhecer e confessar que são falhas: totalmente insuficientes diante de Deus, incapazes a cumprir as leis e mandamentos da Bíblia, contaminadas por pensamentos torpes, até criminosos e vis. Na maioria dos casos os atos baixos ou até criminosos são cometidos clandestina e disfarçadamente, muitas vezes na família, contra pessoas indefesas, assim que os atos não são registrados pela polícia. Mas, na verdade, todas as pessoas, sem exceção, mereceriam um castigo considerável; tanto o bem-conceituado presidente dum clube ou duma associação quanto uma prostituta depreciada; tanto o famoso traficante quanto um trabalhador sincero, o pastor assim como o ricaço espalhafatoso, o adorado músico popular assim como uma velhinha que vive na indigência. Mas desde que Jesus estava na terra, Deus só quer uma coisa: As pessoas devem compreender e confessar esses pecados francamente, elas devem saber que são imperfeitas e que produzem sem a ajuda de Deus somente coisas más. E elas devem crer em Jesus e em suas palavras, ensinamentos, boas novas que visam o caminho certo da vida das pessoas e lhes ensinam uma vivência mais sincera. Tornar-nos-emos, então, seguidores de Jesus que se organizam, quase como os fãs de um pop-star ou de futebol, em clubes, e Deus anulará todos os deslizes, erros, pecados e crimes, porque o “presidente do clube”, Cristo Jesus, já foi castigado, e isso sem culpa própria; e ele pediu a Deus que esse castigo seria levado em conta a favor de nós, descontando os nossos pecados. 
A. teria gostado de orar a Deus, mas as suas preces já ficaram sem respostas, há anos. Como começar? Gostaria muito de comparecer diante de Deus, de jogar-se aos seus pés, vergonhoso depois de todos esses crimes, gostaria de achar Deus, de ouvir a sua voz. 
De repente reparava que já passara muito tempo. O sol tinha mudado a posição, e o ponto de ônibus não era mais um lugar sombrio. Estava na hora de prosseguir a viagem. Logo depois deparou com uma mercearia pequena para comprar alimentos. O sol, entretanto, veio descendo, e A. esforçava-se muito para avançar ainda um bom trecho. Finalmente chegou ao ponto, onde à direita começa a estrada para Petrópolis. Aí ele abandonou a BR 040 e lutou por mais uma hora com o aclive nas montanhas. Era agora circundado pela natureza grandiosa e vicejante, os montes rochosos, as matas verdes e águas claras. Achou também um restaurante muito bonito, onde ele pediu café e bolo, e logo depois chegou a um lugar com água cristalina para se refrescar e lavar. Mas onde dormiria? Já tivera dificuldade para achar um lugar para o almoço! Mas às seis e meia alcançou um lugar onde tinha um panorama maravilhoso sobre o vale, e um certo sentimento o fez parar. Ele bebeu a beleza da natureza, espraiando a vista. De repente surgiu na sua mente o capricho de que não estava preciso andar mais, porque poderia pernoitar aqui mesmo, ao pé da escarpa da estrada. Provavelmente estivera lá antes um caminho, pelo menos existia ainda uma porteira gradeada de ripas. Ao outro lado dessa cancela o ex-caminho, agora cheio de mato, estava bloqueado por um monte de cana de açúcar, jogado da estrada ao pé da escarpa. No vale em baixo, em uma distância de uns 600 metros, A. enxergou um arroio e um casebre, e no declive pastavam uns bois. A. acabou com a lição de português do seu livro e observou, se no crepúsculo alguém acendesse uma luz na choça. Não era assim, e então ele julgou, que não houve ninguém por aí, colocou as bolsas por dentro da cerca, trancou a bicicleta e começou a investigar o terreno. Mas o declive estava cheio de arbustos e subarbustos espinhentos, não dava para avançar bem. Por isso ficou de pé, circundado nas costas pelo meio-círculo das montanhas escuras, sobre os quais já cintilavam as primeiras estrelas, olhando sobre o vale silencioso e enegrecido, e abriu sua Bíblia. “Ó Deus”, pensou, “como é que eu te posso achar?”
E ele leu na Carta aos Romanos sobre a nova vida com e em Cristo Jesus, como uma pessoa se torna voluntariamente escravo de Deus e ganha exatamente com esse ato uma nova vida, renovada, uma qualidade de vida diferente, e como ele supera a inevitabilidade do pecado. E ele leu, como o Espírito Santo enche aqueles que estão seguindo a Jesus. E no capítulo 8, verso 26, leu palavras que já conhecia duma música sublime de Johann Sebastian Bach:
Nós não sabemos, como devemos orar. Mas o Espírito de Deus, com gemidos inexplicáveis, que as palavras não podem descrever, pede a Deus em nosso favor. Pois sabemos que em todas as coisas Deus trabalha para o bem daqueles que o amam, daqueles a quem ele chamou de acordo com seu propósito. “Sim, Espírito Santo de Deus! Isso seria exatamente o que eu preciso”, cochichou A. “Não sei, como orar. Enche-me e assume o controle da minha vida. Eis-me aqui, e eu estou pronto para ser teu, totalmente teu, como um escravo.”
Imediatamente sentiu uma grande tranquilidade, um abrigo, uma harmonia consigo mesmo e com todo o ambiente, o sentimento de alguém que retorna em casa depois de uma viagem difícil e cheia de angústia e fracassos, que demorou muitos anos. Sentiu a presença de Deus e agradeceu de todo o coração.

Na madrugada do dia seguinte, no acordar nem sabia, onde estava. Quando retornou a consciência ele sentiu que era livre. Libertado da lama e sujeira do passado. Eram as cinco e meia, e começava a clarear. O vale emergiu da noite coberta como um véu azulado, e pela primeira vez desde anos não sentiu mais o cruel bloco de gelo que lhe tinha apertado o coração; o que ainda doía eram os destroços dele e os ferimentos, mas pela primeira vez ele podia respirar livremente. Aprendeu rapidamente mais uma parte do livro ”Brasilianisch”, o que foi feito para ensinar o português do Brasil, e estudou o próximo capítulo da Carta aos Romanos. “Quem crer nele não será desiludido.”
Comeu um pãozinho e partiu às sete horas, depois de amarrar as bolsas novamente no bagageiro e de guardar um pequeno maço de papeizinhos com vocábulos na bolsa ao lado para aprender e mastigá-los paulatinamente durante a manhã. A estrada o levou subindo para as montanhas, cheias de beleza e sublimidade. A bicicleta era pesada, com toda a bagagem, e muito tempo ele a empurrou andando a pé. Mas assim podia desfrutar ainda mais a paisagem maravilhosa, a vista sobre o vale amplo, sempre à esquerda. Não fui raro que parou para imbuir-se por essa beleza. Já chegou a um lugar onde a água decorrendo do monte era recolhido por um meio-cano, espargindo-se em uma bacia natural. Era um refrigério agradável e uma possibilidade para reencher a garrafa. 
Às oito horas, despiu a camisa, mas às nove precisou vesti-lo de novo sob pena de sofrer mais uma queimadura. Subir os montes, porém, era tão cansativo que aproveitou a primeira sombra debaixo de uma arvore para fazer uma pausa. Era também o único lugar livre ao lado da estrada. Geralmente ela ficava bem encostada no declive dos montes, à direita as rochas e à esquerda a escarpa para baixo, estreita para os caminhões, que mesmo aqui passaram frequentemente, - alguns subindo, arrastando, arquejando e deitando rolos de fumaça. Tornou-se sempre mais quente, e A. desenrolou o saco de dormir para secá-lo e para deitar-se, lendo a Bíblia. Lembrou-se da noite. Será, que as palavras que lira na Carta aos Romanos e seu sentimento durante a oração lhe confirmaram que Deus o aceitou? Nesse caso estaria agora, finalmente, no caminho certo. O que importava é que ficasse fiel e ouvisse a palavra do Senhor. Mas quiçá a sensação que sentira ontem à noite era só seu entusiasmo, deflagrado pela consciência da liberdade, do dia bem sucedido e diante da grandeza da natureza. Um mero sentimento não podia ser uma prova! Seria mister procurar mais, para achar Deus e claridade para seus pensamentos.
Ele acabou com a Carta aos Romanos e decidiu que não quis ler somente Cartas. Quis intercalar leituras do Antigo Testamento. Ele conhecia já os inícios da história do povo de Israel muito bem, desde Abraão, até os famosos reis Davi e Salomão, que eram os primeiros da família davídica, que reinaria como dinastia real por quatro séculos. A. conhecia a história das figuras famosas como Noé, Abraão, seus descendentes Isaac, Jacó e José até os Reis Davi e seu filho Salomão do ensino religioso na escola e dos cultos. Mas a história dos descendentes de Salomão, que governavam após ele, lhe era quase desconhecido.
Deus escolhia sempre alguns homens como profetas, enchendo-os com seu espírito, para corrigir erros e encaminhar o povo. Duzentos anos depois do tempo dos reis Davi e Salomão alguns profetas começaram a escrever suas mensagens em pergaminho, e assim tornavam-se, mais tarde, livros da Bíblia. Sobre estes dezesseis profetas e seus livros A. não sabia muito, e por isso quis ler os livros deles e estudar também os textos históricos referentes a essa época, como constam nos livros Reis e Crônicas.
Nesse tempo o povo de Israel era divido em dois reinados. No Sul ficava o reinado Judá, com a capital Jerusalém, onde governava ainda a dinastia davídica. O norte do Israel tornara-se independente de Jerusalém e escolhera outros reis que residiam em Samaria. Este reinado do Norte foi chamado de Israel. Os reis descendentes de Davi e Salomão perderam, como se vê, não somente a maior parte de seu reino, mas também o nome Israel, que foi antes e também hoje o nome de todo o país dos judeus.
Ao norte de Israel ficava a Fenícia, com grandes e famosas cidades como Tiro e Sidom, que controlavam com suas frotas o comércio no Mar Mediterrâneo. No lado direito da Fenícia, então no nordeste de Israel, ficava a Síria com a capital Damasco. No Norte, ao redor dos rios Eufrates e Tigre, onde hoje ficam a Turquia e o Iraque, havia o reinado poderoso e amedrontador Assíria. E no sul de Judá ficava ainda a antiga potência Egito, famosa pelos carros de combate mais rápidos do mundo antigo, pelas pirâmides, esfinges e grandiosos templos ao longo do Nilo, e pela magnificência do faraó e suas centenas de mulheres de todos os países. Entre o Egito e a Síria, no leste de Israel e Judá, havia os edomitas, moabitas, amalaquitas e outros principados e tribos pequenas que várias vezes lutavam com os judeus, quer com Israel, quer com Judá, ou com ambos os reinados juntos. O litoral entre Judá e Egito, onde hoje fica a faixa de Gaza, estava nas mãos da tribo dos filisteus, conhecida pela inimizade para com os judeus que culminou outrora na luta entre Davi e o filisteu Golias. O resto do mundo interessava somente aos comerciantes fenícios, que mandaram seus navios até a Espanha, no outro lado do Mar Mediterrâneo. Negociavam também com as cidades independentes, civilizadas e poderosas na Grécia, e comerciantes árabes singravam pelo oceano até a Índia, e caravanas de camelos chegavam ao distante império chinês.
No ano 835 antes do Cristo, o oitavo sucessor de rei Salomão, chamado de Joás, tornou-se rei de Judá em Jerusalém, com seis anos de idade. Ele começou a restabelecer o culto e a fé em Deus, neste reino do Sul, que tinha sido substituído pelos seus antecessores por práticas perversas e cruéis. Apesar de todos os milagres, que Deus tinha feito por seu povo escolhido, que o libertaram da escravidão no Egito e lhe deram um país maravilhoso, os judeus não eram fiéis nem agradecidos de jeito nenhum. Cometiam pecados em grande escala e oravam com preferência a outros deuses e deusas. Já várias vezes perdiam por isso o apoio de Deus e eram subjugados pelo grande número dos inimigos. Depois eles arrependiam-se, deprecavam ao Senhor e ele os ajudava de novo. Mas o agradecimento não perdurava por muito tempo, e tudo começava de novo. É triste e chocante ver essa infidelidade desonrosa. Não é que recebiam tudo de Deus? Contudo, não fora exatamente a mesma coisa que acontecera na vida de A.? Mas agora não quis se lembrar dessas coisas, e continuou lendo. Começou no capítulo 12 do segundo livro dos Reis (2Reis12) e no capítulo 24 no segundo livro das Crônicas (2Cr24), que contém textos paralelos. Ele leu com comoção, como até esse rei magno cometeu um pecado terrível. Assim como também o grande rei Davi, ou, mais tarde, o apóstolo Paulo, Joás virou assassino, matando um bem conceituado sacerdote. Depois A. leu a história do filho e do neto de Joás, os próximos dois reis de Judá, e os acontecimentos no Reino do Norte, também chamado de Israel, neste tempo, que eram ainda piores.
Nesse tempo Deus mandou mais uma vez profetas. No apêndice da Bíblia A. viu que os primeiros profetas, dos quais se acham livros na Bíblia, obtiveram a missão por Deus pelo ano 750, então duzentos anos depois da época do rei Salomão. Eles eram Amós, Jonas e Oséias. Os livros deles constituem-se de exortações e ameaças, que enfocam a vida errada do povo de Israel, e apresentam profecias que se cumpriam, na maioria dos casos, já algum tempo depois. Além disso, anunciam, às vezes em palavras enigmáticas, às vezes explicitamente, o nascimento de Jesus e fazem prognósticos que visam até o nosso tempo atual. Também tem partes narrativas sobre a vida do respectivo profeta, e também enigmas que A. não podia entender. Os três livros, Amós, Jonas e Oséias, ele iria ler em breve. Mas antes ele preparou seu almoço. Havia ainda laranjas e bananas e, trazidas do Rio, flocos de aveia. Junto com água fresca do monte ele preparou um manjar gostoso e bem integral, um tipo de granola, que na Europa se chama Müsli. Logo depois precisava partir porque a sombra da arvore agora caiu no penhasco que ladeava a estrada, expondo o chão ao sol. Depois de pouco ele chegou a um mirante que apresentou um panorama belíssimo, onde ele comprou café, frutas e biscoitos. Pelas três horas da tarde alcançou um lugar chamado “Pedra do Presidente”. O rochedo acima da estrada era aqui coberto de mata, encerrando um terraço debaixo duma grande lapa inclinada que formava de tal modo um toldo acima do terraço. A beleza, a frescura agradável e a força primitiva da rocha o aliciaram e A. subiu alguns cem degraus. Lá em cima achou uma mesa e dois bancos de pedra. Um convite para ficar e estudar a Bíblia, e então, trancou a bicicleta e levou as duas bolsas grandes consigo para cima. Infelizmente não achava um poste ou uma árvore pequena para acorrentar a bicicleta. Por isso colocou-a perto duma banca rústica, onde uma moça com uma criança pequena vendeu água de coco, suco de cana e refrigerantes. Tinha vindo com uma carreta pequena para transportar a caixa de isopor com gelo. A. comprou uma água de coco que levou para cima.
Nesta tarde passavam por aí talvez três clientes que compravam alguma coisa. Desfalcando o gasto para as compras e o gelo lhe restará nem um salário mínimo, mesmo se trabalhar todos os dias, calculou A.
No terraço acharam-se alguns tocos de velas. Talvez lá celebrassem de vez em quando jovens. Mas, porventura, servissem a algum culto afro-brasileiro, que reverencia rochas, árvores etc.? Lugares que sempre exercem uma certa fascinação a muitas pessoas. 
Outrora, há 2750 anos, na Terra Santa, o povo de Israel sentia o mesmo fascínio e homenageava diversos deuses nos altos dos montes. As tribos e povos avizinhados, às vezes subjugados e parcialmente integrados no povo de Israel ou escravizados, tinham nos seus templos ainda uma atração mais aliciadora. Meninas, às vezes veladas num estilo sofisticadamente sedutor, às vezes totalmente despidas, esperavam nos templos aos visitantes que podiam escolher uma, deixando um donativo ao templo. Claro que esse serviço atraía também muitos homens das doze tribos judias. Acontecia também que famílias judias traziam uma escrava-menina ou até uma própria filha a um templo para dedicar o corpo dela ao respectivo deus; uma dádiva especial que deveria garantir benção e fertilidade para campo, gado, escravas e a esposa. Muitas vezes os judeus misturavam esses cultos alheios com o serviço ao seu Deus que os liberara da escravidão no Egito, e as estátuas das outras divindades foram colocadas no templo de Deus em Jerusalém.
No Reino do Norte e no Reino do Sul predominavam abastança e prosperidade e muitos até viviam no luxo. Em lugar das máquinas, que aliviam a vida hoje, as pessoas nesse tempo tinham escravos e escravas para cuidar da amenidade e dos deleites dos seus donos. As tribos judias viviam já há quinhentos anos em Canaã, como Israel foi chamado antigamente, e assim como os gregos, romanos, egípcios e também muitos povos beneficiados em nosso tempo, não mostravam nenhum agradecimento; pelo contrário, os frutos da riqueza eram crimes, desonestidade, corrupção, adultério, negligência e indiferença a respeito do culto a Deus, e assim por diante. Se um povo é muito forte ou grande, a destruição demora às vezes, como no caso dos romanos, e o mundo pode assistir e ver, como devassidão e perversidade extrema vêm dominar as pessoas: Gozo em torturar outros seres, sexo em todas as formas até o estupro de nenéns, e a negação de todos os valores.
Mas, no caso de Israel, Deus tentava estagnar e revirar esse processo fatal. Escolhia homens e os iluminava e enchia de Espírito. Ainda hoje podemos ler no livro do profeta Amós, como esse homem intrépido vituperava e exprobrava corrupção, iniquidade, injustiça, desgoverno e abuso de poder em Judá, Israel, Síria e em outros povos ao redor dos judeus. 
De repente A. sentiu como essas palavras falavam a ele em particular, como Deus lhe abriu o coração para que entrasse a nova verdade.
Mas Deus não só repreendia os povos e tribos pequenos que confinavam com os dois reinos judeus. Ele ordenou que o profeta Jonas fosse à grande capital do império assírio, Nínive, para reprovar os pecados dos moradores. Mas Jonas não obedeceu; certamente tinha medo de que os assírios lhe pagassem o sermão com surras, murros e demais benefícios de que ele não gostava tanto. Pode ser que ele já sabia que Deus guia muitas vezes os passos de seus “escravos”, dirigindo-os ao lugar destinado, assim como foi falado sobre o apóstolo Paula, como já vimos em cima.
Por isso Jonas, muito esperto, resolveu afastar-se o mais possível do destino, então da Assíria. Ele comprou de um capitão fenício uma passagem para a Espanha, situada no fim oposto do Mar Mediterrâneo, e embarcou logo. Deus, no entanto, mandou um vento forte, e quando os marujos ouviram da insurreição de Jonas contra Deus, enraiveceram-se, supondo nele a causa da tempestade. O próprio Jonas era tão desesperado, sabendo que estava num impasse, que pediu que o jogassem no mar. Era disposto a morrer.
Mas Jonas não se afogou. Aconteceu uma coisa milagrosa, foi resgatado por um “peixe”. Várias pessoas já foram resgatadas por golfinhos, mas quase nunca por baleias, embora que elas são parentes dos golfinhos: Uma baleia de grande porte pegou o náufrago e o transportou, evidentemente na boca espaçosa, ao litoral e o cuspiu na beira-mar, conforme as baleias costumam fazer, se terem uma coisa indigerível na boca. Mesmo partindo da consciência, que baleias e especialmente cachalotes, que antigamente frequentavam o Mar Mediterrâneo e têm uma boca suficiente, costumam levar também seus nenéns doentes desta maneira na boca, constatamos que se trata de um milagre raro, portentoso e quase incrível. Jonas estava de volta, e o Senhor mandou-o novamente a Nínive. Jonas arrependera-se no seu sofrimento na boca do animal gigantesco e agora ele era pronto para servir a Deus em tudo e com tudo. 
Aí A. sentiu, que a história é um espelho de sua própria vida. Ele mesmo é Jonas. Fugira de Deus, quando Ele o chamou para uma missão especial no exterior, caiu num impasse sem salvação e o Senhor o remiu e mandou novamente para o exterior.
Parecia que era assim mesmo, mas ainda não tinha certeza. Era verdadeiramente a mão de Deus, que fez tudo, ou eram coincidências e acasos estranhos, que o levaram ao Brasil? Havia de ter clareza nisso, para resolver o que pairava como um enigma embaçado sobre a sua vida. Se tudo só fosse acaso fortuito, sua viagem nunca chegaria ao fim. Nunca acharia a comunhão com Deus e o cumprimento da providência. Se existisse um Deus vivo, teria duas opções: Ou era verdade que Deus o chamava para uma vida nova, por meio de sinais evidentes e apoio, que surgiram, porém, como por acaso e pareciam coincidências estranhas, ou Deus já o deixara de lado, considerando-o como caso perdido. É claro que A. esperava, que o Senhor tivesse ainda um plano para ele. Mas esse suposto acarretou uma consequência que o assustou: Até a procela no mar e o naufrágio de Jonas tinham a origem em Deus. Segue-se que também o sofrimento infindo, que escangalhara, esmagara e quebrara a A. e que o levara por um triz à morte, adviera do Senhor. Não lutara, por conseguinte, contra criminosos, funcionários corruptos e azar não merecido, mas sim contra o próprio Deus e a sua providência. Ele sentiu uma tontura e esse foi o momento no que soube que não havia outro remédio do que pôr toda a sua vida em pratos limpos, espraiar tudo diante do Senhor para alcançar o perdão e a possibilidade de começar totalmente de novo. É, assim seria, mas agora faltava a força, a coragem. Respirou, levantou-se e fez uma volta na plataforma em baixo da lapa. Controlou a secura do saco de dormir colocado no muro onde uma nesga de luz entrara por entre as copas das árvores, mas agora o sol já estava mais baixo, cobrindo a lapa maciça com um rendado de laivos tremulantes e efêmeros. Nesse momento reparou a falta da bicicleta. Nessa condição mole, cogitando até sobre uma morte contingente, e também sobre a questão da providência divina enigmática, a notícia o acertou como um choque imprevisto e terrível. A moça com a criança não estava mais lá. A. já se viu a pé, com duas bolsas pesadas, vagando pela terra, sem rumo, desesperado, sem poder achar um alvo, o cumprimento do seu destino. Pois, certamente, Deus jogava com ele, de um modo cruel. Pelo menos era visível, que Deus não o apoiava e guiava.
Nesse momento apareceu a moça, descendo a estrada para buscar alguma coisa esquecida. Galgou para baixo, apesar de ter pouca esperança, porque era claro que a moça estivera conivente quando alguém tinha roubado a bicicleta.
“Mas eu não quis deixar a bicicleta aqui sozinha”, explicou ela. “Pensei que você subiu o monte até o cume e retornaria tarde. Por isso eu guardei a bicicleta em casa.”
Qual alívio, qual alegria! Acompanhava a moça, que morava a quatrocentos metros, onde numa curva três casas muito simples ladeavam a estrada. A casinha da moça estava à esquerda, acima do declive escarpado, a entrada à altura da estrada. A moradia constituía-se somente de um recinto pobre, mas muito limpo. Acima de uma coberta deitava um neném, e no canto, no banco da mesa, sentava a avó. Encostada na mesa, praticamente como comensal para a velhinha, brilhava a bicicleta vermelha e nova.
Nesse dia não prosseguiu a viagem, levou a bicicleta para a Pedra do Presidente, onde ele aproveitou uma grande vela, que alguém deixara ali, para ler na Bíblia, para pensar, e para aprender mais uma lição de português. Afinal orou por muito tempo e tinha, pela primeira vez há tantos anos, o sentimento de que sua oração chegou ao Senhor. Claro, era somente um sentimento, mas já isso era muito. Tentaria nos próximos dias obter mais clareza. Por enquanto estava muito feliz que estava no caminho, viajando como um peregrino, sozinho consigo, ou seja, com Deus. Finalmente apagou a vela e dormiu no banco de pedra debaixo do toldo de rocha que escurecia a metade do céu, mas no outro lado A. vislumbrou pela ramagem das arvores as estrelas do céu brasileiro.
Devaneou na época antiga, quando Israel era um jardim florescente e frutífero, um empório com comerciantes ricos, ingentes greis e rebanhos vagando pela terra. As pessoas ricas refinavam e aperfeiçoavam a vida com luxo e com escravos e escravas, em parte despojados nas guerras com outros povos. Os judeus sabiam que existe um Deus, mas já não criam que ele interviesse ativamente nas vidas das pessoas. Era melhor ajudar-se a si mesmo, e para prevenir qualquer opção sacrificavam para várias divindades apesar de que seu deus lhes o tinha proibido. Mas seu deus era, infelizmente, invisível. Claro, já sabiam de fatos muito portentosos e exímios, no passado, sempre quando o povo se arrependia e orava a Deus. Mas não poderiam ter sido coincidências, fatos ocorridos por acaso? Era melhor cuidar mesmo dos alicerces da vida, aumentando, o quanto puder, a própria riqueza, mesmo se fosse através de meios duvidosos, em discórdia com as leis do Senhor. Por isso ofereciam aos deuses frutas, bolos etc., aos pés das árvores e rochas. Além disso, as outras religiões eram muito mais atrativas; era, por exemplo, muito mais agradável, divertir-se com uma jovem bonita, prostituída num templo pagão, e tudo sob o pretexto honesto de querer aumentar a fertilidade da esposa, do gado, dos campos etc. Se não tivesse efeito nenhum para a agricultura, o comércio ou à casa, pelo menos era um benefício delicioso para o próprio corpo.
Deus já mandara profetas que anunciaram o declínio do povo de Israel, caso que continuassem desta maneira e não se arrependessem e voltassem ao seu Deus e Senhor, que os libertara da escravidão, fazendo milagres poderosos. Mas quase ninguém quis ouvir o tal anúncio. A prosperidade era evidente! Porque preocupar-se com pessimistas que sempre previam desgraça!
Aí Deus mandou um recado a um profeta recentemente escolhido: “Vá e se case com uma prostituta de um templo pagão. Os filhos que nascerem serão filhos de uma prostituta.” Pois o povo de Israel agiu como uma prostituta mantendo relações com vários deuses. 
E o profeta, que se chamava Oséias, obedeceu. Desta maneira radical Deus quis despertar o seu povo, fazendo-o ver seu pecado. Depois de alguns anos aconteceu ainda uma coisa pior: Deus exigiu que Oséias se casasse com uma mulher adúltera que tinha um amante.
“Ama-a assim como eu amo o povo de Israel, embora eles adorem outros deuses e lhes ofereçam bolos e frutas (Oséias 3.1)” Oséias foi e comprou uma tal mulher por cento e setenta gramas de prata e cinquenta quilos de cevada. Ele disse à mulher:
“Por muito tempo você vai esperar por mim, até poder dormir comigo. Durante esse tempo não se relacione com um amante nem trabalhe como prostituta para receber homens. Eu também esperarei por você todo o tempo.”
Um verdadeiro testemunho acerca do grande amor de Deus para com seu povo, para com aqueles que deveriam ser os seus, porque lhes foi dado a mensagem e a promissão de Deus. Além disso, porém, é um exemplo como Deus escolhe uma esposa para um dos seus seguidores. Como seria quando Deus, de fato, lhe daria uma mulher? Depois de tudo, em que ele falhara, não podia supor que Deus lhe escolhesse uma companheira ideal, assim como a cônjuge ideal que inventou na sua cabeça num tempo muito triste...
Ao cogitar nas profecias de Oséias, o vigésimo oitavo livro do Antigo Testamento da Bíblia, adormeceu e acordou só na alvorada, feliz e recuperado. Lavou-se na água que decorria ao lado da lapa e aproveitou a hora matutina para esforçar-se subindo o monte. Mas não subiu muito mais, e depois ele podia descer de afogadilho, e já às oito horas estava em Petrópolis. 
Logo comprou pãezinhos, frutas e iogurte. Iogurte é caro no Brasil, mas pensando nas duas noites sem gastar nada para hotéis ele não precisava pensar em economizar. No centro achou uma praça com bancos e árvores, onde sentavam muitos velhinhos, e assiduamente passavam adultos, jovens e famílias, vestidos com apuro e carregando Bíblias, lembrando-o de que estavam no domingo. Evocavam uma reminiscência de tempos melhores, uma saudade silenciosa de que também ele pudesse participar do regozijo que enchia essas pessoas. Depois de ter lido por muito tempo foi conhecer a cidade. Achou um parque pequeno, um palácio que serviu de hotel, e finalmente o palácio imperial, com parque e museu. Deixou a bicicleta com o guarda na entrada do parque e ficou umas duas horas no museu. Depois sentou na penumbra do parque, estudando a próxima lição e lendo a Bíblia. Cada dia lia uma carta do Novo Testamento e continuou com a história do povo de Israel na época dos profetas, como está escrita nos livros dos Reis, a Crônica e os livros dos respectivos profetas.
Apesar das advertências e até ameaças dos profetas, apesar dos sinais fortes como a vida de Oséias com a ex-prostituta, ninguém ouvia as palavras dos profetas. Jonas, no entanto, tinha sucesso com a sua missão em Nínive, a forte Capital do império assírio no Norte, pelo menos por enquanto. Aí reinava Tiglate-Pileser, também chamado de Pul, um rei duro, mantendo com mão de ferro a disciplina no país, que já se rendera ao desleixo. Mas também aqui muitas coisas iam de mal a pior. Os homens eram guerreiros, preclaros por crueldade exagerada. Muitos povos já foram sujeitados e escravizados, traslados para outras regiões, humilhados, as mulheres estupradas e escravizadas. Oprimiam também suas mulheres assírias. Estranhíssimo era o costume de que cada mulher assíria devia, uma vez na sua vida, oferecer-se como prostituta na escadaria do maior templo. Sentava lá esperando, obrigada a aceitar o primeiro homem que a queria. Era ruim para as feias, porque sentavam lá às vezes por semanas até um homem levava uma consigo. Mas Deus geralmente não mandava relâmpagos nem outros castigos, senão deixou aqueles, que não queriam pertencer a ele, andar nos seus caminhos perversos. Os seus, porém, as suas crianças, que amava de todo o coração, tentava enveredar, encaminhar rumo a uma vida certa, boa e honesta. 
“Estranho”, pensou A., “parece que atue como um ser humano, quase um pouco desajeitado, porque as coisas não funcionavam bem assim, como ele queria. Ou talvez a gente possa reparar nesse modo de atuar que Deus acha muito importante que as pessoas vêm a ele voluntariamente, - pois quase jamais intervém com milagres imponentes que extirpariam o mal patentemente, visível para todos. Ou seja que a culpa é dos homens que escreviam a Bíblia? Será que eles, por sua conta, esboçavam uma imagem de Deus errada, atribuindo-lhe caráter e atitude humanos? Por enfim, será que um deus onisciente não saberia desde o início, que os judeus o traíssem vergonhosamente? Sendo assim, por que ele se esforçara a favor desse povo infiel? 
Assim cismou e orou que Deus o deixasse achar uma resposta. Claro, se Deus fosse um deus inacessível, como alguns acham, não se importando com as bagatelas efêmeras dos seres humanos, só estabelecendo e personificando os princípios e as bases do mundo em geral, sua oração seria inútil e nunca receberia uma resposta.
No Antigo Testamento Deus não castigava e derrubava os assírios, mas ele também ouvia as preces dos judeus, e eles, enquanto arrependidos e revoltados ao seu Deus, eram invencíveis, derrotando exércitos de atacantes muito mais poderosos. Psicólogos ou teólogos não-crentes menosprezam esse poder como simples efeito psicológico. “Quem crê em alguma coisa sente-se forte e vence por maior autoestima.” Mas se fosse tão simples, que coloquem um bom psicólogo a um time de futebol simples, de alguma aldeia. Será que depois eles vão tornar-se campeão? Tem também crentes encarniçados, como também os terroristas árabes que até morrem por seu suposto ideal. Será que um desses terroristas, quando participar dos jogos olímpicos, ganharia uma medalha se lhe fosso dito que assim serviria a Alá?
Não, o mundo não é tão simples. Claro, que a psicologia pode ajudar, mas um milagre verdadeiro não pode ser explicado duma maneira tão fácil.

Novamente o poderoso exército assírio põe-se a atacar, guiado pelo filho de Tiglate-Pileser, rei Salmaneser V e seu general Sargão II. No ano 732 ªC. conquistam Damasco, a capital da Síria, e anexam todo o reino. Atravessam também o Reino do Norte, Israel, e levam muitos judeus presos consigo. O Reino de Norte, no auge do desenvolvimento e prosperidade, fica abalado, mas nem assim, os moradores aprendem. No ano 723 Sargão II, agora rei, retorna, destruí Samaria, a capital, e leva grande parte da população do Reino do Norte, talvez a maioria, para o cativeiro. A história do reino do Norte, que trazia o nome Israel, acabara.
No sul, sem embargo, Deus escolheu mais dois grandes profetas: Isaías e Miquéias. Miquéias alerta que Judá poderia sofrer o mesmo destino como o Reino do Norte. Além disso, fala em termos enigmáticos, anunciando um futuro reino de paz. Prediz que os judeus ficarão espalhados por todos os países do mundo, mas chegará o tempo em que Deus lhes possibilitar o retorno para o seu país. Novamente Jerusalém, a cidade tão querida e venerada, seria capital de todo o Israel. 
Em outras profecias anuncia o nascimento de um novo rei que nasceria na cidade pequena Belém. “O rei guiará seu povo como um pastor, governará com grande poder. O seu povo viverá em segurança, pois seu poder alcançará os lugares mais distantes do mundo. E ele trará paz.”
Muitos enigmas. Claro, o profeta escreveu a respeito de Jesus, que, de então a 730 anos, viria a nascer em Belém. Mas como ele podia dizer: O seu povo viverá em segurança, e ele trará paz? Certamente o número de guerras diminuiu com o surgimento da fé cristã, mas estamos longe de segurança e paz total. Tinha e tem até soberanos que se declaram cristãos, mas abusam a religião cristã como justificativa para guerras. Será que fala só da paz particular dos crentes, da paz da alma?

Já eram às três horas da tarde. A. comeu um pouco, depois foi apanhar sua bicicleta, visitou ainda uma igreja no estilo barroco e tentou, a seguir, achar o caminho ao norte. Isso era difícil. A rua o levou ao norte, mas não era aquela que constava do plano mirim da cidade no reverso do mapa do estado. Ele passou a Igreja Evangélica da Confissão Luterana de Petrópolis, um casarão bonito e branquinho. Era um afloramento súbito de reminiscências e lembranças do Norte da Europa, que está pontilhado de igrejas luteranas bonitas. Gostaria de tocar a campainha, entrar nesse lugar. Mas tinha medo, receio. Por quê? É, tinha medo, pois era um criminoso, e não sabia, se Deus, depois de tudo, o ainda queria. Agora estava tão longe da pátria, mas as sombras do passado o alcançavam mesmo aqui. Sabia que era necessário que apurasse e esclarecesse sua relação para com Deus.
Passou, entretanto, vários arrabaldes, subindo e descendo morrinhos. Finalmente chegou a um desvio por obras na rua, e assim atravessou o rio e achou a rua do mapa, que ia ao norte, ladeando o rio. Como este a rua descia suavemente, fazendo a bicicleta vermelha correr ligeiramente, até que chegou a uma encruzilhada com trânsito circular. 
Lá começou também uma estrada, que o levaria novamente à BR 040. Aí A. avistou uma informação turística, estacionou a bicicleta em frente à janela e entrou. A funcionária, quarentona, estava sozinha. Ela falava lento e claro, e A. podia entendê-la muito bem. Ela o informou com minúcia sobre a história de Petrópolis, os famosos corais de crianças, etc. Por fim lhe recomendou a seguir a uma rua ao sul, onde ficariam, a uns quilômetros, três pousadas.
“Pousada em Petrópolis deve ser muito caro”, pensou A. Mas ao sair da casa percebeu o céu carregado e supôs que a chuva poderia começar após meia hora. Mudou logo da ideia, lembrando-se que um hotel com banho e uma cama envolvente calharia muito bem, depois de dois dias na rua. Enfiou-se na rua determinada e viu logo uma placa: “Pousada Eucalipto. A partir de R$ 30. 1 km.” Era uma oferta especial, a metade do preço regular.
Estava lá em breve. Na ladeira acima da rua ficava um sobrado senhorial e elegante, com uma entrada provida de colunas brancas em cima da escada ampla, circundada por um parque viçoso. A casa o aliciou logo com uma força que o magnetizava, e assim empurrou a bicicleta pelo parque ao portal e se alojou.
Reparou desde o início que a casa estava timbrada por uma atmosfera muito especial. Por isso voltou, depois do banho, à portaria para estudar as informações sobre a casa. Li que uma ONG, dona da casa, mantém aqui uma creche para duzentos crianças carentes. Os hóspedes ficam na outra ala do sobrado e ajudam ao refinanciamento do projeto. Foi-lhe como se visse num espelho embaçado o passado. No seu bairro, em Hamburgo, na Alemanha, encontra-se também uma antiga casa senhorial dentro de um parque. Lá funcionava uma creche, mas o governo quis vender a casa. Os cidadãos formavam uma ONG para adquirir o “palácio”, mas faltavam ainda planejamento geral e sobretudo ideias para o refinanciamento.
Por isso chamaram A. para tornar-se presidente. Sua concepção baseava também na ideia de dividir a casa, aproveitar uma ala para ganhar lucro. Na outra ala continuaria uma creche, e à noite a ONG poderia instalar cursos, recitais, etc. A., como também membro de diretorias de outras ONGs, era uma figura integrador, garantindo a participação de várias ONGs, associações e partidos, no projeto. Mas a catástrofe, que destruíra toda a sua vida acabara também com esses planos, enquanto ele mesmo...ai, não, não pôde pensar nisso...
Os dois jovens na recepção lhe recomendavam a piscina nos fundos. Iluminavam tudo exclusivamente para ele, pois não havia lá outros hóspedes. Aproveitou a piscina, a sauna e a água fria depois. De volta no quarto comeu o que tinha comprado em Petrópolis, e mais tarde, passeou pela casa. A ala das crianças era fechada, mas ele viu muitas pinturas infantis nas paredes. Depois achou uma sala com móveis antigos e um piano. Gostaria muito de tocar para as crianças. Absorto e cismarento saiu, sentindo alguma coisa semelhante à sensação no sonho da excursão com o pastor para R., quando a professora de arte falou sobre a técnica de imprimir com varas. Foi-lhe como se não somente visse um trecho de seu passado, mas também uma nesga do futuro.
Saiu meio estonteado, deixando atrás o piano aliciador, mas ele não quis pedir permissão para não chamar atenção. Sentou-se de novo na portaria. Não conseguiu entender a televisão, mas aproveitou as revistas para acomodar-se ao português.

Na manhã seguinte o sol o acordou, iluminando a varanda. Tomou um banho que o animou muito e estudou uma completa lição de português. Depois levou alguns papeizinhos com vocábulos consigo e procurou a sala do café de manhã. Apesar de que na pousada pernoitassem somente umas dez pessoas, o café era muito farto e gostoso. Adorava tomar um bom café da manhã e desfrutou a abundância provando de tudo, à vista do bonito jardim do pátio. No fundo ouvia as vozes alegres das crianças, o que lhe era como uma música dum outro mundo. Um mundo perdido, do qual não fazia mais parte. Mas ele pertenceria novamente a esse mundo, se Deus o ajudasse. SE DEUS O AJUDAR...
Depois do café ficou ainda mais de uma hora no pátio bonito para ler revistas e aprender assim português. Ler uma revista era para ele muito mais fácil do que falar ou entender. Muitas palavras portuguesas são parecidas com palavras latinas, inglesas ou gregas, línguas que A. estudara na escola pública. Outras conhecia do espanhol ou italiano, que conhecia basicamente. E muitas palavras, especialmente aquelas da política, economia, teologia, física, cinematografia, biologia etc. são quase as mesmas em todos os países da Europa, sobretudo no oeste do continente, como Portugal, Espanha, Alemanha, Inglaterra, França, Suécia etc. Por exemplo, a palavra democracia surge nesses países na forma de democraty, democratia, Demokratie, demokratcja, etc. A gente reconhece a palavra facilmente quando ler numa revista. Mas se a gente quer falar a palavra, tem que saber a forma certa para o respectivo país, e apoderar-se da pronúncia certa, que diverge bastante. 
Ao ler a gente tem também mais tempo para refletir. Acostumado já pelo uso de várias línguas, A. podia adivinhar o significado de muitas palavras pelo contexto ou pela raiz comum com palavras de outras línguas. Evitou consultar o dicionário, e assim conseguiu ler razoavelmente rápido, lendo muitas páginas.
Quando ultimamente saiu sentiu logo a consequência desvantajosa do ócio: Estava já quente demais! Reparou na bicicleta a falta de um parafuso, que segurava o bagageiro. Como poderia agora, já na periferia de Petrópolis, achar uma oficina? Mas (por coincidência?) passou já depois de um quilômetro uma pequena loja de bicicletas. Não houve o parafuso adequado no sortimento, mas o dono lhe trouxe um balde grande cheio de parafusos e porcas velhos. Entornaram tudo nas lajes diante da loja e acharam parafuso e duas porcas adequadas.
Depois de um bate-papo com o gentil vendedor A. retomou a viagem, muito feliz por sua boa sorte. A. passou novamente o tráfico circular, onde ele avistou na informação turística uma jovem em lugar da mulher do dia passado, e escolheu o caminho rumo a Araras, cidade pequena e bonita, conforme indicada no prospecto. Precisava seguir por uns quilômetros a estrada interurbana em direção ao Rio. Mas o trabalho debaixo do sol, na frente da loja de bicicletas, o deixara tão exausto, que pegou o primeiro caminho ao lado, que subia a uma colina, para parar e ler na sombra de arbustos. 

“O Deus Eterno já nos mostrou o que é bom, ele já disse o que exige de nós. O que ele quer é que façamos o que é direito, que amemos uns aos outros com dedicação e que vivamos em humilde obediência ao nosso Deus.” Essa fórmula de vida, simples e clara, o profeta Miquéias já proclamou em sua época, por volta do ano 730.
Exprobrava os males desse tempo: políticos que exigem dinheiro, por fora, juízes que recebem presentes e torcem a justiça, celebridades que falam francamente sobre seus planos e desejos maus, assim como hoje, quando atores, políticos, estrelas e outros contam na televisão sobre as suas façanhas e aspirações questionáveis e pecaminosas, das quais se ainda orgulham. Como se parecem os tempos, pensou A. Neste tempo já governava o tataraneto do rei Joás, que acudia ao nome Acaz. Ele era um seguidor ardente do deus Baal, a quem erguia estátuas de metal. Como todos os reis nesta época possuía várias mulheres e tinha muitos filhos. Certo dia levou algumas crianças suas para o altar desse deus, matou e imolou-as, queimando os corpos jovens, para ganhar a simpatia de Baal, a exemplo dos povos pagãos na vizinhança. Aconteceu, contudo, o contrário. Judá, o reino do Sul, sofreu uma derrota contra os sírios e mais uma contra o reino do Norte, que nesse ano ainda existia. O exército de Israel levou consigo dezenas de milhares mulheres e crianças do sul para a escravidão. Oprimido de todos os lados o rei Acaz pediu ajuda dos assírios. 
Rei Salmaneser V e seu irmão general Sargão aproveitaram o ensejo e vieram conquistar, como já mencionado, a Síria e o Reino do Norte, expugnando as capitais Damasco e Samaria, mas Acaz devia pagar caro pela ajuda. Outorgou aos assírios mesmo o tesouro do templo. Agora Acaz tentou melhorar a própria sorte voltando se para os deuses de Síria e Assíria; destruiu os altares originais e as bacias do templo de Deus e cometia atos torpes e abomináveis, mas a sua situação piorava cada vez mais, até que ele morreu. No Nínive, no entanto, Salmaneser morreu sob circunstâncias duvidosas e o general Sargão tornou-se rei como Sargão II.
No Judá, o filho e sucessor de Acaz, o jovem rei Ezequias, não era da mesma laia como o pai, mas antes do jeito dos primeiros reis Davi e Salomão. Estes, embora que não fossem anjos ou santos e tinham também várias falhas, queriam fazer o que é bom e direito, respeitando a Deus ao pôr a sua vida sob controle divino. O rei moço Ezequias restabeleceu o culto e o serviço ao Deus Eterno, no templo, e convidou para uma Páscoa solene em Jerusalém. Uma onda de restauração abrangeu todo Judá, estendendo-se até o território no Norte, antes Israel, que agora era somente uma província assíria, onde moravam ainda alguns judeus não degredados.
Aí morreu em Nínive rei Sargão II. Seu filho Senaqueribe, o próximo rei, resolveu acabar com o único dos povos avizinhados, que até aí preservava a sua independência. Ele reuniu seu exército e assaltou Judá. Ezequias, sem embargo, orava junto com o profeta Isaías ao Senhor e os judeus entrincheiravam-se nas cidades fortificadas. O contingente principal do exército assírio assediava a cidade Laquis, uns sessenta quilômetros ao sudoeste de Jerusalém, cortando assim também o caminho ao Egito, que poderia mandar ajuda aos judeus para dificultar a política expansiva do império assírio. Depois de certo tempo o rei Senaqueribe mandou alguns oficiais a Jerusalém para convencer o governo judeu a se render.
Isaías, porém, corroborou seu rei garantindo: “Deus me disse: Os assírios não entrarão na cidade, eles nem sequer atirarão uma só flecha contra ela.”
Contra toda a razão humana Ezequias obedeceu ao profeta. Os oficiais assírios voltaram com raiva a Laquis. Qual susto, porém, os abalou quando acharam os campos em torno da cidade abandonados e empestados pelo bafio nojento de carniça, emanação repugnante de milhares de mortos. Quase todo o exército famoso estava extinto, como morto por uma mão invisível, por algum fenômeno inexplicável e misterioso. O rei estava fugindo com os últimos sobreviventes, rumo a Nínive. Pasmado galgou a escadaria do templo principal, fazendo com que as mulheres, que ali se ofereciam como prostitutas, recuaram atônitas e assombradas. Ele quis oferecer um sacrifício à divindade principal do império assírio, para chegar a saber a causa para tamanho desastre.
Ao lado do portal esperava seu segundo filho, Eser-Hadom, cumprimentando-o indiferente e frio, fitando os olhos no horizonte. Na frente do altar ficaram mais três filhos, entre eles o filho mais velho. Eles desembainharam suas espadas e penetraram o rei. Depois fugiram; Eser-Hadom, no entanto, assumiu o poder nesse império poderoso e guerreiro.
“O fato de que o povo de Israel (e Judá) sempre vencia, mesmo em impasses graves, quando era fiel a Deus, é simplesmente coincidência ou falsificação”, é sempre a explicação estereotipada dos não-crentes, que querem construir uma visão do mundo sem Deus. Claro, sabia A., isso é uma simplificação estúpida, falada sem nenhuma prova. Mas, ao outro lado, será que a gente pode ter certeza de que a Bíblia é certa? É verdade que a gente pode confiar em Deus sem sofrer decepções e fracassos? Por quê Ezequias tinha tanta certeza? Perguntas e mais perguntas. Mas agora era outra coisa que era certinha: O sol estava no zênite, a sombra ao lado do caminho escasseava, e também não tinha comida. Era tempo para continuar a caminhada.
Depois de dois quilômetros começou à direita a estrada para Araras, ladeada por um riacho. Ao lado oposto, no meio do verde pujante, agachavam-se casebres, ligados com o lado aquém por pinguelas e passarelas particulares, de pranchas e cordas. Apesar da pobreza evidente A. ficou impressionado pela beleza desse lugar. Também o avô de A. teria gostado dessas choças. Gostava, pois, ficar no verão numa choupana rústica à beira de um rio perto da sua cidade. Ao lado desse rio encontram-se centenas de casas e casinhas pequenas e primitivas, cada um com quintal que serve de jardim, horta, pomar e gramado para se deitar ou brincar. Em quadras desse tipo os alemães, que moram em grandes cidades, saciam sua sede e saudade da vida primária e em harmonia com a natureza.
Uns minutos depois A. deparou com um ponto de ônibus rústico, com telhado redondo de madeira, ou seja, cônico, como uma palhoça africana sem paredes. A. sentou-se e olhou o rio e a vargem ao lado dele, onde uma gurizada estava jogando futebol. Era um bom lugar para mais uma pausa criativa. Estavam lá também algumas lojas pequenas, e ele comprou pãezinhos, frutas e flocos de aveia. À tarde, quando o sol já estava bem mais baixo, projetando sombras das casas e árvores na rua, continuou a montaria. A vila Araras trouxe-lhe à vista muitos terrenos bonitos, especialmente ao lado do rio, e também pousadas de alto nível, com campo de tênis, piscina, etc. Após a vila a estrada começou a subir nas montanhas, e ele tinha que empurrar a bicicleta andando a pé por muitas vezes. Mas a paisagem era maravilhosa, e ele parou várias vezes usufruindo o panorama, que se ampliava cada vez mais ao subir, vinha-se tornando mais ancho e sublime. 
Mas à tardinha o céu virou carregado e A. deitou-se a procurar um lugar que lhe fosse amparo contra a chuva e para a noite. À direita, no vale do riacho, viu grandes lotes com mata, campo de tênis etc., mas o silêncio lhe sugeriu que fossem casas de férias, agora abandonadas. Já quis se refugiar num lote, mas um pressentimento aziago o deteve. Empurrou, então, a bicicleta morro acima, sem pisar no lote. Passada mais uma curva da estrada podia abranger com a vista todo o lote e logo percebeu os três cachorros grandes, que corriam pelo lote.
Nas montanhas alemãs tem muitos terrenos públicos em forma de matas e pastagens. Seria muito fácil achar um lugar para pernoitar; tem também abrigos de madeira para o feno, vacas, ovelhas, cabras e também para o fazendeiro quando de tempestade, que normalmente ficam vazios e poderiam servir como hotel gratuito para um viajante. Já no Brasil a situação é mais difícil, porque as propriedades rurais são cercadas e não tem como turistas andarem nelas. 
Diretamente ao lado da estrada estavam, à direita, as altas rochas, e à esquerda, o abismo. Quando passou uma povoação, avistou uma casa em construção. Mas ela era entalada entre outras casas de modo que teria sido impossível chegar até lá despercebido. Precisaria de um prédio solitário para dormir despercebido. De tal maneira estava feliz de que achava pelo menos uma futrica na saída do povoado, pois já estava a começar a chuvarada. A. pediu um salgadinho e uma boa cerveja. Antes, porém, bebeu quase um litro de água da sua garrafa, tamanha era a sede depois do caminho árduo. 
Depois de uma hora e meia pôde continuar o caminho. De novo chegaram longas subidas curvadas, e logo começou o crepúsculo. Agora seria ainda pior, se ficasse pela noite sem abrigo, dormindo ao lado da estrada, porque tudo era ensopado pela chuvarada da tarde. E, porventura, fosse chover mais uma vez!
Já começou a noite e, sem mais, ele se viu em meio do negrume úmido, sozinho entre as montanhas cujos vultos mal se recortavam diante do céu leitoso. Bom, pelo menos estava agora bem fresquinho, deu para empenhar-se pedalando. Mas muito tempo precisava andar empurrar a bicicleta pesada ladeiras para cima. De tempo em tempo passavam carros iluminando a paisagem e desenhando sombras espectrais. Não achou lugar nenhum. 
Mais tarde ouviu o barulho estrondoso de um ônibus que se arrastava pelas curvas. Era um ônibus escolar, cheio de crianças. Ele ultrapassou a A., deitando rolos grossos e fétidos de fumaça. Parou a trezentos metros em frente, e alguns alunos saíram. Lá deve ter uma aldeia, pensou A. Pouco tempo depois A. ultrapassou o ônibus que tinha problemas. Só espalhou um estrondo atro, timbrando a solidão da noite, mas não conseguiu o arranque.
Logo depois do ponto do ônibus, ao ponto mais elevado, a rua contornou uma rocha, que confinou com a estrada. À direita o terreno desceu para um vale, e ao lado da estrada estava uma cancela larga vedando um caminho escarpado, mas transitável. A. viu apenas o início, porque o caminho desapareceu numa mata. Supôs uma casa no vale. Um certo sentimento fixou-o nesse lugar e, portanto, esperou em frente à porteira para que passasse o ônibus arquejante, que, enfim, conseguira uma arrancada estrepitosa. Era uma voz interior que lhe disse que aqui estaria um lugar certo para a noite. Ele hesitou. Será que fosse talvez só a semelhança dessa cancela com aquela há três dias, quando dormiu pela primeira vez no ar livre? Não era bem possível que aqui embaixo espreitassem, outrossim, três cães ou outros perigos? Ele preferiria continuar a rua, mas algo o compeliu a ficar aí mesmo. Engoliu um soluço, trancou a bicicleta, escondeu as duas bolsas pesadas ao pé dum arbusto e desceu o caminho pela mata. Era escarpado mesmo; bom que já tinha calçado seus tênis para ter mais firmeza quando empurrar a bicicleta montanha acima, à tarde. 
No vale achou um arroio, um prado com algumas velhas árvores frutíferas e uma pequena praça com uma casinha de madeira. As venezianas das janelas de madeira estavam seguradas por pregos largos, evidentemente uma cabana antiga e meio abandonada há anos. Estavam lá algumas coníferas de grande porte que configurariam um bom amparo para dormir debaixo dos caules amplos. Aí escalou a encosta novamente para ir buscar a bagagem. Passou também a bicicleta por cima da cancela fechada e escondeu-a, embaixo de um arbusto, junto com uma das bolsas bem embrulhada em folhas e sacolas de plástico. 
Ou a densidade das nuvens diminuíra, ou seja, por falta de faróis de carros encandeando: A. passou a ver melhor, quando desceu novamente com a bolsa pesada na mão.
Devassou, então, o lote seguindo o arroio pequeno com água clara. Era um paraíso particular que alguém se arranjara; primitivo e simples, mas muito bonito. Ao lado da casa deslizou água de uma rocha, aduzida para perto da casinha por um meio-cano, enchendo uma tina de madeira. Aqui ele podia se lavar, um recreio gostoso depois desse dia árduo. 
Mais tarde, quando acabou de preparar a enxerga para a noite, a chuva recomeçou. A. reparou logo que as coníferas não protegiam bem, e ele enrolou a enxerga e esperou embaixo do beiral estreito do casebre. Era só uma garoa fina, mas incessante e sem vontade de parar. Examinou a casa e viu que uma das venezianas estava solta, a madeira era estragada e não segurava o único prego. A. abriu e pôde entrar facilmente. Apesar de não fumar tinha consigo um isqueiro, mas infelizmente nenhuma vela. Alumiou, então, com o isqueiro e viu um pequeno compartimento, cheio de ferramenta e trastes, entre eles um sofá com estofos soltos e incoerentes. 
Ao lado achou uma cozinha, mas nenhuma vela. O isqueiro, porém, barato que era, começou a queimar e derreter-se, chamuscando-lhe os dedos. Quando, depois, quis reacendê-lo, o isqueiro falhou. Só à manhã chegaria a saber que o beiço encurvado, de plástico, bloqueava o bico, coisa simples, mas não remediável sem luz. Restava-lhe somente orientar-se tateando, arrumar às cegas o sofá, e desenrolar o saco de dormir. Mal entocara-se nele, começou uma chuva forte, rufando o telhado, e aí A. vinha percebendo como era bom ter achado esse lugar enxuto e protegido. Mais um milagre ou um enigma!
Como acontecera que achou esse lugar? Mais uma vez somente por acaso fortuito e boa sorte? Ou o próprio Deus? Contudo, se fosse Deus, o quê ele queria mostrar-lhe ao conceder-lhe tantos benefícios? Nas últimas semanas lhe ocorriam tantas peripécias que tinham um ar milagroso. Claro, a maioria das pessoas tende a forjar muitas explicações para fenômenos sobrenaturais, que contornam a existência de Deus e negam a origem divina desses acontecimentos extraordinários. Eles partem da hipótese que, um dia, tudo será explicável pela biologia, física, e outras ciências, incluindo fenômenos como intuição, sexto sentido, clarividência, transmissão de pensamentos, e assim por diante. Quase todos concordam que existem forças e fenômenos inexplicáveis, que pelo menos parecem sobrenaturais. Já que elas existem, deveria ser um desafio muito importante para qualquer pessoa prudente, adquirir conhecimentos sobre esses poderes desconhecidos e dar-se bem com eles. E com essa conclusão estamos lá onde começam as religiões.
A. deitava no sofá, mas não podia dormir. Lembrava-se da última vez que dormira numa casa parecida, também de madeira e muito simples e rústico. Era também um país que lhe era estranho. Por uma semana, morava numa cabana velha numa pequena ilha rochosa dum grande lago canadense. Mas nesse tempo não estava sozinho. Alguém estava junto com ele, mas ele tinha apagado toda a lembrança, à força. Mas agora afloravam as reminiscências de novo. “Meu Deus”, ofegou, eu preciso acabar com essa loucura. Até quando terei de suportar esse sofrimento? Até quando o meu coração se encherá dia e noite de tristeza? Eu preciso acabar com isso. Não posso esconder-me para sempre, fugindo ao meu passado! Tenho que confessar todos os meus erros, tenho que assumir e enfrentar a minha culpa, tenho que pôr todo esse malogro, essa vida falha, aos teus pés, ó Pai. Tu já sabes como eu caí em erro, mas é preciso que eu confesse conscientemente para que eu perceba como tu atuaste na minha vida. Preciso procurar os resquícios da tua atuação, da tua providência, na minha vida.”

Aos quinze anos A. estava zangado ou em dúvida a respeito da própria vida, como muitos adolescentes. Procurava as respostas em vários lugares, entre eles também na Bíblia, mas sem entusiasmo. Orava, porém, ao Senhor, e certa noite, quando tivera muitos problemas, disse: “Senhor, eu sei, que estou cometendo muitos erros. E, além dos erros, que conheço, tem certamente mais erros, que eu não reparo. Ó Senhor, eu quero que tu sejas o Senhor da minha vida. Tu nos deste a liberdade, mas eu, voluntariamente, reponho a minha vida nas tuas mãos. Seja o timoneiro da minha vida, do meu corpo e do meu espírito. Dirige-me segundo a tua vontade, pois eu quero ser teu.”
Alguns dias depois andou pela mata da sua povoação que era situada numa paisagem lindíssima, cogitando no discurso recente do pastor Hans a de Boer, que tinha visitado a igreja de A. Esse pastor holandês atuava principalmente na América do Sul, e fora até torturado por sua fé. Nesse momento A. ouviu uma voz, como falando no seu interior: “Tu irás também para o Terceiro Mundo, e trabalharás lá para mim, servindo às pessoas.”
Nesse tempo A. pensava que deveria ser o melhor preparo para a futura missão estudar medicina. Mas a vida tomava outra direção:
A igreja evangélica luterana da povoação era situada na R., uma vila que ficava a cinco quilômetros. De vez em quando o pastor dessa antiga catedral do século XIII, que era evangélica desde o tempo da reforma no século XVI, ia ao povoado de A. para celebrar o culto numa casa pública. Procurava-se, neste tempo, um pianista para substituir a pianista que, aos 75 anos de idade, quis acabar com o serviço. A. apreendera tocar piano, mas não era nenhuma fera. Por isso pediu que o diretor da música na catedral de R. o ensinasse. O diretor era um músico excelente e carismático, mais muito contestado por seu progredimento incomum e até teimoso. Ele consagrava-se verdadeiramente com tudo ao seu ministério, ao louvor ao Senhor; era para A. um exemplo ardente que atiçava a pequena flâmula de fé nele. A. começou a dedicar-se à música sacra, começou a amá-la de todo o coração; e essa música, o louvor e a adoração de compositores famosos ao Senhor, lhe visavam o caminho. 
Nesse tempo a catedral precisava dum novo órgão, e o diretor de música abonou e até pagou uma grande parte do dinheirame pessoalmente. Por isso aceitou quase todos os convites possíveis para dar concertos e recitais em outras cidades e países, como organista e também como maestro. Desta maneira ganhava os fundos para o refinanciamento do novo órgão e para estabelecer em R. um centro de música sacra. A. sendo aluno do diretor, vinha substituindo seu mestre de mais a mais. O órgão novo, aliás, uma vez pronto, desatou um eco retumbante internacional, porque o som era tão puro e encantador. Era um verdadeiro privilégio poder tocar esse rei dos instrumentos, servir ao Senhor por meio dum órgão que multiplicava por tanto suas próprias habilidades ainda pouco desenvolvidas, e ele dedicava-se entusiasmado ao serviço. Negligenciava até a escola, mas sempre estava com boa sorte e continuava com notas ótimas. Estava muito feliz.
Não estranhou com a cadeia de boa sorte perpétua, nem a percebeu sequer, talvez porque as pessoas se acostumem a benefícios e os considerem como algo comum, ou elas atribuem os resultados à própria inteligência, ao zelo e desempenho pessoal. Seja como for, a boa sorte continuou: Por mediação dum coronel-tenente do exército, que participava com toda a família no coral da catedral, podia fazer o serviço militar em Lubeca, a vinte quilômetros de R. Desta maneira podia continuar a assistir no louvor, nos fins de semana, - mais um desenvolvimento muito propício, que iria ter consequências decisivas para o seu futuro. A “boa estrela” de A. nem caiu durante o serviço militar. Pelo contrário, sua vida como felizardo deslanchou. Fez às custas do exército carteira de motorista, e depois de cinco meses, apesar de ser somente soldado comum, foi feito o responsável por 70 veículos, posto que em geral é assumido por um primeiro sargento. Além da vantagem de poder adquirir um carro para si mesmo era a maior melhora o próprio escritório. 
O expediente no exército abrange mais de cinquenta horas semanais, mas nunca tem tanto trabalho para encher as longas horas. Por isso os soldados esbanjam o tempo ociosamente, escarrapachando-se, contando piadas, bebendo café ou até álcool, fumando, folheando revistinhas pornográficas, etc. A., todavia, podia desde então usufruir o tempo vazio para ler, estudar livros de música etc. no seu escritório. Já o leitor entende, que A. era, nesse tempo, um “felizardo”, e por isso não dá para admirar, que certo dia o batalhão tornou-se herdeiro dum teclado grande. Normalmente um batalhão não pode fazer nada com um teclado, deve ser um caso único, que alguém deixou seu teclado com o exército. Mas aqui aconteceu, e o primeiro sargento responsável emprestou-o a A. Ele o colocou em seu escritório e podia de tal maneira também treinar seus dedos, dentro e fora do expediente.
Muitas vezes foi, de bicicleta, a um povoado perto para tocar o órgão numa igreja. Era mister, pois, treinar os pés, que tocam o baixo nas 27 teclas grossas dos pés, como um contrabaixista duma banda ou duma orquestra dedilha a melodia do baixo. Isso se torna às vezes um sapateado movimentado, e o organista nem por isso pode perder o controle sobre as mãos. Também fora da área da música tudo lhe saía ótimo. Pôde, por exemplo, viajar para o Canadá para participar em uma manobra do exército na estepe do Canadá central. Também foi liberado do serviço ali, por alguns dias, e ele visitou dois parques nacionais. Outra vez foi junto com outros soldados convidado para passar o fim da semana com a Igreja Batista de Winnipeg. Já os episódios nesse tempo militar poderiam encher um livro.
No antepenúltimo mês do serviço tirou férias para fazer, em Lubeca e Hamburgo, as provas para poder estudar nas respectivas Escolas Superiores de Música. Tocava órgão e piano e foi testado em canto, composição e teoria. Só os melhores foram aceitos, alguns poucos entre muitos candidatos. A. não foi preocupado, acostumado a ser muito elogiado em sua vila, mas, na verdade, não tocava muito bem piano, porque durante os doze meses já passados no serviço militares quase só tocava órgão e teclado, o que é uma grande diferença quando se trata de música clássica. Em ambas as cidades desacertou por um triz os primeiros lugares e foi reprovado. Ele nunca calculara antes com um fracasso, nem tinha um plano para o que fazer nesse caso. Por decepção quis aceitar a oferta do exército e virar oficial.
Mas aí aconteceu uma coisa que normalmente deveria ser impossível: uma igreja evangélica luterana de Hamburg quis contratar A. como músico profissional, embora normalmente na Alemanha a condição seja um curso universitário de quatro anos, que termina com o bacharelado de música sacra. 
A convocação era outra vez resultado duma incrível cadeia de coincidências e boa sorte: O oficial, que cantava no coral da catedral, mudou-se para outra cidade. O novo coronel-tenente comprou uma casa exatamente no mesmo povoado onde morava A., ainda que esse lugar fosse um pouco longe do quartel. Ele participava de nenhuma igreja, mas por coincidência o povoado celebrou nesse ano seu quinhentenário, e o prefeito voluntário, que era evangélico, convidou o pastor da catedral para celebrar um culto especial durante as comemorações. Por mais uma coincidência o coronel-tenente tinha um vizinho que o convenceu a visitar o culto. Sugeriu-lhe que seria bom um coronel-tenente participar num ato meio-oficial do povoado.
Depois do culto, A. cumprimentou seu chefe militar, a quem ele até então nunca foi apresentado. O comandante, surpreso quando chegou a saber que o pianista era um soldado seu, tinha logo uma ideia que tornaria se muito decisivo para o futuro, e perguntou a A., se sabia também tocar o órgão da catedral. Quando A. disse que sim, o coronel-tenente apresentou seu plano: quis que a festa anual do batalhão, para convidados como políticos, presidentes de ONGs e clubes, empresários, etc., começasse com um recital na catedral antiga de R., com um verdadeiro soldado do batalhão tocando o órgão famoso. Por isso, no início do ano novo, A. podia ficar por dois dias em R. para preparar-se para o recital, que se tornou um grande sucesso, porque a extraordinária pureza e sonoridade do som desse órgão extraordinário comovem quase todos. Um oficial da Academia Internacional das forças armadas da Alemanha teve, por coincidência (?), a ideia de apresentar a catedral e o soldado tocando o belíssimo órgão, também durante a próxima reunião importante de oficiais internacionais. Por isso, no maio, A. foi mandado por mais dois dias para exercitar-se na catedral.
Antes do recital a academia teria um tempo para visitar a catedral no estilo românico, guiado por Uli, o sacristão responsável, zelador e guia da igreja, que é um bom lugar turístico. Como combinado, A. e Uli esperaram os oficiais, às quatro horas da tarde, mas eles não chegaram na hora. Uli, um homem bem camarada, de uns sessenta anos, contou algumas piadas, mas uma hora depois, às cinco horas, ficou inquieto, porque às cinco e meia já chegariam mais que cem pessoas da igreja evangélica luterana do bairro Farmsen de Hamburgo. Eles tinham combinado com Uli que ele lhes explicaria e mostraria as belezas das catedral, porém sem o órgão ser tocado. (Esse serviço custaria uns 100 Euro a mais.) “Farmsen”, refletiu A.. “Parece-me que já ouvi esse nome. Mas quando?”
Nesta época já tinha mandado as inscrições para as escolas superiores e não imaginava nenhuma dificuldade. Por isso respondera também a três igrejas em Hamburg que procuravam um músico para tocar órgão e reger o coral. Além de ter desta maneira uma igreja para participar ativamente e a possibilidade de usar os instrumentos para se treinar, ganharia um pequeno salário com essa ocupação secundária para ajudar aos seus pais custear o apartamento, livros de música e outras despesas em Hamburg. Em um desses três casos A. cometera, porém, um erro, desentendendo o classificado num jornal. Eles, pois, sendo uma congregação muito grande, queriam um músico profissional integral, com bacharelado concluído, que trabalhasse ali o dia inteiro. A igreja, em dúvidas, ligara para A., e quando vieram a saber que tudo era um desentendimento tiravam a carta de A. da pasta dos concorrentes à vaga, já não tomando-a em consideração. Infelizmente não se lembrou exatamente do nome dessa igreja, e Hamburg tem umas duzentas igrejas luteranas. Será que era mesmo Hamburg-Farmsen? Nesse momento três ônibus chegaram ao adro diante da catedral. Eram os oficiais e a congregação no mesmo momento. Não era possível ajuntar os dois grupos, uma vez que os oficiais de vários países precisavam de tradutores, e Uli pediu às pessoas de Hamburg-Farmsen que esperassem visitando as imediações como o antigo mosteiro e a residência do duque. Aí A. teve de repente um palpite. Pediu que Uli lhes oferecesse um pequeno recital com o órgão famoso, de graça, como se fosse uma compensação pela espera. Uli alegou, que isso aumentaria o atraso deles, e eles queriam sair às seis e meia. Mas A., que teve um certo pressentimento, pediu: “Ofereça-lhes o recital dum jeito que fique impossível rejeita-lo. Anuncie simplesmente que o organista auxiliar da catedral A. dará um pequeno recital de órgão.”
A maioria da diretoria da Igreja Evangélica Luterana de Farmsen não participava da excursão; era, pois, um dia útil, e a maioria dos participantes constituía-se de aposentados. Mas aconteceu, que o vice-presidente, um ex-diretor da administração pública aposentado, estava lá, e, por acaso, lembrou-se do nome A. E os meros dez minutos, em que ele apresentou o órgão, impressionaram os ouvintes tanto que o vice-presidente disse ao pastor que estava com o grupo: “Acho que seria muito bem convidar esse jovem para uma entrevista, mesmo sendo ele sem bacharelado.”
Através dessa fila de acontecimentos favoráveis A. foi convidado para mostrar suas habilidades, junto com três candidatos escolhidos. O pequeno coral da igreja gostava muito da maneira direta e atiradiça que A. aprendera com o diretor da catedral, e, por conseguinte, a maioria da diretoria votou nele. No dia 29 de setembro, acabou o serviço militar e no dia 30 ele foi para Hamburgo.
Essa cadeia de acontecimentos entrelaçados, peripécias e coincidências, é impressionante. A probabilidade de que isso tudo pode acontecer por acaso, é praticamente zero. Claro, o caminho poderia ter sido diferente, levando-o para outro lugar. Se tivesse achado nesse lugar uma certa felicidade, um crente teria sempre suposto que o próprio Deus lhe tivesse proporcionado essa oportunidade. Ficava, porém, uma última dúvida, mesmo sendo minúsculo, e mesmo em face de uma tamanha concatenação de coincidências:
É muito comum que as pessoas confundem coincidências e acasos com milagres e prodígios, deliberou. Ele imaginou um exemplo simples: Um multimilionário, já velho e sem herdeiros, pega a lista telefônica, abre e aponta algum nome às cegas, e manda lhe dez milhões de dólares. Essa pessoa talvez suponha a mão de Deus como autor da fortuna, sobretudo se fosse uma pessoa com problemas ou grande desejo, que dinheiro pode resolver, e talvez orasse já antes a Deus a respeito. Claro, é também possível, que o próprio Deus despercebidamente dirigiu o dedo do milionário, mas mesmo se Deus não atuasse alguém seria beneficiado. Constelações parecidas se davam, quando um imperador ou rei despojava uma menina pobre, como era o caso da famosa czarina Catarina Magna da Rússia, ou se um avião cai no mar e cinco pessoas sobrevivem numa balsa, boiando alguns dias no mar, e, enfim, são salvos. Do ângulo de vista particular das respectivas pessoas essas ocorrências sempre são milagres se bem que, pelo menos em parte, podem também acontecer sem intervenção de Deus. Se uma bomba cai em um formigueiro, algumas poucas formigas sobrevivem. Mas será que é por acaso ou será que Deus determina, quais formigas vão sobreviver?
A coisa seria somente certa, se Deus respondesse às orações dos sobreviventes na balsa, avisando a salvação ou recomendando como atuar para serem salvos. Mas mesmo em tais casos os céticos duvidam e contestam, alegando que a resposta não vem de Deus, mas é produzida pela própria fantasia, teoria definida por filósofos como Marx, Feuerbach ou o psicólogo Freud. Um milagre é somente incontestável, se antes tenha sido anunciado com pormenores, salvando talvez desta maneira a vida das pessoas, porque isso um “superego”, feito pela fantasia humana, nunca pode conseguir. Seria, por exemplo, um milagre se alguém na balsa sonharia ou ouviria uma voz mandando remar na direção oposta para encontrar um navio, que os salvaria. Eles, contra toda a razão, obedecem e assim se salvam.
Considerando tudo o que aconteceu era essa cadeia de acontecimentos quase já uma prova certa para que Deus assumira o timão, o controle, da vida de A. A. resolveu, desde então confiar a Deus, aceitá-lo como alicerce firme, sobre o qual ele construiria uma casa de vida, certa e indubitável. Queria levar a sério as promessas da Bíblia e os estatutos. Queria amar a todos, dedicar-se totalmente ao seu trabalho que seria na casa do Senhor, sem preocupar-se do dinheiro ou de outras incertezas a respeito do futuro, queria viver o louvor ao Supremo Senhor.

Na Alemanha, berço da música evangélica mundial, ainda hoje os músicos evangélicos antigos como Johann Sebastian Bach, Georg Friedrich Händel, Heinrich Schutz, etc. gozam um alto renome. Sobretudo a igreja evangélica luterana, que em alguns estados alemães como também na Dinamarca, Suécia, Noruega, Islândia, Estônia e Finlândia é a confissão predominante, cuida da rica herança dos séculos XVIII e XVIII, e as músicas eruditas dos antigos mestres soam assim nos cultos como em concertos nas igrejas. Como em toda a Europa os músicos esforçam-se para alcançar a maior autenticidade possível. Se, por exemplo, Johann Sebastian Bach escreveu uma música para coral, violinos, violas, violoncelo, contrabaixo, duas flautas transversais, dois oboés, um fagote e um cravo, ninguém se atreve a trocar os oboés por flautas doces ou o cravo por um piano ou teclado, ou a substituir simplesmente toda a orquestra por um piano ou até um CD. Mas quase nenhuma igreja tem todos esses músicos entre seus membros e amigos. Por isso a realização de uma música depende muitas vezes de músicos convidados que exigem uma remuneração por seu serviço. Para apresentações de grandes composições de Bach, Händel, Mozart, Brahms ou Felix Mendelssohn-Bartholdy precisa-se geralmente de uma orquestra profissional que pode custar até trinta mil dólares. Nem a coleta do culto nem a venda de ingressos para concertos podem refinanciar um custo tão alto. A maior parte vem de verbas da igreja, de ONGs, às vezes também do estado, ou do próprio músico, se lhe faltam as outras possibilidades e ele não quer renunciar à realização de músicas, que, aliás, além de serem diamantes da música sacra, são a melhor educação para as vozes dos cantores do coral. 
Quando A. começou seu trabalho, o departamento de música, que corresponde ao ministério de louvor em algumas igrejas brasileiras, se constituiu somente de um grupo: Um coralzinho de meros oito pessoas. Todas as igrejas tentam apresentar as músicas difíceis tão bem como possível. Os regentes dos corais aceitam por isso com prazer também a participação de cantores de outras igrejas. Católicos, batistas, metodistas, etc. buscam os corais das igrejas luteranas por terem, em geral, o maior nível, e por se dedicarem a obras grandes e famosas. Além disso, vêm também não-crentes que, contudo, gostam da música clássica e do nível bom dos corais luteranos. Muitos corais cometem então um erro fatal. Para não assustar esses hóspedes eliminam orações e a palavra de Deus dos ensaios. Em vez de explicar-lhes como a música religiosa mostra-nos aspectos de Deus, como ela leva a gente à adoração e encaminha os cantores e músicos ao seguir Jesus, acontece o contrário. O coro comporta-se como um coral secular, que canta uma música sacra só por ser ela muito bonita sem pensar em missionar as pessoas. Até corais estatais nos países comunistas com política anticristã cantavam música sacra por falta de outras obras, mas nunca se servem da música para ensinar as pessoas a respeito do amor de Deus. Às vezes esses coros luteranos nem podem se apresentar no culto sequer, porque uma grande parte dos membros não gosta de participar, e eles apenas convidam de tempo em tempo a concertos que, sem acompanhamento de orações ou palavras, são tidos pelos crentes como adoração e louvor a Deus, enquanto os outros os tomam por meros concertos com valor artístico. Mesmo assim a força da música pode ser tão forte que leva uma pessoa a tornar-se crente e seguir Jesus, mas o efeito missionário poderia ser muito maior, se os coralistas tivessem mais amor a Deus e dedicação à obra de Deus.
A. não quis tolerar tais circunstâncias. Junto com um violinista de uns dezoito anos, fundou um grupo bíblico como célula, que se encontrou no apartamento de A., especialmente para os jovens do coral e grupos recentes como uma orquestra de amadores. A igreja de Hamburgo-Farmsen tinha doze mil membros, mas o único culto por semana foi visitado só por umas trinta pessoas. Este número crescia agora, mas sem atingir pelo menos cem pessoas, em média. Ele não tinha experiência com essa situação extrema em Hamburg e era só um entre vinte profissionais, que trabalhavam para a igreja, entre eles cinco pastores. Mas mesmo estes, embora em geral crentes, não se importavam tanto com o culto. A. nunca imaginara que nas grandes cidades da Alemanha existissem situações tão esdrúxulas, mas estando uma vez lá quis agora cumprir a sua parte para amenizar a crise, uma crise que às vezes nem chega à consciência dos responsáveis, porque na Alemanha o próprio Ministério da Fazenda vigia para que todos membros paguem contribuições à igreja, de forma de que as igrejas podem custear projetos sociais, culturais etc. bem visíveis, até apoiando igrejas e ONGs em regiões de carência no exterior.
Apesar da inexperiência o trabalho de A. era ricamente abençoado. O coral cresceu, acabando por chegar a 65 membros, e, além disso, A. fundou com outras pessoas duas orquestras, coral de crianças, coral de câmara e uma ONG para sustentar o trabalho a respeito da administração e dos custos. Agora, claro, A. precisava partituras em grande escala, e, além disso, faltavam instrumentos. Mas A. confiou na palavra de Jesus: “Não se preocupem com a comida e com a bebida que precisam para viverem nem com a roupa que precisam para vestirem. Vejam os passarinhos que voam por aí: eles não semeiam, não colhem, nem ajuntam em depósitos. No entanto, o Pai que está no céu, dá de comer a eles. Será que vocês não valem muito mais do que os passarinhos? Portanto, não fiquem preocupados. Ponham em primeiro lugar em suas vidas o Reino de Deus e aquilo que Deus quer, e Ele lhes dará todas as outras coisas.” (Mt. 6.25ss)
Por isso A. não se arrependeu que gastava todo o seu dinheiro, assim seu salário como também o dinheiro poupado durante o serviço militar, para bancar as necessidades no seu ministério. E com o alargamento do trabalho os custos aumentavam até, depois de alguns anos, a ONG pôde financiar uma grande parte. Desde o início A. reparava que gastava muito mais do que tinha à disposição. Mas não havia tempo nem vontade de dar-se ao trabalho de contabilizar mensalmente. Simplesmente guardou todos os recibos num grande envelope. Mas quando fez a declaração de impostos no início do ano novo, estranhou com o fato de ter recibos de gastos em relação à música por dezesseis mil marcos alemães, mas só ganhara dezoito mil. Junto com o aluguel de seis mil, bilhetes de metrô, e outras coisas pessoais, tinha gastado cinco mil marcos demais, e, apesar disso, tinha sempre bastante de comer, salvo uma única semana.
De onde vieram os 5000 marcos, que gastou a mais? Lembrou-se somente duma senhora que lhe dera sem falar cada mês dez marcos. Estranho mesmo. Não se pôde imaginar que detrás duma coisa tão profana estivesse a mão de Deus. Não é que os milagres na Bíblia são bem diferentes? Também a Secretaria da Fazenda ficava suspeitosa desconfiando que A. ganhava clandestinamente mais dinheiro por trabalho ilegal, bicos sem pagar os impostos, mas os amigos e colegas, que estavam com ele todo o dia, sabiam que não era assim.
No segundo ano ele tornou-se professor de piano para uma aluna, que pagou cem marcos alemães por mês. Mas nesse ano A. gastou já muito mais do que vinte mil marcos com a música. E no fim do ano ainda sobrou dinheiro. Era uma mágica, como quando Jesus alimentou cinco mil pessoas por meio de cinco pães e dois peixes. No fim não somente todos estavam satisfeitos, o que seria por não-crentes talvez explicado com hipnotismo, sugestão, etc., mas também sobraram ainda vários cestos com restos. A. tomara essa estória sempre como conto de fadas, mas agora viveu pessoalmente como tais coisas acontecem.
No próximo, terceiro ano, se deu o trecentésimo aniversário de Johann Sebastian Bach, o mais famoso músico evangélico. A. planejava a apresentação da chamada Missa em Si-menor, a obra que seja talvez a mais bela, mas também a mais difícil. Quase duas horas repletas de pujança rica e transcendente dedicado a Deus, nosso Pai, por um músico que sabia que era só um servo humilde, um membro entre muitos do grande corpo de Cristo, da igreja, cuja tarefa é o louvor a Deus. O desconfiado presidente da diretoria, aliás, não podia imaginar que seu músico jovem e pouco experiente e seu coral recentemente formado conseguiriam a execução duma obra tão egrégia e chegou a interrogar outros músicos de igrejas e professores da universidade, e todos concordaram em que o projeto seria impossível e uma loucura do músico e de seus adjuvantes e por pouco a diretoria não proibiu o projeto ousado.
O coral ensinou por seis meses quase exclusivamente essa música. Todos os esforços visavam somente essa meta sublime. Já as partituras custavam mil marcos, e a orquestra constituída por músicos escolhidos a dedo chegou a doze mil marcos. Agora contemplamos os números, mas nesse tempo A. nunca refletiu sobre dinheiro, só quando era obrigado a fazer a declaração de impostos via o balanço. E este ano caríssimo, que foi concluído pelo famoso oratório de Natal, de Bach, deixava um superávit inexplicável de dez mil marcos na conta de A.
Depois dessas experiências boas com o “orçamento” do Senhor ele comprou, no ano que veio, para a igreja um belíssimo piano de cauda, gastando quarenta seis mil marcos. Mas mesmo assim sobrou novamente dinheiro.
Além dessa proliferação misteriosa de recursos existia mais um fenômeno inexplicável, além do fato de que tudo o que A. forjava lhe saiu bem, sem mais, como se fossem as coisas mais fáceis do mundo, ou como se uma magia escondida o protegesse contra todos fracassos possíveis: Quando ele precisava de cantores solistas ou de músicos para integrar a orquestra, contratou várias vezes estudantes da Escola Superior de Música e Teatro ou da Universidade, que ajudavam de graça ou recebiam um salário pequeno. Era necessário achar entre eles os melhores talentos. Acontecia às vezes que a três, quatro dias da apresentação um músico ficava doente, especialmente solistas de canto com suas vozes sensíveis. Nesse caso A. estava em maus lençóis, porque uma apresentação envolvendo tantos músicos convidados não pode ser adiada nem cancelada, e assim o responsável ou seus adjuvantes hão de procurar, se necessário em todo o mundo, um solista experiente que pode assumir o papel sem mais. Em vez de algumas centenas de marcos às vezes chega a custar alguns milhares. Além disso, A. precisava ligar horas após horas para achar um solista, que por acaso não tinha outras tarefas nesse fim de semana, ou ele precisava encarregar por um bom dinheiro uma agência de músicos.
Certo dia procurou desesperadamente um contralto, sem sucesso. Alguns acontecimentos o obrigaram a parar com a busca e sem poder reagir ainda se viu confrontado com a falta definitiva da solista. Depois nem sabia, se talvez orasse a Deus por ajuda, mas nesse tempo feliz todo o trabalho, a vida toda, era uma ligação incessante, em contato permanente com o Senhor, como através de um celular sempre ligado. Dois dias antes do concerto ligou-lhe uma mulher, que quis apresentar-se como cantora. Era um contralto da ópera, recentemente fugida da Alemanha Oriental comunista, ainda sem trabalho nenhum, com uma voz escura e suave, bela e comovente. Normalmente poderia ganhar dois mil marcos por concerto, mas agora, nova na Alemanha Ocidental e ainda acostumada com os pequenos salários nos países comunistas, aceitava qualquer convite. Era seu primeiro concerto no Oeste, e ganhou, como os estudantes, 250 marcos. Algumas semanas depois A. estava de novo numa tal embira, e mais uma vez aconteceu um semelhante milagre de forma que não somente substituiu a falta, mas deixou a situação melhor do que antes. Por essas experiências passou a ficar leviano, negligenciando a procura nos casos urgentes, só confiando em Deus. Mas a boa sorte continuava. Nesse tempo ele agia sem refletir, só depois aflorou na sua consciência que o Senhor ajudava sete vezes desta maneira. 
A Missa em Si-menor, aliás, fora uma grande vitória e uma peripécia para o futuro do coral, pois fez emudecer os críticos, trazia subsídios do estado, e novos membros. No ano depois, 1986, o trabalho se consolidou e ampliou; o coral e a pequena orquestra amadorística da igreja viajaram para a Espanha, dando vários concertos. Já em 1987 novos projetos de grande porte entraram à luz: A Paixão de Mateus, de Johann Sebastian Bach, que demora três horas, e o Réquiem Alemão de Johannes Brahms, o músico evangélico mais importante do século XIX, na época do Romantismo. Para a execução dessa obra, que exige uma orquestra de umas sessenta pessoas e pelo menos oitenta cantores, os líderes do departamento musical da igreja, cerca de vinte voluntários sob liderança de A., forjaram uma aliança com o coral da universidade de Estetino (Szczecin), a capital de Pomerânia, na Polônia, quatrocentos cinquenta quilômetros de Hamburg. O louvor ao Deus Eterno, a música sacra, na igreja de Hamburg-Farmsen tornara-se um ministério forte, consolidado, que mesmo continuaria se A. se retirasse.
E era isso mesmo o que Deus agora exigiu.  Ou, retratado mais explicitamente: Já ao Natal de 1986 Deus lhe comunicou que estava chegando o tempo para desempenhar o compromisso, para ir embora começando um trabalho no Terceiro Mundo. A., no entanto, já se acostumara tanto ao seu ofício que nunca mais pensara na mudança. Achava até que a sua visão na mata, aos 15 anos, fora um erro, uma imaginação da própria fantasia. Claro, sabia muito bem, que ele era nenhum Mozart, não era um músico nato com dons maravilhosos, mas aproveitando bem suas habilidades conseguia muito e era por isso já um músico bem conhecido em Hamburgo. Sabia perfeitamente que a honra era de Deus, mas no subconsciente sentiu um grande prazer vendo as fotos de si mesmo nos jornais e até na televisão. Não era obvio, que podia fazer muito mais para o Senhor ficando aqui? Enfim, não era médico ou engenheiro. O que poderia fazer num país subdesenvolvido? Pensava que a visão na mata, aos 15 anos, poderia ser uma imaginação, e com a mesma lógica deduziu, que também a atual convocação poderia ser uma fantasia sua. Por que será que Deus o mandaria embora sem sentido? Ele trabalhou ainda mais forte para mostrar ao Senhor a boa vontade e como era importante seu trabalho no reino de Deus.
Não obstante cometeu dois lapsos que atrapalhavam seu trabalho. Mas sem titubear avançou, tentando continuar do mesmo jeito, galgando agora pra frente sem olhar aos lados, e em novembro do ano partiu com o coro para Estetino, onde apresentavam duas vezes o grande Réquiem de Johannes Brahms. O coral, hospede convidado do governo, gozou um tratamento, que a gente simples raramente chega a conhecer, mas nesses dias, enquanto A. andava nas nuvens, ocorreu uma coisa grave em Farmsen.
A paróquia procurava depois da aposentaria do pastor mais velho um sucessor. Infelizmente não acharam um candidato adequado. Ser o sexto pastor em uma congregação tão grande não foi um atrativo, os pastores gostam muito mais der ser o único pastor de uma igreja ou ter apenas um ou dois colegas.
Entre os únicos dois candidatos estava um pastor que declarou francamente que não era um crente, mas ele tinha a fama de ser um bom administrador, especialmente sabia muito sobre finanças e sabia mexer com política. Nasceu então a ideia de convocar esse pastor e delegar a ele toda a administração, com qual ele já podia encher as usuais 38,5 horas de serviço sem problemas. O jovem pastor Hans, que até lá administrava a paróquia além de suas diversas atividades pastorais, renunciou também à presidência para que o chefe administrativo tivesse também a responsabilidade e o poder. O novo pastor tinha, contudo, uma concepção para reformar “sua” paróquia, e definiu o que seria proibido ou permitido. 
Em resumo: tudo que era expressivamente cristão, anunciando a fé, como o grupo bíblico do coral, foi agora proibido ou reprimido. Além disso, a maioria dos obreiros foi demitida. Ao princípio, A. quis ir voluntariamente, mas a diretoria o convenceu que retirasse a carta de demissão. 
Mas o novo pastor era um político nato. Era também seu desejo fazer carreira política, mas não conseguira tornar-se deputado, e por falta de perspectiva, virara pastor, apresentando à faculdade teológica como tese do bacharelado um trabalho feito por uma estudante de teologia, fingindo que fosse sua obra. 
Agora usou suas habilidades políticas contra a diretoria, acuando alguns até que renunciassem e demitindo outros, transgredindo assim as leis da igreja, mas ninguém resistiu, salvo A. Dominando, porém, agora a maioria da diretoria por novos membros não eleitos, mas convocados, o pastor suspendeu A. do serviço. Pastor Hans, como resposta, fundou um grupo bíblico para orar pela igreja, e o novo pastor não podia impedi-lo, porque um pastor é livre de diretrizes da diretoria na atuação pastoral. O presidente pode bloquear o trabalho somente recusando recursos financeiros. Mas pastor Hans, herdeiro de uma família nobre, estava sempre pronto a gastar seu próprio dinheiro e não recuou.
O juízo trabalhista julgou a favor de A. e ele recebeu trinta seis mil marcos e diversos privilégios, mas o juiz reconheceu que era impossível continuar com o trabalho. A. pôde ficar até o fim do ano enquanto o novo pastor se comprometeu diante do juiz que não mais intrometeria na área de música. Mesmo assim o pastor era contente. A. sairia e a indenização alta não pagaria da própria bolsa, mas com o dinheiro da igreja. Já anunciou que também a presença dos grupos da área de música não seria mais desejável. Em consequência os grupos pediram a A. que continuasse na liderança e formavam uma associação beneficente, que fundiu com a Orquestra Johann Sebastian Bach, uma orquestra de câmera antigamente estatal e agora independente que contratara A. como maestro já em 1985. E A. aceitou com prazer. Estava prestes para mostrar ao pastor sem-vergonha que não poderia destruir a obra de A. Comprou uma casa para poder residir com seus instrumentos musicais, livros e partituras, que antes ficavam, pela maior parte, na igreja. Ele pôs-se a trabalhar com ainda mais garra. Mas quando, como seu costume, falava com Deus, não sentia mais nenhuma ligação. “Tá bom”, obstinou, “é como um grupo de soldados na guerra que perdeu o contato com sua companhia ou batalhão. Se fossem fiéis, continuariam em tudo como antes.” Assim A. atuava, e pensava que era uma prova de fidelidade e perseverança. 
No início dessa fase os cristãos da igreja luterana de Farmsen especulavam que poderiam reganhar a maioria na diretoria nas próximas eleições. Mas na verdade perdiam toda a influência: O jovem pastor Hans morreu de repente. Já a igreja tinha de resignar-se novamente com apenas trinta pessoas no culto, fato que não importava ao novo pastor, porque ele também não participava, declarando francamente, que a igreja é uma instituição social e o culto não tem valor e seria celebrado somente por tradição.
A nova ONG, que junto com a orquestra assumiu o nome “Associação Johann Sebastian Bach de Hamburgo” foi ainda fortalecida por grupos de crianças também expulsas da igreja. Era uma associação evangélica, mas também ecumênica por ter membros de várias igrejas. Mas o caráter cristão vinha-se apagando e o trabalho era muito difícil, especialmente no início. Muitos membros do coral, mal acostumados com dificuldades, abandonavam a comunidade. Uma vez faltou de novo um solista importante. A. confiou como sempre em Deus, ou seja, em sua boa sorte. Mas qual susto levou, quando verificou que não aconteceu nada, não surgiu no último momento uma pessoa adequada. Três ou quatro vezes chegou a sofrer faltas que o obrigavam a mudar o programa no dia de um concerto. Depois entendeu. Teria que ajudar-se a si mesmo. Por exemplo, começou a dar aulas extras aos cantores do coral ensinando os cantos dos solistas, para um corista poder substituir um solista em casos urgentes.
Em meio desse rebuliço o namoro de A. com uma jovem violinista fenecera, embora ele precisasse mais do que nunca de uma pessoa ao seu lado. À noite ele chegou em casa, que era nova e grande, mas ele estava sozinho. Às vezes lembrava-se da convocação para o exterior, mas achava que seria impossível abandonar tudo. Não era imprescindível na Associação Johann Sebastian Bach, o motor de tudo?

Na primavera do ano seguinte ele chegou a conhecer uma mulher com uma criança que foi abandonada do marido ainda durante a gravidez. Morava na Alemanha Oriental que acabou abrindo as fronteiras herméticas, e ela era apesar da pressão do governo comunista membro duma igreja evangélica luterana. Era também uma dos fundadores dum novo partido oposicionista, que lutava contra o comunismo linha-dura do país. A. achava-a simpática, e, pensando que teria sempre boa sorte, como era antes, convidou-a espontaneamente para acompanhá-lo durante uma viajem para o Canadá, onde possuía uma ilhota com uma velha cabana de madeira, situada num lago grande. A casinha era rústica, sem eletricidade, com água cristalina do lago e um grande fogão a lenha.
 
Foi dessa casa que A. se lembrou agora quando deitava – agora no Brasil – numa velha cabana de madeira. Ele deixara na sua casinha no Canadá um livrinho, a única coisa que lembrava dele. As outras coisas como o mobiliário, eram ainda todas do velho ex-dono. No entanto, a casa queimou, foi erradicada. Oxalá que fossem erradicadas também todas as lembranças ruins!...
Na verdade, grande parte delas já era recalcada, mas ainda tinha diante dos olhos como a mulher depois dessa viagem viera a Hamburg, como se casaram, e depois o dia no qual a sua esposa, depois de duas semanas em seu novo emprego em Hamburg, voltou em casa e disse que foi demitida. Deitou-se na cama, ligou a televisão e ficava assim. A. cuidou dela com dedicação, como se ela fosse doente. A razão da demissão alegada pelo chefe era um subterfúgio óbvio, mas o que acontecera na verdade? A mulher o rejeitou, não procurava outro emprego, nem trabalhava em casa de modo de que o casal precisava duma empregada polonesa. Ainda pior era a situação para a criança, uma menina de quatro anos.
A. precisava de tanta força para seu trabalho e era desesperado com a situação. Cismou em acabar com tudo. Quando não podia mais tentou suicídio, mas ficou só um dia no hospital. A mulher não quis saber mais nada da igreja. Alegou que a igreja em Hamburgo seria muito má, aceitando pastores como aquele em Farmsen.
Na época A. foi convidado por um grupo internacional de roque para participar em dois CDs. Um deles teve um sucesso enorme. Mas, ao outro lado, assim eles conheceram o mundo de drogas, que ajudam para a gente não pensar mais nos problemas, mas, na verdade, aumentam ainda os problemas. Quase todos os roqueiros mexem com drogas, mas as drogas mexem com as mentes. Um membro da banda até chegou a se suicidar.
De repente a esposa quis um neném. A. pensava nesse tempo, que o nascimento talvez despertasse a sua esposa da indiferença e do desleixo. E isso acontecia pelo menos em parte. Dois anos depois do nascimento a Secretaria de Trabalho do estado a obrigou a fazer um curso de profissionalização, porque ela cobrava em todos os anos a assistência de desemprego. Desta maneira ela chegou a fazer amizade com uma mulher, e de repente quis divorciar-se, não agora, como comentou com ela, mas depois do curso profissionalizante. Mas a pressão em casa cresceu tanto que também A. chegou a querer o divórcio, apesar de saber que perderia as crianças e pagaria muito. Mas, além disso, a mulher exigiu que a casa lhe fosse adjudicada. A casa, porém, era também a sede da Associação Johann Sebastian Bach. Por isso, a advogada da esposa escreveu a ela numa carta que seria impossível ganhar a casa senão acontecesse alguma coisa muito grave. Se, por exemplo, o marido batesse a sua mulher, aí, sim, poderia ser expulso da própria casa.
A mulher começou a provocá-lo de várias maneiras. Proibiu às crianças falar com o pai, ofendeu-o, insultou pessoas da Associação que vinham ou que ligavam para a Associação, jogava as cartas, que chegavam para A. ou a Associação no lixo, e assim por diante. A. engolia tudo na expectativa do fim perto desse casamento que lhe infernizou a vida. Certa noite ele chegou em casa muito cansado. Fora um dia muito frio, no tempo pré-natal, com cinco concertos entre as dez e as vinte duas horas, em diversos lugares. Nesta noite ele descobriu que a sua mulher tinha jogado fora as cartas, entre eles contratos, cheques, contas e outras coisas importantes, e mesmo assim a mulher riu, caçoou dele e rasgou demonstrativamente mais uma carta diante dos olhos dele...
Ele estava suando, quando a lembrança já tantas vezes recalcada surgiu. Quantas noites já gastava dessa maneira, suando, desesperado. Quando será que tudo isso acabar? Sempre essa cena, a mulher, rasgando a carta, e ele, geralmente o padrão da tranquilidade, atacado pela fúria repentina, atrás dela e batendo nela...

O primeiro meio ano na prisão não dormia, todas as noites eram um horror sem fim. O libelo era homicídio, e ele recebeu oito anos. Oito anos, e cada dia uma tortura sem fim. Além da usual humilhação e as restrições que presos comuns sofrem ele se torturou com o saber do terrível destino das crianças, agora praticamente órfãos, do sofrimento dos parentes, a impossibilidade de praticar música e a necessidade de arranjar-se agora com gente perversa e má. Caiu, então, num buraco negro...

Criminosos que são presos encontram na prisão muitas vezes um grande círculo de amigos, parentes e cúmplices que saúdam e festejam o preso novo com café, bolo, aguardente alambicado clandestinamente na prisão e drogas, para que ele passasse bem atrás das grades. Os que não conhecem a ninguém, procuram pessoas da mesma laia para fazer amizade. Quem, contudo, nem se define e sente como criminoso é suspeito, e visto como traidor. Se, por exemplo, alguém assiste na televisão a um sequestro e espera como a população fora da prisão, que a polícia apanhe o delinquente, em vez de torcer por seu “irmão” criminoso, é claramente dentro duma prisão um traidor. Confrontado com tais situações A. emudeceu, mas mesmo assim os outros reparavam que ele pensava diferente, porque não participava quando se falava mal da polícia, do estado em geral, das vítimas, das igrejas, das mulheres etc. Estava sozinho e isolado entre centenas de homens. Até os funcionários, que trabalham e vigiam na prisão não gostam de pessoas que se comportam diferentemente. Registravam por exemplo, que A. frequentava cultos ou o curso bíblico, mas nunca pediu ao pastor café, fumo e outras coisas. Qual motivo poderia então ter para ir ao pastor? Era um comportamento que não deu para entender, e por isso era muito suspeito nos olhos dos outros. Será que era hipocrisia, arrependimento fingido para obter uma ajuda do pastor? Ou será que ele pensa que é melhor do que os outros?
Era uma lavagem cerebral incessante. O preso está ouvindo, sem parar, dicas que ensinam que os políticos são os verdadeiros facínoras enquanto os criminosos, deveras, não fazem mal nenhum. Pela pressão do grupo ele precisa até confirmar essas opiniões.
Os criminosos agitam, aliás, em facções. Quem for ladrão, dirá que só rouba aos ricos e a empresas abastecidas, que não precisam nem merecem da fortuna. O ladrão sente-se como um Robin Hood justo, lutador contra injúria. Mas ele despreza outros criminosos como homicidas, estelionatários ou estupradores. Estupradores de crianças, todavia, criticam entre si a arbitrariedade das leis que proíbem contatos sexuais com pessoas debaixo de um limite etário fixado caprichosamente, e eles asseveram uns aos outros que as crianças, sim, queriam sexo com adultos e os seduziam. Depois de algumas semanas dentro dessa “escola superior para criminosos” chamada “prisão”, eles se sentem verdadeiramente como vítimas da justiça. Arvoram-se em homens de honra, mas os pedófilos, de sua vez, desprezam homicidas, ladrões, fraudadores, etc. E assim por diante...
O problema era: A. estava totalmente sozinho. Era diferente e estava sozinho, não podia consolar-se com outros que pensam do modo dele. E os psicólogos complicavam e agravavam ainda mais a situação alegando: O senhor não é um homem normal porque o senhor deixava-se tiranizar por sua esposa por várias semanas sem que o senhor tivesse gritado, jogado louças na parede, batido energicamente na mesa ou até batido na mulher, mas controlado, sem perder o controle. Se o senhor tivesse feito isso, teria diminuído a pressão e a raiva a tempo. Mas o senhor foi educado erradamente desde a infância, recalcando seus sentimentos verdadeiros. Por isso carece de harmonia e não reage com agressividade controlada. Não pode engolir tudo, porque certo dia tudo vai-se desatar. É melhor que o senhor se adapte e vire como os outros.
O auge absurdo dessa lógica é praticado numa prisão pequena no leste de Hamburgo. Aí os próprios presos avaliam-se uns aos outros, incentivados pela diretoria. Se Jesus ou outras pessoas justas e pacíficas estivessem lá como presos, receberiam péssimas notas pelos outros presos por não maldizer, nem tomar drogas com os outros, nem rir sobre as piadas humilhantes e perversas deles, nem aplaudir os planos criminosos que trariam com certeza absoluta, como pensam, as tão desejadas fortunas gigantescas. Recebendo notas baixas dos outros presos pessoas boas igual a Jesus seriam considerados pelos psicólogos e diretores como não sociáveis o que implicasse um agravamento do castigo e desvanecesse a esperança por uma liberdade condicional. No início A. pensava que poderia perseverar como um herói, sozinho contra todos. Mas não era mais um herói e, sim, um assassino, tinha nojo de si mesmo e sabia que fizera tudo errado. Por isso estava confuso e sem orientação e abalado em cheio. 
Nessa viagem de bicicleta, no Brasil, tinha consigo uma capa de chuva ultraleve. Quando a chuva continuava por mais tempo, a capa não resistia, e pouco a pouco sua camisa embebia-se de água. Assim é que era também na prisão. A chuva do mal incessante começava a penetrar sua capa fraca e o envenenava. Ninguém se pode proteger contra essa onipresença e predominância total e opressiva do mal, até fortificado pela adulação dos funcionários aos criminosos. Tivesse sabido isso antes dessas torturas, teria se suicidado, mas no início não podia prever as aflições.
Uma vez leu dum homem, um procurador de República, que não fez parte do mal quando foi preso por engano, o que só chegaria à luz meses depois. Durante todo o tempo ele foi odiado por todos os presos. Ele, ao contrário de A., era sem culpa, por isso seu desespero também grande, mas ele estava consigo mesmo em paz. No caso de A. a consciência da culpa piorou ainda a situação dele, fazia o sofrer ainda mais e destruía a sua autoestima, enfraquecendo-o. Não conseguiu relacionar se com os presos, que vivem gabando-se de seus feitos.
Só quando um criminoso estava sozinho com A., a situação muitas vezes tornava-se diferente e aquele preso mostrava que possuía, mesmo que bem escondido, um outro lado, uma natureza que aceita sentimentos bons, piedade e dúvidas sobre o modo escolhido de ganhar a vida. Surgiam até valores morais quase esquecidos. Mas, deveras, raramente os presos estão sozinhos. Se uma prisão tivesse de fazer sentido, dever-se-ia impedir pelo menos que os presos comunicassem uns aos outros, orgulhando-se das proezas e confirmando uns aos outros a certeza de sua atuação. Nesse caso seria possível diminuir a duração da detenção, o que pouparia muito dinheiro e além de tudo poderia salvar muitas vítimas futuras dos presos, que são acirrados e instigados no próprio sistema penitenciário para cometer mais crimes.
Em Hamburg, 92% dos presos que entram na prisão são criminosos, enquanto 99% dos presos, que saem da prisão são criminosos. Em vez de reduzir a criminalidade, levando os presos ao arrependimento, acontece o contrário. Deve ter, por conseguinte, muitas vítimas de ex-presos que mereceriam uma indenização pela diretoria da prisão ou pelo governo responsável, porque por causa de seu sistema carcerário os presos saem da prisão cheios de ódio, vontade de se vingar, bons contatos a outros criminosos e muitas ideias para cometer novos crimes.
A personalidade de A. começava a partir-se. Um lado quis procurar por Deus, o outro, não obstante, vinha-se abrindo, lenta e inconscientemente, ao ideário doentio e celerado na prisão. E o primeiro lado estava enrascado e aflito, pois ele tentou orar, mas Deus continuava mudo. Aí recebeu uma visita duma cantora do coral da Associação Johann Sebastian Bach. Contou a ela de sua convocação, havia dezoito anos, e que teria agora realmente o plano de ir para o exterior, depois da pena. 
“Você está aceitando Jesus sem restrições?” perguntou a mulher. 
“Olha”, respondeu. “Para dizer a verdade, as minhas relações para com Deus são más. Oro, mas ele não responde. Sei que ele existe porque já vivi situações que me mostravam, sem dúvida alguma, a existência do sobrenatural, mas ou Deus é muito mais imóvel e indiferente do que descrito na Bíblia, não reagindo aos milhares de pedidos de pessoas, ou ele não me aceita mais.”
“Se Deus não responder será que tem alguma coisa entre você e o Senhor. É mister converter-se totalmente, sem restrições; 90 por centos não bastam, nem 99 por centos. Ele quer você todo, cem por centos. Confesse tudo que estava errado, para outorgar todos os pecados a Jesus, pois ele pode levá-los.”
“Pois é. Mas eu acho que Deus não pode mais confiar em mim. Primeiramente preciso ir embora, trabalhar no Terceiro Mundo, mudar a minha vida, encaminhar-me de novo na vereda certa. Assim mostraria a Ele que agora mudei e quero seguir o caminho que Deus me determinou. Só então posso achar o Senhor e retornar a Ele.”
“Mas A., se pensa assim, está totalmente errado! Será que você quer ganhar um lugar perto de Deus pelo seu trabalho e comportamento, por suas obras?”
“É, na verdade tenho vergonha porque não quero comparecer diante de Deus com mãos vazias.”
“Será que você esqueceu totalmente que nós todos aparecem perante do Senhor com mãos vazias? Não existe pessoa nenhuma, que seja boa. Todos precisam compreender e aceitar essa consciência, sob pena de não chegar perto a Deus, de não pertencer a Jesus.”
Aí A., de repente, viu tudo com clareza. Aos outros tinha sempre ensinado essa verdade, mas não era capaz de reconhecer em si mesmo esse erro. Não queria entender que ele também era somente um pobre pecador falível e uma testemunha fraca e ruim por seu Senhor Deus. 

Nos meses seguintes a cantora o visitava várias vezes para orar com ele e acompanhá-lo no futuro. Certa vez trouxe-lhe um livro que, por acaso (?), foi vendido na sua igreja: Sarah do Carvalho: “Es sind já nur Kinder” (“São só crianças”), (Edição Projektion-J), um livro sobre o trabalho com crianças das ruas no Rio. Sarah trabalhara numa posição alta numa televisora grande na Inglaterra, quando Deus a chamou e mandou na missão. Também lutava com dificuldades porque no início não quis abandonar seu posto bom e bem-dotado. Quando A. lia, o livro começou a falar a A. como se fosse uma pessoa, e A. viu seu futuro nitidamente diante de si. Jogou se aos pés de Deus e confessou toda a sua culpa. Estava tão doloroso chegar a conhecer quão grande era a dor e o amargor que outros tinham sofrido por sua causa. Mas era um consolo imenso quando reparou que o Senhor lhe respondeu. 
Agora seu destino mudou e começou um bom tempo para A. Foi transferido numa prisão semiaberta, onde podia sair, aos domingos, para tocar órgão e piano nas igrejas vizinhas, ensinar alunos e até ensaiar um coral. O diretor e outros funcionários prometeram que lhe ajudariam a ser posto em liberdade já depois da metade da pena. Além disso, A. chegou a saber, que seu pai tinha resgatado uma considerável parte do seu dinheiro. A. tinha perdido muito porque na prisão estava indefeso e muitas pessoas aproveitaram a oportunidade para furtá-lo, mas agora viu, que ainda era bem remediado. Queria aumentar esse dinheiro com a ajuda de Deus para poder depois embalar seu trabalho no Terceiro Mundo com próprios recursos. Ele tinha boa sorte com ações e ganhou em seis meses 44 por centos. 
Certo dia, quando estudando as cotações de ações arroladas no jornal, dois nomes de empresas deitaram a cintilar como em um painel de carro ou outra máquina e ele ouviu as palavras: “Essas duas empresas vão dobrar suas cotações dentro de um mês”. Para ter certeza de que não pensasse depois de alguns dias que tudo não passasse de devaneio fútil, foi a outro preso, que pelo menos não hostilizava pessoas com fé, e contou-lhe tudo. Depois ligou ao seu banco e mandou investir todo o dinheiro, que possuía, na primeira dessas duas empresas.
Dentro de cinco dias o valor subiu em 40 por centos, depois parou por três dias. Agora A. começou a sentir nervosismo. Já ganhara tanto. A lembrança do dia da visão já empalidecera e não tinha mais a certeza, se fora coisa de Deus ou imaginação. Com medo de que as ações caíssem, ele vendeu tudo. Agora pensou em comprar as ações da outra empresa. Elas, pois, estavam ainda tão baratas como no início, aliás, já desde um ano. Se realmente dobrassem a cotação, ele teria, em total, quase triplicado o dinheiro em um mês. Mas o problema era, que não conhecia a empresa. Era totalmente desconhecida, e quando ele recebeu um livro de trezentos páginas sobre todas as empresas cotadas, faltava exatamente essa empresa. Enquanto ele ainda hesitava, a cotação começou a subir subitamente em trinta por centos e parou. Agora A. não quis comprar mais, temendo que as ações poderiam recuar depois. Muitas vezes cotações sobem por mera especulação para voltar logo depois ao seu valor primário. Por isso não comprava mais nada nesse mês. As duas empresas, todavia, duplicaram seus valores respectivamente e A. perdera a chance de enriquecer muito, somente porque ele não sabia discernir entre a voz de Deus e uma imaginação equivoca. Teria ganhado um bom dinheiro para um trabalho no exterior, que Deus lhe determinara.
Pelo menos soube agora: Essa voz existe realmente. Seria necessário reconhecer e ouvi-la para conseguir proceder bem e com sucesso.

Quando homens estão entre si, arrotando rudeza, ódio e maldade para impressionar os outros, a saudade do contrário, da suavidade, meiguice e amor de uma mulher está se tornando irresistível. Muitos compensam essa dor ao desenvolver um vício por revistinhas pornográficas, mas também as amigas e colegas ou até qualquer mulher se tornam estrelas intangíveis e por isso divinizadas. Também A. ardia aflitivamente por amor, ainda mais porque, havia anos que seus sentimentos foram pisoteados. Pensava que deveria ser fácil para um músico “conquistar” uma garota como outrora. Mas apesar de elas geralmente não soubessem que A. era um preso não paqueravam. Orou a respeito a Deus, e o Senhor respondeu: Olha. Eu já escolhi uma esposa. Ela mora num país longe daqui e está te esperando há muito tempo.
O anexo “esperando há muito tempo” o atingiu em cheio, como um relâmpago. Será que exista uma mulher esperando há anos somente por sua culpa e desobediência, porque rejeitara a missão de Deus? Era verdade que tinha desde a infância uma imagem nítida duma mulher na cabeça. Será que esta imagem tinha a ver com a profecia?
Para provar sua sociabilidade para o diretor e os psicólogos da prisão, um preso deveria ter um apartamento ou outra moradia, um emprego e um cônjuge; condições para ganhar a liberdade condicional. A questão do cônjuge era então delicada. Mas pelo menos uma habitação quis adquirir. Sendo um músico que precisa treinar piano, preferia comprar uma casa. Outro preso lhe recomendou uma casa maior e ofereceu-se como inquilino do subsolo para negociar ali com artigos de couro. Desta maneira A. já teria uma receita para refinanciar a casa. Usou o dinheiro que tinha aumentado com a compra milagrosa das ações e mais uma hipoteca de 100 mil euro (mais ou menos 100 mil dólares) para comprar a casa de três apartamentos.
Estando já três anos preso e confrontado com ocorrências traumáticas não podia mais pensar logicamente. Confiava na sua nova série de boa sorte e em promessas de presos. Apesar de que pudesse saber muito bem que aquela sorte não procedia de acasos, e, sim, era dirigida, ao que parecia, por decreto ou providência divina, esqueceu completamente consultar o Senhor a respeito dos planos tão incisivos. Deixava-se arrebatar pelo entusiasmo daquele preso e do amigo dele. Começou a duvidar somente alguns dias antes da compra num cartório, e aí, refletindo, sentiu de repente com clareza que o Senhor não quis que ele comprasse a casa. Teria que ficar livre para poder ir, depois, para o exterior. Mas não tinha coragem de explicá-lo aos companheiros que para ele configuravam quase o único relacionamento na prisão. Além disso, já empenhara a sua palavra para com os vendedores, e o corretor já foi pago com treze mil dólares. Fechou então os ouvidos, pensando para si: “Se necessário poderia vender a casa.” Mas na verdade enganou-se a si mesmo, porque as hipotecas tinham prazos de vinte anos. 
Algumas semanas depois um daqueles dois presos perguntou a A. se a namorada dele poderia morar por um tempo na casa. Ele quis reformar o apartamento onde moravam. Como remuneração ofereceu que reformasse depois a casa de A. A mulher dele era uma prostituta, mas declararam que agora já acabara, há algumas semanas. Já para demonstrar que não prejulgaria a ninguém, A. não rejeitou a proposta. 
Alguns dias depois o diretor da prisão semiaberta chamou A. para seu escritório. Tinha cometido um erro. Mandara um preso, de castigo, de volta para a prisão fechada. Esse preso estava já na prisão semiaberta por dois anos, perdendo agora tudo: trabalho, escola profissionalizante, apartamento, namorada, etc. O diretor tinha achado um certo recibo e concluiu que o preso contraía dívidas, o que era proibido nessa prisão. Atuara logo, mas no outro dia o diretor foi informado que o papel era uma ficha de uma ONG que ajuda fazer a declaração de impostos de renda. A soma declarada não significava dívidas, mas o montante que o preso, ao prognóstico da ONG, receberia do estado em virtude da declaração de impostos. Para disfarçar seu erro clamoroso o diretor precisava urgentemente de outro pretexto para explicar a punição drástica diante do juízo. Por isso pediu a A. que fizesse um depoimento acusando o preso de trabalho ilegítimo. Apesar de ser penhorado ao diretor, que prometera a sua ajuda para conseguir a demissão depois de absolvida a metade da pena, A. não quis dar um testemunho falso. O diretor, encabulado e zangado, lhe deu um dia para escrever aquela coisa. A. consultou um funcionário evangélico e ambos acharam que seria bom mandar um bilhete ao diretor pedindo mais uma audiência, mas este mandou algemá-lo e transportá-lo para uma prisão fechada. O diretor mandou A. sem suas coisas, e ele ficou sem selos, dinheiro, roupas e ficha de telefone numa prisão de isolação. Ninguém sabia onde ele era, até um poeta de Hamburgo por acaso detectou a coisa e informou os pais de A. e o advogado. Este apelou ao juízo, e este pediu ao diretor explicações. Aí ele escreveu que A., na verdade, seria um grande traficante de mulheres russas. As provas seriam: Ele aprendera a língua russa na prisão. Qual motivo além de querer comprar garotas se pode imaginar para um criminoso aprender russo? Além disso, ele é músico erudito, uma fachada perfeita para perfazer crimes capitais. Certamente escolhera essa profissão somente para esse fim. O diretor detalhou que as garotas seriam presas na casa de A., mas a juíza jovem, que era responsável pelo caso estranho, visitou a casa e perguntou a vizinhos, vendo logo que a casa estava aberta por causa da reforma e muitos vizinhos já estavam dentro ou possuíam até a chave, e nunca viram lá garotas.
Quando o diretor obstinou no dia do processo, que o fato que A. aprendia russo já bastaria como prova, a juíza opus: “Não consigo entender a lógica do Senhor. Eu também aprendi o russo, mas não quero mexer com tráfico de seres humanos.”
“Bom, minha jovem”, disse o diretor sorrindo condescendentemente. “Para entender tais coisas se deve estudar psicologia como eu fiz.”
A. ganhou o processo, mas teve que esperar seis meses até o dia do processo. Estava psicologicamente muito extenuado. Nem podia pagar a hipoteca, porque perdera logicamente também seu trabalho. Por muito tempo não teve acesso ao banco e depois a sorte com ações na bolsa acabou por causa de uma crise financeira. Nem podia alugar a casa nesse estado meio renovado. A venda, desta maneira, traria um prejuízo enorme. Mas gostaria de vender tudo, pois a consciência de ter feito tudo errado, de ter falhado diante de Deus, o enlouquecia. 
Aquele preso e sua namorada ex-prostituta, entretanto, lograram a oportunidade: Usaram a casa toda, convidando ainda outro homem para morar com eles, e este trouxe duas prostitutas consigo que trabalhavam lá. Mas nem pagavam nenhum centavo, pelo contrário, nem pagavam a eletricidade, água e diesel para o aquecimento de forma que todas essas empresas mandaram as contas abertas e as intimações a A. A jovem juíza, entrementes, obrigou o diretor de receber A. de novo na sua prisão semiaberta, na condição como antes, mas isso era, logicamente, um novo inferno para A. Foi obrigado parar com a sua profissão embora a Confederação de Coros de Hamburg lhe oferecia uma vaga, e tinha que aprender numa escola outra profissão. O diretor pagou os custos do processo com recursos públicos da prisão, mas mesmo assim quis se vingar e espalhou o boato que A. seria um estuprador de crianças, revoltando os outros presos contra ele. Mas não acontecia nada que serviria de pretexto para afastá-lo. Por isso, enfim, o diretor declarou que ele não seria sociável e mandou-o transportar novamente à prisão fechada. 
O prédio para os recém-chegados é muito ruim, todas as celas fechadas, não tem trabalho nem cursos, cultos, ou outras coisas, e pouca comida. Era inverno, neve e chuva misturadas, tudo fúnebre e cinzento. Ele sentava todo o dia numa cela no terceiro andar, ouvia os presos furiosos bramirem e estava totalmente desesperado e sozinho. Desta vez o advogado precisava de oito meses para desvirtuar as acusações, e depois A. foi inocentado e transferido para outra prisão semiaberta. Era, contudo, um novo inferno. Apesar do julgamento favorável os funcionários fizeram de conta como as acusações fossem verídicas. Não queriam ou podiam imaginar que um diretor tinha inventado todas essas coisas. Por isso não lhe deram uma cela solitária e alojaram-no numa cela suja junto com oito toxicômanos. Tudo que pudesse ir água abaixo, ia água abaixo. Por mais oito meses lhe negaram o direito de trabalhar fora da prisão, agravando a insolvência. Os locatórios na sua casa ainda não pagavam nada, mas mais um criminoso, que morava lá sob pretexto qualquer furtou até o último dinheiro da conta de A., dez mil dólares que seu pai mandara para impedir a insolvência.
A. recebera um carro velho que precisava, porque a prisão ficava fora de Hamburg. Era difícil viajar de lá para Hamburg, e impossível visitar os pais no povoado perto de R., se não tivesse um carro. Mas aconteceu que lhe roubaram as placas. Uma parte dos papeis do carro estava ainda na prisão fechada; por isso A. não podia receber novas placas e a polícia embargou o carro. Os impostos e o seguro do carro, no entanto, tinha que pagar mesmo assim. 
Levantava-se então às quatro horas, porque precisava de ônibus duas e meia horas para o trabalho. Não tinha uma cela para si e era proibido levar comida na prisão. Ganhava bastante porque trabalhava acirradamente para pagar as dívidas da casa, mas a carta de impostos de renda perdeu-se no correio e por isso a empresa tinha que desfalcar mais que a metade para impostos, aposentadoria, seguro de saúde, etc. No fim do mês o dinheiro nem dava para a casa e nem sobrava dinheiro para comprar comida. E aconteciam mais desgraças, uma série de azar; era verdade: tudo que pudesse fracassar fracassava. Aí reparou que não tinha mais chance nenhuma.
Quando fora preso ninguém o preparou para enfrentar o inferno no qual viveria nos próximos anos, sendo praticamente um não-criminoso entre criminosos, e ninguém lhe dissera que as chances de passar esse pantanal brejeiro seriam bem pequenas. Ele fora um criminoso no dia em que agredira sua esposa, mas desde esse dia não planejava mais atos criminosos ao contrário de quase todos os outros presos. Teria sido muito mais sensato matar-se logo no início. Teria poupado seus familiares de tantos problemas e muitos anos repletos de aflições; entre elas o enfarte de sua mãe. O pecúlio da família não teria sido devorado por gastos dos processos, advogados, insensatíssima compra de uma casa e presos fraudadores, mas serviria para bancar a vida e a faculdade das filhas. A., de uma maneira ou de outra, estava perdido. Pôs-se um último prazo: a corriqueira liberdade depois de dois terços da pena. Cumprira todos os requisitos, que lhe tinham recomendado: cursava, participava em grupos, falava com psicólogos, mesmo assim a liberdade condicional foi lhe negada. Disseram simplesmente que ele não seria normal e deveria fazer, a suas custas, mais consultas com um psicólogo particular. Nesse dia soube, que essa sentença significava sua morte, porque chegara a um ponto, onde viu com toda a clareza que não tinha mais chance nenhuma. Chegou natal, e por uma última vez visitou seus pais. Como lhe afigurava alheia a casa dos pais, vista por olhos que vinham se despedindo de tudo. Recomeçara até a tomar drogas, não aguentava mais a convivência com sete presos que de três em três horas consumiam drogas. O último dia do ano era o “auge”, no sentido oposto, da desgraça, do acanalhamento, da baixeza. Um preso o aliciou a pretexto qualquer à estação ferroviária central. Ali ele pediu cinquenta marcos alemães, comprou heroína, sentou-se entre caras sujíssimos no chão, emprestou os petrechos e acabou injetando a droga. Depois levou A. a um botequim e saiu para comprar cigarros, mas nunca retornou. A. esperava duas horas em meio de prostitutas velhas e dois ou três fregueses do bar, passando a meia-noite, a virada, mas não quis saber disso, pois o ano passado era o inferno e o ano novo traria a morte. Totalmente deprimido saiu. Soube que aguentaria isso somente ainda por poucos dias.
Antes de morrer quis ainda resolver ao menos o problema mais enrascado para não as filhas, as herdeiras, tivessem que enfrentar o impasse. Precisava limpar a sua casa, que se tornara produtora de imensas dívidas, expulsando os criminosos que moravam lá. A polícia avisara que não podia ajudar. Não restava lhe outro meio do que contratar três bandidos romenos. Homens da Romênia esperam em Hamburg numa certa rua, se enfileirando na calçada como em outros lugares as prostitutas. Eles aceitam qualquer trabalho por remunerações muito inferiores, mas o contratador pode ser punido por empreitar pessoas sem papeis de trabalho. Esses homens foram armados para a casa de A., deram um tamanho susto aos criminosos alemães na casa, que estes abandonaram a casa. A. encomendou a venda da casa a um corretor, mas este, por enquanto, não conseguiu nada. Mas a situação era já muito melhor para as herdeiras. Iria morrer, e o seguro pagaria os juros da casa no caso de morte, preservando de tal maneira o pecúlio. Era um alívio grande saber que podia finalmente morrer, depois de cinco anos de aflição e sofrimento sem sentido nenhum, na prisão. Sabia que precisava atuar logo, pois a diretora da ala da prisão já planejava metê-lo novamente na prisão fechada, porque o odiava por causa do processo ganhado contra um diretor de prisão. 
Nessa situação afobada e apertada ouviu de repente uma voz no seu interior: “Tu queres acabar com tudo embora saiba que isso pode implicar em condenação eterna. Se estás prestes a largar tudo ao morrer, por que não estás pronto para seguir a minha convocação?”
A. estava estupefato. Será que a chamada de outrora ainda estava vigente? Não era que estragara tudo? Fora desobediente e, além disso, malversara e perdera todo o dinheiro que o Senhor lhe outorgara durante os anos em que trabalhava como músico, e por meio de milagrosos negócios com ações. O que poderia fazer no exterior? – Senhor Deus, orou, não tenho mais força para aguentar tudo isso por mais tempo. 
Sabia que tinha que ficar preso ainda três anos. Talvez seria possível ganhar a liberdade condicional, mas mesmo assim não poderia ir ao exterior pelo dever de contatar a polícia de vez em quando. Seria mesmo possível que o qualificassem como psiquicamente doente para poder trancafiá-lo por mais tempo. Teria que lutar muito, mas era exausto e esfalfado.
“Nem sequer tenho forças para mais uma semana”, disse. 
“Não”, respondeu aquela voz, “quero dizer que vás embora agora mesmo.”
“Fugir? Mas isso é difícil e cheio de riscos. E para onde teria de ir?”
“Já sabes.”
Esta resposta o surpreendeu e desconcertou. Ponderando mais tempo sobre aquele assunto chegou à conclusão que havia somente uma alternativa. O livro “São só crianças” estava chamando-o para o Brasil. 
“Tá bom”, pensou. “Não tenho certeza se aquela voz no interior era a voz de Deus. Talvez fosse uma alucinação produzida pelo medo da morte? Mas não tenho alternativa. Vou tentar seguir a exortação ainda que creia que não será possível. Acho que não obterei um passaporte nem passarei os controles no aeroporto, porque meu nome deve estar no computador da polícia. Posso levar veneno comigo para acabar com a minha vida no caso de fracasso. Não perderei nada; por que então não seguir à voz e viajar um pouco?”
A. teve ainda um depósito de ações no valor de cinco mil dólares, escondido dos criminosos, que moravam antes na sua casa. Nesta noite orou e confessou a Deus que tinha feito tudo erradamente. 
“Meu Deus, eu sei que sou uma pessoa sem valor para o teu reino, não presto para te servir. Mas se queres, apesar de eu ser indigno, meu serviço: eis-me aqui. Usa-me. Eu quero, de novo, pertencer a ti, quero ser a tua propriedade, totalmente. Dirige a minha vida, porque eu sozinho não posso achar o meu caminho.”
Para mostrar a sua sinceridade foi logo neste mesmo dia para uma agência de viagens e pediu, dirigido por um sentimento impulsivo, um voo de Amsterdã, capital holandês, a um lugar qualquer no Brasil. 
Aí aconteciam coisas estranhas: Todas as coisas, de repente, lhe saíam bem, sem mais se resolveram problemas urgentes, como nos tempos antigos. A prisão, que tinha confiscado seu celular, lhe o devolveu, sem explicações. No dia seguinte a polícia ligou a A., o que teria sido impossível sem este celular, para avisar-lhe que acharam as placas furtadas de seu carro. Poderia usá-las de novo.
A. ficava boquiaberto. Antes, pois, lhe foi explicado, que placas, uma vez roubadas, não podem ser usadas de novo. Quase não podia crer naquela boa sorte.
No dia seguinte sua empresa, uma telefônica, o mandou ao bairro onde ficava também a repartição distrital para passaportes. Estava fácil ir para lá e, sem mais, aceitaram seu requerimento. Graças ao fato de ter novamente o carro pôde ir buscá-lo alguns dias depois. Não dá para contar aqui todas as coisas que conseguiu nesses dias com facilidade, tecendo uma nova cadeia entrelaçada de acontecimentos felizes e de boa sorte. Mas apesar de tudo estava preocupado por não poder achar o livro do projeto no Brasil. Não se lembrou do título exato, nem do nome da autora, nem da editora, e as igrejas não o venderam mais. Talvez perdesse o livro quando mudar de prisão em prisão, ou tivesse-o emprestado a alguém. Perguntava, então, em várias livrarias, descrevendo o conteúdo do livro e a cor, mas saía sempre sem sucesso. 
Certo dia chegou ao ponto de ônibus, perto da telefônica, para pegar o ônibus para o centro, que, porém, acabou de partir. O próximo chegaria depois de vinte minutos. Neste momento viu uma pequena livraria evangélica ao lado do ponto de ônibus. Ficava surpreendido porque nunca antes reparara naquela loja. Ouviu uma voz que o mandou entrar na loja e perguntar pelo livro.
“Agora certamente não é a voz de Deus”, pensou. “Já sei que aquele livro está esgotado. É melhor aproveitar o tempo para ligar a alguns clientes. E talvez o próximo ônibus venha mais cedo”, considerou, apesar de que na Alemanha os ônibus passem, em geral, em ponto, seguindo o horário exposto em qualquer ponto de ônibus. “Não vou entrar na loja.”
Mas a voz repetiu: Entra na loja e pergunta pelo livro.
E a voz não parou, não dando sossego para ele poder telefonar. Ele se resignou:
“Pois bem, é uma loucura, mas eu vou entrar para tranquilizar esta voz intrometida demais.”
Como era de esperar o dono da pequena loja não conheceu o livro quando A. descreveu vagamente o conteúdo, mas ofereceu-se logo para procurar no computador. A diligência serviçal do homem gordinho aborreceu a A. porque soube que a procura, sem título nem nome da escritora, não podia ter sucesso. Somente perderia seu tempo, que precisaria para fazer as ligações de celular. Aí ouviu-se uma voz da sala ao fundo da loja. Era um eletricista concertando um cabo defeito, que por coincidência conhecia o livro. Ouvira A. falar e lembrou-se da autora e, mais ou menos, também do título. Fornecido com aqueles dados o computador informou que o livro não estava mais na venda, mas A. recebeu pelo menos o número da editora. Ligou para lá para pedir o endereço da escritora ou do projeto dela no Rio de Janeiro. A funcionária pediu-lhe o endereço para mandar os dados, porque precisaria um tempo para procurar no arquivo. Ele deu o endereço de sua casa, que estava agora vazia, não considerando um aposentado alojado ali por enquanto, por intervenção de uma mulher da Associação Johann Sebastian Bach.
No fim da semana A. foi para sua casa, mas não achou a carta da editora. Talvez ainda chegasse ou a funcionária tinha esquecido o assunto. Mas A. não chegou a ligar novamente à editora, porque tinha muitas coisas a fazer pela telefônica. Na quinta-feira foi à agência buscar seu bilhete de avião. Levou-o a sua casa, fazendo um desvio quando retornar do trabalho à prisão. Isso era também só possível porque ele tinha de volta o carro. Sem carro teria sido necessário levar o bilhete na prisão, onde os controladores da entrada ou das celas poderiam achá-lo facilmente. Quando chegar à casa na escuridão da noite de inverno ouviu de novo uma voz: “Olha no recipiente de lixo.”
As casas na Alemanha dispõem de pipas tampadas de plástico para guardar o lixo, os quais a prefeitura despeja somente uma vez por semana. 
“Se um vizinho, por acaso, viesse me olhar no recipiente de lixo, como um mendigo faminto...”, resmungou aborrecido pelo novo capricho desta voz estranha. Teria que controlar o que esse aposentado, que morava lá, jogava no lixo? Às vezes também o restaurante avizinhado aproveitava um vão na pipa de A., mas a quem importaria? Mas alguma coisa misteriosa não o deixava entrar sem antes abrir a tampa. 
“Pois bem”, xingou. “Vou então fingir que queira jogar algo do bolso do sobretudo no lixo”, resignou-se e cedeu à voz caprichosa, supostamente uma veleidade esquisita de si próprio, nascida na sua fantasia. 
Abriu a tampa e viu, acima do lixo, várias cartas e prospectos de propaganda. Pareceu que o aposentado jogara os no lixo sem abrir, sabendo que A. por ser preso não tinha interesse para as ofertas. 
“E aí?” pensou.
“Olha direitinho”, mandou a voz.
Propaganda para loterias, artigos de construção, livros, aquecedores,...
“Olha melhor.”
Livros! Agora caiu a ficha. Será que...
Abriu o envelope com ímpeto. De verdade, não conteve reclame embora que o envelope estava cheio de propaganda; era a carta da editora com os endereços do projeto Ministério Programa Criança Feliz. 
Que prazer! Não somente pelo fato de ter finalmente o endereço. O que lhe significava ainda mais é que era uma prova para que a voz era, de fato, sobrenatural. Mal podia ser coincidência, de novo. Deve ter sido a voz de Deus. Quer dizer: o próprio Deus queria que A. fosse visitar o projeto. Depois veria o que poderia fazer lá no Brasil, Deus o guiaria. Até aquele momento não tinha certeza, que esta voz representava a vontade de Deus, mas agora não podia mais partir de coincidência e acaso. (Mas o leitor já sabe, que mesmo assim A., mais tarde, se afligiu com novas dúvidas, porque não tinha boas experiências dos últimos anos e a sua alma e sua fé estavam fracas.)
Na escola tivera aulas de física de altíssimo nível, e desde esse tempo gostava da matéria e lia livros sobre assuntos da física. Talvez por isso tinha o costume de jamais aceitar uma coisa por verdade absoluta quando só parece ser certa. Na física aprendia, por exemplo, que um átomo é constituído de bolinhas minúsculas, e alguns, os elétrons, giram ao redor do núcleo como pequenos planetas ao redor do sol. Hoje sabemos que isso não existe. Trata se somente de um modelo imaginário, que serve para dar alguma ideia de coisas desconhecidas e explica uma parte dos fenômenos produzidos por um átomo. Não existem, porém, pequenas bolinhas. Um modelo na física é como uma parábola de Jesus, uma narração alegórica inventada por Jesus para explicar alguma coisa teológica, que não é uma reportagem de acontecimentos verdadeiros. Da mesma forma neste livro a infiltração do cérebro com ideias más, na prisão, é comparada com uma capa de chuva leve e meio permeável à água. Mas sabe-se que uma prisão, na verdade, não tem semelhança com uma capa de chuva. Assim são também os modelos na física, eles não significam que a verdade seja igual ou parecida.
Na física quase nenhum fato é tomado por verdade absoluta. Os cientistas acham, que tem buracos negros. Mas eles são sempre prestes para corrigir essa teoria. Os cientistas acham também, que a terra gira ao redor do sol, temos quase certeza, porque até hoje todas as experiências provavam esse suposto. Mas sabemos que tudo seria diferente, se uma só nova experiência provasse o contrário. Sabe-se, na física, que uma cognição, um conhecimento deduzido de impressões, é somente uma teoria, até, talvez no futuro, a gente possa ter certeza.
Por isso meditou também sobre outra explicação para os acontecimentos na sua vida. Sabia que psicólogos espertos já desenvolviam muitas teorias para explicar tais fenômenos sem pensar em Deus. Será que o mero aspecto da pipa de lixo negra, na escuridão da noite, o assustara, causando desconfiança, que o fez olhar no lixo? Talvez tivesse uma desconfiança inconsciente a respeito do aposentado, que morava na casa, que lhe, junto com a negritude, causou um mal-estar?
O leitor julgue mesmo. A., pelo menos, achava essa explicação psicológica pouco convincente. Por quê esse mal-estar exatamente naquele dia? Um sentimento forte e estranho como naquele dia, aos dezesseis anos, quando parou ao lado do muro de um cemitério com uma bicicleta com cestos cheios de morangos. Mas, claro, não tinha certeza absoluta.
Tendo o carro de volta, A. podia levar, dia por dia, pequenas quantidades de bagagem da prisão para fora, depositando tudo no porta-malas. Desta maneira ninguém levantou suspeita quando A. deixou, em sábado, dia 24 de fevereiro, de 2001, a prisão com uma só bolsa. Eram as nove e meia da manhã. Mas a posse do carro implicou mais vantagens, que teriam uma função importante no futuro; mais um indício para a agitação duma vontade superior atrás dos acontecimentos. 
A. chegou à casa às dez horas. De ônibus e metrô não teria chegado antes de meio dia. O trem para Amsterdã partiria às 21.30. Estava com bastante tempo para ir ainda à casa dos seus pais, em R., buscar alguns documentos e outras coisas que se encontravam lá. Os pais estavam viajando, mas A. possuía uma chave. Na casa dos seus pais achou também a sua Bíblia preferida, um livro para aprender o português do Brasil, os documentos pessoais como certidão de nascimento, livro da família, e o fichário, dois caixinhas com dois mil papeizinhos com vocábulos brasileiros. Levou também roupas, uma segunda bolsa grande e algumas coisas a mais. Sem aquelas coisas a missão no Brasil teria sido difícil ou impossível. Procurava ainda um alforje, bolsas duplas para bicicletas, mas sem sucesso. (O leitor já sabe, que a viagem foi possível também sem alforje. Desta maneira não precisava abandonar as bolsas grandes no Rio.)
Quando tudo estava pronto A. sentou-se ao piano que usara muito e cada dia, quando era jovem, e tocava obras de Johann Sebastian Bach e Ludwig van Beethoven, e suas próprias composições. Depois preparou uma grande granola com flocos de aveia, nozes, avelãs e maçãs da adega no subsolo, sentou-se na sala de jantar e a vista abarcou os longes, o terraço, o grande jardim, o vale com um córrego e a mata, que brilhava foscamente nos últimos raios do sol do inverno nórdico. Comia enquanto uma ampla gama de sentimentos lhe inundou a mente, nesta hora da despedida. 
Às seis horas da noite A. estava de volta na sua casa em Hamburgo, que desde então ficaria ao Deus dará. Sentou-se ao cravo, aquele instrumento parecido ao piano, que se usa para a música da época de Bach, os séculos XVII e XVIII. Tocava músicas do livro “O piano bem temperado”, de Bach, um volume famoso com obras timbradas de uma religiosidade profunda e mística, dedicada à vida de Jesus. A noite do inverno começara, fria e escura, e uma mistura estranha de sentimentos fervilhou no seu interior. Era a despedida da casa, da cidade, lugar de tantos sofrimentos, sofrimentos que não podia aguentar mais, e a consciência que a morte estava perto, no caso do fracasso da fuga. 
Quando repus o livro no armário viu a grande pilha de livros de música, cento cinquenta volumes somente para o órgão de igreja, e a metade deles cifrada com grande minudência, números para os dedos, outros para as vozes do respectivo órgão, as ligaduras e outros sinais, muitas vezes ainda especificados para diversos órgãos na Alemanha e Polônia. Apresentado em cultos, missas, concertos e provas na escola superior de música e teatro. Neste momento soube que nunca mais na sua vida usaria aquele tesouro; ao contrário de Albert Schweitzer que, mesmo servindo ao Senhor como médico na África, retornava às vezes à Europa para tocar as músicas de Bach em recitais.
Não comeu nada para aproveitar cada minuto; comeria depois no trem. Às oito e meia horas, pegou as duas bolsas grandes e uma bolsa pequena a tiracolo e foi para a estação do metrô, donde foi à estação central. Pela última vez passou por este lugar de putas baratas, prostitutos e morfinômanos, dos quais conhecia agora alguns da prisão; era o lugar da noite da virada, testemunha do seu declínio. 

Na manhã seguinte, a primeira claridade o despertou, insinuando-se pelas fendas das venezianas levemente abertas da cabana velha. Agora, na luz do dia, A. reparou que a casinha havia mais um quarto, mobiliado e com um candeeiro de óleo na mesinha. Lavou-se na água fora da choupana, arrumou a bolsa, pregou as venezianas e saiu do vale aconchegante e bonito. Era lhe um prazer saber que não fez nenhum mal ao dono da casinha. Pelo contrário, deixava-a com as venezianas fechadas de forma melhor do que antes. 
Carregou a bolsa morro acima e achou ali a outra bolsa e a bicicleta debaixo do arbusto. Que bom que a bolsa estava bem coberta por folhas de plástico de maneira que tudo se preservava seco. Olhou no prospecto da região e achava que a estrada iria ainda alguns quilômetros nesta direção até passar um hotel. Mas quando ele continuou a viagem verificou que a estrada, pelo contrário, ia descendo. Depois de pouco desfrutou o sol da manhã cedo, e o panorama se ampliava e a vista abarcava de novo os longes, um vale amplo e longe que se estendia uns quarenta quilômetros. Não gostava da ideia de descer para lá. Depois teria de voltar, subindo os montes, porque a única estrada para Belo Horizonte era mesmo a BR 040. Decidiu que voltaria para Petrópolis e visitaria a Serra de Mantiqueira ao outro lado da cidade, onde fica Teresópolis. Parou para comer o café da manhã. Sentou-se numa pedra grande onde o primeiro sol o esquentava, comeu, leu e estudava os papeizinhos com vocábulos e partiu somente depois de mais de uma hora.
Era necessário vestir novamente os tênis porque o aclive era inclinado demais para empurrar uma bicicleta com bagagem pesada de sandâlias. Felizmente os trechos mais íngremes eram somente breves e o sol era ainda moderado. Alguns minutos depois, às dez horas, viu à direita uma pequena igreja ao lado de um riacho, na qual se deu uma aula para crianças, ainda que não fosse domingo. Um trilho ao lado da igreja ia a uma corredeira com cascatinhas. A. acostou a bicicleta no muro da igreja, pegou a Bíblia e o livro de português e foi para sentar-se ao pé das cascatinhas debaixo de árvores de grande porte. Desta maneira e neste lugar bonito chegou a conhecer o profeta mais importante: Isaías, que viveu no tempo do rei Ezequias. Pronunciava aos israelitas o destino futuro, e também profetizava sobre Egito e outros países. E, de súbito, anuncia no capítulo nove de seu livro, também chamado de “Isaías”, o nascimento de uma criança, descendente do rei Davi, enviado pelo próprio Deus; uma criança que será príncipe da paz. “O povo que andava na escuridão viu uma luz forte”, escreveu o profeta depois das visões. 
Isaías espinafra os desvios pecaminosos e xinga por causa de pessoas que praticam uma religiosidade superficial; sabem de cor algumas preces e frases, mas falta lhes uma fé viva que vem de uma convicção sincera, pura e firme.
Quando o céu se cobriu de nuvens e o lugar sombrio se tornou fresquinho, saiu. Depois pouco alcança o lugar mais alto da estrada e vê à esquerda a porteira, que o atraíra tão magicamente na noite passada. Um último relance para despedir-se e já passa o ponto, onde ontem o ônibus cheio de alunos rosnara suas dificuldades na tranquilidade da noite montanhesa e depois os amplos meandros da estrada levam-no para baixo. 
A. ficou maravilhado que tem curvas sinuosas morro abaixo sem fim, muito mais do que na sua lembrança. “Será que ascendi toda a estrada ontem à noite”, estranhou. O sol reina de novo e A. goza o trecho sem precisar pedalar, e o panorama lindo do vale com o riacho o apraz. Quando passa a lote com os três cães, sorri pensando na sua boa sorte nas mãos de Deus e seu coração está leve e livre. 
De volta no povoado percebeu quão forte estava o calor. Aprouve-se, todavia, da beleza do lugar e parou como ontem em frente às lojas. Em vez de pãezinhos comuns foi comprar um pão integral, que descobriu no estante, mas ficou surpreendido que era mais caro do que na Alemanha; para um brasileiro simples, então, quase impagável. Comprou frutas, e um pão integral muito pequeno por quatro reais, correspondendo, nesse tempo, a quatro marcos alemães ou dois dólares. Não achou lugar sombrio; comeu, então, na penumbra ao lado da estrada ao pé de algumas arvores. Apesar da frouxidão pelo calor continuou a viagem e depois de meia hora estava de volta à encruzilhada com tráfego circular, onde se encontrava a informação turística. Desta vez dirigiu-se à direção oposta. Passou à direita um parque municipal, onde teria feito mais uma pausa, mas não podia entrar junto com a bicicleta. Seguiu, portanto, a rua, flanqueada por postos de gasolina, borracharias e oficinas mecânicas, até que achou, à direita, a estrada para Teresópolis. Seriam, no máximo, vinte quilômetros. Tinha então muito tempo, e por isso aproveitou uma estrada à esquerda para visitar o chamado “Vale da boa Esperança”.
Quando chegou a uma aldeia, aproveitou um ponto de ônibus com dois bancos toldados para fazer mais uma pausa criativa. O céu estava novamente nublado e logo depois começou a chuviscar. A. ficou então ali para ler, ao passo que a chuva veio tornando-se mais forte, formando grandes poços na rua de terra. Vários jovens vinham abrigar-se no ponto de ônibus, esperando. Mais tarde a chuva tornou-se novamente mais leve, mas agora o vento avivou-se aspergindo tudo de chuvisco. Todas as pessoas debaixo do toldo ficavam, desta maneira, sem abrigo; A. vestiu a capa de chuva, mas não podia mais ler. Resignou-se então, e às cinco horas deixou o ponto. Já tinha reparado que alguns sinais rumo ao vale anunciavam duas pousadas. Mesmo sendo supostamente caras A. quis alojar-se numa delas, desde que não achasse outro lugar bom para a noite. 
A povoação estendeu-se aos lados da rua bastante longa, a garoa fina continuou e logo chegou o entardecer. Já estava escuro quando a rua se bifurcou, deixando a escolha entre dois caminhos encharcados. Faltavam ainda alguns quilômetros até a pousada. A perspectiva de alguns quilômetros nessa lama desanimou a A. e ele voltou. Percorreu com os olhos as ladeiras ao lado da rua, mas não achou nada para a noite. Lembrou-se, porém, de uma pedraria no início do povoado. Talvez achasse lá um abrigo para dormir na noite. No caso contrário não lhe ficaria nada do que levar a estrada a Teresópolis.
A pedraria, no entanto, estava cercada por um arame bem alto. Mas ao outro lado da estrada ficava uma casa grande de luxo, em construção. Era quase pronta, mas tinha ainda nem muro nem cerca. Examinando o lote achou atrás da casa um pequeno terraço bem protegido pelo telhado e muros. A porta do terraço para o quintal faltava ainda, e A. podia entrar junto com a bicicleta. Fechou a entrada com uma tábua grande, porque no lote avizinhado pastava um cavalo, que veio aproximando-se curioso, e por um triz não entrou no terraço. O chão de cerâmicas brancas estava polvilhado de cimento, mas pelo menos seco, e o muro baixo servia para espalhar as roupas molhadas. A escuridão não dava para ler, mas A. arranjou o pão e as frutas no muro e comia esfomeado. No fundo do quintal murmurava um córrego e atrás dele a mata. Vislumbrou a silhueta escura e comeu com muito gosto ao passo que o cavalo o olhou tranquilamente, como se A. fosse um programa de televisão para cavalos.
Estendeu no chão duro folhas de plástico, acima deles toalha, suéter e calças, que serviram como colchonete improvisado em cima do chão duro e, a seguir, enfiou-se no saco de dormir. Era muito feliz passando os últimos dias na retrospectiva. Pensou também no tempo empolgante cerca de setecentos anos antes de Cristo, a época do rei Ezequias de Judá, e dos profetas Isaías e Miquéias.

O grande rei Senaqueribe de Assíria era morto, estocado diante do altar, e, ao passo que os dois filhos assassinos fugiam, o filho Esar-Hadom, que estivera na entrada do templo, assumiu o poder nesse reino poderoso e legendário. Era o soberano do país mais forte e amedrontador daquele tempo, com exceção talvez de China, que, porém, ficava muito longe e afastado e era muito menor do que hoje. No sul, contudo, ficava ainda o Egito, monarquia mais antiga, uma cultura grande e tradicional, que ainda exercia uma influência considerável à região. Isso era o sonho e a ambição do jovem rei Esar-Hadom: Quis vencer o seu rival, quis humilhar o faraó do Egito, quis perfurar-lhe os olhos e entregar as suas filhas, esposas e odaliscas do harém à sua soldadesca e levar as virgens egípcias à escravidão. 
Pôs-se a reestruturar, avolumar e treinar o exército assírio. O soberano, que era dono da coroa dupla do Egito, acudia ao nome Tiraca, e era um negro do sul do Egito, da região, onde ficam hoje o Sudão e a Etiópia. Aquela província pertencia, há setecentos anos, ao Egito, mas o faraó não tinha destituído os príncipes locais, que eram, como toda a população por aí, altos, delgados, fortes e pretos, uma raça tida por muito bonita. Havia duzentos anos, o Egito ia perder-se no caos e lutas entre príncipes cobiçando o trono. Aí um dos príncipes negros do sul acudira sufocando os motins e tornando-se o novo faraó, o primeiro duma dinastia de faraós negros, da qual advinha também seu neto Tiraca, o atual detentor do poder nas regiões aos lados do rio Nilo, na península do Sinai e até na Líbia. O harém dos faraós era sempre repleto de moças lindíssimas de vários países, mas por serem considerados como deuses os faraós casavam-se também com irmãs e meio-irmãs, escolhendo entre elas a primeira esposa, que garantiria a pureza do sangue divino. Desta maneira a cor bronzeada escura predominava ainda na pele da família egípcia real. 
Ezar-Hadom já via nos seus sonhos e desejos a multidão das princesas ébanas e mulatas, que se arvoravam em raça divina, sendo subjugadas e violadas pelos soldados rudes, no pó do chão. 
Esta cobiça de Ezar-Hadom era uma vantagem para o pequeno Judá, porque o poderoso rei não se importava com esse último pequeno país independente na região predominada pela Assíria. A economia recuperava-se aproveitando o fato de ser situado o país entre o Egito e a Assíria e entre o Mar Mediterrâneo e os países árabes. Rei Ezequias morreu e foi enterrado na parte de cima dos túmulos dos reis da dinastia davídica, e muitos estavam em luto por esse soberano exemplar. Seu filho Manassés, aos doze anos, tornou-se o novo rei. Ele conhecia muito bem todas as mulheres do harém do seu pai, onde nascera, e sabia muito sobre os diversos deuses e cultos seguidos pelas mulheres. As mulheres, pois, não eram escolhidas por serem as mais puras, boas e agradáveis aos olhos de Deus, dando assim um bom exemplo ao povo, mas somente por serem beldades, e nem todas eram judias. Todos os reis judeus toleravam a idolatraria de suas mulheres, considerando-as escravas sem importância. Mas desta maneira os filhos do rei foram contaminados por uma mistura de cultos e crendices.
Para Manassés os cultos a um deus invisível eram enfadonhos e paulificantes. Seus professores não conseguiam abrir-lhe os olhos para o poder real do Deus de Israel, e por isso tinha muito mais interesse para a empolgante oferta de moças e crianças a deuses pagãos, adivinhações supersticiosas, e a adoração às estrelas. Visões da puberdade o excitavam e a imaginação de garotas vendidas e forçadas para entregar os seus corpos nus a qualquer homem em certos templos pagãos lhe atiçava a fantasia e o rei promovia o restabelecimento desse costume religioso no Judá. Afastava até os próprios altares de Deus do seu próprio templo para dar lugar às imagens e estátuas de deuses estranhos e demônios e altares para adorar as estrelas. A seguir apoderou-se de moças, garotas e até moços bonitos para colocá-los no templo onde tinham que prostituir-se. Homens que pagavam um donativo ao templo podiam levá-los aos quartos no fundo do templo, atrás do Santíssimo Lugar. Claro, muitos judeus se lembravam bem das palavras ameaçadoras dos profetas, sobretudo, as do recém-falecido ancião Isaías, mas não era que o simples fato da prosperidade abundante mostrava que tudo ia bem e ninguém precisava ter medo das ameaças desses velhinhos?
Entretanto o exército grandioso de Assíria com rei Ezar-Hadom passou por perto do reinado judeu e sobressaltou o Egito. A família real de Tiraca fugiu ao sul, à província dela, e ficava lá, contentando-se com o principado local. Ezar-Hadom vingou-se contra a população, porque não conseguira capturar nenhuma princesa real para humilhá-la. Depois de pouco tempo o rei assírio tinha que retornar ao seu país, porque os medos e os persas, duas tribos equestres bravos das amplas estepes no nordeste, aproveitaram a situação para saquear as regiões fronteiriças. Era necessário dar-lhes uma lição como já o tinham feito os reis antecessores. Somente uma parte pequena das tropas ficou no Egito.
Depois de alguns anos o rei morreu sem poder reagir às notícias ruins do Egito. Os soldados assírios logravam a vida de conquistadores no rico Egito para viver muito bem. Quanto mais se mimoseavam com comida boa e as moças delgadas do país subjugado, tanto mais atiçavam a raiva da população. Ultimamente os egípcios armavam uma rebelião e afugentaram os assírios. O príncipe hereditário na Assíria era Assurbanipal, filho de Ezar-Hadom, um homem muito erudito, que gostava das artes e da escritura. Assim como Manassés, o perverso rei de Judá, reinava por quarenta anos, timbrando a sua época. Mas enquanto o auge do reinado de Manassés era a oferta sangrenta de suas próprias crianças no vale Bem-Hidom perto de Jerusalém, o rei sábio da Assíria fundou uma biblioteca famosa, venceu por cima dos medos e persas, e conquistou duas vezes o Egito. Somente quando ele era velho e cansado das lutas, a rebelde família de um príncipe egípcio pôde, enfim, ocupar o trono e estabelecer uma nova dinastia faraônica. Assurbanipal deixou para seu filho, Sinsariscum, o Orgulhoso, um império florescente; Manassés, contudo, legou um reinado que viveu em riqueza, mas era adicta a tantas formas de perversidade abominável, ainda que os judeus fossem tidos por filhos de Deus.

Enquanto A. adormeceu, em Belo Horizonte saiu de um ônibus ao pé do famigerado Morro do Papagaio uma moça graciosa. Subiu a pé para a favela que era conhecida pela violência dos traficantes. A moça estava cansadíssima, como sempre nesse horário. Tinha trabalhado, como de hábito, das 8 às 17 horas, como professora na creche à beira da favela. Depois das cinco horas tomara banho, mudara as roupas e fora de ônibus ao centro da cidade. De seis até nove horas da noite estava diariamente na escola para fazer o supletivo. Como teria gostado fazer o segundo grau quando jovem!
Quando com três anos, seu pai se aposentou e começou a beber, o que agravou ainda a precária situação financeira da família com cinco crianças. A mãe trabalhava como lavadeira, mas o dinheiro ganhado nem bastava para os alimentos. Era um consolo que a pequena casinha possuía uma considerável horta com legumes, frutas e também marrecos e galinhas.
O pai não aguentava o alarido de crianças e as duas irmãs mais velhas saíram da casa para trabalhar como empregadas, ao passo que a terceira menina, aquela de três anos, virou uma criança sossegada, tímida e até acanhada, que ficava em casa quieta, pintando. Era uma aluna muito boa, mas teve que ir embora, aos quinze anos, para ganhar dinheiro como empregada. Mudava algumas vezes o lugar por más experiências, mas ela precisava do dinheiro para se suster e também para ajudar a dois irmãos mais novos, que ficavam em casa sozinhos quando os pais morreram.
A mãe, que estava nos últimos anos quase sempre doente, deixara à moça, a sua filha mais nova, um tesouro exímio: uma fé viva que estava profundamente arraigada no coração da moça, ainda que ela se sentisse às vezes até na igreja evangélica discriminada por ser pobre e negra. As experiências deixavam marcas em sua alma, mas não puderam abalar a sua fidelidade para com Deus e a consciência da vida como aluna e irmã de Jesus. Estava, então, feliz quando achou uma vaga como empregada de um casal jovem de sua igreja. Seu ofício mais importante era cuidar do filho pequeno, que veio amando a sua babá de todo o coração.
Nunca tinha a possibilidade de namorar, mas confiava em Deus que ele escolheria um marido bom para ela, como a igreja ensinava. Mas, aos vinte e um anos, o tempo sem marido nem namorado lhe pareceu bastante longo e ela tinha saudade de um marido, a quem ela amaria e quem a amaria. Ele seria um polo de paz depois de tantos anos difíceis. 
Orava assiduamente por esse assunto, e um dia, quando olhava pensativa o céu parcialmente nublado, viu que as nuvens formaram números e letras. Era por acaso? Poderia ser um verso da Bíblia! Abriu-a aferventada e achou o lugar indicado pelas nuvens. Era uma exortação que teria que esperar a um estrangeiro que Deus lhe iria mandar.
Alguns anos depois a sua patroa lhe arranjou um emprego na nova creche da igreja na beira do Morro do Papagaio. Ao lado da creche constituiu-se uma igreja filial para atender melhor à favela, onde a moça participava. Mas, desta maneira, ficava todo o dia na favela. Como seria possível chegar a conhecer um estrangeiro?
Um susto danado lhe cortou o coração. Foi agarrada bruscamente por dois homens e apertada contra o muro de uma casa escura, e ela sentiu o aço do revólver na sua fonte. Imagens terríveis de tormento, violação, estupro, roubo e homicídio lhe dispararam pela cabeça e nem podia dizer, depois, quanto tempo passou até que um dos bandidos, que pertenciam à facção local, exclamou:
“Não é ele.”
Soltaram as mãos que seguraram a moça duramente. 
“Procuramos outro.”
Mas ainda ficavam desconfiados porque não conheceram a moça. Somente quando algumas pessoas no barzinho da esquina confirmavam que conheciam a moça e que ela morava no morro, os dois a deixaram. Ainda uma hora depois, quando preparou o jantar para os irmãos, lhe tiritaram os joelhos. Quis ainda, depois da meia-noite, limpar a casebre e aprender para as aulas, mas a força deu somente para lavar as louças e ler alguns versos na Bíblia.

Faltavam alguns minutos até as seis horas, na manhã seguinte, quando A. acordou. Comeu duas fatias do pão e uma banana, bebeu água e saiu daquele lugar hospedeiro, no qual ficaram boas lembranças, como em todas as noites anteriores. Partiu tão cedo para não ser visto por vizinhos, que talvez desentendessem a situação. Não quis arriscar um encontro porque pensou que a sua dificuldade de falar português poderia gerar complicações. Além disso, a hora matutina era ideal para ir de bicicleta porque o sol estava ainda escondido atrás do horizonte ou das rochas ao lado da estrada ou, mais tarde, pelo menos ainda fraco. Podia pedalar morro acima sem camisa, sem correr risco de uma nova queimadura. Mesmo assim precisava empurrar a bicicleta a pé, muitas vezes. A estrada subiu serpeando, as rochas íngremes à direita, e à esquerda via de lugares sempre mais altos o lindo vale, no qual predominavam casas brancas com piscinas azuis. 
Às vezes corria água clara das rochas acima da estrada e A. aproveitou-a para refrescar-se e encher a garrafa. Calculou duas horas para o caminho a Teresópolis onde buscaria um hotel. Mas quis chegar à cidade somente à tarde ou à noite desfrutando o dia nesta paisagem maravilhosa para estudar muito, e às nove e meia, quando o sol já queimava bastante, descobriu um córrego murado que vinha de uma pequena fenda na rocha à direita, para fazer a primeira pausa. No caso de chuva as águas passariam um tubo por baixo da estrada e jorrariam para baixo. Agora o leito era seco, mas sombrio; em tudo um lugar aceitável para uma pausa. 
Era possível entrar na fenda da rocha e achar, a três metros, uma pequena gruta com um altar improvisado, enfeitado por velas e estatuetas que deveriam afigurar Maria com a criança Jesus. A. sentou-se na beira do córrego murado e comeu as últimas fatias do pão e bananas e laranjas. Depois estudou português. Além dos papeizinhos de vocábulos e o livro tinha agora as revistas sobre o projeto de crianças na pousada de Petrópolis para ler português. Sabia algumas palavras da língua latina, que estudara na escola, do espanhol ou do italiano, que estudara na escola superior de música. Quase sempre entendia, pelo menos vagamente, o conteúdo dos textos sem precisar consultar o dicionário. 
Quando o sol tinha avançado tanto que mesmo perto da fenda faltava a sombra, A. teve que ir-se embora. Agora era obrigado a empurrar muito, mas os esforços valiam a pena porque o grandioso panorama encantava o viajante. O vale à esquerda era agora verde e viram-se somente algumas poucas choças pequenas. Ao lado da estrada via às vezes ao pé de árvores e pedras frutas, garrafas e pratos cheios de uma massa cinza, talvez arroz ou bolo estragados. Uma vez viu em grandes letras escrito o nome ENSA. Seria o nome de uma deusa? A. lembrou-se dos antigos profetas de Israel, há 2700 anos, que vituperavam os mesmos pecados. Também neste tempo os israelitas ministravam ofertas diante de árvores e pedras, em vez de honrar somente o seu Deus único e fiel, que os trouxera do Egito à terra prometida e que, se não fosse um equívoco, guiava também a A. nessa viagem. 
Aliás, A. estava na dúvida. A casa senhorial em Petrópolis com pousada e creche o fascinara de maneira tão especial que se perguntava se fosse talvez algum aceno de Deus. Será que ele quis que A. trabalhasse aí como voluntário? Ou será que Deus somente quis mostrar- lhe o projeto, como estimulo?
Na verdade, A. partia do princípio de que Deus, uma vez dono e guia da sua vida, tê-lo-ia chamado com mais efeito, se fosse a sua vontade. A. poderia ter encontrado um membro da diretoria, por exemplo. Certamente A. sabia que ainda não estava pronto para entrar em um trabalho para Deus. As chagas do tempo na prisão estavam ainda presentes; precisaria semanas ou meses viajando sozinho para achar o equilíbrio, para poder pensar com toda a clareza, e para procurar, aprovar ou restabelecer seu relacionamento com Deus. Mas sabia que estes planos e desejos não eram relevantes, se Deus o chamasse para um lugar qualquer. Contudo, desde a noite em Petrópolis não obtinha notícia nenhuma de Deus que lhe confirmasse a certeza do atual caminho no qual prosseguia. “Não”, lhe surgiu na mente uma nova ideia. “Não é verdade. Deus me mostrou a casa no vale, o que significava, que o Senhor estava comigo.” Sabia desde os tempos como músico da igreja em Hamburgo-Farmsen: Se o Senhor ajudar uma pessoa assiduamente, é um sinal da sua benevolência, mostrando lhe, que continua no caminho certo. Mas o que seria se o achar da casa não fora um ato de Deus, mas uma mera coincidência casual? As dúvidas começaram de novo.
Depois de duas horas deparou à direita com um barranco rochoso. Um arroio silvestre contornando grandes pedras espalhadas pelo leito, bordado por árvores altas, desceu cascateando do monte. Um trilho já ia a um lugar lindíssimo ao lado da corredeira, que estava, todavia, prejudicado por muitas frutas em decomposição e garrafas diante de pedras, arbustos e árvores, e um carro queimado.
Mas quando reparou que um homem esportivo podia alcançar uma rocha em meio das águas rumorejantes, saltitando de pedra em pedra, sentia-se atraído por uma vontade forte de ficar e ler neste lugar a Bíblia. Não sabia se essa atração constrangedora se reportava mais uma vez em uma influência divina ou em seu fascínio geral por rochas em água. Pelo sim, pelo não, ficava assentado na rocha, comeu a última fruta, que tinha consigo, e leu. Depois de uma hora chegaram duas mulheres de carro à pequena clareira ao lado do arroio. Não repararam na bicicleta nem em A. ainda que não fosse todo escondido. As mulheres arranjaram alguma coisa perto da água, que trouxeram numa cesta. A seguir, uma mulher tirou as roupas e vestiu uma veste branca e foi sujeitada a uma cerimônia parecida a um batismo. Finalmente ambas as mulheres partiram do lugar sem terem percebido o observador. Este, curioso, aproximou-se para examinar o arranjo ao pé de uma árvore diretamente à beira do arroio. Estavam acesas umas quarenta velas pequeninas e entre elas estava colocado um prato cheio de pedacinhos de bolo de coco, brilhando de óleo e açúcar. Se bem que não gostasse muito de coisas tão doces gostaria de apanhar alguns pedaços seguindo o exemplo das formiguinhas que já fervilharam em alguns, porque sentia de repente uma fome canina. Não tinha medo nem respeito da ninfa ou deusa a quem foi dedicada a oferta, mas quis perguntar a Deus a respeito. Sabia que a Bíblia diz que não é pecado nenhum, se alguém come uma coisa sem saber que ela foi dedicada a um deus, demônio, etc. Mas agora seria diferente. Seria um ato consciente. Aí ouviu uma voz no seu interior: “Podes servir-te. Come e leva o resto contigo.”
A. suspeitou logo que nesse caso seu estômago faminto fosse responsável pelo desejo sôfrego. Mas por que a exortação de levar tudo? Eram uns cinquenta pedacinhos. Dez eram já conquistados por formiguinhas, mas nem comeria quarenta pedaços. A massa mole tornar-se-ia uma papa pegajosa pelo transporte. À noite, em Teresópolis, comeria no hotel, e depois, com certeza, não gostaria mais do bolo amassado e teria que jogar tudo no lixo. Mas assim como antes, naquela livraria havia duas semanas, o sentimento estranho não o deixou sair sem levar o bolo. Comeu então dez pedaços e levou uns trinta, embrulhados numa sacola de plástico, que amarrou acima das duas bolsas grandes ao lado da garrafa de água. 
Ao sair da mata reparou que o céu estava se cobrindo rapidamente de nuvens escuras, e na estrada uma rajada de vento o sacudiu. Pelo menos estava fresco e ele esforçou-se pedalando monte acima. Passou uma escola pequena, de duas salas, situada solitária numa curva longa e depois viu adiante de si o trajeto sinuoso da estrada para o alto dos montes, muito mais longe do que imaginado. E aí começou a chuva; no início somente gotas singulares e ele aumentou ainda os esforços para achar talvez um abrigo antes de a tempestade tombar. E, na verdade, exatamente no momento em que a bátega começou, ele viu, à esquerda, entre a estrada e o precipício, um espaço para estacionar alguns carros com um abrigo rústico. Era somente um telhado de lona de plástico e varas sustentadas por dez esteios de troncos delgados, cerca de oito metros por dois metros. Embaixo do telhado estavam depositados mais de cem caixotes como se usam para transportar legumes e frutas.  A. supôs que um fazendeiro, à safra, guardasse seus produtos aí para serem apanhados por um comerciante ou uma empresa, ou também para serem vendidos a viajantes.
Aquele abrigo lhe lembrou as barracas semelhantes à beira dos campos de morangos na Alemanha, onde às vezes trabalhava, quando jovem, para ganhar um pequeno dinheiro, e que eram inerentes à lembrança do acontecimento sobrenatural ao lado do muro do cemitério. A lona estava rasgada várias vezes, e às vezes formava grandes bolhas cheias de água pendentes do teto, como mamas de vacas repletas de leite, prestes a arrebentar a qualquer momento. Não obstante achou um lugar enxuto para si mesmo e sua companheira, a bicicleta vermelha.
A camisa estava lhe molhada levemente, mas não trocou as roupas sabendo que elas secam somente quando vestidas. Pulou para que não esfriasse e para que secasse a roupa. Nas pausas, de pé ou sentado num caixote que parecia bastante estável, lia a Bíblia e aprendia português. A murmuração da chuva uniforme o acompanhava, e A. reparou, que longe, no vale, onde ficava uma choça semelhante àquela que lhe servira de hospedaria há dois dias, ninguém afastou as roupas no varal diante da casa. Eram somente três coisas, penduradas na chuva, e provavelmente havia ninguém por aí. 
A camisa esteve ainda um pouco molhada e A. sentiu um frio, porque um vento fresco e úmido soprou das montanhas, fazendo a lona de plástico do teto tremular ruidosamente. Pela primeira vez, nesta viagem, tinha que vestir calças, mais uma camisa e o suéter. Assim parou de sentir o frio, mas agora já começou a escurecer e A. constatou que estava preso nas montanhas. Sem luz na bicicleta seria um risco grande descer a estrada a Teresópolis, ainda mais porque era portador de óculos e na chuva, com gotas nos vidros, meio cego. 
Quando estava totalmente escuro, ele parou de ler e sentiu o grande buraco no estômago. Estava esfomeado, porque fora um dia sem almoço e o ar fresco, as montanhas e o frio lhe açularam a fome. Aí começou a jubilar e louvar a Deus, pois agora soube de novo que estava no caminho do Senhor. Agora entendeu por que a voz o coagira a levar todo o bolo de coco. Na friagem o corpo precisa de muito combustível, calorias, e açúcar e gordura são ótimos para esse fim. Era por isso que em meio da tempestade na Serra de Mantiqueira achou-se um homem feliz com uma bicicleta vermelha, cantando músicas evangélicas alemãs, e devorando mais do que vinte pedaços pegajosos e doces de bolo de coco.
Achou-se somente um lugar, onde um homem de quase dois metros podia jazer sem ser molhado pelo teto furado, gotejando em muitos lugares. Aí A. construiu protegido entre os caixotes um leito de caixotes voltados. Escolheu os, cujo fundo era bastante forte para não quebrar, mas ainda cediço e elástico para prestar o máximo conforto. O casaco acolchoado do inverno alemão guardado numa sacola de plástico lhe serviu como travesseiro e acima dos caixotes estendeu jornais, sacolas de plástico e a toalha. Finalmente a chuva acabou e A. saiu do abrigo. Nuvens esgarçadas galgavam pelo céu cinzento, algumas estrelas bruxuleavam, pardas rochas íngremes serravam o horizonte e o vale com a choça solitária envolveu-se em trevas, somente longe daqui, na lomba dos montes opostos, no outro lado do vale, viu-se uma luz brilhando frouxamente. Aí rendeu ao Senhor um culto de gratidão, cantava hinos de louvor, até o tradicional “Kyrie” (Senhor, tem piedade de nós) e a Glória, que têm seu lugar em cultos de várias igrejas desde dois mil anos, leu apesar da escuridão dois textos, meditou em lugar do sermão nos textos e orava por muito tempo. Os textos escolhidos eram aqueles do domingo passado, segundo a ordem da Igreja Evangélica Luterana da Alemanha, que é muito adicta à tradição. Eram, então, os textos do primeiro domingo depois do carnaval, que é na igreja o primeiro domingo do tempo que lembra da paixão de Jesus. A. lembrava o tema desse domingo, já que estudou na Escola Superior de Música também a matéria Liturgia, que ensina a organistas escolher as músicas condizentes ao tema do respectivo domingo.
Mateus 4.1-11 conta como Jesus, antes de assumir seu cargo, retirou-se na solidão do deserto, jejuando e orando. Lá foi tentado por satanás, mas resistiu às ofertas atrativas sem hesitar ou sofrer prejuízo. Também A. estava numa fase semelhante; tinha-se retirado para meditar e buscar o Senhor. Mas, além disso, a diferença era óbvia: Jesus resistia ao pecado enquanto A. sucumbia já tantas vezes. 
Depois leu na carta aos hebreus 4.14-16. “Fiquemos firmes na fé que professamos. Porque temos um Grande Sacerdote poderoso, que entrou na própria presença de Deus, isto é, Jesus, o Filho de Deus. O nosso Grande Sacerdote pode ter compaixão de nós por causa das nossas fraquezas porque foi tentado do mesmo modo que nós, mas não pecou. Por isso sejamos corajosos e cheguemos perto do trono divino, onde está a graça de Deus. Ali receberemos misericórdia e encontraremos ajuda sempre que precisarmos dela.”
Era como se Jesus estendesse a mão. A. olhou a luz nas montanhas ao outro lado do vale. Quem quisesse ir para lá, teria que passar por um caminho muito difícil e árduo pelo mato no vale. A. lembrou-se bem da primeira noite nas montanhas, quando tentara progredir à casa pequena no vale, mas a catanduva, o mato rasteiro e espinhento, o fizera retornar já depois de alguns metros. Se a luz longínqua fosse a sua meta, um homem forte e perseverante poderia certamente progredir mais, abrindo o caminho, se necessário, a facão. Seria como um budista que tenta aproximar-se a Deus, passo a passo, pela perseverança, castidade, exercícios e ascetismo. Foi-lhe, contudo, como, nesse momento, tivesse descoberto um teleférico que pudesse o levar daqui diretamente ao cume com a luz. E esse teleférico teve o nome de Cristo Jesus, que o convidou para se ajuntar a ele, tornando-se seu aluno, e também seu irmão. Apelou para todos que lutavam desesperados para progredir à luz pelo vale escuro e cheio de mato: Eu sou o caminho certo, a verdade e a vida. Não precisa mais do que tu aceitares a minha oferta e confiares em mim. Assim chegarás ao nosso Pai.
Quando, mais tarde, deitava no leito de caixotes, cismou no que tinha lido nesse dia cheio de acontecimentos sobre a história do povo de Israel. Rei Manassés, o perverso pecador, que corrompera dissoluta e perversamente as obras boas de seu pai Ezequias, morrera, depois de um reinado de quarenta anos, tão como seu vizinho poderoso, rei Assurbanipal da Assíria, fundador de uma famosa biblioteca. Será que esse império rude, brutal e aguerrido, agora sob controle do Sinsariscum, o Orgulhoso, filho de Assurbanipal, se tornaria um país culto, esclarecido e civilizado como Israel e Egito? Assim pensavam muitos judeus, mas os profetas de Israel, Sofonias e Naum, anunciaram que Nínive, a capital assíria, seria conquistada e, sem piedade, totalmente destruída. Todo o império iria ao fundo, acabando com a metrópole Nínive, tornando-a deserta sem moradores nem água. “Quem passar por perto vai ficar espantado e horrorizado ao ver tamanha destruição.” Ninguém podia crer nessa profecia.
Neste meio tempo, em Jerusalém, Amom, filho de Manassés, tornou-se rei, aos vinte dois anos. Decidiu aproveitar a sua posição ao máximo: mulheres, riquezas, festas; e além disso, seguiu o exemplo do seu pai ao servir aos ídolos, trazendo ofertas às estrelas e deuses. Zombava com desprezo dos profetas. Aí conspiraram alguns oficiais altos contra ele e já no segundo ano de seu reinado Amom morreu durante um golpe. O concílio militar convocou o príncipe Josias, aos oito anos. Esse novo rei aceitava os conselhos de bons conselheiros e Deus lhe abriu o coração para que viesse ouvindo a palavra de Deus. Mas não se praticava o culto tradicional a Deus, nem se acharam ainda os livros sagrados no palácio real.
Mas quando tinha vinte quatro anos, Josias encorajou-se para fazer frente à idolatria. Ordenou a Hilquias, o Grande Sacerdote, que restabelecesse a ordem original no templo. O sacerdote estava ainda exercendo a sua função, mesmo tendo perdido sua importância pela influência predominante dos cultos pagãos. Realizou uma restauração geral, em concordância com reformas construtoras, custeadas por meios do próprio rei e do templo. Durante a reforma do templo acharam-se os livros antigos, e quando Josias os lia, chorou porque seu povo tinha tratado seu Deus com desdém e negligência. Soube agora o que foi mister:
O rei ordenou que queimassem os postes-ídolo e outros objetos usados na adoração dos deuses alheios, tirou as prostitutas e prostitutos para fora do templo e destruiu até os quartos do templo nos quais eles venderam, havia quarenta anos, seu corpo aos visitantes, muitas vezes homens casados que sem remorsos serviam-se desses garotas e moços. Mandou seus soldados até o norte, onde antes ficara o reino Israel, agora sob governo assírio, para destruir também ali os altares que serviam à adoração a demônios, estrelas e outros deuses. Os generais judeus levaram um susto pela afoiteza do jovem rei. Não é que daria aos assírios um pretexto para fazer guerra contra Judá?
Rei Sinsariscum, contudo, não fez nada; era ocupado consigo mesmo e com as muitas garotas escravas presas nas guerras. Assim o reino de Judá prosperou sob o governo de Josias. Era mais uma mera coincidência, que os reis pios e bons de Judá tinham sucesso, enquanto os ímpios malogravam, ou era a mão de Deus?
Josias, pelo menos, era muito feliz e convidou para uma festa de Páscoa, que lembra aos judeus o êxodo, a saída miraculosa do Egito. Ordenou que todo o povo comemorasse em honra ao Eterno, conforme estava escrito nos livros antigos, e com essa festa celebraram também a reinauguração do templo. Os sacerdotes foram instruídos, a ordem antiga restabelecida, e todos pensavam num porvir feliz. Aí um visitante do norte trouxe uma notícia incrível:
Desde os tempos do rei Assurbanipal um general assírio governava a famosa metrópole Babilônia, que ficava a duas jornadas de cavalo de Assur e Nínive. Esse general fora empossado para subjugar o povo babilônico, que estava consciente da sua alta cultura e tradição que teve seu auge cerca de mil anos antes, quando a Babilônia era o império predominador na região. Este general, contudo, que acudia ao nome Nabopolassar, declarou a independência recusando a obediência e a vassalagem devida ao rei Sinsariscum, o Orgulhoso, e desconsiderou assim seu juramento de fidelidade. Estimulou os nobres de Babilônia para que declarassem Nabopolassar rei do Novo Reino de Babilônia. Só agora o governo em Nínive averiguou que negligenciava por muito tempo os negócios e prepararam a guerra. Nabopolassar, no entanto, aliou-se com os medos e persas, as duas tribos equestres da estepe. O comandante deles era o príncipe da tribo mais forte, dos medos, rei Uvarkhshattra ou, em grego, Ciaxares, o Cruel. Desta maneira Sinsarisum não conseguiu reconquistar a Babilônia. Pelo contrário: Quando os assírios se retiravam, Nabopolassar e Uvarkhshattra bolaram um plano temerário: Atacaram as fronteiras do império assírio e, depois de alguns anos, tinham aniquilado as forças assírias a ponto de chegarem até as portas de Nínive. E, depois de meses de acerco, uma notícia sensacional abalou o mundo: No ano vinte sete do governo de Josias chegou a Jerusalém a mensagem de que Nínive, a capital do mundo, que antes dominara até o rico Egito, estava assolada, queimada, ensanguentada, as mulheres e crianças, desde que não mortas, amarradas como gado e levadas para a escravidão.
Uma parte dos assírios, porém, escapara sob comando do príncipe herdeiro Assurubalite e refugia-se na cidade Harã, nas montanhas. Mas os medos e persas seguiram e assediaram também esta última bastião dos assírios. Estes não podiam mais sair da cidade, porque os cavaleiros couraçados dos persas, tropa elite dos medos, assolavam qualquer inimigo. Até no Egito o povo festejava a humilhação dos odiosos assírios. Apenas um homem pensava diferente: o novo faraó Neco II, da família, que antes armara a rebelião contra os assírios que ocupavam o Egito. Ele, pois, levou um susto, ponderando que um povo ainda mais forte do que os assírios olharia, aos poucos, com cobiça à riqueza egípcia. Neco convenceu os generais, e eles convocaram um exército grande para apoiar a antiga inimiga Assíria. A enorme coluna de rápidos carros de guerra, cavalaria e tropas a pé arrastava-se pelo deserto no leste de Judá, para o norte, mas quando faraó Neco entrou em cena viu que tudo já era perdido. Chegou até a Carquemis, cidade assíria à beira do rio Eufrates quando chegou a saber que o poderoso exército assírio não existia mais. O país estava destruído, a cidade Harã conquistada. O faraó estava sozinho contra os babilônicos e os medos, e depois de uma escaramuça viu-se obrigado a bater na retirada por falta de perspectiva. Com aquela decisão sensata evitou maiores prejuízos para seu exército. Quis aproveitar a sua presença no norte para restabelecer o domínio egípcio sobre a Síria e os arredores, antes de os babilônicos fazerem a mesma coisa.
Rei Josias, porém, viu a coisa de um ângulo de vista diferente. O faraó lhe parecia bastante enfraquecido. Em vez de aliar-se ao Egito, como nas guerras contra a Assíria, sonhou de um reino grande, forte e independente, que dominaria, como no tempo de Salomão, a região. Agora viu a chance de vencer o faraó aparentemente enfraquecido de vez. Convocou os generais e orou com fervor a Deus.
Mas o Todo-poderoso disse não. Não quis essa luta. 
Agora Josias viu se num impasse. Como poderia acabar com seus planos, promulgados com tanto entusiasmo, sem perder o conceito. Os generais não entenderiam essas vacilações, tomando-as por covardia. Saiu então na frente de seu exército, como um grande rei, famoso e vitorioso, libertador do norte de Israel. Assíria era morta, e Josias quis ser entre os herdeiros. Marchou pelo território do ex- reino Israel, passou a ex-capital Samaria, enquanto os funcionários da administração assíria, agora sem orientação, levavam o que puder e se safavam. Perto da cidade Megido encontrou o exército egípcio, constituído de três divisões, e atacou logo. O muito maior exército egípcio, contudo, repeliu o ataque surpreendente, e depois acossaram e acuaram as tropas judias, até que elas fugiram. Josias ficou ferido mortalmente por uma seta dos conspícuos arqueiros do faraó, e escapou em seu carro de guerra, mas morreu pela chaga e foi enterrado no túmulo dos reis em Jerusalém. 
Faraó Neco, no entanto, guiava as suas divisões em ordem, confirmando o domínio egípcio sobre vários principados e reinados pequenos ao redor de Judá, e depois de três meses chegou a Jerusalém. Mandou prender o jovem rei Joacaz, filho de Josias, obrigou os judeus a entregar três mil e quatrocentos quilos de prata e trinta e quatro quilos de ouro, e escolheu outro filho de Josias para fazê-lo rei de Judá. Deu lhe até um novo nome, como um senhor faz com um escravo novo. Desde então o novo rei foi chamado de Jeoaquim.
Na manhã seguinte acordou A. quando o céu leitoso e cinzento começou a clarear, - rapidamente, em comparação à longa duração da alvorada na Alemanha. A. estremeceu de frio quando saiu do saco de dormir. Mas que bom que não tinha que passar fome! Restavam ainda uns dez pedaços do bolo de coco, trazendo energia rápida, e A. os comeu agradecendo a Deus pela sabedoria e o desvelo da sua guia superiora, e bebia água cristalina da sua garrafa. Depois pôs-se a aprender mais umas páginas no livro de português, separou um maço de vocábulos difíceis para aprendê-los durante a jornada mascando-os bem devagar ao pedalar monte para cima, enquanto a vista embarcava os longes.
Chovera à noite e seria, portanto, necessário estender o saco de dormir quando fazer pausa, para tirar a umidade. O ar fresquinho da manhã ajudou para aguentar melhor o esforço da subida, e o panorama comprazia o coração. Chegou logo a um desfiladeiro no alto do monte, as fragas foram abertas à força, talvez a dinamite, para franquear o acesso ao outro lado do monte. Já se encontrou ao lado de Teresópolis e viu de cima a enorme baixada flanqueada por montes pitorescos.
Livre das sombras das rochas sentiu o calor, já considerável, do sol, e por isso curtiu a longa descida, que o levaria até Teresópolis. Logo depois deparou com uma fonte com uma bacia de alvenaria. Parou para fazer pausa, lavar a camisa e para ler. Além dos próximos capítulos no livro dos Reis e das Crônicas quis mergulhar no livro pequeno do profeta Habacuque. E em seguida se dedicaria ao segundo dos quatro profetas maiores: Jeremias, o mais famoso e importante atrás de Isaías. 
Duas horas depois estava já quente porque lá à beira da fonte não havia sombra, e ele vestiu a camisa molhada bem fresquinha e continuou a viagem, secando a roupa depressa pelo vento na descida veloz. Já alcançou Teresópolis. Mas que calor apertador nesse vale! Mal conseguiu conter a vontade de retornar logo às montanhas. A rua descia ainda levemente, mas A. já pensou na canseira na volta, quando subir suado. Talvez fosse por esse calor que a cidade não o atraía. Continuou, porém, até chegar ao centro, onde achou uma informação turística. Leu os folhetos dos hotéis nas montanhas, mas não informaram se as ruas lá seriam viáveis para bicicletas. Orientou-se também onde ficavam prédios e lugares turísticos na cidade, mas nem conseguiu depois achá-los. Pelo menos encontrou um supermercado para comprar alimentos como uma melancia, que comeu detrás da informação turística, onde havia bancos e mesas na penumbra. Leu ainda no livro de português, mas o calor estava tão forte que saiu para escapar ao clima desacostumado. Quis voltar nas montanhas.
Perto da saída da cidade ficava uma igreja no primeiro andar de um prédio cinzento e simples. Toda a frente para a rua estava aberta, por isso A. pôde encostar a bicicleta a um pilar e entrar sem perdê-la da vista. Na Alemanha as igrejas são quase sempre um lugar fresquinho, agradável para descansar no verão; um bom lugar para um viajante ficar meditando e orando em silêncio.
Para informar-se sobre aquela “Igreja Universal”, que é desconhecida na Alemanha, levou um jornal, que achou na entrada, e sentou-se num banco. Logo veio um funcionário e eles falaram por muito tempo. Ele explicou a A. que a Igreja Universal, uma igreja evangélica fundada a uns trinta anos, no Brasil e na África do Sul, tinha havia pouco uma filial em Munique, na Alemanha. Ao contrário de muitas outras igrejas é hierárquico e tem bispos. A igreja recomenda aos membros além da dedicação social também o trabalho em partidos políticos. Já vários pastores e outros membros se tornaram deputados, vereadores e outros líderes políticos.
O funcionário presenteou-lhe um CD com músicas de louvor do bispo e o convidou ao culto às três horas da tarde. Mas apesar das experiências e encontros com Deus A. sentia-se ainda separado e afastado de Deus e dos crentes, uma ovelha preta no rebanho do Senhor. Não falava sobre seus problemas, mas propriamente por isso sentia-se falso, bancando um viajante comum e inofensivo, em busca do Senhor.
A. contou que estava no caminho a Belo Horizonte, buscando o lugar que Deus lhe providenciaria. O funcionário o convidou para visitar a igreja de novo, quando na volta, de Belo Horizonte ao Rio. A. foi ainda apresentado à esposa do homem e depois despediu-se. À saída da cidade achou uma placa apontando a um parque. A. seguiu pela ruela à direita, que passou um pequeno bairro pobre. Depois de uns quinze minutos o caminho se bifurcou; um ramo entrava em uma favela, o outro fez uma curva morro acima. A. pegou a segunda alternativa e seguiu-a até chegar a um restaurante com um grande jardim com área para crianças e cercado de aves, que foi chamado parque. Isso não era o que procurava. Nem achara na cidade um hotel, e agora ele quis voltar nas montanhas.
Aí a voz no seu interior se mexeu e ele sentiu logo um grande desejo para ir ao culto. Ao outro lado falava seu raciocínio: Seria necessário descer novamente para a cidade, e depois ele teria que subir de novo, nesse calor. Faltar-lhe-ia tempo para alcançar as montanhas empurrando monte acima. Além disso, tinha este medo já mencionado que o apartava dos crentes das igrejas. Ele tinha já visitado algumas vezes uma igreja na Alemanha, mas sempre sentira este embaraço entre ele e Deus, a igreja e os outros crentes.
Também pensava que não entenderia muito e que não teria lugar para deixar a bicicleta com tanta bagagem. Não foi à igreja e voltou morro acima pela estrada que ia a Petrópolis. Calculou com duas horas para estar de novo no desfiladeiro no cume; precisaria, provavelmente, para a descida velocíssima somente de pouco tempo, e à noite poderia estar de novo no terraço da casa nova com o cavalo ou até nessa pousada-creche maravilhosa em Petrópolis. Já imaginou a piscina, o jardim bonito e o luxuoso café da manhã. Mal perpassou meia hora, ao passo que A. às vezes empurrava a bicicleta a pé, às vezes pedalava com toda a força, e já começou a chover. Procurou abrigo debaixo de uma arvore grande para si e para a bicicleta, abriu a Bíblia e começou a ler. Ficou sem camisa, para que algumas gotas, que penetravam a copa da árvore, não a molhassem. Mas a chuva não parou e a árvore veio a perder sua função protetora. Também a bagagem foi borrifada. Seria necessário cobri-la de plástico, mas as folhas estavam nas bolsas e agora, na chuva, não podia abri-las. Esperava que a chuva não demorasse, mas, muito pelo contrário, estava já depois de pouco tempo todo ensopado e sentia um frio. Nem podia mais ler para não estragar o livro. Esperou por muito tempo, e às cinco horas soube que teria sido muito melhor ter ido ao culto. Agora seria o fim do culto e em vista da chuva certamente o convidariam para ficar por mais tempo, tomar um cafezinho, ele tocaria talvez uma música no teclado, e assim por diante. Quem sabe, talvez o convidassem para ficar à noite ou lhe mostrassem um hotel.
Agora estava tão encharcado que não fazia diferença continuar a viagem em meio da chuva e ele partiu. Mas a chuva virou ainda mais forte e envolvia-o com véus úmidos. As sandálias estavam inundadas e a bermuda e os cabelos pingavam; assim A. empurrou a bicicleta pela estrada monte acima, onde descera, na manhã, com tanta facilidade. Estava com raiva porque mais uma vez não distinguira a voz de Deus que o convidara ao culto. Mas a pior coisa era o seguinte: Talvez fosse o plano de Deus que ele ficasse aqui não somente para ganhar um lugar para a noite. Poderia ser que o tivessem convidado para ficar por mais tempo. Será que era o modo de Deus de chamar A. a um projeto aqui? Se fosse assim, afastar-se-ia agora fatalmente do lugar que lhe era determinado. Nunca acharia o caminho preparado pelo Senhor para ele, perderia a graça de Deus e também nunca acharia a sua esposa. 
Estava de péssimo humor. Sabia também que a bagagem, sem folha de plástico, provavelmente vinha embeber-se de mais e mais água. As bolsas eram de plástico, mas a água certamente poderia infiltrar-se pelos zíperes 
Cismado em ponderações levou quase um susto quando deparou de repente com quatro trabalhadores rurais encharcadíssimos, que desciam com suas enxadas à cidade. Um homem se acercou dele, abriu a boca quase desdentada e pediu alguma coisa a comer. A., totalmente surpreendido, que alguém pediu alguma coisa a ele, quem estava meio nu e totalmente molhado, nem sequer deferiu ao requerimento, não querendo abrir as bolsas nessa chuvarada. Continuava empurrando, somente de vez em quando pedalando um trecho curto, que era um pouco menos inclinado. Pelo menos não precisava suar nesta canseira. Pelo contrário, as suas mãos estavam frias e entanguidas. 
No alto do cume não viu mais nada do panorama maravilhoso. Gostaria de curti-lo mais, porque passara aqui, pela manhã, rápido demais, mas viu somente uma massa cinzenta. Começou a escurecer e A. já soube que, no Brasil, o crepúsculo não demora muito. Depois de meia hora seria noite escura. Por isso montou apressadamente a bicicleta, passou o desfiladeiro, e alcançou a longa descida. Quão maravilhosa era aquela outra descida pela manhã! Agora tremeu no vento, sofrendo arrepios de frio. Os vinte minutos até a barraca com os muitos caixotes bastaram para fazê-lo bater os dentes fortemente. Parte do telhado do abrigo estava agora arrebatado pelo vento e era ainda mais difícil achar um lugar mais ou menos enxuto.
Graças a Deus, só poucas coisas nas bolsas estavam afetadas pela água pluvial. A chuva ia acabando e A. estendeu as roupas trespassadas sobre os caixotes. Vestiu duas calças e além do suéter o casaco acolchoado. Tinha comida, e passo a passo sentia-se melhor. O vento acalmou-se e A. colocou um caixote verticalmente para que servisse de mesa, sobrepôs uma vela, um toco que achara no dia anterior. Assim pôde estudar a Bíblia, e agora continuaria para chegar a conhecer o grande profeta Jeremias. 
Jeremias, como Isaías, não estava encantado de jeito nenhum, quando Deus o encheu de seu Espírito e o mandou predizer um futuro aziago e calamitoso, que cairia sobre os judeus em virtude de sua perversidade e desacatamento. Imaginava que não receberia agradecimento nenhum por suas alertas. Mas, como Jonas e também A., devia verificar que enfim foi levado à força pelo próprio Deus para cumprir sua missão. Observa-se muitas vezes que Deus conduz aqueles que pertencem ao Senhor com perseverança e até constrangimento, se eles estão a perder-se em desvios, considerando seus próprios planos e cálculos melhores e mais importantes do que a palavra do Senhor. Sabemos que, em princípio, o homem é livre. Mesmo se um perverso está a violentar uma criancinha ou um ditador sanguinolento mata milhões de pessoas, Deus geralmente não mata o malfeitor a raios, como em lendas antigas. Mas quem põe as sua vida voluntariamente nas mãos de Deus, tornando se escravo dele, porque percebeu que não tem nada melhor do que se o próprio Deus se torne o timoneiro da vida, quem vive assim, averigua que Deus não o deixa mais, quando está cometendo erros. Se o homem, nessa situação, não compreende que caiu em erro, e não se arrepende, sofre muito até prostrar-se à sabedoria maior. Por isso também A. sofrera tanto.
Jeremias previa nas suas visões um grande perigo vindo do norte que ameaçava os judeus em Judá. Sabia-se que no norte predominavam os babilônicos e os medos. Será que um desses povos tornar-se-ia inimigo perigoso? Viu já as rampas em redor de Jerusalém prestes a destruir a cidade santa e a escravizar os habitantes. Rei Jeoaquim, porém, cria que a salvação viesse da renovação e intensificação das ofertas aos deuses banidos por Josias, e ele reedificou lhes altares e postes-ídolo. É incrível que o povo todo sempre cometia de novo o mesmo erro de apostasia, de abandono da fé, antes confessada com tanto fervor, agradecendo por tantas experiências boas com seu Deus Pai.
Imaginemos como seria hoje a mesma situação. Um povo abandona a fé e o caminho certo, mata pessoas inocentes e os criminosos e perversos obtém poder e boa fama. Alguns anos depois tudo acaba em destruição total do país. Os homens desesperados sofrem e agora arrependem-se e oram ao Senhor pedindo socorro. Deus, por paciência inesgotável, lhes perdoa, e depois de trinta anos o país é novamente muito rico e poderoso. Aí os habitantes começam a esquecer a Deus e dentro em breve quase não existem mais pessoas que aceitam Jesus e pertencem verdadeiramente e totalmente a Deus, mas muitos hipócritas, uma variada gama de fraudadores, perversos que torturam e abusam crianças, adúlteros, etc., e os jornais e outras mídias propagam, promovem e preconizam essas coisas. Será que é imaginável? 
Sim, pois é justamente o que acontecia várias vezes, na Alemanha, por exemplo. Por doze anos reinavam criminosos perversos à vontade arruinando a boa fama do país sem que a população se revoltasse, fora algumas tentativas frustradas de certas pessoas com coragem. Eram os nazistas. Deixaram o país totalmente destruído e esvaído em sangue, depois da segunda guerra mundial. Os homens perceberam a sua culpa e se arrependeram, solicitando a Deus. E aconteceu um milagre: O país acabrunhado se recuperava, enriquecia ultrapassando desta maneira até nações ricas e fortes como Inglaterra, França, Itália ou Bélgica. Mas então os alemães esqueceram a Deus, serviam simplesmente aos seus próprios desígnios ou buscaram o apoio de outros deuses, demônios, espíritos e crenças supersticiosas. Hoje quase ninguém sabe como alguém pode-se tornar cristão, não conhecem este funicular ou teleférico que Deus oferece a nós em forma de seu filho Cristo Jesus, que leva os seguidores diretamente até o pináculo do monte.
Cada alemão deveria entender bem estes judeus infiéis, que sempre esqueciam as graças concedidas pelo Senhor, dando as por boa sorte ou próprio merecimento, e quebravam a união com o Deus Pai. Deus sabia que não podia continuar desta maneira. Somente um sofrimento rigoroso levaria os judeus de volta ao caminho, após um arrependimento sincero. E era isso o que Jeremias anunciava. Mas ainda apelou aos judeus para que arredassem o pé dos seus maus caminhos. E mostrou lhes, como é boa a vida em concordância com Deus (Jer17.5-8).
Mas o povo reagia com raiva ou zombaria e alguns até fizeram planos para matar Jeremias. O chefe dos serviços do templo mandou que Jeremias fosse preso com correntes no portão, e surrado. Além disso, Deus não lhe permitia que se casasse e tivesse crianças para simbolizar com a sua vida, que os judeus não tinham um futuro feliz para seus filhos e mulheres, e sim estupros, mortes e escravidão. Mais tarde Deus o informou com minúcia: Por setenta anos o povo de Israel ficará preso na Babilônia. Tão grande é o furor de Deus. Mas quando o povo se arrepender dos seus maus caminhos e retornar em busca ao Senhor, Deus receberá os seus filhos perdidos como um pai aflito por saudade da sua família.
É incrível e não vai bem com a filosofia humana, que o Deus Todo-poderoso cuida com tanta dedicação de seus filhos. Filósofos que meditam sobre as qualidades de Deus sem terem passado por experiências ou até escarmentos da maneira como A. ou as pessoas da Bíblia, e que não podem crer, que Deus tem tanta simpatia com pessoas fracas, acham que Deus deveria ser  um Deus inacessível e imutável, porque do ângulo de vista filosófica um Deus imutável aparece muito mais sublime e concorda melhor com a imaginação humana. Essa maneira de tratar os seres humanos parece pouco divina. Poder-se-ia dizer que Deus errou quando criou os homens. Sendo onisciente, poderia ter sabido que os judeus iriam falhar. Para quê então adotou justamente esse povo? E por que ajudara a A. para ele ganhar tanto dinheiro e abençoara seu trabalho? Não sabia que A. falharia e perderia tudo?
Também A. pensara que um Deus inacessível, longe dos detalhes na terra, seria muito mais conveniente com a sua opinião, filosofia e teologia pessoal. Mas ele era prestes a aprender e, se fosse necessário, mudar de opinião, adaptando-a sem preconceitos à realidade. As ocorrências estranhas na sua vida sugeriam, pelo menos por enquanto, que Deus é na verdade assim como o descreve a Bíblia. Precisamos aceitar os fatos e fazer uma filosofia e teologia que combina com essas experiências, sabia ele. Mas como podia ter certeza de que era Deus quem o guiava? Talvez viajasse pelo país sem ser chamado a lugar algum e assim nem acharia a sua esposa. Ou talvez ele se sentisse atraído como na pousada-creche em Petrópolis, confundindo algum sentimento com a voz de Deus. As histórias da Bíblia eram às vezes muito mais claras. A Jeremias Deus falou com muito mais exatidão: A vossa prisão vai demorar setenta anos. Isso era um anúncio claro e mensurável, que o futuro cumpriria ou não. 
Além disso, Jeremias mencionava várias vezes do descendente misterioso do Rei Davi, que no futuro seria Rei de Paz.
Na Babilônia, no entanto, morreu o fundador da nova dinastia real, que governava o novo império que já conseguira expelir os egípcios da Síria. Príncipe Nabucodonosor tornou-se o novo rei, em outros países chamado de Nabuco ou Nebukadnezar. Ele invadiu Judá com seu exército e o rei Jeoaquim sujeitou-se e pagava tributo por três anos. Depois revoltou-se confiando no apoio do Egito. Mas o plano fracassou e os babilônicos vingaram-se. Prenderam o rei e muitos judeus e mandaram-nos para a Babilônia. Assim reconfirmaram sua supremacia. Além disso, não gostavam do filho de Jeoaquim, que se tornara sucessor no trono de seu pai. Destituíram-no e mostraram seu poder do mesmo modo como antes o faraó Neco: Empossaram o irmão de Jeoaquim como rei, mas deram-lhe um novo nome: Zedequias. Judá era de novo uma puta barata entregando-se a todos que lhe prometiam alguma coisa: Aos deuses como Baal, Asherá, Moloque; a deusas da fertilidade; aos demônios, magos, profetas falsos, e aos egípcios que esperavam que pudessem enfraquecer o rival babilônico acirrando revoltas, para que este não se tornasse tão forte como a Assíria no tempo do rei Assurbanipal.
Jeremias, entretanto, continuava ser maltratado, como lia A., na luz trêmula da vela debaixo do telhado rasgado do abrigo roto. Mas alguns anos depois Rei Zedequias quebrou seu juramento de fidelidade a Nabucodonosor. E agora aconteceu exatamente o que Jeremias predissera. Rei Nabucodonosor aproximava-se com seu exército grande e a ajuda do Egito não chegou. Nesse impasse pediram o conselho do profeta Jeremias, antes tão desprezado. Mas ele lhes disse somente a verdade dura: o julgamento de Deus era inabalável, depois de séculos de desacatamento, infidelidade, traição e perversidade. Podia somente recomendar que se entregassem voluntariamente aos babilônicos. Pelo menos salvariam de tal forma as suas vidas. Se o rei não se rendesse, morreria, e as suas mulheres seriam distribuídas entre os soldados.
Essa resposta não agradava aos judeus. Precisavam de um Deus quem aquiescesse a um negócio, um cambalacho religioso; quem concederia graça, apoio e, sobretudo, a salvação do perigo por um donativo considerável como a promessa de construir um novo templo, ou seja, ofertar uma criança ou qualquer coisa. Poderia exigir uma oferta enorme, mas devia garantir, como retribuição, a vitória. Por isso as pessoas se dirigiam com afã a outros deuses e profetas, mas a cidade Jerusalém foi conquistada, violentada, o templo foi totalmente despojado e o rei foi morto. Os babilônicos levaram além das mulheres do rei uma grande parte da população à Babilônia, metrópole ao rio Eufrates, onde tinham que prestar trabalhos forçados. O Eufrates decorre, como seu irmão gêmeo, o rio Tigres, a cuja beira as ruínas de Assur e Nínive se cobriam lentamente de areia do deserto, das montanhas ao Norte, onde ficava a Armênia. Em seu recurso passa também a cidade Carquemis, testemunha do encontro histórico entre o exército do faraó e os medos. De lá a uns trezentos quilômetros passa Babilônia, protegendo as muralhas da famosa urbe mundana, capital do Novo Reino de Babilônia, então o império mais poderoso. E na beira do rio sentavam os judeus presos chorando ao lembrar-se de Jerusalém e do templo, e eles tinham saudade do Deus Pai.

A. acordou à meia-noite. Estava pingando no seu saco de dormir. Precisava mudar o leito de caixotes para achar um lugar melhor. Pouco depois, porém, começou a gotejar também nesse lugar e ele mudou de novo. Depois começou a borrifar nas bolsas. Algum tempo depois parou com grande barulho um caminhão na área diante da banca. Estava com defeito, e os motoristas, entre maldições, tentavam consertá-lo, sem sucesso. Fizeram barulho pelo resto da noite. A. tinha também medo de que os homens o descobrissem e furtassem alguma coisa. Pela manhã, às sete horas, chegou um carro que trouxe uma autopeça, e logo depois o caminhão pôde sair.
O chuvisco estava continuando e A. leu agasalhado no saco de dormir. A seguir comeu os escassos restos que escaparam a sua fome canina na véspera. Às nove horas, parou um ônibus e uma mulher gordinha e enrugada saiu. Ela trouxe consigo dois caixotes repletos de legumes e frutas. Ela morava no casebre no vale, onde A. reparara antes o varal com roupas. Costumava levar o primeiro ônibus da manhã para ir daqui a Teresópolis. Lá comprava legumes e frutas para revendê-los na sua banca aqui a viajantes. Qual vida dura, pensou A.. Esperava pelos poucos viajantes que compravam aqui em vez de na cidade. A. comprou um cacho de bananas por um real. A mulher gritava pelo vale e depois de meia hora uma moça apareceu. Era a filha que veio da casa no vale. Fez o longo caminho para trazer à mãe uma caneca de café. Os três conversavam um pouco. Depois a moça voltou e A. montou a bicicleta porque não quis esperar mais. Reparou que o barbante para amarrar as duas bolsas no porta-bagagem estava quase esfiapado. 
Apesar da capa de chuva sentiu um frio quando descia rápido sem pedalar. Já passou as cascatinhas de onde levara o bolo de coco, e logo depois viu o vale com o casarão novo onde um cavalo pastava no quintal, e em breve alcançou a periferia de Petrópolis. A pequena padaria entre as primeiras casas lhe serviu bem. Entrou e sentou-se numa mesa para tomar um segundo café de manhã. Ficava por muito tempo, enquanto a capa de chuva enxugava debaixo do toldo. Quando se abalou para continuar a viagem, o céu já estava bem mais claro, e quando seguiu o rio Piabanha ao norte, o sol já vislumbrou por entre as nuvens e logo depois o vale encheu-se de luz vivificante, fazendo brilhar o ribeiro rochoso flanqueado por casas pequenas, moitas de bananeiras e bambus e ladeiras naturais. Aí sentia uma felicidade enorme e sentou-se no muro entre a estrada e a escarpa ao ribeiro, que contornava espumoso as rochas espalhadas no seu leito. Abriu a Bíblia:
O povo de Israel era preso e Jeremias, levado por outros judeus, contra a sua vontade, ao Egito, o exílio preferido de muitos judeus, que tinham medo dos babilônicos, compôs um cântico de lamentações lancinantes. Viu diante de seus olhos interiores uma rainha linda e bonita, como as rainhas presas do último rei de Judá. Viu as lágrimas dela. Ela chorou, forçada a lavar roupas e fazer trabalhos vis para os babilônicos, o corpo só coberto por farrapos escassos e sempre exposto ao açoite e qualquer arbitrariedade acintosa de seu novo dono. Essa garota desamparada era o símbolo da cidade Jerusalém. Mas Deus prometera que não a deixasse sozinha, sem socorro. Jeremias já anunciava que os judeus retornariam depois de setenta anos. E Habacuque, outro profeta, vaticinava que o poder da Nova Babilônia, que já vivia luxúria e demasiada riqueza, se quebraria. Depois A. leu a segunda parte do livro de Isaías, os capítulos 40 até 55, escritos evidentemente também nesta época de sofrimento terrível. Provavelmente são escritos por um sucessor ou aluno de Isaías, a não ser que partamos do princípio de que ele mesmo alcançou uma idade extremamente avançada. Não sabemos, pois, quando ele morreu.
“Consolem, consolem o meu povo. Falem carinhosamente com Jerusalém e digam-lhe que já terminou a sua escravidão e que os seus pecados foram perdoados.” Com essas palavras começa aquela parte grandiosa que A. leu à beira do ribeiro. Estremeceu; essas palavras já estavam gravadas no seu coração. São as palavras do início do oratório “Messias” do grande compositor Georg Friedrich Händel, uma obra de três horas, que culmina na famosa Aleluia.
“Como um pastor cuida do seu rebanho, assim o Eterno cuidará do seu povo. Ele juntará os carneirinhos e os carregará no colo e guiará com carinho as ovelhas que estão amamentando.”
“Toda a carne, todos os seres humanos, são como a erva do campo e toda a sua beleza e força são como a flor do mato. A erva seca, a flor cai, quando o sopro do Deus Eterno passa por eles.”
As últimas palavras conhecia do chamado “Réquiem Alemão” do compositor evangélico Johannes Brahms, do século XIX. Suave e melodioso anda a música, espalhando-se brandamente como o vento leva as flores e ervas secas. Mas aí vem a aclamação vitoriosa, com tímpanos e trompetes, e todo o coro canta como um bloco firme, uma rocha na corredeira de um rio: “Mas a palavra de nosso Deus subsiste eternamente.”
A. lembrou-se da situação e do sentimento, como era quando nos anos passados, como maestro, guiara uns cem cantores, juntos com a orquestra, a esse momento triunfante e sublime. E viu aquela escrava plangente que de repente, como nos contos de fadas, foi resgatada do seu sofrimento. “Os que confiam no Senhor receberão novas forças. Voam nas alturas como águias, correm e não perdem as forças, andam e não se cansam.”
Quando quase já sentiu um entorpecimento em suas pernas por ter ficado sentado no muro por tanto tempo, fechou o livro e continuou a viagem. Tinha sempre o ribeiro à esquerda, e à direita se levantavam os montes. Achou uma birosca para comprar alimentos e logo depois a estrada seguiu o rio voltando à esquerda. Na saída duma vila viu alguns restaurantes oferecendo self-service sem balança por R$ 2.50 ou 3. Era quase de graça considerando o grande volume que A. sempre comia, quando estava com fome! Mas agora já comprara outros alimentos. Também quis ainda pedalar uns quilômetros antes do anoitecer. Mas marcou o lugar no mapa para aproveitar as ofertas, quando da volta para o Rio.
O barbante para segurar a bagagem rasgou e juntado de novo com um nó era curto demais para segurar tudo. Mas logo depois achou na estrada limpinha um cordão delgado, mas bem firme, como feito exatamente para ele. Esse acontecimento podia ser muito bem uma coincidência casual, ainda que A. nunca antes ou depois achasse mais um cordão. Mas Deus evidentemente não é assim como os filósofos querem que fosse, mas regula até minudências e detalhes para os seus. E por isso, no fim de contas, talvez até tivesse cuidado desse pormenor. Quem sabe, talvez fosse um pequeno aviso para que A. soubesse que Deus estava com ele. Pelo menos sentiu um prazer e até um certo entusiasmo.
Refletiu, contudo, sobre um problema. Depois de alguns quilômetros depararia de novo com a BR 040, a estrada entre o Rio e Belo Horizonte. Lá neste dia não alcançaria cidade nenhuma, e ao lado da estrada existem geralmente, como já sabia, só os cercados das fazendas, e nenhum lugar para pernoitar. Quem sabe, teria sido melhor aproveitar a oferta naquele restaurante. Poderia ter perguntado lá por um hotel simples para ficar. Mas quando começou a se preocupar ouviu de novo a voz no seu interior: “Não se preocupes. Ao ocaso do sol terá um lugar para dormir.”
Quando deparou com a BR 040 achava confirmadas as apreensões. Não havia veredas ao lado, nem abrigos naturais ou artificiais. Só logo no início passou uma fábrica enorme, fechada há anos, mas não podia examinar o cercado alto para achar um acesso, porque a voz no seu interior lhe proibiu concluir a jornada já aqui. Mais do que uma hora depois, na tardinha, a estrada passou novamente ao lado do rio. A estrada ficava uns dez metros acima do nível do rio. Um trilho conduzia para embaixo da escarpa, acompanhando o rio por perto.
A. achou o lugar muito bonito e imaginou que encontraria lá embaixo, na natureza pujante, certamente um nicho ou abrigo para ficar. Quis voltar-se para essa direção. Não fazia sentido ficar na estrada, porque o céu estava de novo coberto e o anoitecer iminente, e não podia ficar sem luz na estrada. Mas uma força indeterminada não o deixou descer por esse caminho de areia. Como havia vinte dois anos, perante do muro do cemitério, duas forças se enfrentavam no seu interior, mas no sentido contrário. Desta vez a força misteriosa o deteve enquanto A. quis ir para lá. Não penetrou na consciência de A. que lutava de novo com aquela mesma influência perseverante, e deu a vacila do seu ânimo por mera incerteza natural diante de uma decisão entre duas alternativas desconhecidas, como também nos outros encontros com essa força somente depois reconhecia que lhe ocorrera, evidentemente, um fenômeno sobrenatural. Por isso nesse momento só sentiu irritação diante de tanta irresolução. Continuava a viagem na estrada, meio resignado, e observava o caminho embaixo da escarpa para verificar se realmente tivesse encontrado um abrigo por aí. Depois de algum tempo, porém, o caminho em baixo terminou. Agora a ficha caiu: Se tivesse seguido o trilho de areia, teria avançado mais lentamente, e no fim, quando já começaria a noite, não tivesse achado nenhuma saída. Mas a estrada também não oferecia nada.
Pouco depois viu à direita uma fazenda notável, e uma grande placa anunciando a venda de mudas e plantas. Era uma jardinagem, com cerca de madeira pintada branca, casarões bonitos e um amplo portão aberto. A. sentiu um sentimento aliciador que o atraiu, mas isso lhe parecia uma loucura completa. Perguntado pelo pessoal nem poderia dar-se como cliente. Aproveitou então o ímpeto para enfrentar a longa e suave subida em frente, superou alguns cem metros e desmontou depois para continuar a pé. De repente reparou na mata embaixo ao lado da jardinagem um objeto marrom lobrigando-se pelas copas das árvores. Talvez fosse uma choça? Sentiu um impulso para ir para lá, mas não podia fazê-lo. Não sabia, se teve moradores, nem para que servia a casinha, nem como chegaria até lá.  Será que pertencia à jardinagem? Então o acesso seria pela entrada da empresa? Começou a empurrar a bicicleta morro para cima, mas, depois de cinco metros, viu no asfalto um minúsculo canivete azul e parou de novo. Pegou nele. Deliberou, porém, que lhe não era útil, porque já tinha um canivete. O achado era bonito, mas viajante não leva coisas consigo, de que não precisa. Ficaria para um outro que o acharia, pensou, e colocava-o no meio-fio, bem visível para alguém, que passaria por aí. Neste momento começou a chover. Desta vez vestiu logo a capa de chuva meteu os óculos na bolsa e cobriu toda a bagagem com folha de plástico. Mas nesse átimo a chuva se tornou toró agressivo, e A. sabia que desta forma nem a capa de chuva nem as folhas garantiriam proteção. Sem pensar montou a bicicleta, disparou morro abaixo, virou à esquerda, passou o portão aberto da jardinagem e passou em frente do casarão rumo à mata. Achou um trilho de areia, penetrou na mata, que se abria em pequenas clareiras com plantações de mudas, e embarafustou numa vereda entre canteiros, que o levou maravilhosa e diretamente ao objeto marrom na mata. Era um pavilhão, um telhado de dois vertentes, que se assentou em oito sustentáculos de madeira, tudo bem novinho. Quando desmontou viu o relógio, e registrou que eram as seis horas e vinte minutos, exatamente. Era exatamente o tempo do pôr-do-sol, mas aqui na mata e com essa chuva a escuridão já começou.
O lugar era ideal. Bem seco, sem furos no telhado. Guardavam-se debaixo do telhado pilhas de vasos para mudas, uma dúzia de sacos de turfa, um monte de sacos vazios e dois vasos grandes com plantas altas. Um deles estava derrubado pela tempestade e A. o ergueu. Era lhe novamente um pensamento agradável, que, em vez de estragar alguma coisa, concorreu para o melhor do dono, se bem que fosse só uma ajuda insignificante. 
Colocou a capa molhada num prego. Além disso, por enquanto não tirou a bagagem da bicicleta, porque temeu, que o dono talvez ainda andasse uma ronda por seu terreno. Desta maneira podia dizer que aguardava somente o fim da chuva, sem intenção de ficar lá. Aproveitou a última luz fraca do crepúsculo para ler e aprender. Quando não pôde decifrar mais nada, desembrulhou a comida e comeu. Estava muito feliz. Claro, poderia ser sorte, mas era bem possível que Deus achara um jeito para arranjar-lhe, desta maneira, esse lugar acomodado. E limitava-se o Todo-poderoso a seus próprios leis da natureza, não usando magia. O canivete, por exemplo, certamente não tinha caído do céu. Alguém o perdera, aparentemente por acaso, mas tudo acontecia exatamente no momento certo, para retardar o passo de A. Deus tinha lhe anunciado antes, que acharia um lugar na hora certa, e com coordenação exata e afinada realizara seu plano. 
Estava de pé, num abrigo seguro, gostando do jantar e olhava a chuvarada deslizando pelas copas e escoando-se em cascatinhas do telhado. O que teria acontecido com ele, tivesse-se dirigido pelo caminho pequeno à margem do rio, ou se não tivesse achado o canivete, seguindo morro acima. Ficaria totalmente sem proteção andando nessa chuvarada. 
Depois do jantar tirou as roupas e tomou um banho debaixo da beira do telhado, onde caiu a água. Em seguida colocou alguns sacos de turfa no chão, cobriu tudo com sacos vazios, colocou em cima uma camada de papel de seus jornais, estendeu a toalha e algumas roupas e desdobrou, enfim, o saco de dormir. Era verdadeiramente um leito confortável. Deitava-se contente na sua cama enquanto a chuva deslizou constantemente pela folhagem da pequena mata, e refletiu no dia passado tão lindo em que lia a segunda parte do livro Isaías, que começa com as palavras “Consolem, consolem o meu povo. Falem carinhosamente com Jerusalém.”
O livro está cheio de enigmas. Depois da introdução forte e poética da segunda parte (capítulo 40) o profeta anuncia um rei que viria do leste e não seria vencido por ninguém. Seria a ferramenta de Deus que viria reconduzir os judeus à sua terra e a Jerusalém. Desenrola também mais detalhadamente do que outros profetas que um homem descendente de rei Davi reinaria como Príncipe da Paz. Chegaria como um servo para trabalhar em prol dos seres humanos, mas Deus lhe daria seu espírito e assim este servo anunciaria a vontade de Deus. Cumpriria tudo cheio de dedicação e até povos e nações distantes receberiam essa mensagem de salvação e os seus ensinamentos e leis. Por esse servo a salvação, a remição do pecado e da separação do Senhor, chegaria à humanidade, e não somente aos judeus, mas a todas as nações. Mas este homem, em que se irmanariam o servo ou escravo com a função do salvador, teria de sofrer muito. “Oferece as suas costas aos seviciadores. Não tenta se esconder quando o xingam e cospem no seu rosto.” Teria sido rejeitado e desprezado por todos, sofrendo dores e aflições sem fim. Mas justamente “por estes seus ferimentos somos sarados.” Esse grande mistério do sofrimento de Jesus, que irrita a tantas pessoas, é predito com minúcia setecentos anos antes.
Além disso, A. deu com mais enigmas que não sabia explicar. Fala, por exemplo, como também outros profetas, que a dinastia do rei Davi nunca acabaria de reinar. Mas conforme ensinam os historiadores nunca mais reinava a dinastia, depois do cativo na Babilônia, com exceção de Jesus, num sentido superior. Será que a profecia alude ao Salvador, deixando sem comentário o hiato de seiscentos anos, ou existe possivelmente um segredo, como ensinam algumas seitas místicas, que alegam que tem sucessores de rei Davi ou do próprio Jesus em tronos europeus, ordens de cavaleiros ou lendas antigas?
É também surpreendente que os profetas daquela época do exílio anunciam ainda, que o Senhor espalharia o povo judeu por todo o mundo e entre todas as nações. Estranho, pois já foram espalhados! Será que os profetas anunciam acontecimentos no futuro, que espalhariam o povo de Israel ainda com mais rigor? Nessa época, judeus se encontravam refugiados no Egito e outros países, mas não em todas as regiões do mundo. Já antes, quando lia Miquéias e outros profetas, A. supôs que se tratava de dois acontecimentos diferentes: o exílio na Babilônia, e a disseminação total do povo, até pelos países mais afastados. A. pensou na América, que neste tempo nem foi conhecida. Mas depois chegaria outra vez o tempo no qual Deus convocaria o seu povo de volta, mesmo “os judeus da Etiópia.” Até a metade do século XX as pessoas viram nesse último termo outro enigma ou até erro, porque sabe-se que na Etiópia moram somente negros.
A profecia tornou-se triste realidade, quando os romanos, no primeiro e segundo século depois de Cristo, expulsavam os judeus da sua terra para aniquilar seu espírito insurgente. Depois a terra foi chamada Palestina, quer dizer: país dos filisteus. Demorava 1800 anos até que os judeus podiam reunir-se na Terra Santa, um processo promovido por muitas coincidências felizes, parecidas àquelas que A. chegava a conhecer. E quando, na década de 1980, deflagrou a guerra entre a Etiópia e a Somália, o novo Israel não apoiou à Somália, aliada aos Estados Unidos, mas à Etiópia, embora que o país quase comunista fosse aliado aos russos. Israel descobrira, pois, que existiam, na Etiópia duas tribos de fé judaica. O fenômeno dos judeus negros é inexplicado, mas é conhecido, que as forças aéreas os trouxeram a Israel para resgatá-los da guerra. Assim se cumpriu também este pormenor da profecia de Isaías.
Na época, porém, os judeus eram céticos desconfiados. Não criam nos pressentimentos dos profetas. Como poderia acontecer que a poderosa Babilônia fosse vencida? Quem seria o rei poderoso do leste, que derrubaria a Babilônia? No leste existia só um rei poderoso: Uvarkhshattra, o cruel líder dos medos, e ele era aliado dos babilônicos. Os judeus na Babilônia duvidavam, e os judeus restantes na Terra Santa e os exilados no Egito e em outros países procuravam, como sempre, o conselho de deuses e espíritos alheios. Temos desta maneira a melhor chance, se pelo menos um deles ajudasse, pensavam e davam-se por cautelosos e prudentes procurando bom relacionamento com todos os deuses.
Isaías, no entanto, descrevia cada vez de novo como Deus se esforça para ganhar o amor do seu povo, quase como um ser humano, como, por exemplo, um pai que quer recuperar o amor de um filho perdido, ou como um homem que reafirma seu amor para com sua esposa, aceitando a de novo ainda que ela cometesse adultério. Na Bíblia A. encontrou a seguinte história:

Era uma vez, nos tempos antigos, quando viviam várias tribos em Canaã, a terra que depois seria outorgada aos judeus, que um rapaz da tribo dos amorreus enamorava-se duma moça da tribo dos heteus. Encontravam-se às escondidas na mata, e logo a garota engravidou. Aí ficou com grande medo e quando a gravidez virou visível, refugiou-se na mata. Quando nasceu o neném, a mãe não quis ficar com ele. Também o pai não tinha interesse, quando verificou que era “somente” uma menina. Nem sequer cortaram o cordão do umbigo, e jogaram o bebê desvalido, ainda sujo de sangue, na moita. A mãe retornava à sua tribo inventando uma historieta qualquer.
Pouco depois um garoto a cavalo veio por esse lugar, reparou o neném e cuidou dele. Não podia levá-lo em casa, porque os pais não o permitiriam, mas passava, várias vezes por dia, por lá para levar leite à menina, limpá-la, etc. A criança crescia tornando-se uma pequena e silvestre menina de mata. Com o passar dos tempos conseguia mais e mais suster-se sozinha. O rapaz, por conseguinte, chegava apenas de vez em quando.
Aconteceu que chegou uma vez depois de um lapso de algumas semanas. De repente viu a garota crescida com olhos diferentes. Estava nua como os índios, sem contato com o resto do mundo, e os seus peitos jovens desabrochando como uma flor, eram tão tenros e aliciadores, que o rapaz ficava com um sentimento seco e sufocador na garganta. Levantou a garota para si, no seu cavalo, e a levou consigo. O moço era, pois, um príncipe herdeiro. Seu pai severo morrera, havia pouco, e o príncipe podia levar a moça em casa. No dia da coroação, presenteou-a como noiva a seu povo e ela se tornou sua rainha coroada e honrada. 
Quando, todavia, a garota viu a multidão de tantos cavaleiros fortes e bonitos, que frequentavam na corte, sentia uma grande vontade de entregar-se também a esses homens. Em breve o seu dormitório era conhecido como o estúdio duma puta famosa, e porque nunca lhe bastava a quantidade dos cavaleiros, aceitava até soldados simples. Quando ouviu, que homens assírios tinham um rabo muito desenvolvido, angariava também oficiais da Assíria, que se encontravam na corte. Mais tarde convidava, outrossim, egípcios, filisteus, sírios e outros homens para regar sua horta escondida. 
Várias vezes o rei detectava a traição da rainha e a vituperou e castigou, mas sempre lhe perdoava quando ela chorava lancinante, suplicando por dó e mostrando arrependimento e contrição. Mas sempre depois pouco voltava à libertinagem despudorada que desonrava e achincalhava o rei corno. Aí o rei ficou com raiva e disse à moça: “Parece que você gosta de viver como uma prostituta para filisteus, egípcios e outros. Por isso eu vou deixá-la com eles.”
Ele a prendeu e vendeu como escrava a um filisteu. Lá, no país dele, tinha que trabalhar muito e sob condições duras e humilhantes. Ela se compungiu e chorava muito. Aí, depois de dois anos, o rei comprou-a de volta, lhe perdoou e a restituía como esposa amada e rainha. A moça estava muito feliz, mas, logo depois, voltou de novo à velha licenciosidade depravada. Aí o rei a vendeu a um comerciante assírio, que a levou como escrava comum à Assíria, onde ela sofria muito. Foi escarmentada várias vezes e chorava muito arrependendo-se. Depois de três anos doía ao rei a mulher esculhambada e ele a comprou, empossando a de novo como esposa real. Mas também desta vez ela não se detinha e veio começando as mesmas coisas imundas, mas quis progredir com mais astúcia. Pediu apoio e abrigo aos deuses, e para ganhar a graça dos deuses com certeza, ofereceu-lhes em sacrifício algumas crianças do rei. Quando o rei ouviu do assassinio sanguinolento e dos adultérios desbragados, sua raiva estava tão terrível que falou à mulher: “Você merece a morte. Porém, já que gosta tanto de abrir as pernas para outros homens de várias nações, eu lhe determino outro destino.”
Vendeu-a a um campo de prisioneiros onde labutavam excessivamente centenas de ladrões, assassinos e outros criminosos. Quando ela chegou, os presos, que provieram de vários países, e os guardas lhe arrancaram os vestidos preciosos e o enfeite primoroso, e a estupraram. Agora ficava nua, todo o dia, como antes na sua infância; mesmo quando fazia outros trabalhos que lhe eram incumbidos não recebia roupas para se proteger. Ela era estuprada assiduamente e ainda escarnecida e empulhada pelos marmanjos boçais.

A. acordou às cinco e meia, vestiu-se, arrumou os sacos de turfa e os sacos vazios no seu lugar, e montou a bicicleta. Quando passou pela frente do casarão, o primeiro jardineiro surgiu, vindo de bicicleta e passando nesse momento pelo portão. Significava que A. foi embora exatamente no momento certo. Era coincidência ou será, que de novo alguém arranjara também esse detalhe? Desta maneira o empregado pensou que A. era somente um freguês cedo demais, ou um visitante do dono.
A. sentiu um entusiasmo por causa de todas as circunstâncias da noite, que lhe forneceu novas forças e ele fez muitos quilômetros nessas horas matutinas. Já foi acostumado que os caminhões buzinavam antes de ultrapassar, às vezes dois caminhões juntos, lado ao lado, deixando pouco espaço para a bicicleta. Mas já acostumado ao jeito dos caminhoneiros no Brasil, já não assustava mais. Poderia fazer, até as nove horas, uns quinze quilômetros por hora, se não deparasse com demasiadas colinas. Estas, porém, continuariam até Belo Horizonte. 
Pouco depois das nove horas, chegou a uma aldeia onde achou uma mercearia para se abastecer. Procurou um lugar para a pausa, mas achou apenas um ponto de ônibus que, pelo menos, oferecia uma vista amena a alguns montes verdes. Quando sentava lá para comer, ler e aprender como seu costume, um homem, de bicicleta no caminho ao trabalho, parou para conversar com A. Enfim lhe deu seu endereço e o convidou para visitá-lo quando da volta de Belo Horizonte. 
Estava já quente, mas A. quis ainda fazer alguns quilômetros. Por isso partiu apesar do sol forte do meio-dia. O lugar não lhe parecia tão bonito para ficar todo o dia. Passou então a fronteira entre os estados Rio de Janeiro e Minas Gerais, cuja capital era o pretenso alvo da sua viagem. Às duas horas da tarde chegou a um enorme estacionamento numa colina com uma oficina mecânica e um restaurante. O restaurante oferecia para os visitantes chuveiros, coisa desconhecida na Europa, e A. curtiu a ocasião bem-vinda. Depois comeu dois pequenos pratos, uma sobremesa e um sorvete. Ficava lá por duas horas, lendo entre os pratos. O restaurante era simples, e ele pagava só oito reais, incluído o sorvete, que no Brasil, aliás, é mais caro do que na Alemanha. Depois a moça lhe deu uma garrafa cheia de água refrigerada, serviço gratuito para os motoristas. 
A alguns quilômetros A. virou-se à direita para abandonar a BR 040. Segundo o mapa podia fazer um pequeno desvio, visitando algumas cidades do interior. Depois de dois ou três dias estaria de volta na rota principal. A estrada estreita era bonita, passando colinas cobertas de mata, mas a qualidade do asfalto estava ma. Por isso progredia só lentamente, mas não lhe importava, porque não estava com pressa. O único problema era que com essa demora nem alcançaria a cidade Juiz de Fora, onde haveria, com certeza, hotéis.
Algum tempo depois surgiu do mato verde uma placa vermelha de cinco vezes cinco metros com uma coração cor-de-rosa, propaganda por um hotel na solidão. Que tipo de hotel poderia ser, deliberou A. Um prostíbulo, um hotel para casais e namorados ou um hotel comum? Será que esse tipo de propaganda é normal no Brasil? Talvez é um hotel barato frequentado por namorados, mas que aceita também outros viajantes? A. poderia aproveitar o jardim, a piscina, etc. Mas quando cismou nisso uma voz no interior lhe disse: “Não se preocupe com esse hotel. Pode viajar tranquilo porque às seis horas e vinte minutos terás um lugar para a noite.”
A. jubilou. Estava tão feliz ao ouvir a voz que lhe tinha trazido tantas bênçãos e ele continuava pedalando entusiasmado. Mas meia hora depois caiu em dúvidas. Pode-se imaginar que o Deus Todo-poderoso fale coisas tão vulgares e comuns como “seis horas e vinte minutos. “Ai, agora sei”, lembrou-se de repente. “Ontem eram as seis horas e vinte minutos, quando cheguei a esse pavilhão da jardinagem. Certamente a lembrança deste fato me embrulhou. Então não era a voz de Deus, que disse “seis horas e vinte minutos”, mas somente a lembrança do outro dia.
Quando veio a uma vila pequena começou a chuvarada, como no dia anterior, só umas duas horas mais cedo. A. abrigou-se numa loja onde se vendiam animais de estimação, galinhas e coelhos. Passou o tempo olhando os animais e falando com o vendedor. Este lhe falou de um hotel a quinhentos metros. Quando a chuva, depois de uma hora e meia, ainda continuou, pensou em progredir, mesmo assim, até o hotel, mas desistiu logo quando reparou a enxurrada forte na rua. Quando a chuva diminuiu, todavia, saiu logo, porque já começou a escurecer. 
Dois quilômetros depois, suspeitou que já passara o hotel sem achá-lo. Parou em frente de um supermercado, fez compras, e continuou, depois, olhando pelo hotel. Talvez o rapaz errou a respeito da distância? Mas chegou ao fim da vila sem achar nada. Depois de uns quinze minutos a chuva parou, e então A. tocou pela frente. Eram as cinco e meia horas, o hotel recomendado pelo vendedor de qualquer jeito não podia ser aquele que talvez acharia às seis horas e vinte minutos. 
A estrada passava por uma paisagem linda flanqueada por morros rochosos cobertos de mata. Levantaram-se tão íngremes acima da estrada, que era impossível trepar o aclive olhando por um a gruta ou outro abrigo. Já chegou de novo a um povoado, e ao fim dele encontrou uma pequena escola de quatro salas em dois andares. Construíram mais uma ala com quatro salas, ainda sem telhado, mas as duas salas em baixo lhe pareciam bem adequados para a noite. Eram, contudo, somente seis hora e cinco minutos. Por essa incerteza passou ainda para a próxima curva da rua, mas lá o povoado terminou e não tinha nada mais na frente, que poderia servir-lhe. Então A. resolveu ficar por aí. Uma vez, porque não cria que era desta vez a voz de Deus. Mas mesmo se fosse assim, teria que considerar outra coisa: ele partiu da loja de animais antes do fim da chuvarada. Talvez fosse o plano de Deus, que ele ficasse lá até o fim da chuva, mais o menos quinze minutos depois da saída. Se tivesse agido assim, teria achado a escola também quinze minutos mais tarde, então, às seis horas e vinte minutos. 
Mas no seu interior não sentiu o sentimento sereno de outrora, de profunda harmonia com o desígnio de Deus, ou seja, como diriam psicólogos não crentes, com sua consciência íntima.
Entrou nas duas salas assustando um cachorro perneta, que se esgueirou do seu dormitório habitual. Apesar de que A. lhe falou tranquilizador, o animal ficava desconfiado e procurou outro lugar. A. colocou a bicicleta na melhor das duas salas como para fazer uma pequena pausa e aproveitou a última luz do dia para ler. Mas as dúvidas avultavam tanto que foi passear, a pé, mais uma vez até a curva em frente. Mas não vi nada. Também pensou que outro lugar certamente não teria condições melhores. Mas por que era tão inquieto? Será que temia que nesse lugar, talvez às dez horas, um guarda ou funcionário da escola fizesse um controle? Seria, de fato, muito mau sair novamente na noite, ainda mais se chovesse de novo.
Perto da escola estava um poste de lanterna, acima da calçada, e uma réstia de luz caía pela janela no chão sujo de concreto. Dava para ler sentado, perto da janela. Começou a leitura do livro do profeta Ezequiel. Não tem dentro da Bíblia livros históricos sobre a época do cativo na Babilônia. Acham-se somente notícias em alguns livros proféticos. Quem quer saber mais detalhes, tem que estudar fontes históricas do Egito, Babilônia, e de outras nações, ou consultar livros de hoje a respeito.
Deus incumbiu um judeu na Babilônia com o cargo de profeta, porque Jeremias foi levado à força ao Egito por judeus, que se refugiaram lá. O nome do novo profeta é Ezequiel, e ele escreveu o terceiro maior livro profético da Bíblia, atrás de Isaías e Jeremias. Ele era sacerdote. Quando estava, certo dia, na beira de um rio, teve uma visão tão esquisita, que certas pessoas, na tentativa de construir uma concepção do mundo sem Deus, alegam que o profeta certamente foi visitado por extraterrestres, que aterrissaram uma aeronave gigantesca. Eles lhe ministravam certas substâncias, que lhe deram a sabedoria de entender sua língua extraterrestre, e outras qualidades. Mas essas pessoas não podem explicar, por que os pretensos extraterrestres não foram vistos por outras pessoas, nem conquistaram a terra, nem sequestravam pessoas, mas viajaram com Ezequias de aeronave a Jerusalém somente para abrir-lhe os olhos a respeito de certas atitudes pecaminosas dos judeus restantes na cidade, que já de novo adoravam deuses e demônios. Só Deus pode ter interesse no combate de tais pecados, e ele incumbiu Ezequiel.
Inspirado pelo Espírito de Deus, o profeta reprovava a corrupção e o desregramento licencioso dos judeus em Jerusalém com palavras fortes, poéticas e empolgantes. Vituperou também o murmúrio do povo na Babilônia alegando de que fez jus ao seu destino. Ele é também o autor da estória da menina silvestre na mata, que a mãe deixa nua e sanguinolenta na moita. “O nome dessa garota é Jerusalém”, disse. “Como o príncipe a alimentava e abastecia, assim Deus criou e medrou o povo de Israel, as crianças do Senhor. E vocês o pagavam com infidelidade impudica.
Os pecados principais eram para Ezequiel o costume de homens transarem com mulheres casadas, e vice-versa, destruindo lares e famílias, e a sem-vergonhice de alguns ricos, que exploravam pobres e néscios por avareza. Especialmente para com estrangeiros não se detinham. A. pensou em pessoas ricas de hoje, que podem comprar tudo muito barato, porque aqueles que produzem esses produtos, ganham uma retribuição muito pequena, não suficiente para alimentar a família, que às vezes é obrigada a vender ou prostituir uma filha, mandar as crianças ao trabalho em vez de à escola, e assim por diante.
Ezequiel fez também profecias sobre o naufrágio de outros povos como os edomitas e os filisteus, que se confirmariam no decorrer da história, mas no caso da cidade Tiro e do Egito exagerou muito, o que A. entendeu bem porque também já chegou a conhecer a ebulição e exaltação da alma quando recebe uma mensagem de Deus. É necessário desenvolver empatia com o profeta e a situação geral nesse tempo, para entender bem as palavras. Assim a gente pode também compreender, que Ezequiel temeu o pior por seu povo, quando viu o mundo de hoje, numa visão, e reparou a falta de muros em torno das cidades de Israel. Deixar as cidades desprotegidas era nos tempos antigos uma leviandade irresponsável e um grande perigo. Ezequiel não podia saber, que em nosso século os muros ao redor das cidades perderam sua importância, e por isso se preocupou, quando Deus lhe mostrou o mundo de hoje.
Mas Ezequiel fala também em termos consoladores àqueles que se afligem por saudade de sua terra. Promete a libertação do cativo e o regresso. Deus mostra ao profeta um maravilhoso templo ideal. Ezequiel toma as medidas e descreve tudo minuciosamente no seu livro, mas esse templo de sua visão nunca foi erigido. 
Muitos judeus esperavam que viesse, de fato, um rei do leste para os livrar, como o profeta anunciava. Quem seria esse rei? Uvarkhshattra, o Cruento, tornara-se famoso como algoz sangrento e brutal, um forte vencedor em várias guerras. Hoje ele é mais conhecido pelo nome Ciaxares II ou Ciáxares II. Mesmo a sua rainha possuía um brado notório como assassina consumada. Seriam eles os salvadores? Mas infelizmente Uvarkhshattra não tinha interesse nenhum de investir com seus cavaleiros rápidos contra as muralhas gigantescas da capital Babilônia, a ex-aliada dele contra os assírios. Preferiu segurar seu domínio sobre a Armênia e outras tribos incorporadas no seu vasto reino depois do fim dos assírios. Confirmou a aliança com a Babilônia com um casamento esplendido entre sua filha e o príncipe herdeiro da Babilônia Nabucodonosor. Este, quando reparou na saudade da princesa pelas matas e montanhas do império medo construiu para ela os famosos Jardins Suspensos da Babilónia, segundo o sacerdote e escritor babilônico Beroso.
Os medos poderiam agora avançar quase até o fim ocidental da península que hoje forma a Turquia, onde ficam as ruínas da famosa cidade Troias e onde ele lutaria com gregos bem armados e treinados, que colonizavam também aquela costa marítima da atual Turquia, fundando várias cidades ao longo do Mar Mediterrâneo. Mas entre os gregos e os medos ficava ainda um reino do tamanho do estado São Paulo, ou a metade de Alemanha, chamado Lídia. O rei Aliates gostaria também de aumentar seu reino, ajuntando algumas regiões antes subjugadas pelos assírios, apesar de que ele não tivesse participado da guerra contra o império falecido. Com estes planos entrou em conflito com Uvarkhshattra que reivindicava toda a região para si e resolveu dar ao rei Aliates uma boa lição, de uma vez para sempre. Convocou de todas as partes do seu reino extenso guerreiros. Arqueiros das montanhas da Báctria, perto da Índia, jovens fazendeiros forçudos, das planícies perto do Mar Cáspio, lutadores de cimitarra de Tadjiquistão, e outros soldados das regiões submetidas, que haviam de lutar ao lado das inumeráveis tropas medas e dos cavaleiros encouraçados persas. Formavam um exército enorme, pelo menos duas vezes maior do que o da Babilônia.
Mas Aliates, o rei da Lídia, já foi informado por espiões sobre o tamanho da empreitada do seu inimigo. Aliates era muito rico, e com esse dinheiro aliciou tropas de diversos países vizinhos para equiparar a máquina de guerra com que Uvarkhshattra ameaçava seu país. Vinham mercenários da Síria, Armênia, tribos das montanhas silvestres do Cáucaso, e uma tropa de elite da Grécia, uma infantaria de dez mil soldados bem armados e adestrados. Os dois exércitos chocaram-se no dia 28, de maio, de 585 a.C., no planalto central da atual Turquia, e para esse dia era predito um acontecimento extraordinário pelo cientista Tales de Mileto, um matemático conhecido até hoje pela lei do triângulo retangular (a² + b² = c²). Seu prognóstico não baseava em profecia, mas no cálculo minucioso da órbita da lua, observada por lunetas simples. Pela primeira vez no mundo, um matemático e astrônomo predissera um eclipse da lua. Era datado pela tarde do próprio dia 28, de maio, de 585. Nunca podemos saber, se essa coincidência incrível, que parece magia, mas deriva das leis comuns da natureza, foi planejada e criada por Deus. Mas desta maneira o caminho se preparou para que se cumprisse a profecia do profeta do Senhor, e com isso, a providência divina. Os detalhes, porém, são empolgantes...

A. esfregou os olhos. A leitura na luz frouxa era cansativa. Não quis acender a vela para não chamar atenção de transeuntes na rua. Interrompeu a leitura e preparou o jantar, que comia, como seu costume, aprendendo vocábulos que mastigaria depois ainda no sono. Às dez horas da noite quis fazer a cama acima do andaime, que estava dentro da sala, mas reparou, que ele estava muito úmido, molhado por gotas, que pingavam do teto de concreto. Era nesse tempo, que começou a chover de novo. Teve que preparar a enxerga diretamente no concreto do chão sujo, se bem que fosse úmido também. Procurou o lugar mais enxuto e estendeu primeiramente folhas e sacolas de plástico. Mas exatamente neste lugar começou a gotejar o teto, logo depois de se deitar, e ele tinha de mudar tudo. Mudou de lugar, deitou-se de novo, mas agora vários pernilongos começavam a atacar. Sem luz não podia caçá-los e ficava sem jeito. Depois de duas horas o teto acima do novo lugar deitou-se a gotejar também. Não era um bom lugar para a noite, mais ou menos assim como, há dois dias, na barraca com o toldo destruído. Parecia que este lugar não era o lugar escolhido por Deus. Apesar disso A. agradeceu ao Senhor, porque não sofria tanto como há dois dias. Era somente uma pequena lição de Deus para o ensinar, como parecia, porque faltava lhe confiança nas promessas do Senhor. 
Na manhã partiu cedo. Já acordou muito cedo por causa do chão duro e dos pernilongos, levantou-se às cinco horas e saiu às seis, antes da chegada dos primeiros professores da escola. Após quinze minutos passou um cercado de cavalos. Ao lado enxergou uma casa de madeira abandonada, talvez uma antiga chácara de verão. A cerca havia tombada, o jardim cheio de mato, mas detrás da casa havia um terraço toldado. Sabia intuitivamente: Era o lugar que Deus lhe escolhera. Provavelmente tinha aqui água, talvez a casa estivesse até aberta e não houvesse pernilongos. Teria estado aqui às seis horas e vinte minutos. Pelo menos poderia curtir o lugar quando da volta...

A estrada, que enfrentava, era linda. Caminhava pela encosta da serra, ficando sempre mais ou menos no mesmo nível acima do vale do rio. Pelo lado oposto do vale arrastou-se em meandros um trem de mais de cinquenta vagões. Nem pôde contá-los, porque alguma parte sempre estava desaparecida atrás de montes ou em túneis. Era uma manhã clara e amena. Por causa das chuvas noturnas estava mais fresquinho, mais agradável, pelo menos até as nove e meia, e o tráfego estava escasso. Visitou uma histórica usina hidrelétrica, mas apesar da demora já às nove horas alcançou a periferia de Juiz de Fora, a metrópole regional, circundada por um grande areal para indústrias. As lojas fechadas lhe lembravam que era domingo. Decorrera, então, já uma semana inteira, desde o último domingo em Petrópolis! E qual semana acidentada!
Achou algumas lojas abertas e uma padaria e comprou um café de manhã farto, com iogurte, leite, queijo, pãezinhos, frutas e coca. No centro havia uma grande feira com centenas de barracas e muitas lojas abertas. Depois de procurar e perguntar em vários lugares, causando equívocos e mal-entendidos por causa de um pedido tão fora do comum, achou um mapa do estado Minas Gerais. Ofereceram também o itinerário das estradas brasileiras, mas não tinha lugar na bagagem para mais um livro grosso. Também não quis planejar a viagem com todos os detalhes, mas deixar tudo ao Deus dará, sendo aberto sempre para que Ele o guiasse a sua vontade e maneira. Não estava aqui à procura de lugares turísticos, mas à procura de si mesmo e de Deus. 
O asfalto nessa cidade era uma catástrofe. Desta maneira precisava de muito tempo para atravessar a cidade. Ao sair finalmente da cidade deparou com uma estrada larga de várias pistas, rumo ao norte, e as placas anunciavam, que ela o levaria de novo à BR 040. O calor estava agora sufocante e adiante de si, onde podia percorrer todo o amplo vale, não viu nenhuma mata que pudesse oferecer um lugar sombrio. Parou, por isso, quando veio a um ponto de ônibus com um abrigo feito todo de concreto, que estava agradavelmente fresquinho. Após dele estava o trilho ferroviário, e acima do cercado, que vedava o acesso, espalhou o saco de dormir e as roupas molhadas na noite. Agora tinha muito tempo para ler.
 
Mais ou menos na mesma hora a jovem professora da creche em Belo Horizonte estava com duas amigas no minúsculo cômodo ao lado da sua igreja na favela para contar os dízimos e ofertas colecionados no culto, o que pertencia às suas responsabilidades. A pequena congregação da favela era uma filha da igreja evangélica, que tinha visitado com a sua mãe, na sua infância. Ficava logo ao lado da creche e constituía-se de poucos adultos, que quase todos ganhavam somente um salário mínimo. Mas todos traziam com boa vontade e afeição os dízimos, para que a sua igreja vivesse e beneficiasse a muitos. Participavam do culto também muitos adolescentes que vinham sem seus pais.
O culto começava sempre, às nove horas, com a escola dominical, na qual a jovem professora ensinava junto com uma colega as crianças de nove até quinze anos. Depois do ensino, o culto começava com o louvor ministrado com a ajuda de guitarra, contrabaixo e percussão, e muitas vezes os respectivos grupos da escola dominical apresentavam uma música. À noite havia mais um culto, das sete para as nove horas. A moça não podia visitar os cultos durante a semana por seu curso de supletivo, mas no fim da semana integrava-se de todo o coração.
Depois do culto foi convidada para almoçar com uma amiga que era empregada numa casa perto da favela. Ela morava lá e tinha uma dona gentil. Por isso podia levar uma visitante a seu quarto.
“Já viu que alguém está te olhando?” perguntou a amiga. “Você deve ser muito feliz, sendo ele um homem tão simpático...”
“Chi!” fez a moça e ergueu-se. “Você sabe que não posso namorar um brasileiro, porque o Senhor me vai mandar um marido do exterior.”
“Amém”, afirmou a amiga. “Louvado seja o Senhor, que te enchia de tanta alegria e confiança. Mas tem certeza de que era assim a mensagem que Ele te mandou? Passaram uns dez anos e nunca recebia uma notícia.”
“Na verdade, ... recebi uma. Não contei nunca porque ela é muito estranha.”
“Já me contou que o seu marido é branco, alto e esbelto e tem uma filha loira.”
“Sim, mas há um ano que o Senhor me disse no sonho que meu marido passava muito mal. Como Ezequiel, quando levado na visão a Jerusalém, eu fui levada a uma país estrangeiro. Entrei em um prédio feio e repugnante num meio frio e inóspito. Subi uma escada estreita para o terceiro andar. Ouviam-se atrás das portas fechadas várias vozes de homens. No terceiro andar abri a primeira porta. Lá estava meu marido, sentado na cama numa cela muito triste. O quarto estava vazio, além da mesa e cama. Não tinha livros ou outras coisas. Chamei o meu marido, mas ele não ergueu a cabeça, como se não me ouvisse. Desta maneira não podia ver seu rosto. Ele era totalmente desesperado. Falei com ele carinhosamente, mas não sei se ele sentiu alguma coisa.” 
“Ai, coitada! E toda essa incerteza você está carregando no seu coração! Sendo assim deveríamos orar juntas!” disse a amiga e começou: “Ó Pai, nosso querido Pai Todo-poderoso. Nós te louvamos e agradecemos pela promessa maravilhosa que tu fizeste a tua filha. Ó Senhor, tu a presentearás abundantemente. Mas, Senhor, não esteja com raiva por causa de nossa fraqueza, por causa da pequenez de nossa fé. Ouve-nos quando pedimos pelo nome de Jesus: Tem piedade de sua filha, que já sofreu tanto, que vive em tanta pobreza, e que confia em ti, Senhor, que está à espera, com grande saudade, para que tu cumpras a tua promessa. Ó Pai, se for possível, lhe manda logo o seu marido. Pelo nome do Senhor Cristo Jesus, tem piedade dela e acaba com este tempo de espera. Manda lhe, pelo menos, um sinal para que ela saiba que seu marido está vivo...”

Mais ou menos neste mesmo tempo A. leu na sua Bíblia os textos do atual domingo, do segundo domingo da quaresma, do tempo da paixão de Jesus, os quarenta dias que decorrem desde a quarta-feira de Cinzas até à aurora do domingo de Páscoa. Nas igrejas que seguem ainda hoje à ordem antiga, como a catedral evangélica de R., na Alemanha, foram lidos esses textos no culto deste dia.
O grande apóstolo Paulo, o assassino que se transformara em um famoso missionário, escreveu a carta aos romanos, que se lê como epistola neste domingo. No capítulo cinco é explanado que temos que aprender sentir alegria mesmo nos sofrimentos. Podemos nos alegrar, pois sabemos que os sofrimentos produzem a paciência e a paciência traz a aprovação de Deus, e esta cria a esperança. “Esperança que não nos decepciona, pois Deus tem derramado o seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo, que ele nos deu.” E na carta aos hebreus se lembra que Abraão, progenitor do povo de Israel e também de alguns povos vizinhos, foi exortado, um dia, para deixar, junto com a família, escravos, rebanhos de gado e todas as coisas, a sua terra natal, porque Deus o quis levar a uma terra desconhecida, mas prometida por Deus. Desta maneira chegou depois duma caminhada enorme a Israel, o que foi chamado, neste tempo, de Canaã. Ouvira estas palavras lidas nas igrejas quase cada ano, mas só agora lhe incendiaram o coração.
Depois leu o evangelho do domingo no livro de Marco, capítulo doze, os versos um para doze. Eis o próprio Jesus que abriu aos ouvintes os olhos para que entendessem como tinham maltratado os mensageiros do Senhor, os profetas, homens e mulheres santos. Jesus contava muitas vezes parábolas, como Ezequiel, que contara a história da menina silvestre na mata. A conta de Jesus poderia ocorrer, em nosso tempo de hoje, no sul da França, onde tem extensos vinhedos, ou também no Sul do Brasil:
Um vinicultor rico quis aposentar-se e arrendar a vinha. Para entregar tudo no estado ótimo aos inquilinos, investiu muito dinheiro e mandou reformar os prédios, construiu um novo lagar para espremer os bagos, reformou os muros, etc. Depois alugou a posse e retirou-se a seu casarão na cidade, junto ainda com três empregados: o administrador, o motorista e uma empregada. Depois da safra, que estava farta, os inquilinos não mandaram a parte, que foi combinado como foro do ano. Por isso mandou seu motorista ao vinhedo para receber a sua parte. Mas os inquilinos reagiram ofendidos, a briga conflagrou e eles espancaram o motorista. O dono estava espantado e irado, mas pensou: Será que meu motorista disse alguma coisa que enraiveceu os locatórios? Talvez seja melhor mandar a empregada pedir o aluguel. Ela é uma moça suave e boa, ninguém a maltratará. 
Os inquilinos, porém, empulharam o dono por mandar uma empregada e a buliram, violaram e a mandaram de volta ao dono ensanguentada e com as roupas rasgadas. Aí o dono deliberou que seria necessário mandar o próprio administrador. Respeitariam com certeza esse homem erudito e honrado. Embora já muito velho, foi ao vinhedo para indagar por que o foro não foi pago. Os inquilinos, todavia, pegaram também o ancião e o trataram tão mal que morreu. Aí o velho vinicultor ficou muito triste e ponderou: Gostaria de ir para lá pessoalmente, para falar com essas pessoas, mas sou velho e sem motorista. 
Chamou então seu único filho, que morava numa cidade perto, e pediu a ele que fosse ao vinhedo. Calculou que respeitassem pelo menos seu filho, porque a família era rica e bem conhecida. Um ataque contra seu filho seria um escândalo enorme. Mas os inquilinos irresponsáveis agrediram-no e mataram-no a golpes e sovas. Alegraram-se ainda: “Agora o dono não tem mais ninguém para molestar-nos; o vinhedo é praticamente já nosso.”
O vinicultor, no entanto, chamou a polícia e ela circundava o vinhedo com dois esquadrões, prendeu todas as pessoas adultas e mandou as crianças para orfanatos.
Assim Jesus chamou a atenção dos ouvintes ao modo como Deus, muito paciente e longânime, mandava vários profetas, que eram troçados e esculhambados, até que veio a mandar seu próprio filho. Mas mesmo ele foi torturado e morto, e o dono chamou um grande exército contra os moradores insurretos da sua terra, para que estes, finalmente, reconhecessem a sua injúria. 
Um trovão assustou a A. O céu estava encoberto e A. pegou rapidamente as roupas secadas e embrulhou a bagagem em plástico. Logo depois desatou-se uma bátega diluvial. Quando outro rapaz se abrigou no ponto de ônibus não havia mais lugar para a bicicleta. Que bom, que tudo estava cuidadosamente embrulhado em uma grande folha, que fizera, há um dia, de uma grande sacola de plástico achado na rua. 
Os dois homens falavam, quando um ônibus passava em alta velocidade, sem parar, e a água, que escorria pela estrada em enxurradas, foi espargido molhando até os rapazes no abrigo. Subiram, então, no banco para que os próximos ônibus e caminhões ensopassem apenas as pernas. A., de bermudas, não tinha problema com isso. Assim que a chuva diminuiu, saiu e ao passo que as águas escachoantes rugiam ainda pela estrada, o sol já descortinou o céu. 

A alguns quilômetros deparou com a BR 040 avançando bem, porque não estava mais tão quente como antes da chuvarada. Era domingo e não passava povoações maiores. Por isso não achou nenhuma mercearia aberta para comprar alimentos para o almoço. Por isso continuava até que, às três horas, deu com um restaurante ao lado da BR 040. Era um prédio escorreito, totalmente vazio além de um cinquentão sentando em uma mesa.
A. colocou a bicicleta a uma janela e escolheu a mesa mais perto da janela para poder observar bicicleta e bagagem. Quando obteve o cardápio, o homem interveio e recomendou uma refeição de cinco reais que seria bem farta. Assim chegaram a apresentar-se e o homem convidou A. a sentar junto com ele e encheu-lhe já um copo de cerveja. A. estava muito sedento, mas primeiro pediu uma água, e depois gozou a bebida fresca que mitigava a sede de uma maneira grata e aprazível.
Era um comerciante viajante que conhecia o restaurante muito bem. A comida que a moça trouxe a A., era farta, mas não tão opulenta como descrita. A. elogiou, mesmo assim, que a refeição seria farta e gostosa. “Pois não”, exclamou o homem. “Mas é somente o antepasto.”
Mesmo o esfaimado A., conhecido entre os amigos como comilão, não pôde comer tudo. Gostaria de fazer-se um embrulho dos restos, mas por não sabendo se tem esse costume no Brasil deteve-se e levou apenas doces e os bolinhos da sobremesa. Pagou por tudo, junto com três bebidas, oito reais; quase como no dia anterior, mas comeu duas vezes mais, e tudo estava muito gostoso. Até o café era incluído. Se tivesse comprado um almoço tão farto no supermercado, nem teria pagado menos, maravilhou-se. Na Alemanha, pois, a comida no restaurante é muito mais cara do que no supermercado, porque a mão-de-obra é muito cara. Também exige um alto investimento erigir um restaurante na Alemanha, com aquecedor central, muros isolados contra o frio, janelas de vidros tríplices, etc.
Às seis horas da tarde, enfim, foi embora, embarrigado como uma mãe na espera de trigêmeos. “Não posso fazer muitos quilômetros até o crepúsculo”, pensou, mas a voz interior lhe notificou que poderia viajar tranquilamente mesmo quando já cairia a noite.
“Mas como posso achar um alojamento na escuridão. Será que acharei como no primeiro dia um motel logo ao lado da estrada?”
“Não te preocupes. Continua simplesmente.”
“Tá bom,” pensou. “Fazia sempre boas experiências com aquela voz.”
Depois de uma hora a estrada estendia-se acima de um vale no qual ficava uma cidade, formando um arco grande atravessando o vale na altura. A ambos os lados havia saídas descendo para a cidade, e A. tentou farejar, qual delas iriam a um hotel ou a uma pousada, mas não sentiu nenhum pressentimento. Quis dirigir-se, então, à última saída, mas a voz interior, um certo sentimento constrangedor e tenso, não o deixou, revoltando-se contra a decisão de A. Ele concedeu logo, sem refletir sobre o assunto. Mas mal subira um quilômetro para a próxima lombada da serra, começou a chuviscar. A. se esquentou. Agora fizera o que mandara aquela voz, mas em gratificação deixou-o em maus lençóis, expondo-o à chuva. Seria possível que viajaria ainda muito, na escuridão e na chuva, sem alcançar mais uma cidade. Não veria nada com os óculos molhado, sem luz, e as reflexões irregulares dos faróis nas gotas em cima das vidraças dos óculos o impediam muito. A raiva aumentou ainda quando quis voltar à cidade, mas aquele sentimento misterioso revoltou-se de novo contra a decisão, com toda a força. O furor o fez pedalar com grande vigor, e ele tomou toda a subida de uma vez, sem desmontar. Quase já no alto viu uma rua pequena paralela, à direita, uns três metros acima da estrada. Estavam lá algumas casas simples, pareceu-lhe que a rua ia a um bairro ou a uma favela. Arrebatado pela raiva pegou o guidão com força violenta e dirigiu-se à direita, quando surgiu um trilho que subia a escarpa àquela rua. Não entendeu por qual ataque de doideira ele entrou justamente naquela rua, seguiu para frente, enquanto a garoa se tornou mais forte, ensopando-lhe o rosto, - nem sequer envergara a sua capa de chuva -, e não sabia mais o que fazia ou teria que fazer.
“Se queres retornar à cidade”, xingou consigo mesmo, “por que não retornaste? Que é que fazes aqui?” Viu que a rua guiava, após a curva, a um bairro muito desconsolado. Parou, esbaforido e furioso. “O quê queres aqui? Por que te desviaste para cá?”
Não sabia, e tampouco sabia o que tinha de fazer. Continuar na rua, retornar à cidade ou seguir a estrada BR 040? A voz interior emudeceu, satisfeita e contente, como se fosse com toda a razão por ter conseguido seu objetivo. A. permaneceu imóvel, confundido. Contemplou o prédio à esquerda. Os óculos molhados lhe permitiam somente uma imagem vaga. Janelas grandes como as de um banco, mas o hall ou vestíbulo dentro estava quase vazio, além de dois sofás, e tudo estava apenas frouxamente alumiado. De repente levantou a cabeça e viu no segundo andar uma coisa, que o eletrizou como um choque. Leu as letras Hotel Dumont.
Entrou no hall onde não encontrou ninguém. Depois de algum tempo chegou uma moça e escarrapachou-se no sofá. Recomendou que A. tocasse a campainha ao lado da recepção. A. badalou, mas nada aconteceu. A moça declarou que isso seria normal. Recomendou-lhe colocar a bicicleta no hall e assistir televisão, no sofá. Após vinte minutos apareceu um velhinho esquálido, atendeu e A. recebeu um quarto por dez reais. Tomou banho no banheiro meio caduco. Não tinha fome nenhuma e foi assistir televisão, no hall, para ouvir a língua portuguesa, mas entendia muito pouco.
Sentavam lá também dois rapazes de uns dezoito anos. É uma idade no qual muitos jovens na Alemanha e outros países ricos são despeitados, arrogantes, rabugentos e às vezes agressivos. Por isso A. sentiu uma determinada incerteza, quando lhe perguntaram a respeito da bicicleta. Verificou-se, no entanto, que eles pertenciam ao hotel. Um deles organizou uma chave e guardou a bicicleta numa despensa.
Nesse momento A. reparou uma pane. O pneu traseiro estava sem ar. Agora sabia, como era maravilhoso o surgimento repentino do hotel. Sem isso estaria agora lá fora, na chuva e na escuridão, tentando consertar o pneu furado. Como são incríveis os meios do Senhor, verdadeiros “jeitinhos”, que usa para ajudar os seus. Quase não dá para imaginar, que é Deus que encena essas coisas. Mas também não tem outras explicações sérias para coincidências tão estranhas.
Na manhã seguinte o velhinho estava sozinho no hotel. A. não viu outros hóspedes. Ouvira que o café da manhã estava incluído no preço. Mas o homem explicou, quase choramingando, que seu sobrinho teria levado o último dinheiro. Por isso não poderia comprar pãezinhos. Talvez ele trouxesse alguns quando voltar. Pôs-se a fazer café. Preto e com muito açúcar. A. bebeu três xícaras para substituir a falta de comida. Depois chegou o sobrinho, o rapaz que A. já conhecia. Não trouxe pão, mas ajudou a A. consertar a bicicleta. Perceberam também que o eixo traseiro estava um pouco solto, e com o apoio das chaves de boca, uma chave de fenda, e o martelo do hotel, o rapaz soube corrigi-lo.
Já eram dez horas, quando A. partiu. O céu estava coberto, ótimo tempo para uma viagem de bicicleta especialmente quando A. tinha que vencer longas subidas, nas quais a estrada elevou-se em amplas curvas. De vez em quando também descia, claro, mas isso era um deleite efêmero, demorando só poucos minutos, enquanto as subidas superadas a custo demoravam muito mais. Empurrando entretinha-se observando os caminhões que se arrastavam aos altos, às vezes ultrapassando um ao outro, tudo como visto de câmera lenta. Na Alemanha nunca se veem tantos caminhões, visto que tem uma enorme rede ferroviária, e canais e rios navegáveis.
Infelizmente não passava nenhuma povoação para fazer compras. Chegou, porém, a um poço circundado de uma paisagem linda, o qual servia de refrigério para os motoristas. Aqueles que conheciam o lugar paravam para levar água, lavar louças na bacia de pedra, refrescar e recrear-se.  Na ladeira acima do poço ficava um abrigo pequeno feito de caules e folha de plástico com um banco. Comeu o bolo e as doces que restavam do dia anterior, e leu. Reparou a falta das duas chaves de boca que tinha comprado no primeiro dia. Provavelmente deixara na recepção do hotel. Poderia considerá-las como gorjeta para o rapaz gentil, que ajudou. Esperava que não sofresse mais uma pane até que comprasse novas chaves.
Uma vez parou um carro, um Gol branco, de uma ONG. O funcionário era um branco delgado, de cabelos escuros e óculos, como A., mas ao contrário de A., que estava de bigode, aquele homem tinha um cavanhaque. A companheira dele era uma mulata muito bonita, se bem que de vestuário e comportamento muito decente. Não tinha razão, então, por que A. sentiu uma coisa misteriosa e eletrizante, como se visse algo extraordinário e notável, mas ele ficou tão maravilhado, sem saber a razão, que se lhe fixou a cena na lembrança.

Uma mulata brasileira é nos outros países um padrão de alegria, exuberância e espontaneidade. Como pode viver bem com um funcionário de uma ONG, que, certamente, deve ser tranquilo e sério, ponderou A. sob influência daqueles preconceitos gerais.
O casal não se deteve e desapareceu. A. permaneceu em meditação, e logo seus pensamentos voltaram ao notável dia 28, de maio, de 585 a. Cr., o dia da batalha entre rei Aliates, da Lídia, e rei Uvarkhshattra, o cruel, da Média, chamado pelos gregos de Ciaxares. 
Até a tarde deste dia memorável, que iria decidir sobre o destino futuro de toda a região, inclusivo o povo de Israel, Uvarkhshattra não podia levar vantagem conquanto possuísse um exército um pouco maior do que seu inimigo. Os cavaleiros persas encouraçados, na ala direita, mostraram-se como mais fortes do que a cavalaria da Lídia, mas o rei Aliates dispunha ainda de esquadrões de reserva, que comandou à ala para fazer parar o progresso dos persas. E no centro, Uvarkhshattra corria até risco que os lutadores de elite, da Grécia, derrubariam a infantaria misturada de vários povos, que lutava com os medos, apesar de que o número da infantaria de Uvarkhshattra fosse bem maior. Os gregos mostravam uma disciplina superior, dez mil lutadores que ganharam terreno, passo a passo, esfacelando os batalhões compostos de soldados de todos os quadrantes asiáticos.
Aí, contudo, os cavaleiros encouraçados montaram um ataque surpreendente e fizeram recuar a cavalaria da Lídia. Aliates viu o perigo que vinha do lado e desesperado tirou a metade dos lutadores gregos do centro e arrojou-os contra a cavalaria persa. Uvarkhshattra discutiu, então, o próximo golpe, quando aconteceu uma coisa estranha e excepcional. O sol começou a escurecer-se e ameaçou a desvanecer-se por completo. Os detalhes do que acontecia na escuridão não são bem conhecidos. É bem possível que um grego astucioso sabia o prognóstico de Tales de Mileto e aproveitou o meteoro raro para enganar o rei supersticioso dos medos, ou lhe impingiram o fenômeno como augúrio mal. Sabe-se apenas que Uvarkhshattra ficava espavorido, desmandou o ataque já planejado, e ambos os exércitos se retiraram cuidadosamente. Pouco depois os príncipes e generais medos acharam o temido algoz do estepe morto, as circunstâncias são desconhecidas. 
Desta maneira não podia configurar mais o tão esperado libertador dos judeus. Sobrava como único potentado o rei Nabucodonosor da Babilônia, que mandou erigir palácios estrondosos. O seu desígnio próximo era agora a conquista do Egito, onde reinava faraó Hofra, também conhecido como Apriés, sucessor de Neco e Psamético II. Demorava vinte anos de preparação até que pôde verificar seu plano ambicioso. Venceu o rival do Nilo, o famoso reino ancestral Egito que existia já uns dois mil anos e continuaria a existir até hoje, ao passo que quase todas as nações pereceriam. As exceções raras, ao lado do Egito, são Israel, China, Etiópia, Grécia, Síria e Armênia.
Os filhos e sucessores de Nabucodonosor, porém, perderam o espírito aguerrido, belicoso e ambicioso e estagnavam em luxo e luxúria. Especialmente o vice-rei Belsazar mostrou pouco da notável perseverança de Nabucodonosor, curtindo a sua posição somente para colecionar as mais lindas flores entre as moças e garotas para seu harém e sua libidinagem, e suas festas eram badaladas entre os ricos e os poetas. Estava, porém, bastante inquieto e pasmado quando, num banquete, apareceram, como feito a mãos espectrais, na parede branca do salão, letras estrangeiras, que nem os sábios e adivinhos puderam ler ou explicar. Aí chamaram o profeta judeu Daniel. Ele estivera entre os primeiros judeus levados no exílio babilônico e Nabucodonosor lhe confiou um cargo alto e honorável, porque o velho rei sabia do dom especial de Daniel. O profeta anunciou que as palavras na parede prediziam, que Belsazar morreria e o reino babilônico seria conquistado. Enfim se cumpririam as profecias de vários profetas judeus: Babilônia, a cidade dissoluta, que se tornara a mais perversa “Prostituta do mundo”, cairia e pereceria.
Entretanto o Reino dos Medos sofreu uma mudança decisivo. Os sucessores da família de Uvarkhshattra não conseguiram manter tantos povos debaixo seu jugo, e então os persas aclamaram seu régulo, o príncipe da sua tribo, rei de toda a extensa região, em lugar do rei dos medos. Desde então o império era chamado Reino dos Persas. O novo rei, Ciro I, possuía um império que ia da fronteira com a Lídia no oeste da península, que hoje é a Turquia, até a fronteira de Índia. 
Na Lídia, no entanto, reinava também um novo rei, que herdara do seu pai Aliates toda a riqueza tão badalada. Seu nome era Croisos ou Creso, e até hoje um “Creso” é um padrão e símbolo para um homem riquíssimo. Ele cismava muito a respeito da batalha empatada no dia do eclipse do sol. “Se eu aproveitasse a confusão no reino dos persas e medos para atacá-los com um exército tão grande como outrora, deveria ser bem possível conquistar todo esse vasto país de uma vez.” Será que seria um investimento prudente do seu dinheiro, para sextuplicar a extensão do seu reino, que iria da Grécia até a Índia, maior do que qualquer outro? 
Para confirmar os seus planos procurou o conselho do famoso oráculo de Delfos na Grécia. Os sacerdotes e pitonisas do templo em Delfos eram tidos em alto conceito em todos os países. A resposta sábia era: “Se atravessares o rio Hális, destruirás um grande reino.”
Aí ficou feliz, porque o rio Hális era a fronteira entre a Lídia e o império medo, agora reivindicado pelos persas. Contratou muitas tropas e atravessou o rio fronteiriço Hális. Devastava a região, espoliava e progredia lentamente. Ciro, todavia, tinha além da infantaria e cavalaria um contingente de camelos, que pertenciam à vanguarda do seu exército. Quando Creso mandou a sua cavalaria inumerável atacar o inimigo, fracassou logo. Cavalos, pois, não suportam o aspecto nem o cheiro de camelos. Fugiram assustados em disparada, embarafustaram a própria infantaria, causando atropelo e balbúrdia, e todo o exército dispersou-se em confusão, antes que a batalha tivesse começado propriamente.
Creso foi preso e tinha que viver, desde então, como vassalo na corte persa, o que era ainda um tratamento muito bondoso, visto que não foi cegado nem torturado de outra maneira. Era essa derrota infortunado, causado por camelos, somente sorte casual, ou era Deus que coordenara as leis da natureza, que ele mesmo criou, da maneira a que as profecias se cumprissem? Pois Ciro era a ferramenta para a profecia se cumprir.
Aquele Ciro, chamado “o Grande” ou “Magno”, famoso pelos sucessos, mas também pela justiça e bondade, voltou-se agora ao sul, contra o reino babilônico. E o exército do país às margens do Eufrates e do Tigre, antes tão célebre pela disciplina, nem sequer se defendeu. A capital Babilônia capitulou sem lutar.
Ciro confirmou o alto posto do profeta Daniel no governo e, uma vez estabelecido como rei dos persas, medos, lídios, babilônicos e vários povos menores, decidiu-se a possibilitar a volta dos judeus à sua terra. Retornavam paulatinamente e com o apoio do rei, durante os próximos anos. O seu cativo durara, em média, setenta anos, assim como o profeta Ezequiel o predissera.
Começara a chuviscar, e por isso A. lia por tanto tempo. Quando a chuva parou, partiu. A paisagem mudou-se lentamente, em vez da floresta atlântica os morros apresentavam-se cobertos de cerrado, composto de arbustos tortuosos e espinhentos, casca grossa e raízes profundas, pouco queridas pelos que tem que arrotear um terreno inculto, tirando as raízes abundantes. Chuviscava ainda algumas vezes, neste dia, mas A. continuou pedalando, tolerando a umidade ou com capa de chuva ou simplesmente sem camisa. Quando o sol aparecia de novo, tudo secava rapidamente.
À tarde chegou de novo a uma cidade maior, num vale, mas a estrada percorria na lomba acima da cidade, e por isso não encontrou nenhuma loja. À saída do vale, todavia, achava-se um estacionamento com uma loja de alimentos escolhidos, lembranças e pinoias. Ao outro lado da praça ficava uma padaria. Comprou lá pãezinhos, bolos e leite. A vendedora disse que A. precisaria provavelmente de um litro de leite, mas ela só tinha pacotes de meio litro. Desta maneira começaram a conversar. O balcão confinava com a praça, e A. pôde colocar a bicicleta diretamente ao lado dele para curtir o bate-papo. Comeu então lá, em pé, e a mulher lhe ofereceu também cafezinho e lhe apresentou a filha, uma moça com uma filha de seis anos, que trabalhava na padaria, onde, nos fundos, faziam o pão. Depois de mais de uma hora chegou também o marido da mãe vendedora e convidou A. para ver os fundos. Explicou-lhe as várias maneiras de fazer pão. Provavam também alguns tipos. Depois chegou ainda o genro, pai da menina pequena. Era um dia muito bom para A., que se sentiu quase em família. Gostaria de dar algumas moedas alemãs, porque ouviu que o marido da vendedora colecionava moedas, mas desistiram do plano porque não pôde achá-las sem abrir toda a bagagem. A. prometeu então passar por aqui, quando de volta, e nesta ocasião quis oferecer algumas moedas como lembrança. 
Tinha um pouco a esperança de que o convidariam para a noite, porque já estava começando o anoitecer, mas eles certamente haviam inibições de convidar um hóspede estrangeiro na sua casa simples, e também tinham que trabalhar ainda. 

Neste meio tempo a última criança deixara a creche à beira da favela em Belo Horizonte. As professoras aprontaram-se para retornar em casa ou, como algumas, para frequentar ainda uma escola ou um curso. A jovem professora que morava com seus dois irmãos a vinte minutos morro acima, apressou-se hoje ainda mais. Tinha que ir de ônibus à escola do supletivo, que frequentava junto com a cozinheira, uma quarentona. Mas antes houve de pagar um prazo já vencido numa loja de móveis. Havia seis meses que comprara junto com seu irmão mais novo duas camas e um armário a prazo. O irmão, que cursava o vestibular, ganhava como funcionário da administração dum hospital até uns trinta reais a mais do que a irmã, mas o governo estava já três meses atrasado com os salários. Desta maneira a moça precisava arcar a mensalidade sozinha. Os R$ 230 mal davam para pagar os gastos correntes como esses prazos, a escolaridade, dízimos, uma contribuição trabalhista, o telefone e a metade de água e eletricidade na casa. O irmão mais velho era sem emprego e a moça precisava urgentemente de dinheiro para os jantares, as comidas aos fins de semana, cosmética, etc. Claro, também a vida do povo simples na Europa não é fácil. Ganham pelo menos oitocentos dólares, mas gastam a metade pela moradia inclusive aquecimento, água, etc. Mas os produtos nas lojas, em média, não são muito mais caros do que no Brasil. Somente serviços como cabeleireiro ou eletricista custam muito mais, pelo menos vinte e cinco dólares por hora; razão por que os europeus tendem a fazer tanto quanto possível eles mesmos. Funcionários altos como juízes e deputados ganham, todavia, na Europa menos do que no Brasil. O salário de um juiz alemão, normalmente entre três mil e quatro mil euro (números do ano 2000) nem dá para pagar uma empregada, que receberia pelo menos uns oitocentos euros; mas o juiz teria que pagar junto com os impostos e previdência, quase o dobro. Significa que não poderia empregar uma pessoa a não ser que a sua esposa trabalhe também. Mas é evidente que a situação da moça era, como a de muitos brasileiros, muito acirrada. Esperava que seu irmão pagasse pelo menos sua parte da água e da luz, quando receberia dentro de pouco pelo menos um salário dos três vencidos.
Quando o ônibus chegou, as duas colegas não acharam duas cadeiras juntas e se separavam. Ao outro lado da rua passava um homem alto e delgado, acenando para uma moça com uma criança no ônibus. A jovem professora sorriu. Lembrou-se do sonho. Hoje, à noite, Deus lhe mandara uma resposta: A tua paciência vai ser remunerada. O seu marido já está no Brasil e no caminho a você. 

A., entretanto, que pedalava pelo anoitecer, perguntou-se onde poderia achar uma estalagem para a noite. Poderia ter perguntado na padaria, mas não quis que lhe recomendassem um albergue na cidade, que ficava no vale. Mesmo se descesse para lá, resignando-se com o desvio, talvez nem achasse o hotel, na escuridão. “Perguntar-se” significava para A. já quase automaticamente procurar o conselho dessa voz no interior, o conselho de Deus, como ele supôs, ou do seu “alter ego”, como alguns filósofos tentam explicar esses sentimentos. Aquela voz lhe disse, no entanto, que poderia avançar tranquilamente, não obstante a escuridão. Dentro de uma hora, porém, estava tão escuro que quase não via nada e ficou com medo quando descer, às vezes, em alta velocidade. Era perigoso, mas a temperatura estava bem agradável, e por isso teria podido viajar ainda por mais tempo, mas às oito horas, ouviu um choro como o de neném. Sabia logo que devia ser o ganido de um gato, que é muito parecido com o de neném, especialmente quando os gatos estão no cio, mas um certo sentimento o obrigou a parar e olhar além do pequeno aterro ao lado da estrada. Achava-se aí uma vereda para o campo após o montículo aterrado. Atrás o campo estendia se um vale, a uns trezentos metros, com algumas casas. Mas o mais interessante era que havia aqui, em cima, ao lado da vereda, uma casa envidraçada para cultura de plantas, meio aberta, e um pequeno galpão ao lado dela. No galpão achou um monte de grandes folhas de plástico dobradas, ideal para fazer uma cama confortável. Era óbvio que se tratava de mais uma coincidência típica, como lhe ocorria já tantas vezes, e ele sentiu uma felicidade profunda. O novo sinal de Deus era mais uma prova que estava no caminho certo.
Debaixo do toldo ao lado do galpão, acima de um arado, colocou seu jantar e comeu. Neste regozijo entranhado gostaria de ter lido ainda um pouco, visto que não lira nem estudara nada à tarde. Colocou, então, no canto do galpão, um esteio e sobrepôs o toco da vela. Era uma surpresa como a pequena luz alumiou o galpão. Será que os moradores no vale podiam reparar a luz, ainda que a colocasse assim que a claridade não iluminava diretamente a janela? Temia, não obstante, que alguém poderia ver alguma clareza frouxa. Mas de repente lhe surgiu à mente que era Deus quem escolhera esse lugar. Portanto, Deus o guardaria também para ninguém poder destruir seu plano.
Leu, então, uns vinte minutos, e aí apareceu um cachorro, estacou uns cinco metros diante do galpão e pôs-se a latir. A. tentou tranquilizá-lo sussurrando, mas era em vão. Finalmente ouviu-se um apito e o cão disparou. A. já apagara a luz, mas agora um homem veio morro acima, passou o galpão rumo ao campo aberto e soltou alguns tiros. Depois voltou ao galpão, gritando se alguém estivesse dentro. Agora A. não se podia esconder mais ao saber que algumas coisas colocadas no arado já o trairiam. O homem forçou a A. acompanhá-lo ao vale. Na praça iluminada diante da sua casa, onde a esposa e a sogra observaram a cena assustadas, A. conseguiu esclarecer a coisa. Não sabendo se o achassem muito estranho, caso contasse que era seu costume ficar, à noite, em lugares quaisquer, disse que planejara ir à próxima cidade, mas perdera o tempo na padaria. A esposa veio oferecer cafezinho e perguntou até se queria comer alguma coisa. A. explicou que continuaria a viagem, se fosse um problema ficar no galpão. Mas a esposa replicou que um policial, amigo dela, estaria patrulhando por perto e o levaria, de carro, a um hotel. A. escondeu o susto e desconversou apenas alegando que não seria necessário, mas quando a mulher insistiu ficava com medo. O policial controlaria os papeis, e talvez seu nome já fizesse parte da lista de pessoas procuradas. Mas a pior coisa era quando refletiu: ou Deus estava brincando com ele ou ele mesmo dera um fora, enganando-se por tabela. Será que a boa sorte e todas estas coincidências não eram a mão de Deus? Mas como poderia acontecer uma tal desgraça se Deus escolhesse o lugar? Ou era que A. fizera alguma coisa muito errada, perdendo a graça de Deus de novo? 
Enquanto ele cismava assim, chegaram dois policiais de caminhonete e levaram A. junto com a bicicleta àquela cidade na cuja saída fica a padaria. Acharam um hotel barato por dez reais e despediram-se gentilmente. Pelo menos pôde tomar um banho quente. Além disso, as vantagens do hotel em relação ao galpão eram muito poucas. O quarto teve um televisor muito grande, mas não funcionava, e a cama estava dura como uma tábua de madeira. Era o pior hotel de toda a viagem. Claro, não era escolhido por Deus.
Na manhã ficou, todavia, na cama, lendo e aprendendo, e foi tomar o café somente às nove horas. Numa despensa pequena o café estava colocado na mesa, junto com leite, pãezinhos e manteiga rançosa. Sendo supostamente o último hospede no café comeu desinibido todos os pãezinhos que restavam, e também o café, mesmo que já feito havia horas, lhe gostou muito bem.
Perguntou se havia perto uma loja para comprar chaves de boca. Recebeu um endereço e foi para lá, a pé. Não haviam chaves de boca, mas lhe deram outro endereço. Fez a bagagem e partiu do hotel, de bicicleta, em busca da loja. Lá vendiam autopeças, mas não havia estas chaves. Recebeu outra recomendação e desta maneira foi de loja em loja, por mais de uma hora, até que finalmente achou o que solicitava. Achara também um supermercado onde se abasteceu. Aí, enfim, pôde partir da cidade.
Dentro de pouco passou a padaria e depois de mais uma hora estava lá, onde uma vereda ia ao galpão. Estava com mau humor, porque tinha que fazer esse trecho duas vezes, perdendo três horas e pagando dez reais por uma cama dura. Mas a pior coisa era que embaralhara, provavelmente, o desígnio de Deus. Talvez tivesse de pedalar uns setenta quilômetros para o lugar determinado para a próxima noite, e com esse atraso seria impossível alcançá-lo. Ao outro lado devia constar, que um ser onisciente já soubera com antecedência tudo que aconteceria. Mas como era possível, que aconteceu? Por que Deus escolheu aquele galpão mesmo sabendo do iminente malogro? Será que Deus também foi surpreso pela estupidez e leviandade de A., talvez até desapontado? Se fosse assim deveria preparar-se para dificuldades, porque perturbara o plano do Senhor e todo o escalonamento de lugares lhe determinados para as noites. A única escapatória seria esforçar-se tanto que alcançasse talvez ainda a meta para hoje.
Estava satisfeito castigando-se mesmo pela estupidez e assim continuou pedalando apesar do calor. Mas o calorão e o sono insuficiente e a energia gasta com tanto tempo procurando chaves de boca, o fadigavam e cansavam. Estava já muito esfalfado quando, à uma hora, chegou a uma praça com pequenos restaurantes lindos no estilo antigo. Provido de comida procurou somente um lugar na penumbra de algumas árvores, que repartiam o estacionamento.
Quando saiu passou pelas barracas com lembranças e produtos típicos de Minas Gerais. O vendedor duma barraca com vários tipos de queijo lhe acenou, o chamou e lhe presenteou um pedaço considerável de queijo. Passaram a conversar e logo ajuntou-se o dono do restaurante ao lado que convidou A. de comer lá, quando de volta de Belo Horizonte. A. contou que foi chamado para o Brasil e iria visitar um projeto em Belo Horizonte. O queijeiro lhe contou de um artista bem conhecido que fabricaria esculturas barrocas. Era um conhecido do queijeiro, conforme A. entendeu. A. poderia ir até a saída de Congonhas, cidade a uns sessenta quilômetros daqui, e voltar-se aí à esquerda. Poderia perguntar lá qualquer pessoa porque todo mundo conheceria o artista.
Aliás, na Europa um artista atual, que fabrica estatuetas no estilo antigo não goza de muita consideração, sua arte serve só para ser vendida a turistas. Mas nesse caso A. pensou, que deveria ser interessante visitar um artista brasileiro, provido com a recomendação do queijeiro. Caso que se envidasse muito, talvez alcançasse Congonhas ainda hoje.
Quando continuava a viagem, verificou, porém, que a sua fadiga era tamanha, que as forças não deram para as suaves longas colinas que subia junto com toda essa bagagem. Tinha que parar de novo na sombra ao lado de uma igreja camponesa. Leu por uma hora e tomou um lanche antecipado e veio se recuperando. Não desceu, contudo, a escada à aldeia no pequeno vale para fazer compras. 
De volta na estrada verificou que, devido às longas colinas, não alcançaria Congonhas antes do anoitecer. Na escuridão seria muito difícil achar uma casa arredia de um artista. Desta maneira passou a cismar mais uma vez sobre o impasse que talvez existisse um lugar para a noite segundo o plano de Deus, porém a uns cinquenta quilômetros mais adiante, inalcançável por causa do desvio forçado na noite anterior. Teria, então, que improvisar e calcular com o pior. Talvez fosse melhor já agora começar a procurar um lugar adequado.
Aí ouviu de novo aquela voz: “Não te preocupes, terás um lugar adequado às seis horas e vinte minutos.”
A. esteve perplexo. Nunca ouvia aquela voz tão clara e nítida. Excitadíssimo e alegre continuou a caminhada, mas uma hora depois, durante a qual matara muitos quilômetros por ser assim entusiasmado, caiu bruscamente em dúvidas: Seis horas e vinte minutos – não era exatamente a mesma hora na qual alcançara aquele pavilhão da jardinagem, há quatro dias; e também predito para a noite seguinte, quando, não obstante, parara antes para ficar nesta escola? Devia ser uma simples reação da própria fantasia ao medo de ter perdido o horário planejado por Deus. Por acaso Deus escolheria sempre o mesmo horário de seis horas e vinte minutos? Talvez o cansaço causasse o desejo de achar novamente um lugar bom desta maneira. 
Neste meio tempo já podia despir a camisa suada, pois os morros cheios de penhas começaram a fazer sombra ao asfalto. Não deu para enxergar se havia lugares adequados acima das rochas, e ao outro lado da estrada a escarpa descambava sem oferecer abrigo. Tentou adivinhar um refúgio em uma penha acima. O tempo era bom, o céu límpido, anunciando uma noite sem chuva.
Não passou povoados nem lojas. Viu somente um rancho luxurioso para passar férias com crianças, parque de água, etc. Lá podia comprar doces, biscoitos e outras coisas pequenas. Comprou uma sacola com uma espécie de biscoitos com queijo e uma garrafa de água, porque no planalto acidentado não dava para acolher água na natureza. 
De volta na estrada reparou, que o relógio já ia a passar as seis horas, e ele aumentou os esforços para achar um abrigo qualquer. Uma vez até trepou ao morro, que se lhe afigurava promissor, visto da estrada, mas acima deparou logo com placas que vedavam o terreno. Pensou em ignorá-las, mas talvez pudesse existir uma razão séria, e não quis mais complicações. Retirou-se e aborreceu-se logo, porque achava-se em sinuca de bico: Se partir da teoria de que o anúncio de um lugar às seis horas e vinte minutos foi feito novamente por Deus, perdera agora a chance de localizá-lo, porque interrompera a viagem em vez de confiar e tocar adiante. Agora passaria o lugar, que talvez lhe estivesse determinado, com uns quinze minutos atraso, mas desta maneira talvez nem achasse o lugar, porque Deus poderia ser ofendido por falta de fé em A., e a voz interior ficaria muda.
Acabrunhado e pessimista atirou-se a vencer o extenso aclive diante de si. O pináculo era coroado por um edifício estranho, um cruzamento talvez de um bunker de Hitler e uma usina termonuclear. Faltavam, contudo, as torres características dela. Para um suposto uso militar faltava um cercado ou outros meios de segurança. Será que era um observatório astral?
Quando A. se achegava, viu que o lote, na ladeira acima da estrada, foi traçado por trilhos deixados por viaturas pesadas. Era evidente, que as obras ainda não se concluíram. Teria sido um bom objeto para os fins de A., se não fosse o cheiro de militar ou qualquer coisa de segurança especial, que poderia implicar em encrencas pouco desejáveis. Na torre redonda do objeto viu-se luz, uma prova clara para que tinha vigias.
Apesar de tudo o estabelecimento exercia uma força mágica a A. Seria a sua curiosidade? Pelo contrário, na verdade ele não quis perder tempo antes do anoitecer. A força atraente, contudo, era mais forte. Até fez A. sentir que tinha que levar a bicicleta consigo morro acima, apesar da rampa arenosa e fortemente inclinada. Por que essa obstinação? Será que alguém roubaria a bicicleta se a deixasse ao pé do morro, embora ficasse bem visível de cima?
Detrás do objeto achou uma praça para estacionar carros. O prédio constituía-se de várias garagens em fio, e mais um segundo andar. A. não quis despertar a atenção do vigia, mas a força estranha o fez entrar. Cada garagem tinha seu banheiro e quarto. Na frente achavam-se mais garagens e no segundo andar outros quartos. Na base da torre achou um saguão para a recepção do futuro hotel. Faltavam ainda as portas e janelas. Por acaso os trabalhadores esqueceram as luzes do saguão e do corredor interior. Se fosse feito de propósito para sugerir a presença de um guarda, poderiam, pelo menos, dispensar as lâmpadas do corredor, porque elas não eram visíveis de fora. A. apagou-as, contente mais uma vez na consciência de que não deixou prejuízo e, sim, até contribuiu para o bem do dono. No momento de entrar a torre da recepção, reparando a ausência de vigias, olhava, por acaso, o relógio. Eram as seis horas e vinte minutos, exatamente. Até o ponteiro dos segundos estava na doze. Aí louvou o Senhor, pôs a bicicleta numa garagem e tomou logo um banho bom e vivificante. Existia até um fogão e A. tinha consigo uma porção de café, que curtiu lendo as palavras do Senhor na Bíblia. 
Depois voltou para fora onde o último clarão enrubescido do céu vislumbrava-se do oeste, enquanto no leste se vinha espraiando o dossel estrelado. Comia os biscoitos, bebia a água e abocanhou do queijo, presente do feirante. Não era muita comida, mas muito gostosa. Depois não quis dormir por dentro e, sim, ficar debaixo do brilho estelar, e preparou a enxerga no gramado da ladeira acima do estacionamento, e enfiou-se no seu saco de dormir. 
Pensou na precisão inesperada com que Deus verificara mais uma vez seu plano. Apesar de suas digressões e o atraso pela noite passada. Eram coisas miúdas, mas a exatidão era uma prova inegável, mais convincente até do que a maneira com que o senhor liberara seu povo do cativo, depois de setenta anos. A. sentiu vergonha. Por que não podia confiar na inspiração tão obviamente de origem superior? Não era por acaso, que os acontecimentos extraordinários e inspirações surgiam em consequência de sua relação para com Deus. “Pelo menos desde agora não devo duvidar mais”, pensou. “Mesmo em horas tristes não devo esquecer, que Deus é real e age na vida daqueles que se lhe atiram nos braços paternais.”
Agora sabia com certeza, que Deus era novamente o timoneiro da sua vida. Por isso sabia que estava no caminho certo. Receberia, por conseguinte, aqui no Brasil, uma missão, um chamamento para começar um trabalho; para participar em um projeto ou para fundar um novo projeto, seja aqui ou em qualquer lugar do mundo.

Também o povo judeu teve depois do cativo babilônico a vontade para fazer tudo melhor do que antes. Deus lhes mandou dois profetas, Ageu e Zacarias, que acoroçoavam o povo e o convocavam a edificar um novo templo. A. quis ler os dois livros na Bíblia, Ageu e Zacarias, nos próximos dias, juntos com os últimos onze capítulos de Isaías e as narrações de Esdra e Neemias, que são do mesmo tempo.
Nesta época os povos vizinhados aproveitavam a ausência de grande parte dos judeus, e acuavam os que vinham retornando. Jerusalém estava sem defesa nem muralha. Mas os reis persas eram mais ou menos justos e permitiam o restabelecimento das cidades e suas muralhas. O filho e sucessor de Ciro, chamado Cambises, como seu avô, era um tanto ancho e cruel, mas não implicava com o pequeno Israel. Ele levou seu exército para o Egito, venceu o último faraó da dinastia do faraó Neco, e conquistou o país, que nunca mais alcançaria seu antigo poder. Os persas, no entanto, governavam todos os países, desde o Egito até a Índia, toda a região, onde hoje ficam a Síria, o Iraque, o Afeganistão, o Irã, a Turquia, e vários países pequenos. A província mais oeste era a recém-conquistada Lídia, que confinava com Grécia, que era um aglomerado de cidades e pequenas regiões e ilhas independentes. Apesar da falta de um rei poderoso, que garantiria a unidade, nem Dario I, o filho de Cambises, nem Xerxes, filho dele, conseguiam submeter a Grécia. Um dos sucessores ocupou pelo menos uma pequena parte, aliando-se a certas cidades gregas. Aí, contudo, o rei da região agrícola ao norte da Grécia, chamada Macedônia, se fez cabeça de todos os gregos. O filho dele, Alessandro, reuniu o exército e atacou o grande império persa e o conquistou. Por isso, o jovem rei ganhou o epíteto “o Grande” ou “Alessandro Magno”. Mas não podia curtir seu poder. Morreu logo, e todo o recém-criado super-império foi dividido entre a família real e três generais. A família ficou com a Grécia inclusive a Macedônia. O general Lisimaco, que ganhou a Lídia, morreu logo, o general Ptolomeu recebeu o Egito e Israel, e general Seleuco obteve a Síria, a Babilônia e todo o resto, até os confins da Índia. 
Ptolomeu representava-se ao povo como um novo faraó, escolheu uma variada gama de moças bonitas para formar um harém adequado, mas conforme a tradição faraônica preferiu uma irmã como primeira esposa, porque somente ela, membro da casta divina dos faraós, podia dar à luz um sucessor. Todos aqueles herdeiros do trono se chamavam Ptolomeu; a linhagem desta última dinastia faraônica, que governava no Egito nos últimos três séculos antes de Cristo, seria fácil de decorar: Ptolomeu I, Ptolomeu II, Ptolomeu III, Ptolomeu IV, etc., até Ptolomeu XVIII. As primeiras esposas acudiam majoritariamente ao nome Cleópatra.
A. deitou de olhos fechados e não reparou o desvanecimento das estrelas. É por isso, que as primeiras bagas esparsas da chuva o espantaram de súbito. Logo pegou a enxerga improvisada e safou-se para a garagem, onde ficava a bicicleta. Que prazer então, que Deus lhe dera este hotel! É filosoficamente estranho meditar sobre a maneira, como o Senhor realiza seus planos. Claro que nem o mais fiel crente partiria do suposto de que Deus construísse o hotel somente por A. Será que incutira a ideia de elevar um hotel a um investidor só porque sabia, que meses depois passaria por aqui um europeu meio maluco, pedalando e sem ter por onde ficar à noite? A. presumiu que o plano, ou melhor, os planos do Senhor são como uma teia finíssima, como os planos milagrosos de desenvolvimento ou mutualismo sutil, na natureza, que se baseiam em leis principais, que um Deus construiu ou fez medrar e desenvolver-se no amplo universo, e que parcialmente já foram descobertos pelos cientistas, que tanto mais admiram quanto mais descobrem e nem sempre podem explicar tudo o que se desvela.
Importante era antes de tudo uma coisa: A. sabia agora sem dúvida, que o Senhor estava com ele, apesar de seu passado, apesar de sua infidelidade, apesar dos crimes. Assim como o povo de Israel podia recomeçar tudo de novo depois do longo sofrimento, apoiado ternamente pelo Pai nos Céus. “Vou recomeçar”, pensou, citando assim sem saber uma música que uma das mais famosas cantoras evangélicas do Brasil lançaria no próximo ano. 
Despertou na manhã, comeu os últimos biscoitos e queijo, bebeu água e partiu descendo pela outra rampa. Era como deve ser: No momento em que A. desceu a rampa arenosa à estrada, subiam quatro motos pela primeira rampa: os primeiros operários. Como se alguém tivesse ajustado exatamente o tempo da saída de A., e coerentemente o átimo de acordar.
De volta na estrada reparou logo a falta de forças. Claro, qualquer um tem dias de frouxidão, mas pedalando a gente sente muito mais a moleza dos músculos. Ainda mais porque A. viajava sozinho, sem camarada para o acicatar num dia desses. O céu estava coberto, e assim A. continuou pedalando paulatinamente, visto que para uma pausa lhe faltavam alimentos. Enfim viu à esquerda da estrada um vale amplo com a cidade Congonhas. Já no início deparou com a saída, a quem seguiu para procurar a casa do artista amigo do queijeiro. Alcançou os arrabaldes às onze horas, e logo achou um restaurante self-service, sem balança, por três reais. A comida foi oferecida em dezesseis potes e tachos rústicos acima do fogão a lenha, em banho-maria, além de um bufê de saladas, frutas e café, tudo inclusive. Sem ter comido café de manhã nem jantar, devorou cinco pratos repletos, com muito tempo; como seu costume, aprendeu português durante a refeição, como se mascar a vianda ajudasse a mascar os vocábulos. 
Mostrou a ficha com o nome do escultor Aleijadinho à moça, mas nem ela nem o colega conheceram um tal artista. A. saiu e chegou logo a uma bifurcação da rua com um barzinho. Um dos homens ali lhe disse que o ateliê daquele escultor ficaria a uns dois quilômetros. A. perseguiu a rua e achou ao lado de um tráfego circular uma informação turística. Na parede estava um mapa grande da cidade, aerofotografias e fotos das muitas igrejas barrocas. Aprendeu que Aleijadinho é o mais famoso artista do barroco no Brasil, que vivia no século XVIII em Congonhas, deixando aqui várias obras excelentes. Deve ter desentendido o queijeiro. Não foi um artista e conhecido pessoal dele, mas um artista conhecido, mas já morto há muito tempo. Estranho só, que as pessoas consultadas a respeito não sabiam informá-lo direitinho.
A. aborreceu-se porque na Europa a gente vê tanta arte barroca autêntica que ele não faria um desvio descendo para a vale de Congonhas só para ver estátuas. Na Europa a arte barroca é tido em alto valor, mas quem, como Aleijadinho, continuou no mesmo estilo ainda depois da época barroca, é considerado um artista sem muita importância.
“Tá bom”, pensou, porém, “uma vez no vale vou aproveitar para dar uma volta. Bom para relaxar um pouco, ainda mais por essa lassidão nas pernas, hoje.” Quando se tocou, contudo, para a basílica, que apresentaria o maior número de obras do antigo escultor coxo, viu-se confrontado com ruas estreitas muito íngremes, que exigiam esforços cansativos para empurrar a bicicleta pesada. A basílica, pois, elevou-se no cume oposto do vale. Mas depois da canseira verificou que as coincidências como o encontro com o queijeiro e o desentendimento baseado em seu português rudimentar talvez não eram por acaso e, sim, mais um aceno de origem superior para arredondar e completar a sua viagem pelo Brasil, mas também sua viagem pela Bíblia e o antigo Israel dos profetas. Ei-los ali, todos os patriarcas, enfileirados diante da igreja impressionante, envolvidos em amplas vestes pregueadas; barbudos, cismando e espraiando a vista sobre a largueza do vale e das montanhas, como se enxergassem lá o futuro. Os figurões lapidados do Antigo Testamento, Jonas, Ezequiel, Isaías e todos os outros, cujas escrituras A. chegara a ler nos últimos dias. Eram para A. subitamente como velhos conhecidos, conhecia a vida deles pela leitura dos últimos dez dias.
Uma estátua era bem diferente. Um tipo enigmático, cuja fisionomia não expressava a transcendência coerente à sublimidade e grandeza das visões, que às vezes abarcavam mais que dois mil anos, mas apresentava-se ao espectador com ares estranhos, quase aflitos.
Era o profeta Daniel que vivera na época dos reis Nabucodonosor, Belsazar e Ciro. Escrevia o quarto maior livro profético, depois de Isaías, Jeremias e Ezequiel, anunciando coisas grandes e misteriosas. A. lera o livro dele já aos dezesseis anos, meditando bastante no conteúdo, que despertara sua curiosidade na época, e agora estava pronto para relê-lo.
Congonhas tem muitos lugares turísticos, majoritariamente já visíveis da plataforma da basílica. A. visitou algumas localidades, e passou a tardinha depois numa igreja para ler a Bíblia. Leu mais uma vez a carta aos romanos, que o apóstolo Paulo escrevera à recém-formada congregação em Roma. Já nos primeiros dias da viagem achara aqui consolo. “Não sabemos como devemos orar, mas o Espírito de Deus, com gemidos que as palavras não podem explicar, pede a Deus em nosso favor.”
Agora estudou especialmente o capítulo doze sobre a vida cristã, servindo ao Senhor, sucedendo a Jesus, como servo ou escravo de Deus e no mesmo tempo como aluno e irmão de Jesus. Leu que era vontade de Deus que se entregasse todo no serviço, quase como um sacrifício vivo, se pensar nos termos do Antigo Testamento, no qual o sacrifício para Deus ocupava o papel central. Não teria que viver assim como os muitos outros homens que não caminhavam debaixo do controle do Senhor. Teria que abrir-se, pronto para que o Senhor o transformasse todo. O Senhor lhe mudaria os sentidos e o mente para que saiba, o que é bom e agradável a Deus. A sua vida teria que ser como uma oração incessante, e acharia amor, aprenderia paciência e serviria ao senhor cheio de entusiasmo, aprendendo a seguir aos seus mandamentos. A. estudou os vários exemplos arrolados por Paulo, em seguida. Depois saiu da igreja, comprou algumas comidas e ficou mais um tempo num banco na sombra da igreja. Deliberou o que faria. Já reparara na cidade uma placa de um parque ao norte da cidade. Talvez existisse até um atalho de lá, que o levaria de volta à Br 040, depois de visitar o parque. Por isso tocou para procurar o parque. Logo achou uma ruela que mais adiante se tornou caminho, que ladeava um arroio e atravessava um bosque. Encontrou vários caminhantes, corredores, motos e até um ou dois carros, que talvez pertencessem ao parque. Este, porém, não apareceu, e A. estranhou, se os caminhantes fossem tão longe. Já vira uma coisa bem interessante. À margem do córrego ficavam alguns lotes, cercados por alambrados ao lado do caminho. Não havia casas, mas um lote possuía uma garagem aberta de concreto, abarrotada pela metade por lenha e várias coisas. Um pontilhão atravessava o arroio, e o outro lado foi fechado por uma cerca ainda maior com um portão.
A. estacionou a bicicleta e comeu a janta que comprava ao lado da igreja. Depois botou uma vela num mourão, que sustentava o arame do cercado, e leu. Já era bem escuro, quando os últimos andarilhos e motos desapareceram e agora colocou a bagagem por dentro do cercado, trancou a bicicleta e embrenhou-a em grandes arbustos, e insinuou-se por entre o arame no lote. 
Tinha desta maneira para si um aconchegante lote na mata, com um córrego alegre. Fez a enxerga na entrada da garagem que o protegeria contra qualquer chuva. Ficou ainda por muito tempo na passarela olhando ao corrente das águas e às estrelas, que se lobrigavam pelo rendado abacinado das copas. Logo seus pensamentos voltaram ao profeta Daniel.

O rei Nabucodonosor da Babilônia tinha o costume de convocar filhos dos líderes dos povos submetidos a sua corte, para educá-los à sua maneira. Entre os jovens judeus destinados para tal fim estava Daniel. Certo dia o rei ficava preocupado com um sonho estranho. Havia uma grande balbúrdia, como consta do segundo capítulo do livro do profeta. Aí Daniel orou a Deus e recebeu um sonho, que lhe esclareceu tudo.
Anos depois apareceram como por enfeitiçamento letras na parede durante um banquete do vice-rei Belsazar, e Daniel agourou o perecimento do reino e a morte de Belsazar. Além disso, tinha mais visões. Ele prediz o envolvimento da história em apólogos, anunciando o soçobramento dos velhos impérios Egito, Babilônia e Pérsia, temporariamente reunidos pelos reis persas. Viu apontar um grande bode, no oeste, onde ficava a Grécia, que atacou e destruiu o império. Logo, porém, o corno possante do animal, símbolo óbvio de Alessandro magno, partiu e deu lugar para quatro menores, os quatro herdeiros, que partiam o império, como já descrito. Do chifre mais importante formavam-se dez cornos em fila, como os dez reis que sucediam o general Seleucos, que se chamavam quase todos também Seleucos ou Antiocos.
Sobre o undécimo rei, que viria depois desses dez, ouviu muitos detalhes. Sabia, contudo, já através do sonho do rei Nabucodonosor, que também o reino dos Selêucidas quebraria, porque um novo império “férreo” submeteria todos os outros. Previa, pois, o poderoso Império Romano. 
Depois dos romanos não haveria mais um império unificado. Teria diversos países independentes, uns fortes, outros fracos, e várias tentativas frustradas para reunir esses países. Com isso Daniel já viu evidentemente a história da Europa, como aconteceria a mais de mil anos depois da morte do profeta. Haveria tantos esforços para unir o continente, desde antigos imperadores e papas até os políticos atuais da União Europeia, por mil quinhentos anos, incluindo ditadores poderosos como Napoleão e Hitler, mas sem êxito. Daniel podia somente agourar: “Os reis desses países procurarão unir os seus reinos por meio de casamentos. Mas como o ferro e o barro não se unem, assim também esses reinos não ficarão unidos.”
Enfim escreveu o profeta: “Neste tempo o Deus fará aparecer um reino que nunca será destruído nem será conquistado por outro reino. Pelo contrário, esse reino acabará com todos os outros e durará para sempre.” Será que Daniel falou dos Estados Unidos, ou anunciou a época messiânica que Jesus teria que estabelecer como reino de paz?
Muitas coisas nos livros dos profetas dão para especular. Tem coisas difíceis a entender, por desentendimento da língua antiguíssima, por lacunas ou equívocos. Pode acontecer até que um próprio profeta não entende bem as coisas que vê, especialmente quando vê culturas e épocas diferentes. Não dá para estranhar, por exemplo, se o profeta usar a palavra reino, apesar de o mandachuva hoje seja muitas vezes um presidente ou primeiro ministro e não um rei. Mas é evidente, que os profetas viam coisas que se realizavam verdadeiramente em séculos depois. 

À manhã, o céu carregado da noite se esclareceu e a chuva leve acabou. Quando A. se despedira depois de um café de manhã ligeiro deste lugar maravilhoso e seguiu pelo arrabalde, os primeiros raios do sol matutino esgarçavam os últimos véus no céu. Depois de subir à BR 040, todavia, o céu se anuviou e uma garoa fina, mas contínua, começou. Era uma região de mineração, e os muitíssimos caminhões carregados de areia vermelha da mineração espargiam água avermelhada pelo pó sobre A. e a bicicleta. A capa o protegeu do chuvisco, e a palha do boné agasalhou os olhos, mas tudo ficou salpicado com pintas vermelhas, que nem sairiam bem quando lavar a roupa. A paisagem era ainda mais montanhosa, e não raramente empurrava a bicicleta por meia hora para deslizar, depois, por uns poucos minutos, no próximo vale. O tempo chuvoso coibia pausas ao lado da estrada, e por isso continuava sem parar e venceu assim essa etapa fatigante e pouco agradável pelos magotes de caminhões, que até excediam em número os outros carros. 
Afinal de contas, deu fé de que a chuva leve era uma bênção, porque em dias secos os caminhões levariam grandes véus de pó vermelho consigo, embrulhando um ciclista coitado. Era, aliás, o único dia que trouxe chuva antes do meio dia, e a chuva era tão leve. Era, portanto, o ótimo tempo para esse trecho, e, quem sabe, não por acaso. A., pelo menos, deu graças ao seu Senhor. Qual diferença, se comparar a vida de agora, quando tudo arranjava-se facilmente, como já ocorrera na sua vida até o ano 1987, com os anos amargos e acres depois de 1987, quando lutou com tantos obstáculos.
Ao meio dia o pó na rua acabou, e também a chuva vinha parando. Enfim chegou a um estacionamento com vendas, onde se ofereceram bolos, salgadinhos e outras coisas miúdas. Era um “brunch” que vinha a calhar, substituindo o café e o almoço juntos. Todas as miuçalhas, aliás, custavam o dobro do self-service, mas não hesitou em abastecer-se bem, refazendo-se da manhã cansativa. Achou também um banho e uma pia para lavar a capa de chuva e as sandálias. Antes de partir leu ainda algumas páginas, sentado em um muro.
A estrada estava seca, mas agora livre deste pó colorido. A única coisa desagradável era mesmo a predominância dos caminhões. Às vezes seis ou sete destas viaturas gigantes e barulhentas se embarafustavam ao lado do ciclista, ultrapassando-se. Muitas vezes o acostamento era o lugar mais seguro, mas, por exemplo, nas pontes faltava esse lugar, e ao contrário de na Alemanha, no Brasil os caminhoneiros não esperam detrás da bicicleta a uma ocasião favorável para ultrapassar. Pensem talvez que um ciclista tem sempre um lugar para se esquivar. Mas se ele tem à direita somente a balaustrada da ponte, não tem escapatória nenhuma, a não ser se dispor, por acaso, de forças mágicas.
Não deve ser malevolência dos motoristas, e sim somente falta de consciência, porque não tem muitas bicicletas nas estradas e muito poucos motoristas já viajaram de bicicleta, outra vez.
Duas horas depois, A. alcançou uma grande área para estacionamento erma e desleixada. No fundo ficava uma ruína sem teto, evidentemente um ex-restaurante. Talvez tudo fosse abandonado há alguns anos, embora o lugar fosse muito bonito e oferecesse um amplo panorama sobre o vale. No estacionamento achavam-se somente dois homens com um carro acima de uma fossa trocando óleo. 
Visto que não trouxe comida, era lhe uma surpresa agradável que no pardieiro rastejavam muitas plantas com tomates pequenos, de tamanho de cereja. Podia colher umas cinquenta frutas, comer uma parte e guardar a sobra. Teve consigo bastante água para lavá-los, por prevenção. Sentou-se depois no muro diante do despenhadeiro, para desfrutar o panorama. Aí reparou na bicicleta mais uma pane, a câmara de ar estava inteiramente frouxa. Caía bem, contudo, que havia lá uma enorme lona de plástico, que formava uma bacia no meio, repleto de água pluvial. Era ótimo para mergulhar a câmara de ar, porque o borbulhar de bolhas finas indicou logo a posição do furinho. Depois a água servia bem para lavar as mãos sujas pela graxa da bicicleta. Aboletou-se contente no muro e leu ainda mais duas horas antes de continuar a viagem.
Viu ao lado da estrada vários povoados bem arrumados, muitas vezes com lagoinhas bonitas, habituados por pessoas que trabalham em Belo Horizonte e ganham bastante para comprar uma casa boa. Mas não encontrou nenhuma venda para comprar alimentos. Prosseguiu então até as cinco e meia horas, quando veio a um estacionamento com dois restaurantes. O mais antigo sitiava num grande celeiro treliçado transformado em restaurante com pequena venda. A. pensara que o self-service já estava fechado, porque somente uns restos ficaram no fogão. Depois de um pequeno bate-papo, a dona o convidou para comer as sobras que enfim eram mais do que fartas. A. agradeceu e prometeu retornar para um almoço quando de volta de Belo Horizonte. 
Quando depois de uma hora estava de volta na estrada, tinha diante de si ainda uns trinta quilômetros para Belo Horizonte. Poderia alcançar a cidade ainda hoje, porque o marido da dona do celeiro lhe tinha dito, risonho: “Praticamente só desce morro abaixo, até Belo Horizonte.”
Os primeiros dez quilômetros, sem embargo, não só desciam de jeito nenhum, e de novo qualquer quilômetro empurrado a pé custou lhe uns quinze minutos. Não deu para estranhar, que A. estava ainda longe da metrópole quando a escuridão já se completou. A. sabia que despenhar-se pelos declives prognosticados no escuro seria completa maluquice. E talvez seria difícil achar um hotel de preço mais em conto, nesta escuridão.
Às sete e meia, achou uma ladeira da qual gotejava água. Demorou em encher a garrafa vazia, mas tinha muita sede. Desse lugar viu o povoado perto daqui coroado por uma placa iluminada de um hotel ou motel. Seria o lugar certo, e muito bom para tomar um banho antes de visitar a capital. Mas a intuição lhe insinuou, que ficasse simplesmente no morro acima da ladeira, onde apanhava a água. O terreno pertencia a uma empresa de mineração, e um caminho guiava quase ao morrinho, onde A. achou um arbusto, ao lado do qual ele fez a enxerga. Confiou agora à voz no seu interior, e pressentiu que não teria chuva nesta noite. Pois, se tivesse chuva, a “voz” não lhe recomendaria o lugar sem abrigo. Lembrou-se da segunda noite da viagem, quando ficara sem abrigo debaixo do céu aberto, mas em todas as outras noites precisava realmente de um teto. Era pelo menos consolador, que as letras iluminadas do hotel estavam tão perto. No caso de errar na intuição seria um refúgio pertinho. 
Amanhã estaria em Belo Horizonte, e aí talvez chegasse a saber mais sobre a razão da sua viagem para o Brasil. Começaria uma nova vida. Assim como Israel depois da libertação do cativo na Babilônia. Seus pensamentos retornavam para o antanho.

Pelo ano 520 antes de Cristo os judeus tinham retornado à sua terra e reconstruído o templo, fazendo um novo início com Deus. Desta vez, quiseram de todo o coração erradicar os malditos costumes perversos dos tempos antigos. Ninguém mais sacrificava crianças para deuses alienos e demônios, ninguém fazia a sua filha prostituir-se num templo pagão, embora ainda muitos judeus foram seduzidos para servir a outros deuses quando se apaixonavam por moças pagãs e se casavam. O Senhor limitara os casamentos com não-crentes, mas o amor ou a libido eram muitas vezes mais fortes.
Outros judeus se agarravam à risca à lei e tentavam cumprir tudo o que era escrita nos livros santos colecionados no templo. Mas faziam-no sem amor, muitas vezes seu amor acabara com a rotina e foi absorvido por um culto frio e estereotipado, formalismo vão, que visava cumprir literalmente a palavra, mas esquecia-se do amor ao próximo. Os judeus eram como uma mãe, que faz comida para as crianças conforme as dicas da melhor dietista para garantir o abastecimento com vitaminas e minerais, que compra só livros e presentes recomendados pelos mais ilustres pedagogos, mas que não tem amor para com as crianças. Não comete crime nenhum, mas é uma mãe má, que põe em perigo o futuro dos meninos. Já os antigos profetas falavam sobre isso, mas talvez ninguém reparasse nisso no meio de tantas coisas erradas e reprovadas. Deus estava paciente e mandou de novo profetas. Entre eles sobressaiu Malaquias, de quem trata o último livro do Antigo Testamento.
Os israelitas, neste tempo, queixavam por ter sofrido tanto, julgando que Deus não os amava. Por que tinham que sofrer tanto, enquanto os outros viviam com tudo apesar de pecados e crimes? Mas o Senhor respondeu a Malaquias: “Eu sempre amei vocês.” Explicou que o sofrimento era necessário, infelizmente, para alternar e prontificar as pessoas, para que aceitassem o amor. Ocorreu a A. a parábola da menina na mata que obteve o amor do príncipe. Para ter esse amor para sempre teria sido necessário mudar-se. Teria sido melhor para a moça, se tivesse tido um pai severo para a vigiar e castigar os atrevimentos e adultérios. De tal maneira talvez tivesse evitado o fim lastimoso. E A. sabia: também lhe estava determinado um fim catastrófico, se Deus o tivesse deixado de lado, em vez de reencaminhá-lo a custo de castigos e revezes. Claro, quem não há nada a ver com o Senhor, vive na sua ignorância sem ser encaminhado na marra. Mas quem quer conhecer a sublime felicidade de viver com o Deus Eterno, sendo parte do povo de Deus, tem que se amoldar, e seja a custo de aflições e dores, como muitas vezes, se alguém procura uma meta elevada. Quem quer ser esportista extraordinário deve trabalhar muito para formar corpo e mente, e se ele sozinho não alcançar o alto nível, precisará de um técnico rígido. Aí A. achou uma alegoria:
Era uma vez uma jovem menina chimpanzé que vivia num jardim zoológico. Era muito mais inteligente do que os outros chimpanzés. Um dia apaixonou-se, mas não por um dos seus-semelhantes, mas por um biólogo jovem, que já deparara na inteligência extraordinária da macaca. Através de sua linguagem de acenos sugeriu ao biólogo que a levasse em casa. Por sendo uma boa oportunidade para estudar mais a atitude do chimpanzé, concedeu e ganhou também a permissão do diretor. Também o moço começou a gostar da menina, mas como gostar de um animal de estimação. Por isso ficou espantado, quando a menina lhe acenou que queria mais, que queria amasiar-se. Explicou à menina simiesca a impossibilidade e ela chorou sem parar. Prometeu: “Vou arrancar todos os pelos além dos da cabeça, como uma menina humana, vou aprender a sua língua, vou aprender os seus costumes, andar e comer como vocês, vou fazer cirurgia plástica. Vou aturar tudo porque meu amor para com você é maior.” “Tá bom”, tornou o moço. “Confio a suas palavras. Mas o que aconteceria com você, se você depois das primeiras lições e operações plásticas perdesse o entusiasmo e quisesse retornar para os seus? Seria impossível viver ainda no zoológico. Neste caso eu teria que te forçar duramente para completar o caminho como o mestre no circo adestra tigres e elefantes.”  “Sim”, confirmou a menina. “Quero tornar-me humana e viver com você. Se eu me esquecer disso, por favor, me compila, até a toda força, porque o alvo me importa muito mais do que as tribulações temporárias.”

Malaquias enfatizou três exemplos que valem ainda hoje para fazer visível a falta de amor. Censurou o mau exemplo de muitos sacerdotes. Não tem coisa pior para uma congregação ou uma paróquia, se o pastor, padre ou sacerdote não tem espírito de Deus dentro de si. Cumpre-se um formalismo, sem arder pelo amor divino, pecando na vida particular, sendo um exemplo desalentador. Era uma coisa que A. conhecia bem pelas experiências negativas em Hamburgo.
Em segundo lugar o profeta condenou pessoas, que extorquem e roubam os outros, aproveitando seu poder, sua riqueza ou outra situação favorável. Em Israel havia famílias endividadas depois de colheitas goradas ou por outros malogros, e os credores curtiam a situação para escravizar os filhos desses pobres no amanho ou para explorar as filhas delas em variegados sentidos, em casa ou vendidas para outros lugares. Coisas que acontecem até hoje em todos os países, e é muito frequente no Brasil, embora a situação dos ricos aí já está muitíssimo elevada acima dos pobres e também melhor do que em outros países. Como é possível que um cristão rico, seja no Brasil, seja no primeiro mundo, onde muitos vivem muito bem, economizando muito ao custo da indigência de outros, que talvez implique em que uma irmã cristã pobre caia na vida? Nem os malfeitores da Máfia deixam que aconteça algum mal à sua irmã. Por que então um tal cristão não salva a sua irmã na fé? Falta a consciência, e é por isso que o Senhor manda seus profetas e a sua palavra. 
O terceiro exemplo de Malaquias trata do amor do homem para a sua mulher. Quanta falta de amor e carinho, se um homem enjeita a sua esposa declarando o divórcio (mesmo que seja conforme a lei), embora tenha prometido há poucos anos diante do Senhor e do mundo que seria eterno a sua fidelidade. Nessa época o divórcio quase sempre foi declarado pelos homens, porque a mulher ficava depois sem direito nem bens. Hoje, porém, libertadas desses vínculos do mundo, as mulheres não agem com mais respeito às promessas de amor eterno do que os maridos. Se um homem crente aceitar uma moça da mão de Deus, não poderá ter divórcio nem chifres, alega o profeta.
O Israel fazia nesse tempo parte do império persa. Quando Alexandre Magno, o “bode” vendo do oeste, conquistou o império, no ano 333, ganhou também as províncias Israel e Egito. A história desde então não é registrada na Bíblia, a não ser nos presságios do profeta Daniel. Só no apenso de algumas Bíblias há os chamados “livros apócrifos”, como os dos Macabeus. Às vezes se acham também nos lugares cronológicos entre os outros livros, mas não são parte do conteúdo oficial, declarado canônico e santo, da Bíblia, por serem menos importantes para os crentes.
Como dito já antes, o império alexandrino foi dividido, e general Ptolomeu, que bancou o novo faraó no reino do Nilo, obteve também Israel. Os Selêucidas adquiriam a maior parte, que atingia as fronteiras da Índia, e da sua província Síria tentavam várias vezes arremetidas contra o vizinho egípcio para terem tudo. Daniel sonhou dos dez reis selêucidas simbolizados por dez chifres. Quando brotava o undécimo corno possante e cheio de bazófia, suplantou os últimos três chifres. E, na verdade, os últimos três reis foram derrubados violentamente e um novo rei, o ambicioso e inescrupuloso Antioco IV Epifanes conquistou o trono. Chegou a submeter o Egito temporariamente e ficou com Israel, tornando-se um terror para os judeus, porque impugnava a religião deles para impingir-lhes as bênçãos do céu olímpico, cheio dos deuses fornicadores, cruéis e ardilosos dos gregos. 
Aí uns jovens se reuniram para defender a fé e rebater e expugnar o rei. Antioco IV Epifanes levou por baixo e Macabeus, o caudilho dos judeus, virou rei de Israel. (Desde então se falava sempre de Israel, em lugar dos antigos Judá e Israel.)
Por duzentos anos havia novamente reis em Israel e sua capital Jerusalém. O último foi chamado Herodes, e é já uma figura do Novo Testamento. Ele já perdera a independência, e os judeus pagavam impostos ao imperador de Roma, soberano do novo super-império “férreo” que, como predissera o profeta Daniel, devorava todos os outros países. Também o Egito perdeu a independência. O faraó débil Ptolomeu XVIII deixou as rédeas do poder com a sua irmã Cleópatra VII, e ela procurou a salvação ao entregar-se a César, o imperador romano, como amante, e depois ao mais poderoso general e suposto sucessor Antônio, mas malograva enfim tragicamente.
Deus percebia que os judeus, de novo, desentendiam ou não queriam entender. Mais uma vez o formalismo ocupou o lugar de um amor verdadeiro, da singela alegria ao louvar e celebrar o Senhor, e da prontidão de arrepiar-se e voltar sempre a uma vida com, para e no Senhor. Aí o Senhor lançou mão do último recurso, que foi longamente anunciado pelos profetas, que deveria ser uma ponte para as pessoas, que querem viver prontificadas, achegar-se a seu Deus, e viver em comunhão com ele e no seu Espírito. Não mandou mais profetas comuns, e sim um ser, que foi feito dele mesmo, no qual se personificou o próprio Deus. Como quase sempre, quando Deus obra maravilhas, não feriu as leis da sua própria natureza, mas arquitetou tudo evidentemente conforme a física e biologia, escolhendo uma moça humana para aterrissar o Salvador da humanidade. Esse Messias foi por isso chamado Filho de Deus. Ele explicou as palavras do Senhor, mas não ficava nisso. Ele vivia a palavra, enchia a com vida dando o mais completo exemplo do amor perfeito, não convidando só os judeus, mas também pessoas de todos os povos, para virarem filhos de Deus, santos, profetas, pastores e escravos do Senhor, e irmãos e irmãs de Cristo Jesus, se quiserem.
Mas os profetas previam também, que a maioria rejeitaria e desentenderia até aquele seu exemplo de tão sublime amor. Jerusalém iria ser destruída. E também aquele agouro dos profetas verificou-se: Os judeus sublevaram-se contra os romanos, mas os imperadores Vespasiano e seu filho Tito debelaram Jerusalém e todo o país no ano 70 depois de Cristo, e escravizavam e expatriavam todo o povo judeu, espalhando-o por todas as partes do seu império, que envolvia Europa, o norte de África e Ásia menor. Os refugiados espalhavam-se depois também em outros países, e desta vez o exílio macambúzio duraria mais de 1800 anos.
A. acordou às cinco e meia, com a primeira clareza do dia, e partiu logo, tomando café da manhã somente em forma do resto dos tomates. A uns quilômetros chegou a um estacionamento com um alojamento para caminhoneiros e uma casa com banheiros. Aproveitou e tomou um banho e encheu a garrafa com água. Depois estudava um pouquinho, mas não podia comprar aqui nada para o café, e por isso voltou logo à estrada. 
Depois de uns quilômetros, a estrada começou a descer. Implicava às vezes maravilhosos panoramas sobre os vales, mas A. pensou já agora assustado, como seria cansativa a volta, subindo por tantos quilômetros.
As ladeiras bem declinadas o levaram até a cidade, mas ele não tinha noção para onde se virar. O plano no reverso do mapa do estado Minas Gerais mostrou somente o centro, mas aconteceu que A. achou o nome duma Rua Doutor Fulano, e assim norteado aportou ao parque municipal. Comprou alimentos para o café e tocou para a lagoinha no meio do pequeno parque, onde achou um banco sombreado livre. 
Nesse mesmo momento, contudo, outro moço teve a ideia de assentar-se ali, e ambos os homens recuavam, oferecendo o lugar por educação ao outro, e enfim sentavam-se os dois. Começaram a falar, e o brasileiro, ouvindo os planos do forasteiro, recomendou-lhe um hotel pequeno que ficaria pertinho e custaria só doze reais, com café de manhã. Ofereceu-se para levá-lo até o hotel. A., sem embargo, gostaria de ficar por mais tempo e, receoso na metrópole aliena, temeu uma cilada para o roubar. Finalmente arriscou e seguiu o homem. A quinhentos metros chegaram ao hotel, que teve uma qualidade bem melhor do que os outros dois baratos, na viagem. Moravam aqui também uns negociantes e algumas pessoas que deixavam a casa por problemas com o cônjuge. A estação ferroviária estava ao lado, e por isso a praça se chamava “Praça de estação”; e o tráfico cerrado e muitas barracas criavam um alvoroço bulhento.
O pequeno quarto foi equipado por duas camas solteiras, armário, mesa, cadeira e pia. Além disso, o hotel tinha sala de televisão, sala de café de manhã, e um lugar gradeado debaixo da escala para a bicicleta. Com a ajuda da recepção conseguiu telefonar com o Ministério Programa Criança Feliz. Eles agradeciam o interesse e o convidavam para visitar o ministério. Poderia vir em qualquer horário, porque hoje teria sempre alguém por ali. A. disse que viria daí a duas horas.
O moço acompanhante insistira em ficar com A. todo o dia. Talvez pensasse que poderia curtir muito. Mas quando ouviu de programas sociais, caridade e crianças carentes, perdeu o interesse, retratou-se e disse que teria logo um compromisso muito urgente, que o faria escusar-se. A. acabou seu café de manhã no quarto, tomou um bom banho e começou a fazer a barba, que vicejava desde duas semanas sem jardineiro. Trouxe um aparelho elétrico, mas aí percebeu, que o tempo já estava tarde. Decidiu-se espontaneamente para deixar o cavanhaque e raspar somente as faces. Envergou calças e camisa sociais e saiu de bicicleta, uma combinação, aliás, vulgar na Europa, onde tem até rainhas indo de bicicleta, mas muito estranho na capital mineira.
O ministério ficou um pouco fora do vale do centro, mais elevado, e depois de meia hora A. alcançou-o suado. Achou-o facilmente, porque ficou na avenida principal que passa o parque municipal. A. passou o porteiro e tomou o elevador para o segundo andar, mas lá ninguém abriu. Ficou atrapalhado e falou com o porteiro, mas nem ele soube aconselhar. Estava afinal de contas no alvo da viagem, e aí ocorreu-lhe aquela coisa estranha que ninguém estava apesar de terem um compromisso. Aí apareceu uma moça chamada Renata, que falou entusiasmada com um celular. Ficou com surpresa, quando foi apresentada a A., e disse que era uma boa amiga da secretária da ONG. Aproveitou o tempo para contar-lhe algumas coisas sobre o ministério. Agora A. foi esclarecido, que na língua portuguesa a palavra “ministério” não significa necessariamente um segmento do governo, como na Alemanha. O Ministério Programa Criança Feliz era bem apegado a uma igreja evangélica batista, o que implicava em uma simbiose frutífera, acarretando apoio, contatos e trabalhos comuns. O ministério concentrou-se em Belo Horizonte, mas teve planos para exportar a ideia para Recife e Moçambique. Havia em Belo Horizonte além do trabalho nas ruas duas casas para as crianças carentes e uma fazenda perto da capital.
Depois de uma hora chegou Cida, a secretária. Sara do Carvalho e seu marido, os fundadores do ministério, estavam feriados por seis meses e viviam com parentes na Inglaterra, e por isso Cida e Caroline, uma secretária inglesa, lideravam os projetos. A. contou como Deus o chamara para o Brasil incitando-o para visitar o ministério. Ele seria pronto para qualquer missão, mas supõe que o Senhor o chamaria para aquele projeto. Seria um trabalho voluntário porque não precisava de dinheiro. Cida agradecia-lhe e eles encheram uma ficha com os dados relevantes. Depois Cida aproveitou a tarde pouco acidentada para detalhar os projetos do ministério. Ao fim combinavam um novo encontro para a segunda-feira.
O próximo dia era sábado, e A. aproveitou para visitar e conhecer a cidade de bicicleta. Ficava, aliás, de cavanhaque, pois calculou que seria estranho comparecer na segunda-feira ao Ministério de fisionomia diferente. Visitou uma igreja antiga, a Praça de Liberdade, e vinha a visitar o parque Mangabeiras na ladeira das montanhas, que cercam o vale, não longe do Ministério Programa Criança Feliz. Aí há córregos e cascatinhas, e ele se retirou naquele lugar agradável para ler a Bíblia e estudar português. Comeu, como na viagem, pãezinhos e frutas. À manhã seguinte Cida o veio buscar e o levou para o culto da Igreja Batista que cooperava com o Ministério. A. conhecia Igrejas Batistas de Alemanha, porque foi líder de um coral pequeno de jovens duma Igreja Batista, quando estava numa prisão semiaberta. Tocara lá, nos cultos, também piano e o órgão antigo da igreja. Aqui, porém, ficava de boca aberta. A igreja estava apinhada de pessoas de todas as idades, dominadas de adultos jovens, e todos celebravam e louvavam o Senhor sem cerimônia, alegres e sem afetação. Uma banda bem afinada, parecendo quase profissional, com teclado, contrabaixo, duas guitarras, bateria, saxofone e quatro cantoras, começou a tocar músicas, com orações interpoladas pela primeira cantora, e todos encheram com seu canto e louvor a igreja toda e os corações das pessoas. O pastor falou sem rodeios, convincente, sobre a fé verdadeira, que deve ser como o fermento em pó, que se mexe entre a farinha e tudo começa a crescer e viver. Pois não, era a situação atual de A.! Sentiu a sementeira deitada no seu coração, nos últimos dias, crescer e o transformar, para ele talvez mais tarde produzir frutos.
Renata, a moça que A. já conhecia do dia no Ministério, levou-o a um almoço, junto com amigos da igreja, todos voluntários também do Ministério. Ouviu muito sobre o Ministério e a igreja. A congregação havia setecentos membros, cinco pastores e diversos ministérios como, por exemplo, o ministério “Louvor”, que se constituiu do coral de uns cinquenta cantores, coral de crianças, dançarinas e três bandas. Pertencia ao ramo de igrejas batistas reformadas, que vivem num avivamento perpétuo e forte. Todas as músicas, por exemplo, são obras atuais. A. foi então surpreendido que todos já conheciam os textos sem terem livros como hinários. Ainda não soube como no Brasil as músicas se espalham rapidamente pelo rádio, televisão e CDs. Os jovens não precisam das músicas do mundo com seus textos muitas vezes duvidosos. 
A. era tão entusiasmado que comeu pouco, e isso sem ser totalmente novo no mundo cristão. Mas mesmo assim sentiu que nascera de novo, e sabia agora como seria o futuro. Aqui no Brasil existia a comunhão e a dedicação e o amor natural para com Deus, que procurara quando estava jovem.
À segunda-feira falou com Caroline, a secretária inglesa do Ministério, que viu ainda algumas dificuldades. A. chegara com visto turístico, e não com visto especial para trabalho voluntário, que lhe permitiria um tal trabalho. As pessoas têm que pedir esse visto em seu país, antes da viagem. Não soube se existissem possibilidades para trocar o tipo de visto. 
O ministério oferecia uma vez por ano um curso de três meses para ensinar e treinar voluntários, que trabalhariam depois com crianças nas ruas, seja com o Ministério ou em outros projetos. O próximo curso começaria só no setembro ou outubro. Acima de tudo a ausência dos dois líderes dificultou as decisões no ministério. A. conjeturou que talvez fosse por isso, que o Senhor o mandou para esse lugar, onde faltavam pessoas com experiência em liderança. Estudara e conhecia bastante sobre economia em ONGs. Mas ainda não podia falar muito português. Além disso, ainda não se sentiu inteiramente são. Cinco anos de terror psíquico, borrifado sem cessar de sujeira, ideias vis e perversas, asneiras e imundícies incríveis deixaram um traumatismo, que nunca foi tratado, e isso não podia esvaecer-se em duas semanas.
Pensou em prolongar a viagem de bicicleta por algumas semanas para começar o trabalho depois. Mas isso era somente seu próprio ideário. O que importava era o que queria o Senhor, pois ele abriria as portas lá, onde for necessário. Talvez o Senhor lhe tivesse dado o livro de Sara de Carvalho somente como chamariz ou para mostrar-lhe o projeto, para aprender alguma coisa, mas não para trabalhar exatamente nesse mesmo projeto.
No sábado Caroline o levaria para visitar as casas do Ministério. Tinha uma semana em Belo Horizonte. Sempre estudava, à manhã, ainda na cama. Levou até um macinho de vocábulos ou uma lição para o café da manhã, onde demorava bastante. Havia pãezinhos, bolo, manteiga, bananas, biscoitos, leite, café e água. Estudava sempre o jornal na sala de televisão, e saía depois, pelas dez ou onze horas para visitar o parque de Mangabeiras para escapar ao calor abafadiço do centro. Chegou ao parque sempre banhado em suor e tomou logo um banho nas cascatinhas. Mas como seria possível escapar desse vale, que lhe parecia tão insuportavelmente quente, no dia da sua saída, junto com a bagagem, subindo ainda muito mais nas montanhas?
Às noites visitava cultos de várias igrejas. Chegou a conhecer também a maior igreja batista, no bairro Lagoinha, constituída (na época) de mais que dez mil crentes, - um verdadeiro fervedouro de ministérios, cursos, grupos, etc. Havia lá na igreja uma inteira escola elementar. A melhor banda dela, Diante do Trono, é conhecida em todo o país. Quando produziam o atual CD convidaram para o estádio de futebol, o Mineirão, que estava repleto com mais que cem mil espectadores. Todos os crentes membros da igreja participam em grupos, células e cursos, à maneira de muitas igrejas no Brasil.
A. tinha também muito tempo para ler. Comprara domingo na igreja uma bíblia na linguagem de hoje, sem palavras arrevesadas como grimpa, escabujar, empavesar-se, pragana ou gavela. Podia lê-la com facilidade, tanto mais que já conhecia o conteúdo. Mas é muito interessante ler a Bíblia numa língua diferente, porque sobressaem outros aspectos e vertentes da mensagem. No caso de dúvida podia sempre consultar sua Bíblia alemã. Para completar seus estudos da história de Israel leu agora o início de tudo, o tempo depois da libertação dos israelitas do cativo no Egito, do êxodo e da demora de quarenta anos no deserto. Leu à noite no hotel e durante o dia no parque ou num outro lugar verde ou numa igreja, sobretudo os livros Josué, Juízes, Samuel e ainda os inícios de Reis e Crônica. Livros ancestrais, cujo estudo não é fácil, porque nessa época não era costume guardar tudo em escrituras. Às vezes escreviam tudo somente decênios depois dos acontecimentos, e não deu para evitar confusões, lacunas e alterações da ordem cronológica. Mesmo assim trazem muitos exemplos bons e maus, como atuam pessoas no serviço do Senhor e quais são as frutas de suas vidas. A. leu sobre os heróis do povo de Israel como Gideão, Josué, Sansão, Débora, Rute, Raab, Samuel, os reis Saul, Davi e Salomão, e os primeiros profetas. Não eram, todavia como os heróis façanhudos, possantes e lisos das lendas gregas como Ulisses ou Hercules, nem como o germano Siegfried ou rei Arturo, ou os heróis invencíveis dos filmes de hoje, e sim homens e mulheres imperfeitos que também erraram e pecaram e só achavam o caminho através de escarmentos e amarguras, com a ajuda de Deus. Que diferença!
À manhã do sábado Caroline o veio buscar com a Kombi do Ministério. Estavam com eles três adolescentes ingleses e três moças duma igreja católica de Belo Horizonte, que queriam conhecer o projeto. Primeiro tocaram para a fazenda, que fica uma hora de Belo Horizonte. Aí moram crianças da rua, que querem desprender-se do ambiente de drogas, crimes e violência, e querem conscientemente e de livre arbítrio morar nesse lugar afastado para evitar recaídas por causa de contatos com velhos “amigos”. Os meninos de seis a catorze anos, aprendem a vida normal, com escola, comida a certas horas, valores cristãos e amor. Ficam lá por certo tempo, pois a meta é que possam depois retornar à sua família. Se for necessário, os obreiros do Ministério fazem tudo para restabelecer e ajudar a família, para que a criança ter uma casa e um lugar por onde se deitar. Raramente recomendam também uma adoção, se a restituição da família for impossível.
Na fazenda há uma carpintaria, que estava fechada por falta de um carpinteiro, que ensinasse as crianças e fabricasse coisas para o Ministério. A. espreitou por uma fenda para ver as máquinas. Aprendera carpinteiro na prisão, uma aprendizagem e escola por três anos, provas e o tradicional exame de oficial de artesanato que só existe assim na Alemanha e alguns países vizinhos. Será que esses esforços poderiam criar frutos quando ele ensinasse os meninos?
Além dele uma das três moças católicas tentou lobrigar para o interior da oficina. Ela era Raquel, estudante de arquitetura, e tinha sempre uma preferência para madeira. Trocaram ideias em inglês, (preferido pela moça,) ou português (preferido por A., porque cada um quis aproveitar o encontro para melhorar a respectiva língua estrangeira). 
À tarde visitavam a casa para crianças das ruas, em Belo Horizonte. Serve para as crianças ficarem por uma só noite, para regenerar-se, tomar banho e pregar olho num verdadeiro colchão. Têm que sair depois para que outros poderem dormir lá na próxima noite. Assim as crianças começam a confiar aos funcionários do Ministério, e se cresce a vontade de deixar a rua para sempre, podem ir à fazenda. Para tantas criancinhas uma casa é sinônimo de pais beberrões, pancadas, violência e indigência. Só passo a passo podem acostumar-se à ideia de morar numa casa. 
As meninas e garotas são que sofrem ainda mais na rua. Sendo minoria e marginais entre marginais, andam sem proteção, desvalidas, sempre suscetíveis a violência, estupros e discriminação. Muito mais do que os meninos precisam da prostituição como fonte de renda, sempre periclitantes de doenças e gestações. Para cuidar delas em especial, o Ministério ganhou uma casa em que um casal vive com oito meninas, de nove a catorze anos como em família. Uma garota de 13 anos, que era bem pequena como quase todas as crianças das ruas, contou detalhado sobre a vida na casa, e como aprendera pertencer ao Senhor e ser aprendiza de Jesus. Se ouvir a garota tão feliz, falando livremente, com olhos iluminados, como uma criança remediada no seu aniversário, era difícil de imaginar que ela, há um ano, ainda era prostituta menor na rua, vivendo sempre drogada. 
A. tocou o pequeno teclado das meninas e logo elas pediram aulas. A. disse que retornaria, se fosse possível. Ao fim do dia Raquel e as outras duas moças, uma irmã e uma amiga, convidaram A. para visitar o grupo “Pão nosso” de sua igreja católica. Raquel deu-lhe os números de telefone e da linha de ônibus para a igreja.
Sabendo que faltava pessoal na liderança do Ministério como também na carpintaria, A. calculou que seria muito bem vindo para participar no projeto. Mas era claro, que deixava tudo com o Senhor. Ficava tudo com Ele, que abriria as portas, se quisesse. 
Ao domingo foi de bicicleta ao culto da igreja batista. Era muito estranho que alguém em Belo Horizonte vem de bicicleta à igreja, enquanto em Hamburgo tem até milionários, que vão de bicicleta à igreja. O recepcionista colocou a bicicleta no saguão ao lado de um grande vaso com uma palmeira. A. encontrou Renata e uma família que vivera por alguns anos na Alemanha. Visitou a biblioteca, onde encontrou uma mulher, que chegara, aos oito anos, da Alemanha. Falava ainda alemão fluentemente. Senhora Kirsten, como ela se chamou, ofereceu-lhe umas aulas de português e o convidou para visitá-la. Foi ainda cedo, e o recepcionista levou A. para a escola dominical sobre o evangelho de João. O culto depois demorou das dez horas até meio dia, e a seguir A. quis ir ao parque das Mangabeiras. A igreja fica também na ladeira das montanhas, quase na mesma altura como o parque, a uns quatro quilômetros de distância. A. tratou de achar com ajuda do mapa da cidade uma rota que evitaria a descida para não ter que subir a custo outra vez, sempre ficando na ladeira à mesma altura. Apesar desse propósito, chegou a ruas tão íngremes que era difícil empurrar uma bicicleta consigo. Procurando o atalho arribou numa favela, onde o pessoal o olhou surpreendido. A. não se deteve e passou pelo morro como a coisa mais natural do mundo. Olhou para frente como se soubesse muito bem para onde ir. Não soube que estava na beira do famigerado “Morro do Papagaio”. 
À tarde, às cinco horas, retornou à igreja para vivenciar o segundo culto. Viu o coral e gostou do som cheio e agradável. À noite, às onze horas, encontrou ainda um músico jazzista, conhecido de Renata, quem o convidou para o seu concerto na quarta-feira na outra semana.
Como tinha combinado depois do culto com o regente do coral, veio segunda-feira, à noite, na igreja para participar do ensaio. O coral possuía uma boa balança entre as quatro vozes, e dispunha de duas pianistas. Por isso podia se dividir para estudar as músicas nas respectivas vozes. 
No início um cantor falou sobre uns versos da Bíblia, depois o presidente, um tenor jovem, discursou sobre assuntos administrativos do coral. Depois do ensaio a noite encerrou-se com orações em que participaram vários membros. Se alguém tinha aniversário e trazia um bolo ou refrigerantes, os coristas ficavam por mais tempo na igreja. 
À terça-feira A. esteve de novo no Ministério, mas infelizmente o informaram, que seria impossível trocar o visto. O Ministério teria que ser cauteloso e rígido com essas coisas, visto que o trabalho com crianças é sempre controlado por órgãos estatais. Era um choque para A., porque teria gostado muito de um trabalho nesse ministério e sentiu se bem também na igreja. Mas já sabia que no controle está só o Senhor. Ficaria então ainda uma semana em Belo Horizonte até ao concerto do jazzista e partiria quinta-feira cedo à manhã. Quando noticiou Renata a respeito, ela rejeitou a ideia de sair de Belo Horizonte e alegou que teria tantos projetos na igreja. Recomendou-lhe um encontro com um pastor. Combinava-se um encontro com Pastor Jaime para quarta-feira, antes do concerto do jazzista. Se não se abrissem novas perspectivas, poderia sair quinta-feira, como planejado, para procurar o lugar que Deus escolheria para ele.
Desta maneira poderia também conhecer o projeto “Pão nosso” da igreja católica. Gostaria de ir de bicicleta, mas não soube o endereço da igreja para procurar a rua no mapa. Consultou o livro de telefone, não achou a igreja, mas achou na lista das igrejas uma igreja evangélica luterana, pertíssimo da rua que levava ao parque das Mangabeiras. Passou por aí quinta-feira e viu as letras metálicas no portal, que anunciavam cultos no domingo, pela manhã, e na quinta-feira, às sete e meia da noite. Aproveitou para poder conhecer aquela igreja, que era, aliás, pequena. Na quinta pelas sete e meia, tudo estava ainda escuro. A. lira no guia turístico do Brasil, que a pontualidade brasileira não seria a mesma coisa como na Europa, mas achou estranho o assomo de tanto descuido com o horário numa igreja. Pelas oito horas, chegou a saber que alguma coisa devia ser errada. Achou na esquina uma porta no muro. Será que pertencia à igreja? 
Tocou, e logo ouviu os latidos de um cão. A seguir apareceu uma mulher pequena que radiava bondade, mas olhava um pouquinho surpresa vendo um homem grandão com uma bicicleta. Revelou-se que o culto não estava mais nas quintas. A mulher falou muito bem articulado e A. podia entender quase tudo. Desta maneira chegou a saber várias coisas sobre a igreja. Ela se chamou Neusa e era a esposa do pastor Arnaldo. Tinha três filhos, de quatorze, dezoito e vinte e um anos, mas o mais velho morrera a dois meses. Os jovens da igreja foram participar de um encontro no Rio, mas o ônibus teve um acidente com muitos feridos e um morto: o filho do pastor, que era um cristão bem envolvido no trabalho da igreja, como seus irmãos também. 
Os membros da congregação luterana estão espalhados por todo Belo Horizonte e arredores, a congregação tem quatro templos para os cultos e uns duzentos membros. A Igreja Evangélica Luterana do Brasil está historicamente aliada com a Igreja Evangélica Luterana de Missouri, nos Estados Unidos. Recebera nos inícios muita ajuda de lá. Ao lado dessa igreja existe, no Brasil, também a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, que é uma filha da Igreja Evangélica Luterana da Alemanha. A maioria dos membros das duas igrejas luteranas constitui se de descendentes de imigrantes alemães.
Antigamente, a igreja luterana não era muito ativa na missão, porque bastavam as dificuldades de cuidar dos imigrantes, ainda mais nas aflições da população da origem alemã no tempo da segunda guerra mundial. Hoje já pensa diferente, mas muitos brasileiros identificam a igreja com os imigrantes da Alemanha. Na verdade, a igreja luterana é também predominante na Escandinávia e em alguns outros países, dos quais, porém, só raramente se encontram imigrantes no Brasil. Alguns em Belo Horizonte pensam até, que não seria uma igreja para pobres e pessoas simples. Não sabem que no sul do Brasil os imigrantes alemães muitas vezes são enraizados em suas pequenas fazendas o que implica hoje, em geral, pobreza.
Para aumentar o trabalho e levar a palavra de Deus à periferia, a igreja construiu de doações um prédio em Venda Nova, no Norte de Belo Horizonte, num bairro pobre e flanqueado por uma favela. A casa estava quase pronta para começar com diversas atividades, e sábado, à noite, haveria um culto aí.

No próximo dia quis visitar o projeto católico “Pão nosso”. Não achara a rua no mapa, e tomou então o ônibus 9210, como lhe era avisado. Partiria diante de uma escola de engenharia na rua paralela à de seu hotel, se tivesse entendido bem o que lhe tinha dito Raquel. Nessa rua partem uns trinta ônibus. Na Alemanha ninguém tem que acenar ao ônibus para que pare. A gente acha nos pontos o horário, e os ônibus param sempre nos pontos, se tiver gente lá. Não tem tantas linhas, porque o porcentual dos motoristas de carro na Alemanha é muito alto, e ainda tem muitos ciclistas. Assim toda a rua afigurava-se a A. como uma polvorosa confusa.
Mas felizmente A. achou um ônibus com o certo número, ficou perto do cobrador e pediu que lhe dissessem quando chegassem à determinada igreja. Tudo se resolveu bem, ainda mais porque é fácil identificar a igreja, que é tradicional com uma grande torre. Era a hora da missa, mas num cômodo ao lado já trabalhavam Raquel, a mãe dela, a irmã já conhecida a A. e amigas, para cortar pãezinhos e botar mortadela. Logo depois chegou o pai com a irmã mais nova, um moço e mais um casal. Juntos quinze pessoas alegres que se atopetavam na Kombi depois das rezas habituais, no início do empreendimento. Passaram a uma casa duma senhora, que preparava sempre com a empregada uma sopa de cinquenta litros. Além disso, levavam os pãezinhos, bebida chocolate, feixes de verduras e roupas.
Assim A. chegou a conhecer a miséria. Claro, tem pobreza também na Alemanha. Mas lá se fala de pobre já, se alguém não consegue comprar um carro. Mas tem também miséria por culpa particular: Se um pai gastar tudo com álcool ou outros excessos deixando a esposa e os filhos sem condições, demorará muito até o governo tirar as crianças da família. A mulher, pelo menos, poderia sempre sair para obter ajuda em casas de mulheres, mas as crianças não sabem se socorrer. Mas não tem muitas crianças pobres, porque as famílias são pequenas, e a grande massa rica pode ajudar a estes com mais eficiência, talvez tenha também tios e avós remediados ou ricos. O problema é somente que os ricos no primeiro mundo não sabem, que são ricaços porque veem-se rondados por ricos, o que fomente despeito, inveja e avareza. Só a minúscula minoria de sinceros cristãos e algumas outras pessoas boas apreciam a piedade do Senhor, que lhes deu tanto e desfrutam a vida em gratidão.
Mas se alguém, por sua culpa, drogas, teimosia, revezes e amargura ou rejeição de ajuda por certos motivos vive na rua, tem que sofrer muito na Alemanha, porque o inverno é muito frio e desagradável. Mata muitos sem-teto. Além disso, não dá para tomar banho em rios ou fontes abertos, exceto no verão, e às vezes um bodum desagradável muda a ideia de pessoas bondosas e elas acabam por nojo a não convidar tal pessoa para jantar ou almoçar em casa. Mas o número de tais casos é muito pequeno, porque vivem assim por livre arbítrio, recusando as tentativas do governo de dar-lhes um apartamento.
A. estremeceu quando visitavam uma choça improvisada, onde uma moça acabou de dar à luz um bebê bonitinho, no meio desse ambiente franciscano. Num outro lugar pararam ao lado de uma lona grande esticada pela calçada, de baixo da qual sentavam uma mãe e nove criancinhas. Abriram um júbilo quando viam o grupo que lhes trouxe pãezinhos e sopa.
Debaixo do alpendre de um banco visitaram uma “residência” feita de dois grandes caixões de papelão encaixados, com as medidas de um grande ataúde. Quando bateram no papelão ouviram um ruído regougado e abriu-se um alçapão no meio, acima do negócio, como se ele fosse um submarino, e em lugar da torre característico de um submarino surgiu a cabeça encanecida de Hans, setuagenário alemão, que vive aqui há anos. Durante o dia perambula, deixando a casinha dobrável num esconderijo. Não aceita ajuda do cônsul alemão, por pretensa animosidade política. Gosta de arengar sobre política, mas a sua opinião não dá para entender: Define-se como anarquista, mas gosta de Hitler. Acha que a Alemanha hoje tem uma ditadura encerrada, que não dá para viver lá. Também não gosta de cristãos, porque eles são, segundo ele, todos hipócritas, dando uma ajuda só por ganhar muito dinheiro com isso. Hans nunca tem fome, mas aceita bastante chocolate, que bebe, enquanto aproveita para falar alemão com A.
Visitam também lugares debaixo dos viadutos cheios de crianças desamparadas, fedendo a cola e fezes. Os pequerruchos e adolescentes enfezados não param de aspirar o cheiro alucinante de pequenos embrulhos. Ao passo que circundam a Kombi e aproveitam de serem abraçados e afagados por Raquel e as amigas. 
Entram também nos trapiches onde lixeiros separam lixo. Até aqui deparam com criancinhas empoeiradas e sujas, mas dentes e olhos brilham quando veem o grupo que lhe traz pãezinhos, sopa, chocolate, roupas e amor. 
Às onze horas da noite a viagem termina com a visita a senhor Francisco, que dorme debaixo de um alpendre. Há três semanas o grupo o achou deitado na calçada, meio morto, na chuva, e lhe organizaram esse lugar seco. Não para de repetir que eram anjos, que o socorreram. Gosta de orar o Pai Nosso junto com todos, e recita a reza bem acentuada e não sempre com as palavras comuns.
A. saiu da Kombi na frente de seu hotel. Convidaram-no para participar mais vezes, mas ele respondeu: “À quarta-feira saberei, se posso ficar em Belo Horizonte, ou se devo partir. Se ficar participarei com alegria.” O resto do grupo seguiu à sua igreja, descarregaram o carro e concluíram a noite num bar na esquina com quibes e salgadinhos. A. nunca tinha visto tanta alegria ajudando aos pobres e carentes. Ao sábado de manhã, A. foi de bicicleta à igreja luterana, onde chegou a conhecer o pastor Arnaldo, um homem simpático e muito dedicado ao seu trabalho espalhado por tão vasto território. Botavam muitas coisas na Kombi velho da congregação, e depois o casal saiu com A. A. conhecera também os filhos, Cíntia, uma moça ruiva e delgada que estudava psicologia, e Francis, o filho de catorze anos, que frequentava a bem conceituada escola batista. Os dois vão vir com amigos à noite a Venda Nova para participar do culto. A ida para Venda Nova leva quase uma hora, e lá o pastor passa por algumas casinhas para levar crianças para a igreja. Já diante da igreja aguardam outros pequenos, na maioria crianças das famílias modestas ao redor. Neusa, a esposa do pastor, começa com o culto das crianças. Depois elas brincam e fabricam pequenos bibelôs ou artesanatos. Neste tempo o pastor mostra a A. as salas predestinadas para um médico, um dentista, alfabetização e as diversas atividades da igreja. No terceiro andar mora um pastor novo com sua esposa. Com recursos de igrejas do sul do Brasil, onde moram mais imigrantes da Alemanha, podem pagar, desde pouco, o novo pastor. É um mulato ainda jovem, e a esposa é uma moça loira e grácil, que viera do sul. À maneira dos gaúchos o pastor oferece logo um chimarrão. A filha, de três anos, harmoniza os legados de pai e mãe no mais encantador modo: A bonitinha apresenta uma gaforinha encaracolada, muito mais fofa do que o pixaim do pai, e loura, sendo assim a mais amável criança concebível.
Claro que, na verdade, para A. qualquer criança é muitíssimo amável. Gostara já na Alemanha quando pudera trabalhar com crianças nos corais, para dar lhes amor e bastante autoconfiança para sentir-se seguro e amado e tiver sucesso na música e na vida. É isso também o dom especial de Neusa, que pode dar esses sentimentos bons aos pequenos. 
A. achou duas guitarras quebradas, restos tristes do trágico acidente de ônibus. Podia aproveitar seus conhecimentos de carpintaria para restaurá-las com cola branca de boa qualidade e sargentos, como aqui chamam os grampos grandes para fixar dois ou mais objetos com pressão alta, o que é necessário quando colar madeira com cola branca.
Neusa ofereceu à tardinha uma alfabetização, trabalho de paciência, porque os participantes já são velhos, que não sacam com facilidade. À noite celebraram o culto. Cíntia e outros jovens cantavam na frente, Francis e outro rapaz tocavam bateria e guitarra, e o próprio pastor saxofone. Cantam, porém, também hinos tradicionais. As melodias vinham muitas vezes do Missouri ou da Alemanha, conhecidas, portanto, por A. Era meia-noite, quando estavam de volta à igreja no centro, com a Kombi agora apinhada de jovens, e logo depois A. pedalou ao seu hotel.
A. soube agora que teria muito trabalho para ele em Belo Horizonte. Não obstante, não sabia se fosse a vontade do Senhor que ficasse. Nesses dias lia o livro Juízes na Bíblia e se instruía como o herói israelita Gideão prosseguiu, quando numa dúvida terrível. Para ter confirmação se era mesmo o próprio Deus, que o chamou lutar pela liberdade do seu povo, ou somente uma ideia sua ou até uma ideia insinuada pelo diabo, disse: “Ó Deus, tu disseste que queres me usar. Pois bem. Vou pôr um pouco de lã no lugar onde malhamos o trigo. Se de manhã o orvalho tiver molhado somente a lã, e o chão em volta dela estiver seco, então eu sei que tu me realmente usarás para libertar Israel.”
Quando Gideão achou a lã na manhã seguinte úmido, enquanto o resto da eira ficara seca, estava muito alegre, entusiasmado propriamente dito. Mas à tarde as dúvidas começaram a roer. Será que era um fenômeno natural, que a lã seca absorve a umidade do ar? As dúvidas avultavam, e finalmente o levaram a orar de novo, apesar de ser acanhado de vergonha: “Não fiques zangado comigo. Mas deixa que eu fale só mais uma vez. Deixa, por favor, que eu faça mais uma prova com a lã. Que desta vez a lã fique seca, e haja orvalho somente no chão da eira em volta dela.”
Felizmente Deus concedeu mais esse sinal, e agora Gideão ficou realmente sem dúvidas.
A. orou então: “Se eu de manhã achar um molhado no chão do corredor, saberei que tenho que partir.” Partiria, nesse caso, à quinta-feira, dia depois do concerto do jazzista. À manhã, porém, não achou molhado algum. Significava então que tinha que ficar...a não ser, que Deus se teria recusado a fazer parte no negócio, não ligando ao pedido de A. Claro, também sem Deus intervir o chão no hotel é quase sempre seco. Assim como Gideão também A. tinha de pedir mais uma prova. Orou, encafifado como outrora Gideão, pedindo o mesmo favor, de poder fazer uma segunda prova. Um molhado significaria agora que ficasse.
Se Deus confirmasse sua decisão do dia anterior, acharia, portanto, um molhado. Mas também à manhã seguinte tudo estava seco como sempre. Deixava o num impasse. Eram concebíveis três possibilidades:
1. O Senhor não reagira nem na primeira nem na segunda vez. Talvez achasse o requerimento ridículo ou falso ou acha que A. já foi aviso. Talvez Renata fosse seu anjo, que anunciara a vontade dEle para ficar e participar do projeto em Belo Horizonte? 
2. O Senhor achava que A. já sabia desde o início, que teria que retornar para Rio. Todas as coisas, que visam desviar A. são tentações, talvez do próprio diabo.
3. Deus deu a resposta na primeira noite para ficar em Belo Horizonte. Quando A. quis uma segunda prova, o Senhor ficou chateado e lhe a negou, pois A., ao contrário de Gideão, já tinha recebido tantas provas em sua vida e não tinha o direito de duvidar e pedir mais uma prova. 
 
À quarta-feira A. teve o compromisso na Igreja Batista com pastor Jaime, o pastor jovem, a quem já conhecia desde o primeiro culto. Falaram muito, e o pastor lhe recomendou contatar a missão JOCUM para fazer um curso na cidade vizinhado, ou trabalhar na escolinha, que a igreja erguera e mantinha na favela, a quinhentos metros. A. quis conhecer os dois projetos. Pastor Jaime ligou para a escolinha e depois avisou a A. que pudesse logo visitá-la. Uma mulher o aguardaria no início da favela porque não seria recomendável entrar na favela sendo completamente alieno. O pastor lhe mostrou como ir da igreja à favela. Era um caminho diferente e desta maneira A. não percebeu que estava aqui onde passara pela favela há poucos dias quando procurara um atalho para o parque das Mangabeiras. 
Lá onde o calçamento terminava, abrindo uma rua de areia, uma pequena mulata gorducha o esperava. Estava lá, onde o último prédio de vários andares confinava com a primeira choça da favela. Logo detrás ficam dois barzinhos típicos, com pequena venda, homens e mulheres espalhados, de pé, sentados ou perambulando, crianças brincam na rua de areia, que, aliás, a cinquenta metros vem de novo calçada. A moça mulata era Selma, a secretária da escolinha, ou propriamente dito, a faz-tudo. Uma escada leva da rua a um trilho, onde ficam seis casas, e logo o primeiro lote é a da escolinha evangélica, onde ficam duas casas, a creche e a casa para as crianças acima de seis anos, que vêm antes ou depois da escola para comer, fazer as suas tarefas, brincar, etc. Em tudo há cento e vinte crianças. Selma mostra-lhe o berçário e as outras quatro salas da creche. Só poucas crianças pertencem à igreja batista, são uma mistura alegre de confissões, assim como de cores da pele, e elas olham o estrangeiro meio curiosas, meio acanhadas.
Selma lhe mostrava também a lavanderia e a cozinha, onde trabalham duas cozinheiras que já tinham preparado uma bandeja com cafezinho, biscoitos e pãozinho para A. Toda a escolinha estava limpinha, duas vezes por dia a faxineira esfrega tudo. (Na Europa, os países, que cuidam melhor da limpeza, ficam no norte, como a Dinamarca ou a Suécia. De lá ao sul aumenta a falta de higiene, no sul, então, acham-se mais banheiros ou cozinhas sujas e descuidadas. Os turistas, quando se aventuram mais ao sul, por exemplo ao Brasil, tem medo de serem confrontados com falta absoluta de higiene. Demora até dar-se conta do contrário.)
A. contou que a sua situação era muito incerta e aleatória. A diretora, respondeu que seria sempre bem-vindo e o convidou para a sexta-feira. À noite visitou o concerto do jazzista, e por isso acordou à manhã seguinte, quinta-feira, somente às oito horas, apesar do ruído da Praça da Estação. Viu logo, que o céu estava coberto, ao contrário dos dias passados. Era bem menos calmoso, talvez tinha uns vinte e sete graus de temperatura. Se tivesse partido ou partisse ainda, teria um tempo bom para escalar as ladeiras enormes, que cercam Belo Horizonte. A. sentiu um aperto na garganta. Era o convite do Senhor, que lhe preparou o caminho, para que pudesse seguir o caminho de Deus? Será, que ele já retirou os obstáculos para que não tropeçasse o seu adepto? “Ele não deixa me tropeçar, põe-me a salvo nas montanhas”, pensou A., lembrando-se das palavras do salmo 18.
Desentendera o Senhor? Ainda era tempo! Poderia partir logo, aproveitar a relativa frescura da manhã, e ligar depois para a escolinha para desmarcar o compromisso para sexta-feira. Chamou ao Senhor, pedindo um sinal. “Sem sinal não posso sair. O tempo poderia muito bem ser desse jeito por acaso.” Mas o Senhor não mandou sinal nenhum. A. ficou todo o dia no hotel e no parque municipal, absorto em dúvidas terríveis. À manhã de sexta-feira subiu então à escolinha, um esforço considerável de bicicleta. À tarde teria lá uma festinha antes da semana santa. As preparações começaram logo à manhã, e à tarde as crianças apresentavam pequenos ensaios aos pais. “Muitas crianças não têm um pai. Já por isso seria muito bom ter um homem aqui em nossa equipe”, disse a diretora.
Infelizmente não podia entender a linguagem desarticulada dos pequenos e eles levaram um susto. Demoraria.
Depois das apresentações e a distribuição de bolos e refrigerantes todos saíram e A. voltou ao hotel, tomou um banho e trocou as roupas para participar de novo do projeto “Pão nosso”. Sabia agora o lugar e podia ir de bicicleta. Estava bem cedo e por isso ficou com a bicicleta na entrada lateral da igreja, espiando pela porta aberta a missa. O aspecto estranho de um homem com bicicleta à porta fez, que duas mulheres o perguntaram, donde estava e o que queria, e uma delas lhe disse espontaneamente que teria um apartamento livre, se ele quisesse ficar na cidade. Combinaram que A. o visitaria no sábado, às duas horas da tarde. 

Não calculara com o sol canicular neste horário. Quando chegou de bicicleta à casa da família do médico, cuja esposa oferecia o apartamento, estava banhado de suor. Nem depois de tomar suco e biscoitos melhorou. Claro, demora mais o menos um ano até o corpo se aclimatizar.
Detrás da casa do médico ficava um barracão para a empregada morar e lavar roupa. No lote ao lado, que o médico comprara há alguns anos, se achava a mesma combinação de casa e barracão, com a diferença que o barracão era grande, com quatro quartos em dois andares. Na casa principal ficava uma alfaiataria; ninguém lá morava, nem se precisava de uma empregada. Por isso o barracão estava fora de uso. A. precisava pelo máximo de dois quartos, mas a dona ofereceu-lhe tudo por duzentos reais. O bairro era tranquilo, o ar muito melhor do que no centro, e o preço bem menor do que no hotel. Não havia móveis, além de uma cama, um guarda-roupa e uma escrivaninha, mas Tânia, a dona, lhe daria uma cadeira, moringa e lençóis. Não havia cozinha, mas duas pias destinadas para lavar roupa. Quebraria um galho, visto que A. não quis cozinhar em casa. A qualidade dos muros do barracão era boa.
A. respondeu que gostaria do barracão. Tudo dependeria da decisão, se ficasse em Belo Horizonte ou se fosse para a missão JOCUM. Será que a oferta maravilhosa e súbita de Tânia, a esposa do médico, era parte do plano de Deus, assim como os convites de pastor Jaime e da diretora da escolinha? Mas orou para que o Senhor manifestasse a sua vontade ainda mais claramente. À noite foi a uma festa do coral da Igreja Batista. Foi aceito com carinho, quando veio de bicicleta, como seu costume. Os membros traziam comida; os homens, em geral, eram responsáveis para as bebidas, coisa fácil para A. Sentavam todos num terraço grande, viam um filme de uma apresentação recente do coral e fizeram brincadeiras.

Ao domingo, desta vez, A. foi à igreja luterana. Depois do culto a banda teve um ensaio, e A. completou o grupo tocando teclado. Depois Neusa, a esposa do pastor, convidou a todos para almoçar com a família, o que era muito divertido pela participação dos jovens da banda. A maioria deles partiria à tarde para um lugar fora de Belo Horizonte, a duas horas de carro, cantando e tocando no culto da noite. Estava o lugar mais afastado da congregação. A., no entanto, foi para a igreja batista, onde reviu muitos do coral, no culto.
Segunda e terça-feira estava na escolinha, que fechou somente a partir da quarta-feira da Semana Santa. Os dois dias bastaram para que a escolinha já teve parte no seu coração. Era tão bom ver o carinho com que as professoras brincavam, pintavam, cantavam, dançavam e oravam com as crianças. Já na missão JOCUM, para quem ligara, não podia falar com nenhum funcionário responsável por causa dos feriados, e então A. resolveu ligar para Tânia e alugar o barracão. À quarta-feira botou as bolsas de novo na bicicleta e mudou-se.

Na semana depois de Páscoa começou, por conseguinte, como voluntário na Escolinha Evangélica. Tocava violão, que antes tinha que consertar, brincava com os pequenos e, se necessário, fazia pequenos consertos. 
Teve ainda um encontro com o presidente da igreja batista, pastor Paulo, um homem jovem, que antes trabalhara numa empresa internacional e aceitara o chamado para servir no tempo integral como pastor. Era também presidente do conselho do Ministério Programa Criança Feliz. Ouvindo dos planos e capacidades de A. acentuou, que seria ótimo se ele trabalhasse para o Ministério. Teriam que resolver isso. Pediu a A., em consequência, não ir a JOCUM, para ser livre e pronto para um chamado. Poderia, se quiser, ajudar no meio tempo, na escolinha. 
A. ouviu isso com prazer, mas decidiu não exercer pressão a ninguém, para não adiantar à decisão do Senhor. Só Ele sabia se A. já era maduro para uma missão responsável. A. sentiu que ainda não dispunha de todas as forças mentais, corporais e espirituais, se bem que a viagem de bicicleta catalisara muito a sua convalescença. Mas ainda ficava tonto quando se mexia rapidamente, e psiquicamente continuava ainda enfraquecido. O terror na prisão destruíra muito seu equilíbrio. Orava para que a recuperação se completasse nos próximos meses.

A Igreja Batista constituía-se de muitas “células”, pequenos grupos que se encontram em casa para ler a Bíblia e estudos, para cantar e orar, para ser uma segunda família para os membros. A. lembrou-se da sua célula na Alemanha. Deixara-a no ano 1990, mas fizera muita falta, enfraquecendo ainda mais a fachada friável de sua vida espiritual nesse tempo. Assim recebeu aqui em Belo Horizonte uma nova família, irmãos e irmãs. O líder, Carlos, era um engenheiro, que muitas vezes já apoiara a escolinha. No terraço da casa, onde morava com sua esposa e três filhos, o grupo se encontrava às quartas, à noite. Começavam com canções. Carlos ou A. tocavam violão. Depois alguém apresentava um tema, que tinha preparado. As duas horas, que corriam rapidamente, concluíam-se com orações, e quase sempre Eloísa, a esposa de Carlos, convidava os hóspedes para comer bolo e refrigerantes. Carlos e o filho mais velho, que tocava violão muito bem, gostavam muito da música, também da música erudita, e convidavam A. às vezes para ficar por mais tempo a ouvir ou fazer música. O filho, aliás, tocava na banda da igreja e sabia também tocar um pouco teclado. Logo na primeira noite, já depois da meia-noite, viram um vídeo da cantata exímia “Wachet auf, ruft uns die Stimme” (Acordai! Os guardas chamam) de Johann Sebastian Bach, o mais famoso compositor evangélico, que vivia na Alemanha.
No fim da cantata canta-se o brilhante hino “Gloria seja lhe cantada”. Surgem as lembranças da vida anterior. Havia dezesseis anos, quando cantou a obra com o coral de sua igreja em R., por várias vezes, viajando com o coral e uma orquestra pela França. Além disso estudou a música com o coral de sua escola pública. Depois podia ensinar e reger a cantata duas vezes com seu coral em Hamburgo.

Numa certa aldeia (povoado ou vilarejo) de uns cem moradores no Nordestino perambulava a desesperança. Uma seca por anos a fio destruía as ceifas e os moradores não possuíam mais nada para se alimentar a si e às suas crianças. Aí, certo dia, o único telefone, o do líder do lugarejo, tocou. Era um diretor de filme americano, que quis produzir um filme sobre o famoso missionário Frei Pedro, que teria nascido no morro que se eleva acima da aldeia. O líder lembrou-se dos muitos que estavam passando fome e conseguiu em troca pela concessão do direito de filmar nessas bandas a promessa do diretor de que contratasse trinta pessoas da aldeia como pontas ou até para pequenos papeis. Receberiam dependendo do papel entre mil e cinco mil dólares. O diretor anunciou a sua vinda para quinta-feira que vinha, às dez horas da manhã, logo neste morro, onde uma cabreira jovem tinha dado à luz o pequeno Pedro, sob céu aberto. Lá, diante da cena original, escolheria as pessoas que calhassem bem ao espetáculo. Pediu ao diretor cuidar de pelo menos trinta pessoas estarem no morro no tempo determinado, porque começariam logo com a filmagem. À quinta-feira já às nove horas da manhã, quase todos moradores se ajuntaram no morro, depois de duas horas de subida penhascosa e pedregulhosa. A esperança de poder ganhar em dois ou três dias tanto dinheiro como outrora em vários anos, tinha aliciado todos os moradores. Já tocaram as dez, as onze, meio-dia, o sol tórrido ardia e o morro, sem árvores, nem sequer oferecia a mais mínima nesga de sombra. Onde é que ficava o diretor?
Somente alguns poucos homens calculavam já antes que uma viagem longa, dos Estados Unidos para essas bandas aqui, poderia demorar muito. Tinha o voo ao Rio, a alfândega para todo o equipamento, o voo doméstico ao Nordeste, e enfim a viagem complicada e desconfortável para o interior. Por isso essas pessoas circunspectas, que pensaram mais longe, tinham levado um cantil com água para se e a família e bebiam, de vez em quando, goles pequenos.
Os outros, que não pensavam antes, pediam também um pouco de água. Mas os primeiros replicavam: “Desculpem, mas se distribuirmos o pouco que levamos, não bastará para ninguém. Nós todos estarão, por conseguinte, frouxos quando o diretor vier, sem forças para pôr em cena o que o diretor demandar. Têm que retornar à aldeia para levar suas próprias garrafas com água.”
Os outros suspiravam, mas finalmente se deram conta que não restava outro remédio e retornaram à aldeia, ao meio da tarde, para estarem de volta no morro antes de a escuridão dificultar a subida escarpada e às vezes perigosa. Saciada a sede, na aldeia, encheram recipientes para levá-los, mas neste momento ouviam-se os ruídos de helicópteros e logo o diretor aterrissou com seu time no morro.
Enlevado pela paisagem idílica diante do ocaso-de-sol o diretor reagiu logo. Quis captar esse momento inesquecível, renunciou o casting dos atores e contratou sem cerimônia todos os trinta e seis aldeões que resistiram ainda no pináculo. A equipe excedeu-se a si mesmo, e depois de somente vinte minutos as câmeras estavam prontas para captar o momento precioso, todos abaixados em meio círculo, de orelha em pé às palavras empolgantes de Frei Pedro, dado por um ator americano, tudo diante do sol a imergir num banho espumoso de nuvens esgarçados e escuridão arrastada.
Quando, mais tarde, chegaram os outros moradores, o diretor não quis contratar ninguém deles. Deve ser lógico, argumentou, que as pessoas não podem ser outras do que na primeira cena filmada. 

Jesus contara uma parábola semelhante (Mateus, capitulo 25), que nos exorta para sermos sempre prontificados para o Senhor, especialmente para o dia quando ele vier como messias e juiz do mundo. Para dar um novo aspecto à exortação escolheu o conto das dez virgens que esperam ao noivo como os cristãos esperam a vinda de Jesus. Desta matéria Johann Sebastian Bach construiu a impressionante cantata que acabaram a ouvir A., Carlos e o filho dele. A. lembrou-se muito bem da jovem cantora e do barítono sonoro que nos concertos em várias igrejas da França personificavam os dois amantes apaixonados: Cristo Jesus e a noiva, feliz como um Cristão que se sabe unido com o seu Senhor, seja no último dia, seja já agora como aluno e adepto de Jesus e criança renascida de Deus. Hoje seja talvez difícil imaginar a grande decepção das moças rejeitadas, e por isso A. inventou a parábola do diretor do Nordestino. Talvez, se Jesus tivesse vivido no Nordestino, teria contado a parábola desse jeito.

Era meia-noite, quando as virgens esperaram o noivo, e era também meia-noite, quando A., Carlos e o filho ouviram a música magnífica, que Bach compus sobre essa parábola. Naquela mesma hora, uma moça, professora da creche, dava o jantar, que preparara, aos dois irmãos numa choça do morro do Papagaio, depois de ter voltado da escola da noite, onde fez o curso de supletivo. Ela já esperava há mais de doze anos para o noivo vier, que Deus lhe prometera. Soube que Jacó, o neto de Abraão, aguardara catorze anos pela noiva Raquel (Gênesis 28 e 29). Será que teria que esperar também por tanto tempo?
Na semana que vinha, A. quis pela primeira vez visitar um culto nessa Igreja Batista num dia útil. Até então durante a semana só tinha estado na Igreja Batista de Lagoinha ou em igrejas perto do hotel. O culto, no entanto, estava mal frequentado, e a banda se constituiu somente de dois músicos. Por isso o discurso do pastor ganhou mais espaço. Aqui era que se tratou de mais uma noiva, Rebecca, a esposa de Isaac, filho de Abraão e pai de Jacó. A maneira como ele achou a sua noiva, descrito em Gênesis 24, é muito característica, sobretudo para A.: Abraão mandou um servo crente e de sua confiança para que procurasse a moça. O servo deixou Canaã (Israel) de camelo, pedindo a Deus para que ele lhe mostrasse a determinada garota, escolhida por Deus para o filho de seu chefe. A. estava muito cansado pelo calor do dia e tinha bastante dificuldade para concentrar-se ao sermão em português, que nem sempre entendia. Por isso não tinha energia para meditar mais na matéria e não percebeu, que o sermão cabia exatamente na sua situação. Poderia ter sido mandado pelo próprio Deus timoneiro do destino de seus filhos. Porém, ao contrário, envolto em tantas atividades novas, neste tempo, nem pensou sequer mais no fato que em certo lugar conhecido só por Deus aguardava uma moça por ele. Somente muito tempo depois chegaria a saber que não era por acaso que exatamente neste dia seus passos foram guiados para aquela igreja para ouvir esse sermão. 
Dez dias depois o fim da semana era prolongado pelo feriado do Primeiro de Maio. Nestes dias a igreja luterana convidou para um mutirão de música para crianças, jovens e adultos. Chegavam pessoas de Belo Horizonte e outras cidades de Minas Gerais, onde tem congregações evangélicas luteranas. Tinha lá muitos colchões para visitantes pernoitarem no novo sobrado da igreja em Venda Nova, lugar do mutirão.
Na primeira manhã, depois duma oração, começaram com aulas de teoria, em três grupos. Pediam a A. para que assistisse numa sala com muitas crianças e três mulheres iniciantes a aprender, sob uma professora de piano de Espírito Santo, como ler e escrever notas musicais: Semibreves, mínimas, colcheias, compassos, suspensão, dó, ré, mi, fá, sol, e assim por diante. Explicou tudo através de um folheto feito por um professor de São Paulo, direitinho, mas seco, compilado para determinados fins. As crianças, porém, na maioria não tinham o folheto, e A., com tanta experiência com os pequerruchos, percebeu logo que eles não entenderiam e se cansariam em vão. Era seu ofício dar um curso de flauta doce depois da aula de teoria, e não quis as crianças cansadas e sem terem entendido as notas, base fundamental para aprender flauta. Pediu então licença e deu alguns exemplos que esclareceram a matéria, mostrando que as notas não são um abacaxi a descascar, e sim uma sopa, fáceis para entender e brincar com a qual.
“Vocês podem me entender?” perguntou aludindo a seu sotaque, e as crianças fizeram de sim. A professora jovem ficou meio acanhada porque não tinha tanta experiência e insistiu em A. continuar com a aula. Não fora a intenção dele, mas assumiu, adaptou o ritmo de aprender às capacidades dos alunos, inventou muitos exemplos espontaneamente, fez com que as crianças inventassem ainda mais, fê-las cantar as cantilenas construídas do material aprendido e acompanhava-as no teclado com ritmo gostoso e animador. 
Transladou depois as cantilenas desenvolvidas para a aula de flauta, mudou as, passo a passo, até que formaram uma melodia bonita que ficava nos miolos dos cinco meninos, de sete a dez anos. Gostavam tanto da melodia que treinavam até sozinhos, nas pausas, e bem acompanhados no teclado apresentaram, no quarto dia, uma musiquinha que foi muito aplaudida. A. achara o certo caminho para despertar a ambição dos alunos.
Um pastor de fora e sua irmã ensinavam o coral formado de todos os participantes, à noite. Convidavam A. para compartir e ensinar algumas músicas, o que fez com muita alegria. Depois do ensaio da noite a banda tocou ainda, e os adultos ficavam juntos até às duas horas, matando alguns chimarrões e falando sobre música. No fim do mutirão os professores de Espírito Santo convidaram A. para ensinar numa oficina semelhante em Vitória, a capital deles. Perguntavam-lhe pelo cachê, mas A. alegou que seria voluntário e só precisava das passagens, se fosse possível. Propôs que convidassem também Francis, o filho de Pastor Arnaldo, para dar aulas de violão, porque o adolescente tocava já muito bem. Seria uma ajuda para A. poder viajar com ele, porque lembrou-se ainda bem das complicações no trem na Holanda, quando não entendera a língua alheia.
Depois do fim da semana comovente, A. tinha oito dias para preparar com as crianças da escolinha as apresentações para o Dia das Mães. No culto da noite cada grupo apresentaria com sua professora uma canção.
Além do trabalho diário fazia muitas coisas às noites. Segunda-feira era o dia do coral, onde A. cantava e, às vezes, também tocava piano, nas quartas ia a Carlos, onde se encontrava a célula, e sexta-feira era o dia do grupo Pão Nosso. O padre Sergio da igreja católica deles gostava muito da música erudita, mas a igreja, apesar de ser matriz, não tinha nenhum músico adestrado tocando na missa, e por isso padre Sergio convidou a A. para tocar na missa de sexta-feira, antes de partir com o grupo. No lugar das canções tocava ao pedido do padre músicas meditativas, em grande parte improvisações, que nascem no seu interior na hora, assim como já fez outrora o grande Johann Sebastian Bach. Desta maneira, pois, o músico pode exprimir nas teclas diretamente o que recebe do Espírito Santo, como na profecia ou quando falar em línguas. A igreja tem um teclado caríssimo em forma de piano, com tantos extras e de altíssimo gabarito. Dá para substituir um verdadeiro piano, órgão de igreja ou recriar sons fantásticos. Padre Sergio convidou A. também para dar um recital, em junho.
Aos sábados, A. vai agora várias vezes para Venda Nova, com pastor Arnaldo e Neusa, e nas noites das terças e quintas ele tem agora alunos particulares, em consequência de seu trabalho no mutirão. Alguns pagam, mas em casos de pobreza não cobra. Algumas garotas que capricharam no mutirão em desenvolver uma voz bem agradável e promissora, recebem aulas; entre elas Cíntia, a filha do pastor. Depois das aulas que dá muitas vezes na igreja luterana, A. está quase sempre convidado para jantar com a família. É uma patuscada pelas comidas caseiras gostosas que Neusa fabrica. A. admira a esposa do pastor, que gosta de ficar no fundo, mas na verdade é o alicerce de grande parte do trabalho da igreja, sempre modesta, sempre diligente, e além disso, mãe duma família feliz, - apesar do trágico acidente com o ônibus. Sem ela pastor Arnoldo teria que cortar sua variada gama de atividades.
Um novo aluno de A. era S., chefe duma consultaria de empresas, vice-presidente da Igreja Luterana de Belo Horizonte, fundador duma universidade luterana e, além disso, ex-vice-presidente de um famoso clube de futebol. Esse homem polifacetado quis aprender teclado com A. As aulas estavam geralmente em sua casa, e depois a esposa convida ao jantar. S. vivia ainda muito ligado ao Rio Grande do Sul, de onde tinha vindo; gosta do estilo gaúcho em churrasco e música e era membro de um clube gaúcho. 
Mostra seu espírito idealista também num campo bem diferente: Quando o presidente Fernando Henrique Cardoso ordenou, por falta de água nas represas para as grandes hidrelétricas, que qualquer casa teria que economizar 10 % da energia elétrica, Sérgio deu um bom exemplo: desligou o refrigerador, secou a piscina e a casa ficava numa meia escuridão que lembra as noites do tempo de Advento, antes de Natal, na Alemanha, quando famílias tradicionais se reúnem à luz de velas, cantando hinos de Natal, ouvindo música ou escutando o silêncio da natureza adormecida na hibernação.
Às terças, A. vai à escolinha somente ao meio dia. Antes se encontra com Raquel, do grupo Pão Nosso. A jovem estudante de arquitetura recebe de A. aulas de inglês e lhe ensina português. A. nota que muitas palavras de seus livros são desconhecidas no Brasil, ou pelo menos, em Belo Horizonte. Quanto mais tempo aprendia, tanto mais deparava com dificuldades. Conotações, gírias, aplicação, regência, etc. implicam em montes de contratempos cabeludos. Como um forasteiro pode saber se a gente fala “eu bato a mesa, na mesa, para a mesa, em cima da mesa, contra a mesa ou ao encontro da mesa”? Precisa ouvir bem, como falam os brasileiros, e ficar com tudo na cabeça, porque nem o dicionário contém essas finezas. Mas a memória de A. foi arruinada pelos anos traumáticos na prisão, tem que martelar tudo com força e repetir sempre. Também não entende bem o português falado, muito menos chega a analisar e recordar tais expressões, porque o português fala-se muito rápido e sempre tem cacófatos legais e ilegais, tanto assim que “aterra”, “a terra”, “à terra”, “há terra” e “há a terra” têm a mesma pronúncia, e “aterrador” se confunde com “há à terra dor”, “(se) aterá à dor”, “à terra há dor” ou “aterra a dor”. Se alguém nem sabe sequer, se tem no português “o aterro” ou “a aterra”, a confusão vai ser ainda maior. Confundira a frase “A aterradora Maria” com “À terra adora Maria” ou “A terra adora (a) Maria”, “Há à terra dor (ou dó) a Maria”, “Há a aterradora Maria” ou “(Há) a terra do Maria”. Não sempre faz sentido, mas não dá para avaliar isso tão rapidamente para um estrangeiro. 
Mais e mais A. começa a frequentar os cultos da congregação afilhada da Igreja Batista, que tem uma casa logo no lote em cima da escolinha. Falta-lhes na banda um tecladista, e A. pode também tocar os hinos do hinário Cantor Cristão das Igrejas Batistas, que contém mais ou menos as mesmas melodias como na Alemanha. O velho pastor gosta muito desses hinos tradicionais. 
Às oito e meia nos domingos, A. vai à favela, arruma o teclado, e às nove horas, começa tudo com três hinos. Depois a congregação se divide em crianças, adultos, adultos jovens e adultos velhos, para a escola dominical. Por falta de salas somente os velhos ficam na igreja, enquanto os outros vão à escolinha. Às dez horas e meia começa o culto. 
Ao contrário dos costumes na Alemanha não tem partituras com notas das canções novas, existem, se muito, alguns textos copiados a mão dos CDs. O guitarrista nem conhece os nomes dos acordes, que toca, mas toca muito bem. Para A., contudo, é um problema, quando a primeira cantora levanta o louvor, cantando espontaneamente uma música não apalavrada antes e que ele não conhece, como acontece várias vezes. Tenta ver as mãos do guitarrista para identificar os acordes e transmiti-los ao teclado. Mas se falta o guitarrista, tem que ajeitar-se sozinho, inventando as harmonias como melhor saber, adivinhando e pressentindo tonalidade e acordes.
À tarde frequenta geralmente a Igreja Batista maior, onde às vezes canta também o coral de que A. faz parte. Se faltarem as duas pianistas, substitui-as, praticando-se na semana no piano de cauda da igreja.
A essas atividades vem ainda o pedido de pastor Arnaldo de montar um coral na Igreja Luterana, e na congregação batista ao lado da escolinha A. dá um curso de violão.

Ao fim do maio A. está convidado para uma festa numa fazenda bem fora de Belo Horizonte. Depois da festa dá se conta de que alguma coisa mudou. Três meses não tinha olhos para mulheres, elas paravam de atraí-lo. De súbito, era diferente, o que sentiu bem na festa. Agora se lembrou, que Deus lhe prometera que lhe mostraria a sua esposa, no quarto mês. Quem seria? Nos grupos, que frequentava, tinha tantas moças, mas não travou conhecimento com ninguém, só com Raquel tinha uma amizade. Mas ela tinha planos que nunca combinariam com a vida de A., sabia no seu coração.
No início de junho o coral da igreja batista fez um retiro pelos feriados de Pentecostes. A igreja possuía uma fazenda maravilhosa com casas para mais de cem pessoas pernoitarem. Eram dias de oração, música, brincadeiras e esporte. A. se sentiu muito bem, gostando de tudo, seja das orações, durante as quais lhe pediam de fazer uma oração para um homem aniversariante, que entrara no coral no mesmo dia como A., seja dos estudos bíblicos com um pastor amigo do regente, seja do voleibol, futebol ou partidas de xeque à meia noite. Mas não progrediu na tentação de pressagiar, quem poderia ser a sua futura esposa, conquanto tantas moças dessem parte do coral. Estranhou o fato, pois antes do fim do quarto mês no Brasil teve ainda só uma semana em Belo Horizonte, e depois partiria para o mutirão em Vitória, Espírito Santo. Poderia se desenvolver também um caso ali, mas certamente não passaria de um namorico devido ao pouco tempo de estadia nessa cidade. Como Deus, então, poderia cumprir sua promessa de mostrar-lhe a sua esposa no quarto mês? Será que essa promessa não era de Deus, mas surgiu de sua própria fantasia?
A última experiência com Deus era a coisa ambígua com o molhado no hotel. Agora as dúvidas cresciam de novo. Era possível que a sua esposa não estava aqui, mas no Rio ou em Petrópolis ou sei lá; talvez ele desentendesse a vontade de Deus? Tinha realmente certeza de que Deus lhe prometera, que Ele lhe mostrasse a certa esposa no quarto mês?
Certo dia A. estava com as crianças da escolinha no terraço. Meia dúzia dos pequenos se apinhou no seu colo, brincando. Que oásis de paz, amor e oração, pensou, na periferia do famigerado Morro do Papagaio. Neste momento tiros ribombaram perto da escolinha, e todas as crianças foram mandadas por dentro para serem protegidas. Sentavam na sala grande, às mesas pequenas, e olhavam assustadas. Aí uma professora entoou uma canção, e A. pegou no violão. “Ele nos deu o mundo de presente, a terra e o céu. Ele nos deu o mundo de presente. Obrigado, Senhor”, cantavam quarenta gargantas pequenas.
Às quatro horas, as professoras trouxeram o lanche, que talvez para algumas crianças também tivesse que substituir o jantar, e A. recebeu na cozinha sua bandejinha. Retirou-se no pequeno escritório, onde estava também Selma, a secretária. Ou o Senhor lhe insuflou certas cogitações, ou era só uma veleidade nascida do seu natural brincalhão e galhofeiro. Seja como for, ela começou um diálogo sobre o tema, se A. havia uma namorada na Alemanha, ou se talvez pensasse em namorar no Brasil. A. esquivou-se às perguntas, e disse somente que até agora não teria havido oportunidades no Brasil. Selma engraçou-se da resposta alegando que A. andava sempre às voltas com mulheres e moças. “Pois não”, estranhou A., “mas ou elas são casadas ou namoradas, ou elas são menores de dezesseis anos ou até menos. Como aqui na escolinha.”
“Que isso”, surpreendeu-se a mulher. “Não tem nada disso!” E ela lhe indicou duas funcionárias solteiras. Quando ela pronunciou o nome Sirley, era como se um pequeno relâmpago coriscasse na saleta.
“Mas...”, balbuciou, “será que ela vive sozinha?”
“Mora com os dois irmãos dela.”
“Mas faz em tudo como se fosse casada.”
“Como será?”
“Não mostra o mínimo interesse em homens. Nem olha.”
 “Ela é muito tímida! Mas ela ora todos os dias por você.”
Nesse momento, quando Selma disse “ora por você”, A. sentiu mais um relâmpago como o primeiro, como se fosse um sinal antes combinado com Deus. Aí tocou o telefone, Selma atendeu e A. levou a sua bandejinha vazia de volta à cozinha. Nesse momento, à direita, abriu-se uma porta, e Sirley deixou a sua sala para aprontar-se no banheiro para a escola da noite. Era como se alguém arrastasse um véu, que lhe cegara os olhos por três meses, e ele reparou toda a beleza da moça. Custava lhe tirar os olhos dela, e perturbou-se todo. Como era possível, que não enxergava tanta beleza já antes?
Nos próximos três dias tentou sempre achegar-se à moça, mas ela nem o olhou, e com toda a criançada era completamente impossível. Não obteve uma oportunidade, e à terça-feira da segunda semana de maio ficou, depois da aula de teclado para Sérgio, na igreja luterana. Dormiu na casa do pastor para estar na manhã, a tempo, na estação ferroviária, junto com Francis, o filho do pastor, para tomar, às sete horas, o trem diário para Vitória. 
A. cismava apreensivo e confuso. Tinha sentido alguma coisa inexplicável, quando Selma lhe falara o nome Sirley, uma erupção efusiva de emoção, como nunca sentira antes. Mas era uma prova para que fosse a vontade de Deus? Podia ser que a aparência da moça desencadeara uma coisa recalcada no seu interior, que um psicólogo sabido explicaria com facilidade e argumentos racionais, alegando que talvez só remontasse a uma aventura na adolescência, um filme ou um livro.
Consta, todavia, que não podia falar com Sirley e ia para Vitória sem saber nada. Era então impossível que a suposta promessa de Deus, que chegaria a saber quem era a esposa determinada, se ainda realizaria no prazo restante do quarto mês, a não ser que encontrasse verdadeiramente um amor espontâneo à primeira vista em Vitória. Mas calculava, que um seminário ou curso, sem intimidade, não daria ensejo para tais fins. Daria para flertar, quem sabe, mas dificilmente chegaria a saber quem seria a esposa. Que bom que estava na casa de Arnaldo e Neusa para que não ficasse sozinho torturando-se com contemplações fúnebres. 
A viagem para Vitória demorou quatorze horas incluindo uma hora de atraso, e levou A. por uma paisagem montanhesa muito bonita. Aproveitou o tempo para perguntar a Francis algumas palavras especiais a respeito de violão e música em geral. Falavam também sobre escola, liam, estudavam as músicas que iam ensinar em Vitória, e discutiram a história de Israel que Francis estava estudando na sua Bíblia. De quando em vez saíam do vagão fresquinho da categoria mais caro, que escolheram por causa do calor nos outros vagões, e desfrutavam o vento na plataforma semiaberta entre os vagões que era também o lugar dos fumantes. 
O pessoal do trem, que pertence, aliás, à companhia Vale do Rio Doce, oferecia almoço e jantar, e também nas estações nas montanhas esperavam velhotas encarquilhadas pelo sol ou crianças lestas com frutas, doces e salgadinhos caseiros. Além disso, A. e Francis trouxeram um farnelzinho de Neusa. 
A responsável pelos dias em Vitória era Evanira, regente do coral da Igreja Luterana na Ilha do Príncipe, no centro da capital. Trabalhava como diretora duma creche particular. Na Grande Vitória tem várias igrejas luteranas, porque Espírito santo recebia no século XIX colonos alemães, e quase a metade da Alemanha é evangélica, principalmente luterana, enquanto a outra metade, sobretudo o sul, é, na maioria, católica. Grande Vitória crescia desde o ano 1950 de 50.000 a 2 milhões habitantes. Evanira aguardava já à estação ferroviária, e levou os hospedes à igreja, onde jantaram. 
Ela anunciara em Belo Horizonte, quando ensinara no mutirão em Venda Nova, que em Vitória tudo seria bem organizado, não comparável com o rebuliço improvisado em Belo Horizonte, se bem que os improvisos inspirem a criatividade. Era evidente, pois já nas portas e paredes liam-se as planilhas detalhadas dos cursos, lavradas a computador. Todas as crianças teriam nas mãos o folheto com as matérias de teoria e certas músicas dos cursos. Mas aí vem a surpresa: Evanira conta com a colaboração dos hospedes, porque até agora existem somente caixas cheias de folhas recentemente xerografadas. Falta a capa transparente, a última folha cartonada, e a broxa helicoidal, que se enfiaria nos furinhos das páginas, rondando a até que se colearia ao fim. A., cansado da viagem, ficou meio aborrecido, mas Evanira encanta a todos com sua maneira alegre, e assim as cinco pessoas unidas na igreja resolviam tudo até as três horas da manhã. 
A. se sente como se fosse com quinze anos a menos. Nesse tempo estivera ele que estimulava os outros desta maneira. Por exemplo ordenava, dobrava e broxara com duas moças voluntárias 700 folhetos pequenos durante uma noite, com petrechos precários, para economizar os 700 vezes quarenta centavos que o serviço custaria na gráfica.
Além de vários cômodos e salas, na igreja fica um apartamento para um estagiário. Os pastores da Igreja Luterana estudam num seminário, numa faculdade teológica, ou, em alguns países, na universidade. Antes de serem chamados para serem pastor de uma paróquia, trabalham por um ano como estagiário. Com o estagiário moram no único quartinho A. e Francis. Por mais apertado que seja trata se ainda de um privilégio, porque todas as outras salas são cheias de participantes, que dormem em colchonetes.
Os dois professores de Belo Horizonte são tratados por todos de modo especial, com carinho e veneração, e o anúncio que viria um professor da Alemanha alarmou até jornalistas da televisão. A. faz os ensaios do coral, à noite, constituído por todos os participantes, e tem um grupo de vinte crianças que aprendem a teoria, flauta e formam um coral de crianças, onde cantam e dançam. 
Mas o grupo é muito desequilibrado. De meninos buliçosos de cinco anos, que vêm da favela perto da igreja, a garotas de professores universitários, de onze anos, uma variegada escala, mais complicada ainda pelo fato que nem todos aparecem sempre. A. abandona, por conseguinte, logo o horário escrito no computador, e limita-se a aumentar a correnteza que se desenvolve e revela nas aulas. Cria-se assim uma criatividade fervilhando. Formam-se grupos de cinco ou quatro crianças, sob comando de um deles como pequeno “professor assistente”, que assume a recente responsabilidade com ambição e seriedade, ensinando a seu grupo as pequenas músicas, que A. escreve na hora para as crianças. Animam-se uns aos outros, vão embora da sala de A., treinam num cantinho qualquer, retornam e representam a música aprendida. Se tudo é bom, A. os acompanha de teclado. Depois dá lhes um novo trecho rapidamente composto, adaptado à capacidade do respectivo grupo, e manda os embora de novo. É possível formar dos trechinhos uma música inteira, coroada por uns solos das melhoras crianças, que arcam tão diligentemente com o cargo de ensinar aos outros. A televisora gosta muito das ideias e mostra a afã das crianças zelosas e entusiasmadas.
Evanira e outros professores ensinam teoria e teclado, e Francis tem um grande grupo de adolescentes e jovens aprendendo violão. A igreja parece uma colmeia de abelhas; em todos os cantos crianças com flautas que treinam em grupos pequenos. A. vive os dias como em transe. As noites são curtas, o trabalho eletriza, e as pausas são abolidas, porque as crianças querem mais, e além de tudo A. quer instruir solistas para uma música do coral. Sua várias camisas por dia, pois o ar é quente e úmido. Tem já pela manhã 28 graus. Acima de 27 graus, na Alemanha, fecham-se todas as escolas, porque se acha que um tal calor não permite, que as crianças aprendam. Em Vitória, porém, o junho é um dos meses mais frios.
No domingo tem dois cultos, e o da noite é o desfecho apoteótico para todos. Francis despede-se depois e volta à noite para Belo Horizonte, mas A. fica ainda dois dias, convidado na casa do pai de Evanira, motorista aposentado, que mora num arrabalde bem longe, ao norte do litoral. Ele tem seis filhos, entre eles dois pastores. A. encontra também seu Frederico, o ex-cônsul alemão, que fala um alemão perfeito, sendo professor de alemão da universidade aposentado. Ele mostra a A. os lugares turísticos. Três meninas, que aprenderam com A., são, por sinal, netas de seu Frederico.
A. tem também um convite do diretor da faculdade de informática da universidade, que lhe mostra seu trabalho, e encontra Sidney, o presidente da igreja luterana na ilha do Príncipe. Ele lhe conta dos planos a respeito de trabalho com crianças carentes e diz que por falta de regente o coral do distrito não existe mais. Pergunta se A. tem interesse de assumir esses trabalhos. A. responde que precisa de tempo para pensar.
Os dias em Vitória deram vazão a um turbilhão de emoções, porque aconteceu mais uma coisa. Apesar do alvoroço perpetuo e sem cuidar disso acabou achegando-se a duas mulheres, que deixaram bem claro que gostariam de mais. Será que Deus quis que ele ficasse em Vitória? Mas não ficou nisso. No trem A. chegou a conhecer uma moça, rapidamente, ao contrário de sua atitude habitualmente mais reservada, e no próximo dia ela ligou e já falou de casamento. Além disso ligou uma cantora do coral da igreja batista falando da saudade passada nos últimos dias, e no outro dia outra cantora desenfronhou as mesmas ambições. Todas as mulheres e moças eram bonitas e simpáticas. Mas A. não era um xeque árabe podendo casar com muitas mulheres, e por isso ficava meio desnorteado e orou a Deus. Desta vez recebeu uma resposta clara: “Você já sabe, quem é, porque eu indiquei somente uma moça. É Sirley.”
Neste momento lhe foi novamente como se um relâmpago o iluminasse no miolo, por pouco não o fulminando. O mesmo raio de luz viera pela primeira vez, quando Selma pronunciara o nome Sirley, apesar de que ele, naquele dia, não soubesse quase nada dela. Até em comparação com as outras moças era Sirley aquela, a quem A. conhecia menos. Mas confiou na escolha de Deus, que certamente conhecia os dois corações muito bem.

No próximo dia era domingo, e na manhã A. tocou teclado na pequena igreja ao lado da escolinha. Depois do culto Sirley contou os dízimos e ofertas, que coletaram no culto, junto com a outra secretária, sua amiga. A. lhe pediu que ficasse, depois, na igreja. Quando estavam sozinhos A. lhe perguntou sem circunlóquios, se fosse verdade que orasse e aguardasse por ele. Quando chegaram a saber que eram determinados um para o outro, desde muito tempo, e que se tinham achado agora, depois de tantas aflições, em tantos anos, foram levados pela comoção e choravam abraçados. 
Para ter certeza absoluta de que era verdadeiramente a vontade de Deus, combinaram que aguardariam ainda por mais uma semana, orando profundamente, para que o Senhor abençoasse e confirmasse a sua união. Combinaram também um texto bíblico, que queriam ler nesta semana. E o Senhor confirmou seu desígnio. 
No próximo domingo foram, depois do culto, ao parque municipal, onde desfrutavam o seu amor desabrochado num banco perto daquele no qual A. sentava no dia de seu advento em Belo Horizonte. Atrás, no gramado, brincavam crianças, cantando alegremente canções que conheciam da igreja. Um fundo muito especial, que seria inconcebível na Alemanha e muitos outros países, onde o povo vai recalcando a religiosidade. O seu amor era perfeito, possuíam corações idênticos, eles encaixaram como dois pedacinhos de um puzzle. A., mais tarde, lembrar-se-ia da lista dos atributos da sua esposa ideal, que inventara há anos num dia muito triste, e constatava que todos os pontos alistados se achavam em Sirley.
Quanto mais a ia conhecendo, tanto mais ficava surpreendido e rendia graças ao Senhor. E o matiz da sua pele, tirante ao bronze, que A. tinha diante dos olhos desde a juventude, derivou-se de um ascendente índio, que foi misturada com a influência africana e godo-italiana.

A. teve agora o dever incômodo de dar o bolo a sete mulheres, seja pessoalmente, pelo telefone ou pela internet. Na retrospectiva, quando, duas semanas depois, ficou mais tranquilo, viu no calendário: o dia em que recebera Sirley das mãos de Deus, logo depois do culto, era domingo, dia 24 de junho. É que era exatamente o último dia do quarto mês de sua viagem. O Senhor cumpriu a sua promessa de seu modo, que era verdadeiramente uma maneira impressionante. Mas A. era um pouco decepcionado consigo mesmo, porque apesar das demonstrações convincentes com os abrigos achados às seis horas e vinte minutos da noite, não acreditara mais que Deus cumprisse a promessa a respeito da esposa. Ficou nervoso porque achava que dentro de uma semana não poderia achar uma mulher da qual teria certeza de que se iria tornar a mulher para a sua vida. O Senhor não só cumpriu a sua palavra, mostrou também: se eu quiser podes ter em três dias tantas mulheres.
Sentiu vergonha, porque já prometera que nunca mais duvidaria, e de novo virara fraco. Seria a última vez. Agora sabia que a fidelidade para com Deus seria uma coisa inquebrantável na sua vida. Também Sara, a esposa de Abraão, rira das profecias que lhe, aos noventa anos, anunciou um filho, que seria o patriarca da estirpe que formaria o povo de Israel. Mas A. sabia agora: mesmo em circunstâncias que parecessem confusas e desalentadoras nunca mais perderia a fé e a confiança alicerçado no Deus Eterno, seu Senhor.
As semanas seguintes o par recente vive muito apressado por muitos negócios, mas também incrivelmente feliz. Sirley tem além do trabalho e a escola as preparações para as provas finais, e A. continuava com suas variegadas tarefas. Na escolinha não haviam tempo para si além dos cinquenta minutos do almoço. Podiam ficar numa saleta pequena, meio despensa, a sós, falando, trocando afagos, orando juntos e - quase esqueci - comiam. Claramente o apogeu de cada dia, simples, mas perfeito. Aos fins de semana reservavam pelo menos um dia para ficarem juntos. Uma vez foram ao parque das Mangabeiras, que A. agora já conhecia melhor do que Sirley, às vezes eram convidados, e uma vez foram para uma festa de missão da igreja batista de uma cidade perto de Belo Horizonte. Toda a congregação da igreja ao lado da escolinha estava convidada, e foram de ônibus alugado. A sua banda tocou no palco erguido na praça, e A. tocou teclado, e depois tocaram bandas da outra cidade. Sirley e A. estavam em meio dos ouvintes em frente ao palco, enlaçados, debaixo do céu estrelado da magnífica noite brasileira e cantavam as canções que conheciam por grande parte:
“Recebi um novo coração do pai,
  coração regenerado, coração transformado, 
  coração que é renovado por Jesus.
  Como fruto desse novo coração
  eu declaro a paz de Cristo,
  te abençoo, o meu irmão, 
  preciosa es a nossa comunhão.
  Somos corpo, assim bem ajustado,
  totalmente finado,
  unido, vivendo em amor,
  uma família, sem qualquer falsidade, 
  vivendo a verdade expressando a glória do Senhor.
  
  Uma família, vivendo compromisso
  do grande amor de Cristo,
  eu preciso de ti, querido irmão,
  precioso és pra mim, querido irmão.”

Claro que A. cantou no fim, quando se entreolharam, “querida irmã”.

Chegaram os dias das provas do supletivo. Sirley quis fazer quatro matérias. O lugar das provas não estava no centro, e por isso Sirley já deixou a casa às seis da manhã, para descer o morro, esperar o ônibus para o centro, e tomar ali outro para a determinada escola. A prova acabou às dez e meia, e no mesmo dia teria, às quatro e meia, a prova de química. Muito tempo, mas pouco para retornar em casa, gastando em vão tanta energia. Por isso A. a esperou ao portal às dez e meia, e comeram juntos e se sentavam, numa praça, para recapitularem ainda umas lições e esperarem. Durante a segunda prova A. passeou perto, demorando por vezes lendo e estudando um macinho de papeizinhos com vocábulos, que ainda levava sempre consigo. Depois retornaram ao centro, onde se separaram para voltarem cada um em casa.
Não obstante, pairou sobre aquela perfeição uma incerteza ameaçadora. A. não sabia como falar a Sirley do seu passado, desdobrar as coisas terríveis que tinha feito. Gostaria de nunca mais abrir esse capítulo fúnebre, mas sabia, que seria estranho, quando Sirley encontrasse seus pais e parentes e não soubesse de nada. Entre marido e esposa cristãos não podem existir tais segredos.
Ao outro lado não existia ensejo nenhum para diálogo tão sério, que talvez ferisse o coração da moça. Pelo menos antes das provas não quis desconcertá-la ainda mais, a vida era já uma verdadeira azafama, embora fossem tão felizes, e A. não quis enfiar esse aguilhão no coração amado. Orou a respeito ao Senhor, buscando o conselho dele, e ele respondeu: “Pode deixar comigo. Eu mesmo vou antes preparar a Sirley, para que ela entendesse, quando tu lhe contares a verdade.”

Uma semana depois das provas celebraram o noivado naquela igreja pequena ao lado da escolinha. Depois receberam os amigos na escolinha, que Selma e outras professoras tinham enfeitado com muito carinho. 
Sirley e A. liam nesse tempo o “Cântico dos cânticos”, do rei Salomão, livro da Bíblia que descreve intimamente a vida, os sentimentos e ansiedade dos amantes durante o noivado. Juntos aspiravam a poesia antiga, embeveceram mutuamente a beleza do cônjuge, quase não podendo conter mais a ânsia ardente para dar-se com toda a dedicação, esperando por isso o dia do casamento como já os amantes nesse livro, há três mil anos, pois o casamento os tornaria “uma só carne”, em todos os sentidos, e sobretudo unido nas mãos de Deus.
No fim de julho informaram A. que os planos de o estabelecer no Ministério Programa Criança Feliz não deram certo. Por isso teve que cuidar ele mesmo da prorrogação do visto, que acabaria no fim de agosto. A. quis prolongar o visto para que poderiam casar-se no fim do ano, talvez já no outubro, mas foi informado que não seria possível. Teria que esperar no exterior por seis meses e retornar para casar-se depois. A única possibilidade seria casar-se já e pedir o visto permanente sendo casado.
Deliberando juntos com amigos por dois dias, vão, enfim, ao cartório. O prazo do cartório de quatro semanas cabe exatamente no tempo que o visto de A. permite ainda. Mas o casamento civil tão rápido foi possível somente porque A. trouxe todos os papeis necessários. Como Deus planejara tudo com sua sabedoria! Lembrou-se, como recebera de volta seu carro, pouco antes de ir para o Brasil. Só por isso pudera buscar os papeis em R. na casa de seus pais. Só por isso tudo acabava bem e no fim de agosto eram casados. Quer dizer: casados no papel, no civil, sem valor prático para a vida, porque na verdade (diante de Deus) eram ainda noivados.

Havia setenta anos, uma jovem professora, chamada Hilde, trabalhava numa creche da cidade hanseática* Rostock, situada na Alemanha, no Mar Báltico. Chegou um moço duma outra cidade hanseática, chamada Lubeck, também beirando o Mar Báltico, para absolver ali alguns meses de estágio antes de tornar-se professor na escola pública. Namoravam e ela se tornou esposa dele. 

   * Designação para cidades livres e poderosas, sobretudo no fim do tempo medieval, que não estavam sujeitos a governos dos estados, ducados e condados, como hoje o Distrito Federal, no Brasil ou as cidades Berlim, Hamburg e Bremen, na Alemanha, e que formavam a Hansa, união das cidades livres.

A primeira filha levou também o nome Hilde. Apesar de ser uma boa aluna não fez o colégio e preferiu tornar-se professora de creche. Trabalhava em Bremen, também uma cidade hanseática, também no norte da Alemanha, mas desta vez situada no Mar do Norte. Certo dia apontou também um homem, que quis fazer estágio antes do magistério. Era o único que chegou de bicicleta, vindo por cento e cinquenta quilômetros pela região levemente acidentada. Namoravam e esposaram. Seu primeiro filho foi chamado de A. Certo dia surgiu, estranhamente de bicicleta, também numa creche, onde trabalhava uma jovem professora...

Era o tempo quando A. começou a formar um coral de todas as crianças da escolinha entre seis e quinze anos. As duas turmas da manhã e da tarde recebiam aulas para poder apresentar uma programação num centro de compras que doaria uma certa quantidade à escolinha. As crianças gostavam das aulas e as meninas maiores ajudavam ativamente nos ensaios. Algumas crianças recebiam umas aulas extras para estudarem solos que faziam parte do arranjo das canções.
Todo esse tempo decorria para A. e Sirley como um sonho. Um conto de fadas, crivado de amor, harmonia e da consciência de que estavam unidos nas mãos de Deus. O auge, porém, é mesmo o casamento. É simplesmente perfeito. Aparecem trezentos pessoas na igreja batista, que A. conhece e da qual gosta desde o primeiro domingo em Belo Horizonte. O coral canta, unido com o coralzinho da igreja luterana que A. mesmo ensina, e a banda toca as canções a serem cantadas juntas. A pequena congregação da favela apareceu quase em peso. Conhecem bem a Sirley e seu destino, e agora estão aqui para compartilhar a alegria do novo par. Vem também o pessoal do grupo “Pão Nosso” e da igreja luterana, e os familiares. Nove casais de padrinhos acompanham os noivos, entre eles pastor Arnaldo e sua esposa Neusa, Sérgio e Hilda, Carlos, o líder da célula, com sua esposa, e Raquel do projeto “Pão Nosso” ao lado de seu pai. O papel dos pais falecidos da noiva assomem B. e Z., o casal com que Sirley morara como empregada por alguns anos, criando seu filho que gosta até hoje muito da ama. Entram catorze pequenas damas de honra e pagens em seus vestidos esplendorosos e finalmente B., que atualmente era presidente da Câmara de Belo Horizonte, leva a radiante noiva ao altar e ao seu noivo.
O presente especial de A. para Sirley consiste em que ele vai durante o culto ao piano de cauda e toca uma composição que fez para Sirley. É uma música de piano que descreve na língua poética da música a história de Isaac e Rebecca; como o servo de Abraão sai, ainda bandeando entre dúvidas e esperança, para cumprir a promissão de Deus; como o Senhor indica a moça certa e quão grande era a alegria de todos. 
O pastor da igreja batista lembra por sua parte a história de Rute, como consta do livro Rute, no Antigo Testamento, e enfatiza a fidelidade exemplar da moça, que se torna o fundamento da sua felicidade posterior.
“Onde você for, eu irei; e onde você morar, eu também morarei. O seu povo será meu povo, e o seu Deus será o meu Deus. Onde você morrer, eu morrerei também. Que o Deus Eterno me castigue se qualquer coisa, a não ser a morte, me separar de você.”

Demorou por uma hora, até todos darem as felicidades pessoalmente aos noivos, no saguão da igreja. E então chegou a hora que A. podia levar a noiva tão longamente almejada, em casa, onde agora morariam juntos – doravante realmente aproveitando todos os quartos do barracão. Já chegara uma pequena cozinha e os padrinhos fizeram uma vaquinha para doar o dormitório. As coisas de Sirley A. já tinha trazido um dia antes, com ajuda de Marco, seu padrinho e pai de Raquel.
Finalmente unidos! Quase fazia treze anos que A. recebera o chamado de Deus para ir ao exterior e desacatou. Treze anos de amarguras e aflições, que, porém, agora foram extintas. O grande erro de A., que se esquivou do caminho de Deus quando ele lhe parecia acanhado e íngreme, não lógico ao seu ver limitado, teve um desfecho bom, graças à paciência, graça e providência do Senhor. Só agora A. enxerga todo o grande plano de Deus. Aos quinze anos, achara instintivamente as palavras certas para entregar a sua vida ao Senhor. Deus, pois, não escraviza a ninguém, e os seres humanos fiquem com o livre arbítrio. Segue-se, portanto, que podemos repor o livre arbítrio nas mãos de Deus, entregando lhe corpo e alma, tornando-se praticamente escravo ou escrava dEle. Pode-se dizer escravo ou servo, mas importante é que não fica nisso. Viramos desta maneira também filhos de Deus e irmãos e irmãs de Jesus. A., aos quinze anos, não soubera que as palavras teriam tanto peso e tantas e tais consequências. Ninguém o lhe explicara, mas soubera da Bíblia e das cantigas e hinos da igreja da saudade de fazer parte do Senhor. “Senhor, sou seu”, confessou já, há quatrocentos anos, um poeta alemão. Um outro escreveu:
“Ó senhor, tire a mim, o que me separe de ti. Faça com que me volte só a ti; tire-me a mim mesmo e dá-me a ti, para ser a sua propriedade.” (Nicolaus von der Flue)
A quem se tornou filho e escravo, o Senhor protege como uma criança, mas educa-o também, e no caso da obstinação recalcitrante, duradoura e inquebrantável usa até corretivos duros para evitar maiores danos.
Acudiu-lhe uma parábola:
Era um país com grandes contrastes. Havia regiões com guerra civil, fome e miséria, e havia distritos ricos. Mas mesmo ali as pessoas eram infelizes, pois não achavam um cônjuge certo para a vida, usavam drogas, procuravam o divertimento rápido e ligeiro e achavam, contanto, somente um certo atordoamento do grande vazio no seu interior. Caíam em erro fatalmente e amiúde, acharam cônjuges que não combinavam com eles e resolveram muitas coisas de maneiras imperfeitas que criavam cada vez mais problemas.
Vivia lá entre eles um homem rico que estava diferente. Possuía o dom de poder ver e ler os corações e pensamentos das pessoas, e podia ver o futuro. Claro que desta maneira conseguia tudo. Achara para si uma esposa ideal, que era o seu encanto todos os dias. Escolhia para sua empresa somente empregados sinceros e bons, com coração limpo, e tudo lhe prosperava. Seus filhos aproveitavam os dons do pai e aceitavam os conselhos dele, achando assim sempre o caminho certo, esposas e maridos ideais, profissões que lhe eram fonte de contentamento, amigos sem falsidade, etc.
Possuía também escravos, e sendo ele um homem bondoso os tratou como suas crianças, com justiça e carinho, e eles viviam em felicidade. As outras pessoas viam a felicidade cheias de despeito e inveja, porque cansavam-se debalde à procura de felicidade. Certo dia um homem empreendeu uma ideia espontânea. Foi ao homem rico, que possuía os dons sobrenaturais, e perguntou-lhe:
“Se eu fosse escravo do senhor, o senhor me trataria também desta maneira?”
“Pois não.”
“Aceite-me, então, como presente, para eu poder ser seu escravo.”
Quando os outros viam que esse ato trouxe-lhe, de fato, muita felicidade, muitos seguiam esse exemplo e viviam depois muito contentes. Mas a maioria das pessoas arrenegava o que eles faziam, achando que teriam que achar eles mesmos a chave para uma vida melhor. Declaravam que esses “escravos” não seriam felizes, e sim hipócritas, simulando a alegria. Sentindo, todavia, no seu interior por vezes que estes eram verdadeiramente contentes, começaram a odiá-las.

A. sabia agora, que fora todo o tempo uma criança de Deus, mas uma que perdera rumo e caminho, conforme o filho pródigo, ou filho perdido, como se fala também (Lucas,15.11). Era somente a obra do Senhor que, enfim, achou de novo a vereda certa. Fora chamado por Deus para ir ao exterior, mas não obedecera. Pelo contrário, enraizara-se na Alemanha, tentara estabelecer uma família e empreitadas que pareciam importantes. Deus não surgira em pessoa nem mandara um anjo como no caso de Maria: tudo se desenvolvera por ocorrências estranhas, mas que se semelhavam com meros coincidências e acasos. Assim como o profeta Jonas, quem foi salvo do mar enfurecido por uma veleidade não sobrenatural, mas muitíssimo raro, dum cachalote, quando Jonas chegara ao ponto extremo, ao impasse mortal, que registrara consciente. Também ele só viu um furo nessa enrascada: a morte. Deus, porém, não virava as costas a A. Abarrotava as portas erradas e estreitava o caminho errado. A., cego, via os empecilhos como uma grande injúria ou um azar perpétuo, mas desta maneira Deus o salvava do abismo, como a Jonas e como ao povo de Israel, e assim A. não perdia a sua atual felicidade nem a vida eterna. Tantos anos, Deus o chamava com tanta paciência. A. não merecia tanta paciência, mas por infinita graça e misericórdia Deus não o deixou. Podia somente agradecer, sabendo-se humilhado e envergonhado diante da grandeza e piedade do Senhor. Guardaria o agradecimento profundo para todo o sempre.
A. e Sirley, sua querida esposa, poderiam contar muito a outras pessoas, para que não todos tivessem que atravessar um destino tão duro até perceber a mão de Deus. Mas assim como Paulo, o apóstolo, sabia que nunca deveria gabar-se do saber e das experiências que cavara graças ao Senhor, porque caíra num brejo de pecados e somente tresmalhara pela piedade do Senhor. Todos os anos, que vivia errando, o Senhor falava com ele e até pegava no duro para encaminhar a A.
“De noite, na cama, quando dormimos um sono profundo, ele fala por meio de sonhos ou visões. Deus fala aos nossos ouvidos, e os seus avisos nos enchem de medo. Ele fala com a gente para que deixemos de pecar, e para que não nos tornemos orgulhosos. Assim ele nos livra da morte e não deixa que nos joguem na sepultura.” Palavras de Jó (33.15ss), escritas há 2500 anos.

A lua-de-mel estava limitada a três dias, porque Sirley não podia perder as aulas para o supletivo. Alugaram um carro e procuravam a solitude e o silêncio tranquilo da Serra do Caraça, morando no famoso mosteiro Santuário do Caraça, que era, nesta época, pouco frequentado por turistas. As caminhadas montanhesas para grutas e cascatas emolduravam seu amor repleto e transcendente. Tantas vezes citavam palavras da Bíblia:
“Como você é bela, minha querida. Como você é linda! Como os seus olhos brilham de amor, minha Rosa de Sarom, meu lírio dos vales”, dizia e pensava A. conforme, há três mil anos, o galhardo rei Salomão apelara a sua noiva.  Cada vez quando via a sua noiva Sirley, que recebera de Cristo, caminhar nas veredas estreitas sob a luz do sol, entusiasmava-se e seu coração soltou júbilos efusivos. 
Na ida, quando viajaram em seu pequeno Gol alugado, A. descobrira mais uma surpresa, quando olhou no espelho. Estava ainda de cavanhaque, sobretudo porque Sirley gostava de A. assim como o conhecera e não de bigode, como no passaporte. E de repente soube por que tivera um sentimento tão estranho quando no duodécimo dia de sua viagem de bicicleta sentava ao lado de uma fonte e um Gol branco parara. Saíram um funcionário de uma ONG, branco, de cavanhaque e de óculos, e a mulher mulata, bonita, mas vestida com decência. Enxergara, neste momento, sem saber, um instante de seu próprio futuro.

Certa noite, quando Sirley saiu do ônibus perto de sua casa, parou um carro e um desconhecido se ofereceu a levá-la em casa, por causa da chuva. Sirley não quis, embora o homem a instasse. Sirley virou-se e tocou para casa. O homem passou o intricado sistema de ruas de mão única e esperou na próxima esquina. Mas Sirley o rejeitou de novo. Agora o homem ficou ao seu lado até que ela desvaneceu no portão da garagem que levava ao barracão. Sirley afligia-se ainda mais, porque muitas vezes tocava o telefone, mas ninguém falava no outro lado, ouvia-se somente às vezes a respiração de uma pessoa.
Neste tempo A. foi novamente convidado para Vitória. Uma vez para treinar o coro da Igreja Luterana no centro, onde já estivera, para um concerto, e outra vez para liderar um fim de semana com cursos de música numa outra igreja. Desta vez viajava sozinho. Não tinha mais interesse para olhar mulheres, porque já sabia que ganhara a mais bela e boa para sempre, mas mesmo assim percebia que geralmente no trem não viajavam moças sozinhas. Foi então mais uma das “coincidências” que ele encontrasse na viagem anterior uma moça no trem, que queria namorar com ele. Sabia: se Deus quisesse, um homem acharia uma esposa em lugares e dias, onde se menos espera.
Desta vez a demora do trem chegou a duas horas. Já estava escuro quando A., na plataforma aberta entre dois vagões, aspirando o ar da noite, olhou a paisagem enegrecida e tomou de vez em quando um papelzinho com vocábulos para mascá-lo meditando. Aí surgiram de longe as primeiras luzes, anunciando Vitória, e neste momento uma frase estava na sua consciência: “Nesta cidade vão te prender.”
“Que isso”, pensou. “Se for assim, não irei mais a essa cidade.” Mas ele foi informado, que não adiantaria nada.
“Ai, Senhor”, implorou. “Agora me deste de presente uma nova vida. Será que perderei tudo? Na verdade, a minha culpa já está paga. Cumpri dois terços da pena, como é comum. E, além disso, sofri tanto! Mas...”, curvou-se enfim, “eu sei. Somente a tua vontade vale, pois é santa.”
Repetiu as palavras de Jesus que este falou diante de um sacrifício muito pior: “Pai, se é possível, afaste de mim este cálice de sofrimento. Porém não seja feito o que eu quero, mas o que tu queres.”

A segunda viagem nestas semanas para Vitória lhe arranjou muitos novos amigos numa outra igreja. Ensinava e apresentava com o coral uma música composta para o mesmo ensejo, revelando os fortes do coral e o que aprendiam nos cursos, para dar o louvor ao Deus Eterno cantando diante do trono, pondo o júbilo, o agradecimento e a beleza do canto aos pés do Senhor. 
A congregação convidou a A. para ficar em Vitória, onde aguardariam tantos alunos e tantos trabalhos. Também a Igreja Luterana do centro repetiu a sua oferta. Em Belo Horizonte o trabalho de A. e Sirley estava espalhado em várias igrejas, uma situação difícil. Até então nem decidiram qual seria a sua igreja comum, no futuro, e oravam para que o Senhor lhes mostrasse o lugar, onde poderiam colocar as suas vidas à disposição dEle. Desta vez estavam prontos, com todas as consequências. Sabiam: Mesmo que o Senhor os chamasse para a Sibéria, iriam sem hesitar, porque Ele sabe sempre o que faz, por que e para que delegar um seguidor para lá ou para cá. Ele é quem ministra os talentos e dons, meios e recursos das pessoas escolhidas, e Ele é quem une cônjuges e times de obreiros e irmãos cristãos. 
Esperavam até ao dezembro, e vendo que os convites de Vitória eram os únicos chamados, aceitavam-nos como vontade de Deus. Desta maneira os dias diante do Natal, cheios de múltiplas atividades, tornavam-se o fundo para a despedida comovente de Belo Horizonte, a cidade que reunira dois corações que tinham esperado treze anos um pelo outro. 
Sirley aproveitava os poucos minutos que lhe sobravam, para preparar as seis matérias do supletivo e A. fazia os últimos ensaios para apresentações, concertos e os cultos de Natal. Esse primeiro Natal no verão brasileiro era uma coisa muito diferente para ele, mas o encanto e os afetos dos brasileiros o cativaram logo, sobretudo o fato que era a primeira vez que celebraria junto com a pessoa querida, com quem estaria agora ligado para sempre.
A despedida da escolinha era muito comovente. Dois dias diante do Natal era a solene formatura para aqueles que iriam visitar uma escola. A escolinha em bloco foi à grande igreja batista, matriz da escolinha. Como de costume escolheram um paraninfo da turma, que desse uma lembrança às crianças e falasse algumas palavras. Nesse ano fizeram A. paraninfo, uma honra carinhosa depois do ano, que viviam juntos.
Sirley, contudo, não fez parte da celebração. Fazia quatro dias que acontecera uma coisa que a abalara profundamente. Quando A. retornara em casa, terça-feira à noite, depois das aulas de canto para vários alunos na igreja luterana, viu logo a luz acesa no quarto. Sirley não estava na escola do supletivo? Quando entrou, achou a amada mulher debulhada em lágrimas, ao comprido da cama. “Ó A., aconteceu uma coisa terrível comigo.”
Pela manhã Sirley estivera junto com seu grupo de crianças, na maioria com cinco anos. Quando um menino disse uma coisa pirracenta, ela lhe atirou o furador de papel na cabeça, causando um pequeno ferimento. Nunca lhe ocorrera coisa semelhante, ao contrário, era tranquila e ajuizada, conceituada como professora ideal para crianças difíceis e obstinadas. Também não existia razão para cair fora de si, porque a resposta do menino não era coisa grave. Como se de repente um poder alheio lhe tivesse dirigido mente e mão.
A diretora suspendera Sirley logo, sobretudo porque temia a reação dos pais, que porém, depois não achavam a coisa muito grave. Mas a diretora sabia que Sirley sairia da escolinha de qualquer maneira. 
Sirley, contudo, ficava acamada como paralisada, sofrendo dores de cabeça terríveis e a pergunta urgente: por quê? A. vivenciava esses últimos dias diante do Natal como num sonho túrbido. Todos os lugares queridos, as igrejas, onde as crianças cantavam, a formatura, e a própria escolinha, estavam vazios sem a moça que queria tanto. Como que lhe faltasse uma parte de si mesmo, ele era uma alma sem corpo ou um corpo sem alma. Seu coração andava em luto, em meio das celebrações alegres. Como podia compartilhar a alegria das crianças quando Sirley estava abatida? Claro, aprendera nos últimos anos a dominar seus sentimentos rigorosamente, e por isso não lhe era difícil esconder a tristeza no seu interior, mas doía muito.
Além disso, sabia logo, quando achara a querida esposa assim em lágrimas, que era o sinal de Deus. Chegara o momento para desvendar o seu passado escuro. Sirley que sempre vivera dedicada ao Senhor, ingênua, pura, quase sem manchas pecaminosas, percebera pela primeira vez quão perto pode ser o abismo. Uma só reação falsa e fazemos algo que não queríamos e de que nos arrependemos depois!  Na maioria dos casos não acontece nada de grave ou acaba com um dano ou ferimento sem importância. Mas um tio de A., professor na escola pública, perdeu um olho por uma pirraça feito sem pensar, sem malicia sequer, e outras vezes semelhantes atos destroem uma vida ou, como no caso de A., as vidas de muitas pessoas inclusive a dele mesmo. Visto desse ponto de vista Sirley tivera sorte, porque o pirralho já riu noutro dia da aventurazinha e nem por isso amava menos à sua professora. Mas agora Sirley certamente poderia entender melhor o que A. lhe teria que dizer.
Desta vez não ouvira nenhuma voz, mas reconhecera logo o sentimento que Deus estava lá para lhe falar ou dar um sinal. Foi quase como o relâmpago que sentira quando Selma lhe falava o nome Sirley. A. esperava então para que Sirley se recuperasse. Tinha, pois, de vencer a crise entorpecente para levantar-se da cama e fazer ao sábado diante do Natal as últimas provas do supletivo. Era o mesmo dia da formatura solene da escolinha.
Deu, pelo menos, para que pudessem ir juntos à igreja, no domingo, e à tarde visitaram juntos com algumas crianças da escolinha um teatro musical que foi apresentado por crianças de outro projeto beneficiário. Que prazer estar de novo junto com a querida Sirley!
O dia seguinte era o dia 24, Natal. Evocaram A. e Sirley as lembranças sorumbáticas dos tantos anos de solitude, cuja suscetibilidade neste dia sempre recrudesce. Não lhes faltavam convites de familiares e amigos, mas na verdade sentiam muito forte a ausência do cônjuge, o que deixara vestígios tristonhos. Era por isso que desta vez rejeitaram todos os convites para desfrutar ao máximo a convivência a dois.
Antes da noite de Natal estiveram no culto da igreja luterana onde o coral novo sob regência de A. cantou várias músicas tradicionais. Quando ele regia o coral, sentiu fortemente a felicidade, porque Sirley estava com ele, e estaria ainda toda a noite de Natal, em harmonia e sintonia perfeita, da ceia do Natal até as orações e os presentes, que eram pequenos, mas dados de corações amantes, tudo crivado por seu amor visceral e indefectível.
Ao dia 25, visitaram a irmã de Sirley, que tem dois garotos. À tarde A. partiu cedo porque o coral luterano quis cantar em casa de alguns membros idosos e doentes, para levar a eles a Boa Notícia Natalina. Cíntia, a filha do pastor, já tinha impostado as vozes com os exercícios aprendidos de A., nas aulas do coral e de canto solo, e A. assumiu o timão só no último momento quando chegou de táxi. Pegou num violão e já começavam. 
Era muito comovente e deu muitos olhos úmidos e apertos de mãos e abraços dos doentes agradecidos, que ouviam os cânticos e umas palavras confortantes do pastor Arnaldo. Um velho lembrou-se ainda do texto de “Ó vinde, meninos” em alemão. Viera ao Brasil aos oito anos. Todo o coral zumbiu a melodia sem texto, enquanto A. cantou em alemão. O homem, embalado nos braços da filha, verteu grandes lágrimas. 
Às seis horas, estavam de volta com a velha Kombi, de frente à igreja, e logo A. percebeu alguém sentado diante do portão. A sua querida Sirley! E mais o sobrinho mais novo, um brotinho bonito e inteligente de dez anos, que acompanhou a tia dele. O jantar do coral no subsolo da igreja trouxe uma grande surpresa para A. e Sirley. O coral despediu os dois depois dessa última ação com palavras muito carinhosas e um monte de presentes. Eram tão surpreendidos porque Sirley estivera aqui só poucas vezes, e tampouco A. tinha feito coisas grandes. Mas todos sabiam muito bem, que o agradecimento verdadeiro visa sempre o Senhor que instala os seus em lugares onde podem fazer os outros felizes, tornando-se desta maneira mesmo felizes.
“Soli deo gloria” (Somente a Deus a gloria) era o mote de Johann Sebastian Bach com que assinava várias vezes suas músicas consagradas e sublimes, e ainda hoje A., às vezes,  escreve assim em baixo de suas composições, porque elas são orações que louvam e adoram aquele que espalha tantos presentes para os que querem viver como crianças com ele, assim como Jesus o ensinara e vivera, que nascera, há dois mil anos, numa lapa ou estábulo. 
As próximas duas semanas estavam cheias de preparações para a mudança. Sirley regateava com umas vinte empresas e recebia ofertas de quinhentos a dois mil reais. A. dava últimas aulas para todos os alunos, desde que não estivessem nas férias. Compilava as regras e exercícios de canto para abastecer Cíntia com a matéria necessária para prosseguir com o coral. Ainda estavam a fazer várias passadas com relação à mudança, troca de emprego, de linha de telefone, médicos, etc., e além disso, Sirley quis despedir-se pessoalmente de alguns amigos e parentes. Em breve, os dias estavam tão repletos, que nem sequer resolveram tudo. Chegou então o caminhão, e restava uma última noite sem mobiliário na casa vazia. Dormiram só com o saco de dormir de A., no chão.
À manhã seguinte, às seis horas, levaram a bagagem ao ponto do ônibus que os levou à estação do trem, que partiu às sete horas. Agora era a vez de Sirley ver pela primeira vez aquela paisagem bonita, os montes, os túneis, e o trecho comprido ao lado do ribeiro rumo ao leste. Como era comovente a viagem para A., que já a fez umas vezes, mas agora levou consigo a sua esposa querida. Aproveitariam o resto das férias em Vitória com as praias e começariam no fevereiro, depois do carnaval, com seus novos trabalhos. Desta vez chegaram sem atraso, e o jovem presidente recém-eleito da Igreja Evangélica Luterana do centro veio buscá-los na estação. A moradia seria no andar superior da igreja, onde A. já matara parte duma noite fabricando cadernos, quando do primeiro mutirão de música ali. Mas ainda estavam algumas alterações a fazer, e por enquanto moravam com uma mulher da igreja, que se tornou logo uma verdadeira irmã em orações, nas refeições comuns, etc. Era descendente de pomeranos, vindos de Pomerânia, estado antigo da Alemanha. Trabalhava em casa, como costureira, e teve um filho pequeno e muito vívido. Uma semana depois, os trabalhos no seu futuro apartamento na igreja acabaram e depois do culto do domingo homens e jovens reuniram-se para tirar os moveis do lugar e transportar o mobiliário de A. e Sirley do subsolo da igreja, onde estava depositado, no seu devido lugar. À segunda-feira reconstituíram o belo dormitório, presente dos padrinhos do casamento, aparafusaram até alta noite, e finalmente puderam dormir lá pela primeira vez. 
No domingo passado tinham conhecido um regente de corais da Santa Catarina, que veraneava em Vitória com sua esposa e duas filhas prendadas, que tocavam piano. Quiseram aproveitar a estadia em Vitória para cursar-se, aprendendo de um maestro diplomado da Alemanha, país de Bach, Beethoven, Mozart e outros tantos músicos famosos. Combinavam aulas cotidianas. 
Sempre conheciam mais amigos na igreja que estavam felizes pela perspectiva dos planos e projetos que começariam. Também as crianças da favela, que já conheciam a A., espalharam a boa notícia. Mas ainda estavam nas férias; ao sábado os músicos responsáveis da igreja se encontrariam para planejar o futuro. 
A primeira noite no seu quarto reconstruído era, porém, não muito agradável, porque ainda lhes faltava a experiência como afugentar os pernilongos antes de deitar-se. Estavam então bem afadigados, à manhã, mas logo o café improvisado em meio da bagagem tirou o cansaço. Sirley começou a abrir as caixas enquanto A. remontou os móveis.
A. sabia que agora chegou o tempo de abrir-se com Sirley a respeito de seu passado. Agora estavam sozinhos, esperou somente um momento tranquilo. Esperara tantos dias, porque nunca tinham tempo para si ou não estavam sozinhos. Agora não havia mais pretextos para adiar a tarefa. Como Sirley aceitaria a coisa triste? Sabia que a confiança de Sirley na sabedoria superior de Deus deveria ser inabalável, mas mesmo assim teve medo. 
À noite dessa terça-feira o regente de Santa Catarina veio buscar A. de carro, para que desse as aulas na casa do sogro, onde a família passava as férias. 
Estavam lá ainda outros parentes músicos para assistir as aulas. Comiam o jantar juntos e falavam sobre as aulas e a música em geral.
A. e Sirley dormiram cansadíssimos, mas felizes. Já estava pronto a maior parte do pequeno apartamento.
À quarta-feira visitaram pastor A., um dos dois pastores da outra igreja em Vitória, onde A. tinha dado aulas e tinha recebido um convite. Almoçaram com o pastor e sua esposa muito charmosa e afável, e discutiam projetos musicais para a igreja. A esposa jovem, que sabia tocar piano, pediu também aulas particulares. Era mais um dia ameno e feliz, e à noite A. deu de novo aulas para a família da Santa Catarina. Sirley não aceitou o convite, porque quis desembrulhar o que ainda restava no apartamento, mas prometeu que iria ao outro dia. A. retornou tarde, mas tiveram uma noite em completa harmonia. Seria o momento de contar tudo, mas depois de tanta azafama A. não quis já turvar a primeira noite tão perfeita e adiou o que teria de confessar por mais uma vez. 
À manhã acordaram tarde. Estiveram ainda com o café quando chegou um telefonema misterioso. Pastores da Igreja Quadrangular queriam encontrar-se com A., como explicou uma moça, sem revelar detalhes. Meia hora depois – ainda estavam a tomar o café – chegaram dois homens que se apresentaram como tais pastores, mas logo depois se revelavam policiais que prenderam A.
O choque sobressaltou a todos, cruel e de chofre: os membros da igreja, as crianças que esperavam as primeiras aulas, os corais diante de tantos planos, mas, sobretudo Sirley, que agora teve de ouvir a verdade pelos pais de A., ao telefone, por ligação internacional e com ajuda de um intérprete. Todo o seu futuro tornou-se um roldão túrgido, não podia conceber um pensamento claro sequer. Os irmãos da igreja não a deixavam sozinha, levavam-na para uma casa duma família, mas depois de alguns dias procurou a solidão de seu quarto onde podia chorar à vontade.
As lutas seriam duríssimas. Além de problemas financeiros, a questão da futura moradia e o amargo sentimento da perda irreparável ela tinha de confrontar ainda amigos que não enxergavam o grande plano de Deus e a aconselhavam a um divórcio. Eram palavras que deixaram ferimentos e contusões no seu coração. Embora orasse dia e noite ao Senhor não podia matar o sentimento doloroso de ter sido abusada e equivocada pelo próprio marido. Qual era o crime que talvez tivesse cometido por que foi castigada tanto? Sabia de tudo o que o Senhor lhe tinha feito, mas nessa injunção as dúvidas arrastavam-se quais serpentes peçonhentas pelo seu coração, e a tristeza era infinita e sem consolo algum. 
Remudou-se para Belo Horizonte, onde moravam os irmãos e onde estava um pouco mais perto de Brasília, para onde sequestraram seu marido. Eram ainda assim oitocentos quilômetros, ida de catorze horas, de ônibus, e a volta de outras catorze horas, em meio da semana, inconciliável com um emprego ou a escola. Confortava-se a si e ao marido com palavras da Bíblia. Logo na primeira carta escreveu-lhe do esplêndido exemplo que deixou o rei judeu Josafá, neto do neto de Salomão. Era antecessor e ancestral dos reis que A. estudou durante a viagem de bicicleta. Reinava, então, uns cem anos antes. A história consta também dos livros Reis e Crônica. Sirley deparou com uma feita desse rei, quando leu um livro sobre o Pai Nosso, presente de A., para o recente aniversário. 
Antes da batalha gravosa contra dois povos desafetos, que atacavam Judá, o rei orou com seus guerreiros ao Senhor e chegou a louvá-lo com cânticos e hinos emotivos. Confiou tanto no Senhor que tinha certeza de que iam vencer, e por isso louvou a Deus.
Isso se tornou lema para A. Em meio da crise, da aflição, à vista do exército inimigo, a gente louva a Deus. Sim, será um tempo longo e aflito, entalado numa cela estreita, úmida e sem janela, sem móveis nem colchão, sem leitura, sem rádio sem televisor, sem comida suficiente, só com quatro livros, que trouxe, sem permissão de trocá-los. 
Quis, porém, aceitar o decreto de Deus, quis beber o cálice que o Pai querido lhe outorgou, para pagar com o sofrimento uma culpa diante do mundo. Deus decidira desta maneira, apesar de que prejudicasse também outras pessoas inocentes como as crianças, das quais A. cuidara, e sobretudo Sirley, sua própria filha e escrava fiel que teria que sofrer tanto. Claro que A. quis assumir sua parte sem se queixar, e ele pôs-se a compor cânticos de louvor ao Senhor. Cantou-os e sonhou o dia no qual, de volta na liberdade, pegaria no violão ou tocaria piano para louvar o Deus Pai, com os irmãos na igreja.
Sabia que o Senhor escolheu bem o dia, no qual o tinham detido. Teria sido muito pior algumas semanas antes, destruindo as preparações para o Natal, ou, ainda pior, do casamento. Deus lhes concedera até uns dias alegres em Vitória, mas tirou-o do trabalho antes do início dos projetos no lugar novo, para que não seriam destruídos os primeiros frutos do projeto, prejudicando a todos. Claro, pôde ser uma coincidência, mas agora A. sabia tanto sobre a maneira do Senhor agir, que imaginou que Ele tinha o arranjado para o seu bem.
Fora inevitável cumprir a pena. Sem isso pairariam para sempre o medo e a incerteza acima de A.
Já tinha cumprido dois terços da pena e a fuga não se pune, na Alemanha, mas para obter a liberdade condicional teria que falar com diretores e psicólogos, que o reprovariam, porque ele nunca renegaria a sua fé cristã. E isso significa, para psicólogos ateístas, reincidência, imaginação doentia, hipocrisia, pedantismo e presunção. Ficaria agora dia e noite neste cubículo de concreto, excluído até dos cultos, que os presos evangélicos celebravam todos os dias no pátio, que era, todavia, proibido para estrangeiros. E além de tudo teria ainda que confrontar muitos presos que o arrenegariam e odiariam por causa dessa fé em Jesus e a esquivança com que evitou tudo o que é vil, cruel, criminoso e sem amor.
Possuía, contudo, uma coisa que lhe faltara às vezes, quando tinha viajado de bicicleta: Lá tinha consigo somente uma capa de chuva leve que durante de aguaceiros duradouros não sustentava. Pouco a pouco a chuva traspassou a barreira insuficiente e o molhava. Tinha sido com ele assim também na prisão na Alemanha. Quando fora detido não pensou como um criminoso encarniçado, mas, ao contrário, como um paisano muito sincero que nem sequer sonega impostos, fala mal dos outros ou sonha de coisas imundas. Mas a pressão permanente de arranjar-se com os outros presos e os vigias, lhe instilavam, gota a gota, a maldade, corrupção e podridão, traçando pouco a pouco seu interior. Para o tempo duro na isolação da prisão brasileiro e depois na prisão alemã Deus lhe deu uma capa impermeável e resistente como aqueles casacos amarelos de gabardina usados por pescadores nas bandas frias e chuvosas. A capa ricocheteava como um escudo malvadez, crueldades, perversidade, pornografia, planos criminosos, tudo o que ouvia dos outros presos, e também todas as dúvidas próprias e, outrossim, todos erros ou maldades do pessoal da prisão. Não se enchia de amargura quando os presos gritavam de uma cela à outra, gabando-se de feitas perversas e insolentes, nem sentia inveja quando o pessoal tolerou ou até entregou aos grandes criminosos drogas, celulares, armas, comida e tantos outros extras, enquanto ele nem sequer recebeu as revistas, que o próprio embaixador alemão lhe mandava. Somente sorria e continuava com seu trabalho: estudaria, aprenderia e decoraria todos os vinte e cinco mil verbetes do minidicionário português e leria a bíblia portuguesa; trabalho difícil e cansativo, desprovido de mesa e cadeira. Mas ele sabia que assim poderia servir ainda melhor ao Senhor, quando de volta ao trabalho. Quando a gritaria se tornava insuportável, tiros estalavam ou direitos básicos como uma hora no pátio ou três pequenas refeições por dia foram cancelados, entupia os ouvidos com tampões e vestia, na imaginação, a capa de gabardina. Era tão impermeável porque fora feito de um material de altíssima qualidade e valor. Misto de sabedoria e poder de Deus, a providência patriarcal, do Espírito santo como invólucro como um casulo, e da conjugação firme com Cristo Jesus, filho verdadeiro de Deus, que conhece todos os sofrimentos e as fraquezas humanas. E o último ingrediente para o tecido da capa era o amor inquebrantável de sua irmã, companheira, amada e esposa, jungida com ele para sempre.
Uma alma que tinha sido muito doente, que estava quase perdida, acabou achando a paz. 
“Amor”, escreveu Sirley. “Sei que se não fosse a mão do Senhor nos segurando, o imenso amor Dele por nós, a certeza do meu amor por você e seu por mim, eu não subsistiria a tudo isso. Mas graças a Deus que nos dá a vitória em tudo por Cristo Jesus, seu Filho Amado, nosso mestre, nosso Redentor, nosso intercessor, junto a Ele.”
E no outro dia citou o que Deus tinha dito ao profeta Isaías, nos idos do antigo Israel: “Eu sou o Senhor, o seu Deus, que te ensina o que é útil, e te guia pelo caminho em que deves andar.” (Isaías 48.17)
“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.” (Isaías 55.8+9)
“Na minha ira e no meu furor eu me escondi de você por um momento, mas com amor eterno eu terei compaixão de você. As montanhas podem desaparecer, os montes podem se desfazer, mas o meu amor por você não acabará nunca.” (Is. 54.8+10)
Uns doze ou treze anos A. e Sirley tinham esperado um para o outro. Agora se acrescentariam mais dois ou três anos, em soma pelo menos catorze anos. Igual a Jacó, o filho de Isaac e Rebecca, que tinha esperado catorze anos por sua Raquel. A. sabia que era uma injúria que tinha de ficar preso por tanto tempo, sem direito de sair depois de dois terços ou até antes. Mas também Jacó não reclamara embora a noiva lhe era prometida já para depois de sete anos e a demora era uma injustiça. Assim também A. ficaria o tempo adicional sem se queixar, calado, voltado somente a Deus, agradecido e consolado, porque como Jacó já tinha o prêmio às vistas: a irmã querida, sua esposa.
“Anunciarei o amor de Deus Eterno e darei graças por tudo que ele tem feito; pois o Eterno nos abençoou ricamente, ele mostrou grande bondade para com o seu povo por causa da sua compaixão e do seu grande amor. O Deus Eterno disse: Vós sois o meu povo; sois filhos que nunca me trairão.
E por isso ele nos livrou de todos os sofrimentos. Quem nos salvou foi ele mesmo, por causa do amor e da sua compaixão (Is. 63.7ss).
Ele te pegava e carregava no colo, todos os dias, ano após ano. Mas tu se revoltaste contra Deus e ofendeste o seu Espírito. Por isso Deus se tornou teu inimigo e começou a lutar contra ti.
Somente então te lembraste do passado, de tudo o que te tem feito, como antes resgatara o povo de Israel, com feitas prodigiosas e profecias, da escravidão no Egito. Somente então saíste para buscar ao Senhor, o Deus que já inspirou seu servo Moisés, há três mil anos. Estavas perdido, sem saída, como o povo de Israel, diante do mar, perseguido pelas tropas do faraó, e o Senhor dividiu as águas para que o seu povo passasse seguro. O Espírito do Deus Eterno os estava levando para um lugar de descanso. É assim que o Senhor guia o seu povo. Ó Senhor, queremos viver para sempre em teu amor e em tua paixão. Pois Tu és o nosso Pai.”

Posfácio


Sirley conhecia a prisão de A., porque alguns anos ela o visitou em sua cela, como descrito em página 246: “Entrei em um prédio feio e repugnante num meio frio e inóspito. Subi uma escada estreita para o terceiro andar. Ouviam-se atrás das portas fechadas várias vozes de homens. No terceiro andar abri a primeira porta. Lá estava meu marido, sentado na cama numa cela muito triste. O quarto estava vazio, além da mesa e cama. Não tinha livros ou outras coisas.”
Na época, ela não sabia de que se tratava, agora ela o sabia: a prisão de Hamburgo. Ela orava para seu marido voltar em breve, assim como o advogado o prometeu. Também A. sempre estava esperançoso. Mas eles tiveram que esgotar o cálice até o fim.
Depois da extradição para a Alemanha, A. trabalhava na prisão numa marcenaria e ganhava um pouco. Não gastou nada, mas mandou tudo para Sirley puder alugar uma casinha. A igreja luterana lhe deu um emprego como secretária no projeto social naquela casa na periferia, que A. conhecia bem.
Mas o tempo passou e Sirley sucumbiu no segundo ano à pressão de alguns amigos. Eles alegaram, que o casamento não seria válido, porque ela foi enganada quanto à pessoa, com quem casou. Não sabia, que era um “criminoso”. Com o tempo não escreveu mais a A., que sofreu muito com isso, mas continuava mandando cartas e o dinheiro. Quando A. finalmente foi liberado e foi para Belo Horizonte para viver com ela e trabalhando na área da música, ela não quis mais viver com ele. 
A igreja tentou reestabelecer o casamento, mas não deu certo. Quando Sirley definitivamente terminou a relação, A. ficou muito abatido. Mas teve certeza: era uma provação que Deus mandou para testar a sua fidelidade. Teria que esperar a Sirley, assim como ela o esperava por quase dois anos antes de desiludir-se e perder a esperança.
A separação fazia com que nem Sirley nem A. podiam mais trabalhar na igreja. A. pensava até em voltar para a Alemanha, mas acabou por ser chamado novamente para o Espírito Santo, onde começou um projeto ensinando a muitos alunos e alguns corais. Todos foram sincera e francamente informados pelos responsáveis de que o professor, alguns anos antes, teria cometido um assassino, mas se arrependeu e já teria feito um bom trabalho em Belo Horizonte. Esperava cada vez mais sua esposa legítima se reunir novamente a ele, mas ela não quis e se isolava. 
A. ficou muito triste e não sabia, o que acontecera. Será que ele novamente errou e destruíra desta maneira seu casamento divino? Será que aconteceu o mesmo como naquela noite na viagem de bicicleta, quando Deus lhe forneceu um galpão para dormir, mas A. estragara tudo por usar uma vela sem pensar em que chamaria assim a atenção de moradores. Mas o que exatamente foi o erro desta vez? O fato de não ter contado na hora a Sirley de seu passado? Na retrospectiva sabia, que foi errado e pura covardia. Se Sirley fosse realmente escolhida por Deus, certamente teria aceitada o fato triste e carregado o peso junto com seu marido. Foi errado do lado de A, mas será que Deus estava por isso tirando a esposa dos braços de A.?
Quem sabe, o erro não estava com ele, mas com Sirley, porque ela não teve longanimidade suficiente para esperar a volta de seu marido, não confiava no desígnio de Deus. Será que Deus foi bravo com ela? Ou com os dois? Talvez Deus nem seja bravo como às vezes parece nas histórias do Antigo Testamento, mas somente está pondo os dois à prova para depois a fé deles ficar maior ainda. Talvez nem fosse isso, seria simplesmente a consequência, se as pessoas não ficam exatamente no caminho certo. Aí Deus não protege mais os passos delas com tanto desvelo e, desta maneira, elas caem em seus próprios erros e talvez assim aprendem algo com as revezes.

Depois de três anos vivendo na castidade esperando a Sirley mudar da ideia e voltar, A. sentiu, que não aguentaria mais essa situação. Por mais alguns meses se tentou saciar com imagens de mulheres nuas na internet, mas finalmente se rendeu e cedeu aos conselhos de amigos para procurar outro cônjuge.
No primeiro ano depois da separação recebera muitas ofertas de mulheres, mas agora todo mundo já se acostumara ao fato de que ele evidentemente não queria nada com nada. Desta maneira demorou mais um ano e meio até conhecer outra esposa.
A. estava ainda com dúvidas. Seria possível, que Deus o pôs à prova? Teria que esperar a Sirley voltar, mesmo se demorasse sete ou quatorze anos como no caso de Isaque? Mas Deus mandou um sinal, que ele abençoou o casamento novo:
Foi uma mulher estéril, como ela logo esclareceu no início, o que foi provado por vários médicos ao longo dos anos. Também ela já era separada do primeiro casamento. Deus abençoou o par, porque logo na primeira noite do casal a mulher engravidou e o casal recebeu um lindo menino. Para deixar bem claro que seja um sinal de Deus e não um erro dos médicos, nessa primeira noite a esposa estava acima de tudo nos dias estéreis de seu ciclo de meses.
Será que foi então novamente um plano B de Deus, que já sabia há milhares de anos que o casamento de Sirley com A. preparado por Ele com tanto amor não daria certo? Na verdade, não era o plano B, mas já o plano C, ou D, ou H ou X, porque o desejo original de Deus foi que A. iria para o exterior já muitos anos antes, e tantas vezes Deus teve que traçar planos novos para A. Quem seria sua esposa, se ele tivesse sido obediente, evitando muitos anos de sofrimento? Será que tivesse encontrado Sirley, neste caso, já muito antes e vivido feliz com ela? Quem sabe, teria desenvolvido um projeto muito maior no Brasil, chegando cedo e sem o estigma de criminoso e ainda muito mais repleto de energia.

Imaginemos que um técnico de futebol tivesse o dom de antever o futuro. Certa noite, antes de um jogo importante, sonha que seu atacante mais famoso no próximo jogo fosse gravemente ferido, logo no quinto minuto do primeiro tempo. O primeiro pensamento foi: então não vou escalar o atacante.
Falou com o jogador e contou de seu sonho, mas este riu: “O senhor está ficando velhinho acreditando em sonhos! Sou jovem e forte, não vou me ferir tão de fácil!”
Se o técnico insistisse em tirar o jogador do time, todo mundo se aborreceria com o técnico e ninguém entenderia a sua decisão. Por isso o técnico cedeu e escalou o jogador, mas levou um atacante jovem do time B consigo e instruiu-o muito bem para ter uma alternativa.
No jogo realmente o atacante famoso teve que sair depois de cinco minutos. O técnico teve um plano B pronto, já que sabia de antemão do que aconteceria, e mandou o jogador novo no campo.
Assim são as coisas com Deus. Ele sabe o futuro, mas os seres humanos andam em seus próprios caminhos, e assim, muitas vezes, os traços ideais planejados de Deus como uma oferta aos humanos, não são usados. Deus certamente lamenta a fraqueza e cegueira dos humanos, mas mesmo assim Ele os ajuda novamente, se eles reparam em seus erros, se ajoelham e pedem a sua assistência. E Deus deve ter sempre um plano B.break

Nunca mais A. voltou ao Rio de Janeiro, como imaginava nas primeiras semanas de sua viagem, a não ser para dar em certa ocasião uma palestra por três dias ou para fazer escala no aeroporto. No entanto, os projetos de música no Espírito Santo cresceram, os alunos aos poucos turbinavam a música de muitas igrejas evangélicas e também católicas. Um dos corais ficava mais de uma década sob regência de A. e chegou a um bom nível. Embora apenas coral de uma congregação média com pouco mais de 500 membros, contando também as crianças, na maioria pessoas simples, chegou a cantar obras difíceis como o Oratório de Natal de Bach. Os assistentes e líderes de vozes recrutavam-se principalmente de adolescentes, que começaram a cursar com A. na infância e tornaram-se jovens dedicados e bem musicalizados. O coral também cantou a cantata “Acordai, os guardas chamam” de Bach que A. ouvira uns oito anos antes na casa de amigos da célula em Belo Horizonte, desta vez em uma versão elaborada em português, para os ouvintes poderem curtir a bela história atrás da música. Os solos cantaram sempre solistas do coral, e alguns deles tornaram-se mais tarde cantores muito bons, chegando a estudar canto e tornando-se profissionais.
A cantata “Acordai, os guardas chamam” lembra-nos a sermos pacientes, vigiando sempre. Será que A. falhou nisso? Ele muitas vezes se perguntava, se está realmente ainda no caminho de Deus.

Com sua família nova visita a Alemanha e acha o país muito diferente. As igrejas enfraqueciam e o desinteresse dos jovens em aprender algo cresce cada vez mais. Sempre lê as notícias de seu país e do mundo inteiro na internet, e com muita tristeza verifica como cada vez mais cristãos são mortos por causa de sua fé, principalmente na África e Ásia. Os países majoritariamente cristãos não ligam e negam o problema; evidentemente muitos acham, que os cristãos merecem. Muitos repetem mentiras absurdas muito corriqueiras como que os cristãos seriam responsáveis pela perseguição das supostas bruxas e feiticeiros no fim da Época Medieval e dizem, que os, que matam cristãos só se defendem. Assim muçulmanos e sobretudo suas alas mais radicais como os islamistas e salafistas matam cada vez mais adeptos de outras religiões, sobretudo cristãos, e estupram as adolescentes delas para desanimar as meninas e suas famílias. Isso não é propaganda de outros, pois eles mesmos postam em redes sociais fotos de suas vítimas e gabam-se das matanças e estupros. Qualquer um pode vê-lo, sobretudo se travar amizade com tais algozes, simulando simpatia pelo islã ou através de um perfil fake, que possibilita ver também as notícias mais particulares de tais muçulmanos radicais. Eles prometem em vídeos e panfletos de propaganda “aventuras excitantes” culminando em matanças de pessoas abjetas e estupros de virgens. Também até na televisão pública todos podem ver, que tais algozes são festejados por milhões na rua em países muçulmanos.
Por muitos anos a imprensa quase emudecia diante desse genocídio. Somente, quando a milícia muçulmana Boko Haram sequestrou de uma vez quase 300 adolescentes de uma escola de meninas, o mundo chegou a conhecer a estratégia perversa de seus torturadores.
Políticos alegam, que seriam somente alguns poucos radicais, que não podem ser representáveis pelo islã, mas seriam criminosos, inimigos do islã verdadeiro. Mas A. conhece o Alcorão e outros livros do islã e sabe, que essas escrituras permitem e incentivam tais atos cruéis. Também conhecia muitos muçulmanos na Alemanha e sabe, que muitos deles se alegram com tais atos e os celebram como grandes vitórias. Quando uma moça cristã reclamar de seu destino e denunciar seus estupradores e torturadores na polícia, assusta não somente o fato, que a polícia muçulmana geralmente prende a vítima e não os estupradores. Pior ainda, a população muçulmana se reúne e ameaça a família da vítima, chama a moça de traidora, prostituta e porca e acende a casa da família ou expele-a da região. Pesquisas na Turquia revelaram também, que a grande maioria da população considera a violência e supressão de adeptos de religiões fora do islã como meio legal, assim como também estão a favor da violência contra mulheres.
Existem ONGs na Europa, que tentavam ajudar as vítimas dos muçulmanos, mas a grande maioria da população não queria saber dessas coisas e culpava os cristãos.
A situação mudou completamente, quando as milícias muçulmanas conquistaram em 2014 a região dos yazidis, uma tribo na Síria perto da Turquia com uma religião própria, e começaram logo com a matança e os estupros em massa, vendendo também muitas adolescentes abertamente na escravidão, tudo sempre sob orientação de líderes religiosos conservadores e rigorosos, que tudo isso seria uma coisa boa permitida e até exigida pelas leis do islã, chamadas de xaria. 
Ninguém na Europa tem algo contra essa tribo pequena, que até então só foi conhecida por poucas pessoas. Assim como os europeus sempre mostram simpatia e solidariedade com índios e outras minorias, todos se comoveram com o destino dos yazidis e estavam de boa vontade para ajudar.
Para as ONGs foi uma chance boa para abrir os olhos do mundo para o fato, que grande parte dos muçulmanos não são tão bonzinhos e pacíficos como os políticos muitas vezes os pintam. Havia antes muitas pessoas ingênuas, que achavam, que todas as religiões seriam mais ou menos iguais, quanto a ética e lados bons e maus. E entre os imigrantes tais muçulmanos radicais são recebidos com braços abertos assim como as vítimas, o que leva, às vezes, à situação absurda, que a maioria muçulmana em prédios para refugiados na Europa continua com a violência contra as vítimas.
Agora as mídias podiam espalhar as notícias sobre os estupros e matanças sem correr riscos de serem atacadas por certos políticos que acham que os cristãos não teriam o direito de criticar os muçulmanos porque seriam tão mal ou até pior do que estes. Alguns, pois, têm preconceitos contra os cristãos, outros, da extrema direita, contra judeus, mas ninguém os tinha contra os yazidis, já que eles até então nem eram conhecidos.
A. ajudou na campanha para salvar os yazidis e traduzia também inúmeros textos para o português para serem publicados nos sites das ONGs; também os publicou na rede social Orkut e mais tarde no facebook. Na mesma época resgataram também cristãos e vítimas de outras minorias. Os muçulmanos ameaçaram e desmentiram, mas as ONGs conseguiram, que um estado da Alemanha mandou psicólogos e outros funcionários para os campos de refugiados para tratar as vítimas e convidar as moças violadas com suas famílias para viverem em segurança na Alemanha. Poucos meses depois, também o estado Espírito Santo deixou famílias de vítimas da Síria entrar.
Foi uma reviravolta radical, porque antes a grande maioria dos refugiados eram muçulmanos. Claro, existem também muçulmanos verdadeiramente perseguidos por outros muçulmanos. Por exemplo, os muçulmanos xiitas e sunitas brigam entre eles e os líderes religiosos ensinam, que os outros seriam hereges. Matar um herege seria uma obra boa que contribui para ter um lugar melhor no céu. Tais matadores seriam os heróis no céu, servidos por um harém de adolescentes lindas, escravas absolutamente submissas. E todos eles perseguem muçulmanos liberais como os alevitas.
Comumente, a grande maioria dos refugiados são os próprios xiitas e sunitas, que muitas vezes vêm por razões económicos ou para submeter os países ao islã. Isso não é uma teoria de seus adversários, mas eles mesmo o declaram, quando falam entre amigos, e eles riem até da ingenuidade dos países na Europa. As vítimas, na maioria das vezes, não têm condições de financiar uma fuga até a Europa, e muitas vezes elas são presas ou escravizadas e impedidas de sair de seu lugar.
Agora, porém, um estado acabou com essa política de aceitar refugiados indiscriminadamente e escolheu para abrigar só as vítimas e não também seus algozes. Os muçulmanos e alguns políticos oposicionistas ficavam furiosos. Falaram que seria injusto oferecer asilo só às vítimas, porque desfavoreceria os muçulmanos, já que as vítimas eram yazidis e cristãos. Seria contra a lei, porque a lei proíbe fazer diferenças entre as religiões. Por isso chamaram os ativistas de nazistas e racistas. Segundo os ativistas muçulmanos as ONGs chamariam as moças somente para a Europa ou América para explorá-las em prostíbulos. Os ativistas das ONGs seriam, então, pedófilos. Destruiriam a vida dessas moças, enquanto os muçulmanos capturariam tais meninas somente para darem-lhes uma boa educação, que lhes possibilitaria uma vida como esposa submissa e honrada ou escrava devota e boa.
Não se limitavam somente a campanhas difamatórias nas redes sociais, mas chegaram a acusar funcionários de nazismo, racismo, pedofilia e outros crimes. Difundiram listas com os nomes das pessoas, que deveriam ser mortos pelos crentes muçulmanos, que queriam um lugar de honra no paraíso em reconhecimento de suas proezas.
Na maioria das vezes a polícia não reagiu as essas denúncias absurdas. Mas no caso de A., depois de ativistas muçulmanos, sobretudo Mohammed S., um muçulmano vivendo no Brasil, escreverem sete vezes denúncias, alegando que A. escreveria nos blogues e redes sociais sobre estupros de menores, o que seria proibido, já que a lei contra pedofilia proíbe não somente imagens, mas também textos sexualizados sobre menores.
Bom, A. só traduzia, mas ele era um ex-criminoso, um assassino, e em tais casos a polícia suspeita sempre. Por isso finalmente começou a se interessar e a agir. Prenderam o laptop de A. e acharam ainda em um HD externo as imagens antigas de mulheres nuas. Também acharam fotos que documentavam as atrocidades das milícias muçulmanas na Síria e outros países.
A. foi levado a um delegado, e depois de uma espera de algumas horas teve a oportunidade de explicar a origem das fotos e foi liberado.
Mas nesse meio tempo um policial já ganhara um bom dinheiro vendendo a história de um assassino, terrorista simpatizante do Estado Islâmico, pedófilo e nazista, a um jornal local. Essa combinação rara de alguém ser terrorista islâmico, pedófilo e nazista espalhou-se rápido por outros jornais, que compraram a notícia sensacionalista. Quando depois os jornalistas não recebiam material, que provaria essas acusações absurdas, abandonaram o assunto no outro dia, mas ninguém corrigiu os fatos falsos.
Pelo contrário, os boatos se espalhavam pela internet tidos como verdades. André K., um rapaz, que tentara namorar a filha de A., mas recebeu dela atenção nenhuma, vingou-se e falsificou um artigo na Wikipédia portuguesa sobre A., incluindo uma foto da filha. Depois cuidou para que o artigo fosse traduzido para outras línguas. Além das acusações já ouvidos mudou mais detalhes para falar mal de A. Escreveu, que a orquestra de câmera “Johann Sebastian Bach”, que A. está regendo em Hamburgo em uma foto na Wikipédia, seria uma pequena orquestra religiosa. Perguntado por outro contribuidor da Wikipédia sobre a razão dessa mudança disse abertamente, que ele o escreveu para deixar a impressão que A. seria um músico mau sem sucesso. Também publicou uma foto da esposa atual de A. alegando que ela seria morta. Outros escreveram à Wikipédia reclamando dessa foto e alguém tentou tirá-la, mas sendo André K. um contribuinte de um nível maior da Wikipédia, consegue bloquear tais tentativas de contribuintes comuns. Também pôde colocar fontes no artigo referindo-se às notícias erradas dos jornais, e assim seu artigo parece até científico para um leitor ingênuo.
Escolheram bem. Quem é acusado de ser nazista ou pedófilo perde muitos amigos, independente do fato se a acusação seja verdadeira ou não. No choque do primeiro dia, em que os jornais o chamaram de assassino pedófilo e simpatizante do Estado Islâmico, até a igreja recuou para proteger sua reputação, porque os líderes não queriam ser chamados de simpatizantes de um terrorista pedófilo. Assim A. perdeu sua base e também a esposa e o filho sofriam muito.
Depois a situação se tranquilizou, mas com tais estigmas não dá mais para trabalhar em projetos grandes. O artigo na Wikipedia faz com que os responsáveis das ONGs e igrejas falam: “Sabemos que o artigo é uma falsificação, mas se você trabalhar aqui e tiver sucesso, as pessoas vão pesquisar seu nome e achar as calúnias, e já que eles não sabem a verdade poderiam se afastar de nós.”

A. continua ensinando crianças e adultos, lidera corais menores, publica e continua ajudando a vítimas de tortura, estupro, perseguição e outras formas de violência, assim como ainda poder. Muitos alunos, que agora já são adultos, mantêm os contatos, mandam gravações de concursos, recitais e concertos pedindo, às vezes, seu conselho. Nenhum aluno jamais reclamou que A. tivesse cometido algo que se poderia interpretar como nazismo, islamismo, racismo ou pedofilia.
Mas A. fica muito triste, porque tem também “amigos” que com o decorrer do tempo acreditam pelo menos parcialmente nos boatos terríveis espalhados na internet e se afastam aos poucos. Pensam que deveria ter alguma verdade atrás das calúnias, se por tanto tempo ficam na Wikipédia. Acreditam mais no que leem do que no que sabem da sua própria experiência. As redes sociais como Facebook ou Twitter e empresas como Google estão sob vigia dos governos, e as empresas marcam ou eliminam notícias falsas e odientas. Já a Wikipédia escapa dos controles, e para processá-la precisaria de um advogado nos Estados Unidos.

Já não consegue trabalhar muito bem, porque os dois braços, um após o outro, estragaram, doendo sobretudo nas noites e dificultando a execução de músicas no piano. Mas A. sabia, que não estamos na terra para viver uma vida fácil e conhecer a beleza e o prazer, mas também para aprender o sofrimento. Desde a infância o acompanhava um hino chamado “Um barco carregado”. Aprendera, com quatro ou cinco anos, de sua mãe tocá-lo na flauta, e quarenta anos mais tarde escreveu uma música para coral sobre esse hino muito antigo com um texto místico, cheio de imagens, que comparam Jesus a um barco, que fica singrando pelo mar para trazer-nos coisas boas. Nas últimas estrofes declara francamente: 

E quem com alma ardente
ao Filho se achegar
aprende humildemente
a sua cruz levar.

Enfrenta morte e inferno,
firmando-se em Jesus,
recebe o dom eterno,
herdando vida e luz.

Quem queria viver com Jesus deve ser pronto para segui-lo, e seguir a Jesus de verdade inclui a prontidão ao sofrimento. 
A. não sabe, quantas vezes errou e quantos planos de Deus não se cumpriram por causa de seus erros e certamente também por causa dos erros de outras pessoas. Talvez depois da morte vai chegar a saber, quais eram os planos originais de Deus e quantas vezes A. errou. Não tem mais muito a viver. Será que pelo menos vai ver a face do Senhor, ou será que errou tanto, que perdeu a salvação?
Quando chegam tais dúvidas, lembra se da noite entre Petrópolis e Teresópolis. Para chegar até as montanhas atravessando o vale seria ótimo ter um teleférico, também chamado de funicular. E esse funicular é para nós Jesus, se olhamos para ele e aceitamos a sua ajuda. Essa é a esperança.
Nos dias mais felizes gravou o nome de Jesus no seu coração. Agora sabia que a fidelidade para com Deus deveria ser uma coisa inquebrantável na sua vida.
A. sabia agora: mesmo em circunstâncias que parecessem confusas e desalentadoras nunca mais deveria perder a fé e a confiança alicerçado no Deus Eterno, seu Senhor. Muitas coisas, que o Senhor fez, continuam a ser um mistério para A., lhe parecem sem explicação lógica. Muitas pessoas chegam até o ponto, que dizem, que Deus nem existe, porque não entendem o desígnio dele. A. agradece muito ao Senhor, que ele teve a chance de conhecê-lo em sua vida. É uma graça muito grande, diante dela todas as outras coisas não importam mais. Soli deo gloria.