Como o Espírito Santo fala com seus filhos ainda hoje?

Como o Espírito Santo se manifesta ou fala com seus filhos ainda hoje? Uma resposta evangélica luterana tradicional sobre um tema muito controverso.


Não é raro que se apresentam em minhas aulas de música pessoas, os quais alegam que o Espírito Santo teria falado com eles para publicar um CD, e eles mostram textos e cantarolam, cheios de entusiasmo, melodias que recebiam, segundo eles, do Espírito Santo. Geralmente os textos são péssimos, faltam-lhes rima e ritmo, e não falam coisa com coisa. Já que a pessoa é convencida, que tudo foi obra do Espírito Santo, ela se recusa a mudar os textos. Por isso, o resultado, mesmo com ajuda de mim ou outros músicos profissionais, não agrada; o tempo passa, e aos poucos a pessoa esquece o projeto. Pelo menos não prejudicou a ninguém. Mas existem coisas piores:
No dia 10 de setembro de 2003, a ministra do exterior da Suécia Anna Lindh, mãe de duas crianças, foi brutalmente assassinada em uma loja. O assassino alegou que o Espírito Santo ter-lhe-ia ordenado matar a ministra.
Visto que muitas pessoas confundem seus próprios sonhos ou até insinuações do diabo com a voz do Espírito Santo ou de Deus em geral, alguns teólogos defendem a teoria que o Espírito Santo jamais fala diretamente às pessoas. Se muito, fazia isso antigamente, mas não estaria mais falando, já que todos têm acesso à Bíblia e podem se informar nela a respeito da vontade de Deus. Alguns teólogos deixam a impressão que um cristão que recebe uma revelação em forma de sonhos, vozes, pensamentos e mais deve ser sempre vítima de truques do diabo.
Porém, isso significaria, em consequência, que milhões de luteranos fossem dirigidos pelo diabo. Durante a segunda guerra mundial, em momentos de constrangimento, muitos luteranos recebiam uma ajuda milagrosa. Em meio de cidades em chamas, as bombas caindo ao redor, uma mão invisível ou uma voz guiaram muitos para um caminho certo, que eles andavam como em transe e que os salvou. Muitos conhecem fenômenos semelhantes da própria vida, quando uma voz enigmática, que não se ouve como uma voz humana, mas também não chega à mente como um mero capricho próprio, indaga, por exemplo, para não tomar certo caminho, não entrar em certo ônibus etc., e depois a pessoa chega a saber, que se tivesse insistido em passear pelo local, teria sofrido um acidente. Quase todos passaram já por tais situações. Se isso fosse obra do diabo, restaria a pergunta: por qual motivo o diabo agiria a favor de luteranos e outros cristãos?

Outro fenômeno muito conhecido é a inspiração na música. Nas obras dos grandes compositores como Johann Sebastian Bach sentimos uma grande força espiritual, mesmo em obras meramente instrumentais ou em línguas estrangeiras, que não entendemos. Um compositor hábil consegue inventar uma música sozinho, sem inspiração, seguindo somente as regras para composições, mas às vezes ele sente uma força alheia em si, que lhe dirige a mão e acorda as melodias e harmonias dentro da sua alma sem ele mesmo entender, e ele se sente como se um outro fosse escrevendo a música através dele. As músicas mais exímias surgiram dessa maneira.
Também Martinho Lutero sabia deste fenômeno. Ele destaca entre várias músicas inspiradas o hino “Veni sancte spiritus” (Hinário Luterano 142), que seria não somente inspirado, mas ditado literalmente pelo Espírito Santo (veja “Obras Selecionadas” de Martinho Lutero, Volume 7, pâg. 474).
A inspiração não se limita na música, mas pode também ajudar a um artista, que escreve uma poesia ou um outro texto, a um pintor, a um pastor, que elabora seu sermão e a qualquer outra pessoas, que produz algo, ligado a Deus em oração e espírito reto.

Também em nossas orações, sermões e testemunhos espontâneos o Espírito Santo pode agir e falar. Isso acontece “quando alguém medita bem no fundo de seu coração” os feitos divinos e “os contempla com admiração e agradecimento”. “Esse prorrompe em fervor e geme mais do que fala; as palavras fluem por si mesmas, sem serem cogitadas, nem elaboradas, de forma que com elas borbulha o próprio espírito”. Isso é do próprio Lutero. (Obras Selecionadas Vol. 6, pâg. 48. Compare também Vol. 10, pâg. 362).

Concluamos, então, que o Espírito Santo tem várias formas de se manifestar.

Nunca, porém, ao que saibamos, o Espírito Santo fere as suas próprias leis divinas. Por isso é necessário conhecer a vontade de Deus da Bíblia. Se alguém ouve, então, uma voz ordenando-lhe que assassine, deve saber, que essa não pode ser a voz de Deus. E mais: Já que temos a Palavra de Deus na Bíblia, o Espírito Santo na maioria das vezes nem responde a uma oração, quando pedimos algo, que não concorda com a Escritura. Imaginem um homem casado, que quer namorar com uma moça muito atraente e ora assim: “Deus, Tu sabes, que minha esposa é muito fria e eu não aguento mais a situação. Sei, que é errado trair a ela, mas eu me sinto muito  bem com essa moça e preciso do amor dela. Mas mesmo assim renunciaria o amor dela, se fosse contra Tua vontade. Por isso vou esperar ainda uma semana. Se tu realmente não queres que eu tenha um caso com ela, peço por um sinal. Prometo que obedecerei a ele.”
Esse homem não vai receber uma resposta, porque ele pode conhecer a resposta da Escritura, e provavelmente ele também já a conhece no fundo de seu coração.

Excluindo esses casos, restam as formas de manifestação mencionadas no início, e outros semelhantes. Também nesses casos fica sempre a incerteza, se foi realmente a voz de Deus ou uma ideia do nosso próprio cérebro. Aí precisamos de muito cuidado para não atribuir tudo ao Espírito Santo, mas também não podemos excluir essa possibilidade. Seria bom falar abertamente com um pastor e outros irmãos sábios, para tirarmos as dúvidas e sermos aconselhados em tais casos.